Passeios químicos em Santarém [Chemical trail in Santarém]

[Fui a um encontro em Alpiarça, mas fiquei instalado em Santarém  e aproveitei para tirar algumas fotos e escrever sobre os aspetos químicos que encontrei ou em que pensei.]

Santarém tem uma longa história recheada de glórias e lendas, mas também de desencontros e esquecimentos. Não vou falar quase nada desses aspetos, mas eles são muito interessantes.  

Uma das coisas que mais me impressionou foi no túmulo de Sá da Bandeira, no Cemitério dos Capuchos, haver uma nogueira. Incluído no programa social do encontro, havia uma visita a este cemitério monumental, à casa Passos Canavarro e, claro, um almoço numa das tascas mais típicas e famosas de Santarém, o “Quinzena.”  Sá da Bandeira era, de facto, Sá Nogueira, Bernardo de Sá Nogueira, primeiro Marquês de Sá da Bandeira.

Adquiriu este nome e título pela sua coragem na defesa de um local conhecido como “da Bandeira,” mas as suas peripécias, enquanto liberal, estão narradas no seu “Diário da Guerra Civil.” Além disso, é sobejamente conhecida a sua bravura, despojamento e a perda do braço direito nessas lutas. É preciso lembrar que Sá da Bandeira fez escrever na sua campa rasa “a Pátria nada me deve” e que foi desde sempre contrário à escravatura, acabando por conseguir que fosse abolida.

Mas uma boa parte disso eu sabia. Curioso, e foi para mim novidade, foi ter dado conta de que ele estudou História Natural e Química em Paris, onde esteve exilado com Luís Mouzinho de Albuquerque. Neste cemitério encontramos também o jazigo de Manuel Passos onde têm sido depositados os restos mortais da família Passos Canavarro. Foi-nos chamado a atenção para a simbologia. Em particular reparámos na lápide de alguém que seria veterinário. Também discutimos as patines carbonáceas e a limpeza destas com jato de areia e água.      

No caminho para o cemitério passei por um local que me lembrava de ter visto em 2019 com plantas de rícino. Estas plantas são muito comuns (em Lisboa vi extensões a perder de vista com elas), mas aqui chamaram-me atenção por as ter visto no mesmo local passados três anos. O rícino tem nas suas sementes uma proteína muito venenosa. Na verdade, não há nada artificial tão venenoso e, na natureza, só é conhecida como mais venenosa a toxina da botulina (a base do conhecido botox) que é a coisa mais tóxica que existe. Escrevi no livro “Jardins de Cristais” que uma lata com esta substância, do tamanho da lata de um refrigerante, mataria metade da população do mundo! No entanto, extrair o veneno do rícino (tal como juntar essa quantidade de toxina da botulina) é muito difícil e purificar o que ficou conhecido por “pó branco” não é fácil. Assim, esta planta tem sido usada como purgativo e o seu óleo tinha vários usos. 

Também achei muito interessante a visita à casa Passos Canavarro, comprada por Manuel Passos (conhecido como Passos Manuel) e ao quarto onde Garrett pernoitou e escreveu uma célebre passagem das “Viagens na Minha Terra”. Convém que se saiba que Garrett só viajou entre Lisboa e Santarém quando estava a escrever o livro e que Manuel Passos era abastado, tal como era Sá da Bandeira, mas tinham ambos essa vontade liberal de fazer avançar o país e melhorar a vida das classes mais pobres. As cartas mais políticas trocadas entre Garrett e Passos estão nos arquivos, mas na casa conserva-se um carta em que Garrett convoca Manuel para uma reunião da máxima importância, para tratar de ... comer! 

Come-se bem em Santarém, como é bem conhecido, desde os nacos de carne de boi aos doces conventuais. Mas provei agora algumas iguarias menos clássicas: o “torricado” e a “cachola.” Tratam-se de pratos pobres e, provavelmente, de camponeses. O primeiro é feito com bacalhau assado desfiado em cima de pão. O segundo, com miúdos e sangue de porco, acompanhado de batatas cozidas. São bons, mas ao comê-los podemos lembrar as condições duras em que viviam as pessoas das classes baixas. Os bifes de boi eram para os ricos e os pobres comiam o que sobrava.     

Achei também muito interessantes os recipientes para “beatas” de cigarros. Já os tinha visto também quando estive em Santarém em 2019. De que são feitos os filtros do tabaco? De acetato de celulose, um polímero semi-natural que tem origem na celulose, e a sua introdução fez diminuir os nível de hidrocarbonetos poli-aromáticos (o alcatrão) que chegava aos pulmões do fumador. Julgo que parte da razão para serem poluentes é essa: não pelo material em si, mas pelos restos que contêm. Um artigo de 2019, verificou até que se degradam no mar mais depressa do que se pensava. Mais recentemente, o chamado “tabaco aquecido” faz chegar ainda menores quantidades de alcatrão ao pulmões, mas o melhor mesmo é não fumar pois estes compostos estão presentes no fumo.  
No bonito Jardim das Portas do Sol pode ver-se o Tejo de várias maneiras. No monte da direita fica o cemitério dos capuchos, de que já falei. Chamou-me a atenção uma antiga fábrica lá em baixo junto à linha de caminho de ferro e rio Tejo. Depois de alguma pesquisa consegui perceber que era uma antiga fábrica de sabão e o local é Alfange e que deveria ter sido requalificada até 2020. É muito curioso ser uma antiga fábrica de sabão.

A produção do sabão é muito antiga. Inicialmente, as pessoas usavam plantas com saponinas, mas, mais tarde, percebeu-se que as cinzas tinham compostos alcalinos que, reagindo com as gorduras, davam origem a sabões mais eficazes. Se as cinzas forem ricas em iões potássio o sabão é mais líquido, mas se forem ricas em sódio o sabão é mais duro. Isto deu origem a toda um conhecimento sobre as plantas. Mas estes processos eram muito rudimentares e com maior conhecimento de química haveríamos de chegar a um processo mais eficaz, mas ao mesmo tempo mais poluentes, de obter um composto de importância fundamental para a indústria dos sabões: o carbonato de sódio.

O método que ficou conhecido por processo Leblanc, partia do sal comum, essencialmente cloreto de sódio. Era misturado com ácido sulfúrico e obtinha-se sulfato de sódio. Entretanto, um outro produto era o ácido clorídrico, para o qual não existia uso. Podemos imaginar o nível de chuvas ácidas que existia em redor destas fábricas! Numa segunda fase, o sulfato de sódio reage com o carbonato de sódio e forma-se carbonato de sódio. Dito assim, até parecia bem, mas não. Para o processo funcionar tinha de se usar carvão e formava-se sulfureto de sódio  e monóxido de carbono. Além das chuvas ácidas, há resíduos negros e mal-cheirosos e produtos perigosos. Mas vai aparecer outra forma de obter carbonato de sódio, o processo Solvay, em que é usado amoníaco. Numa primeira fase, o sal reage com o amoníaco e dióxido de carbono e forma-se cloreto de amónio e bicarbonato de sódio. Numa segunda fase, o bicarbonato de sódio é aquecido e forma-se carbonato de sódio e dióxido de carbono. Finalmente, o amoníaco é regenerado reagindo o cloreto de amónio com cal viva. Vemos que, neste processo,  alguns dos produtos e reagentes são regenerados. Além disso, um dos produtos não desejados é mais inócuo, o cloreto de cálcio, e tem várias utilidades. Na opinião de Adélio Machado, esta mudança  no século XIX, foi uma utilização precoce da ideia de Química Verde e, podemos ainda ir mais longe, digo eu, de Economia Circular.

E como funcionam os sabões? São moléculas que têm partes hidrofílicas (que "gostam" de água) e hidrofóbicas (que "não gostam" de água). Em água estas fazem micelas (uma espécie de bolhas) onde as partes hidrofóbicas ficam para dentro e a partes hidrofóbicas ficam para fora. A sujidade é composta em geral por gorduras (hidrofóbicas) que são dissolvidas pelas partes hidrofóbicas das moléculas e ficam nas micelas, sendo arrastadas com ela quando se passa a água.  

Não sei os detalhes do processo industrial desta fábrica. Se recebiam o carbonato de sódio, ou se usavam outras bases para fazer sabão, mas se obtinham carbonato de sódio a partir do cloreto de sódio, de certeza que usavam o processo Solvay. 

Ernest Solvay (1838-1922) era belga, e está na origem de um grande conjunto de fábricas que ainda hoje existem. É também muito conhecido pelas conferência Solvay de Química e Física. São especialmente conhecidas as conferência de Física de 1911 e 1925, estando a última na origem da mecânica quântica. Mas a primeira conferência de química, em 1913, é também importante. Foi nesta que se estabeleceu a difração de raios X para determinar a estrutura molecular, tendo também ficado esclarecido que não havia regularidade nas diferentes massas dos isótopos.   

Não deixa de ser curioso que tenha começado com Sá da Bandeira e tenha terminado com Ernest Solvay. No primeiro, a química foi apenas um degrau da vontade de saber, no outro foi a sua vida. Mas em ambos encontramos a generosidade e a vontade de fazer avançar a sociedade.   

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[I went to a meeting in Alpiarça, but stayed in Santarém and took the opportunity to take some pictures and write about the chemical aspects I found or thought about.]

Santarém has a long history filled with glories and legends, but also with disagreements and forgetfulness. I won't say almost anything about these aspects, but they are very interesting.

One of the things that impressed me the most was that there was a walnut tree on the tomb of Sá da Bandeira, in the Capuchos cemetery. Included in the social program of the meeting, there was a visit to this monumental cemetery, to the Passos Canavarro house and, of course, lunch in one of the most typical and famous taverns in Santarém, the “Quinzena.” Sá da Bandeira was, in fact, he was mamed Sá Nogueira, Bernardo de Sá Nogueira, first marquess de Sá da Bandeira. 

He acquired this name and title for his courage in defending a place known as “da Bandeira”, but his adventures, as a liberal, are narrated in his “Civil War Diary” and his bravery, despoliation, and the loss of his right arm are widely known.  It should be remembered that Sá da Bandeira had written in his shallow grave “the Fatherland owes me nothing” and that he was always opposed to slavery, eventually getting it abolished. But a good part of that I knew. Curious, and it was new to me, to have realized that he studied Natural History and Chemistry in Paris, where he was exiled with Luís Mouzinho de Albuquerque. In this cemetery, we also find the Manuel Passos tomb where the remains of the Passos Canavarro family have been deposited. Our attention was drawn to the symbology. In particular, we noticed the headstone of someone who would be a veterinarian. We also discussed carbonaceous skates and cleaning them with sandblasting and water.

On the way to the cemetery, I passed a place that I remembered seeing in 2019 with castor plants. These plants are very common (in Lisbon I saw extensions as far as the eye could see), but here they caught my attention because I saw them in the same place, three years before. Castor has a very poisonous protein in its seeds. There is nothing artificial so poisonous and, in nature, only botulinum toxin (the basis of the well-known botox) is known to be more poisonous - and is the most toxic thing that exists. I wrote in the book “Jardins de Cristais” that a can of this substance, the size of a soda can, can kill half of the world's population! However, extracting the venom from ricin (as well as gathering that amount of botulinum toxin) is very difficult, and purifying what has become known as “white powder” is not easy. Thus, this plant has been used as a purgative and its oil had many uses.

I also found it very interesting to visit the Passos Canavarro house, bought by Manuel Passos (known as Passos Manuel), and the room where Garrett spent the night and wrote a famous passage from “Viagens na Minha Terra.”  It should be noted that Garrett only traveled between Lisbon and Santarém when he was writing the book and that Manuel Passos was wealthy, as was Sá da Bandeira, but both had this liberal desire to advance the country and improve the lives of the lower classes. The most political letters exchanged between Garrett and Passos are in the archives, but in the house, there is a letter in which Garrett summons Manuel to a meeting of the utmost importance, to deal with... eat!

That you can eat well in Santarém is well known, from chunks of beef to convent sweets. But now I have tasted some less classic delicacies: the “torricado” and the “cachola.” These are poor and probably peasant dishes. The first is made with shredded roasted cod on top of the bread. The second, with giblets and pig's blood, accompanied by boiled potatoes. They are good, but by eating them we can remember the harsh conditions in which the people of the lower classes lived. Beef steaks were for the rich and the poor ate what was left.

I also found the containers for cigarette butts very interesting. I had already seen them when I was in Santarém in 2019. What are tobacco filters made of? Made from cellulose acetate, a semi-natural polymer that originates from cellulose; its introduction reduced the level of poly-aromatic hydrocarbons (tar) that reached the smoker's lungs. I think part of the reason they are so polluting is not due to the material itself, but because of the remains. More recently, the so-called “heated tobacco” brings even smaller amounts of tar, but the best thing is not to smoke because these compounds are present in the smoke.

In the beautiful Jardim das Portas do Sol you can see the Tagus in several ways. On the hill to the right is the Capuchos Cemetery, which I have already mentioned. I was struck by an old factory down there by the railway line and the Tagus River. After some research, I managed to realize that it was an old soap factory and the location is Alfange and that it should have been requalified by 2020. It is very curious to be an old soap factory.

Soap production is very old. Initially, people used plants with saponins, but later it was realized that the ash had alkaline compounds that, reacting with the fats, gave rise to more effective soaps. If the ash is rich in potassium ions the soap is more liquid, but if it is rich in sodium the soap is harder. This gave rise to a whole knowledge about plants. But these processes were very rudimentary and with greater knowledge of chemistry we would arrive at a more efficient process, but at the same time more polluting, to obtain a compound of fundamental importance for the soap industry: sodium carbonate.

The Leblanc process started with common salt, essentially sodium chloride. It was mixed with sulfuric acid and sodium sulfate was obtained. However, another product was hydrochloric acid, for which there was no use. We can imagine the level of acid rain that existed around these factories! In the second step, sodium sulfate reacts with sodium carbonate and sodium carbonate is formed. Said like that, it sounded good, but no. For the process to work, coal had to be used and sodium sulfide and carbon monoxide were formed. In addition to acid rain, there is black and smelly waste and dangerous products. But another way of obtaining sodium carbonate will appear, the Solvay process, in which ammonia is used. In the first stage, the salt reacts with ammonia and carbon dioxide to form ammonium chloride and sodium bicarbonate. In the second step, sodium bicarbonate is heated and sodium carbonate and carbon dioxide are formed. Finally, the ammonia is regenerated by reacting the ammonium chloride with quicklime. We see that, in this process, some of the products and reactants are regenerated. In addition, one of the unwanted products is more innocuous, calcium chloride, and has several uses. In Adélio Machado's opinion, this change in the 19th century was an early use of the idea of ​​Green Chemistry, and we can go even further, I say, of Circular Economy.

And how do soaps work? They are molecules that have hydrophilic (which "likes" water) and hydrophobic (which "dislikes" water) parts. In water, these make micelles (a kind of bubbles) where the hydrophobic parts are in and the hydrophobic parts are out. Dirt is generally composed of (hydrophobic) fats that are dissolved by the hydrophobic parts of the molecules and stay in the micelles, being dragged along with it when you pass the water.

I don't know the details of the industrial process of this factory. If they were getting soda ash, or if they used other bases to make soap, but if they got soda ash from sodium chloride, surely they were using the Solvay process.

Ernest Solvay (1838-1922) was Belgian and created a large number of factories that still exist today. He is also well known for the Solvay conference on Chemistry and Physics. The Physics conferences of 1911 and 1925 are especially well known, the latter being the origin of quantum mechanics. But the first chemistry conference, in 1913, is also important. It was here that X-ray diffraction was established to determine the molecular structure, and it was also clarified that there was no regularity in their different isotope masses.

It is curious that it began with Sá da Bandeira and ended with Ernest Solvay. At the first, chemistry was just a step in the desire to know, in the other, it was his life. But in both, we find generosity and the will to advance society.

Passeio químico na Sicília [Chemical trail in Sicily]

Chegámos à noite ao aeroporto de Catânia e fomos para uma pequena cidade relativamente perto, Acireale, onde estava a ocorrer uma festa popular local. Estava bastante calor durante o dia, mas não o sentimos tanto como em Roma. 

No dia seguinte, fomos a Siracusa que está, como é bem conhecido, associada a Aristóteles. O que me chamou mais à atenção foi a forma curiosa das caleiras de queda de água. Do chão até cerca de dois metros eram de ferro que estava bastante corroído. Para cima podiam ser de cobre, loiça, ou mesmo plástico. Trata-se de uma cidade ao lado do mar e a corrosão do ferro é intensa devido à humidade e aos iões cloreto. Numa fonte, as estátuas de pedra estavam manchadas de castanho que em princípio é devido ao ião ferro.

Na Sicília a maioria das rochas de construção são calcários claros. Em Noto, estas rochas eram mesmo amarelas, o que dava um ar amarelado caraterístico ao local. Mas em Siracusa eram bastante brancas. Em Taormina, não se percebia bem qual era a cor predominante, mas andámos por ali e havia muitas rochas mais laranja, o que tem a ver mais uma vez, em princípio, com a presença de iões ferro. Mas também vi uma rocha negra de origem vulcânica que tinha sido coberta com uma espécie de cimento para parecer clara. Há muitos vestígios gregos na Sicília. Foi nesta ilha que a poeta Safo esteve exilada, mas não se sabe exatamente onde.  

A sombra tutelar do vulcão Etna, um dos vulcões mais ativos do mundo, é visível de muitos pontos, em particular numa das ruas principais de Catânia; naa rua onde está a estátua do elefante. Só lá fomos à noite, altura em que havia muitas pessoas nas ruas.

Ficámos na última noite em Palermo, num dos apartamentos em que foi dividido o palácio de Pietro Lanza di Scordia (1807-1855), um político da independência da Sicília no século XIX, numa das ruas mais movimentadas que era pedonal. Lanza, chegou a ser presidente do governo e notabilizou-se no combate contra uma epidemia de cólera. Teve de se refugiar em Paris e depois em Génova, tendo acabado por morrer em Paris. Nesta cidade ainda são também visíveis os efeitos da Máfia, tanto nas homenagens e nos monumentos, como nalgumas organizações que referem o seu nome. 

Na catedral de Palermo, visitámos o túmulo brilhante de prata de Santa Rosália. No chão da catedral chamou-nos a atenção uma linha com símbolos que pareciam ser do zodíaco. Consultada uma placa que lá estava, desfez-se o mistério. Palermo procurou seguir os horários da Europa e para isso fez uma espécie de relógio de sol, usando a luz que vinha de uma abertura e incidia nessa linha. É  curioso que os sicilianos é que estavam certos: a divisão atual do dia em 24 horas era a que seguiam.

O palácio real é também o parlamento e tem em anexo a conhecida capela palatina. Ao visitar estas atrações turísticas chamou-me a atenção duas coisas. Numa exposição de arte moderna, estava a obra clássica de Michelangelo Pistoletto, “Vénus dos Trapos”, datada de 1967, que uso em slides para referir como a arte, já nessa altura, criticava esse aspeto do consumismo e da falta de sustentabilidade.

Chamou-me também a atenção as cópias de estátuas feitas em plástico usando impressão tridimensional. É de notar que a impressão 3D envolve vários aspetos químicos, nomeadamente esse de usar polímeros que fundem e solidificam. Há também muita beleza nestes aspetos modernos, para além dos vestígios gregos e da natureza.


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We arrived at Catania airport at night and went to a small town relatively close by, Acireale, where a popular local party was taking place. It was quite hot during the day, but we didn't feel it as much as in Rome.

The next day we went to Syracuse which is, as is well known, associated with Aristotle. What caught my attention the most was the curious shape of the waterfall gutters. From the ground up to about two meters was iron that was badly corroded. Upwards could be copper, earthenware, or even plastic. It is a city next to the sea and the iron corrosion is intense due to humidity and chloride ions. In a fountain, the calcareous stone statues were stained with brown which in principle is due to the iron ion.

In Sicily, most construction rocks are light limestone. In Noto, these rocks were yellow, which gave the place a characteristic yellowish air. But in Syracuse, they were quite white. In Taormina, it was not clear what the predominant color was, but we walked around and there were many more orange rocks, which again, in principle, has to do with the presence of iron ions. But I also saw a black rock of volcanic origin that had been covered with a kind of cement to make it look clear. There are many Greek remains in Sicily. It was on this island that the poet Sappho was exiled, but it is not known exactly where.

The tutelary shadow of the Etna volcano, one of the world's most active volcanoes, is visible from many points, in particular in one of the main streets of Catania: the street where the statue of the elephant is. We only went there at night, when there were many people on the streets.

We stayed for the last night in Palermo, in one of the apartments in which the palace of Pietro Lanza di Scordia (1807-1855), a Sicily independence politician in the 19th century, was divided, in one of the busiest streets that were pedestrianized. Lanza became president of the government and became famous in the fight against cholera. He had to take refuge in Paris and then in Genoa, eventually dying in Paris. In this city, the effects of the Mafia are still visible, both in the tributes and monuments as in some organizations that refer to it.

In the Cathedral of Palermo, we visited the shining silver tomb of Santa Rosalia. On the floor of the cathedral, a line with symbols that seemed to be from the zodiac caught our attention. After consulting a plaque that was there, the mystery was solved. Palermo tried to follow European timetables and for that he made a kind of sundial, using the light that came from an opening and fell on that line. Curiously, the Sicilians were right: the current division of the day into 24 hours was the one they followed.

The royal palace is also the parliament and has the famous palatine chapel attached. When visiting these tourist attractions, two things caught my attention. In an exhibition of modern art, there was the classic work by Michelangelo Pistoletto, “Venus of Rags”, dating from 1967, which I use in slides to refer to how art already at that time criticized this aspect of consumerism and the lack of sustainability. I was also struck by the copies of statues made in plastic using three-dimensional printing. It should be noted that 3D printing involves several chemical aspects, namely using polymers that melt and solidify. There is also a lot of beauty in these modern aspects, in addition to the Greek remains and nature.

Passeio químico em Nápoles, Pompeia e Sorrento [Chemical trail in Naples, Pompei, and Sorrento]

Nápoles é um daqueles sítios fantásticos a que é preciso ir. Por um lado, muito do que se ouviu não é verdade e, por outro, descobrem-se novas verdades e fantasias. A história de Itália e da sua unificação é complexa e difícil de perceber, pelo menos por mim. Mas chamou-me a atenção, uma heroína local da independência ser de origem portuguesa e ter sido enforcada como jacobina, Leonor Fonseca Pimentel (1752-1799). Esta foi diretora do “Monitor Napolitano”e proeminente durante a república napolitana.

Em vários sítios de Nápoles há imagens de um tal de “São Maradona.” E, curiosamente, o que fez alguns de nós ir a esta cidade foi o filme “A mão de Deus”. E, por coincidência, no Museu de Arqueologia estava uma exposição temporária de fotografias deste filme, no meio das estátuas das termas de Carcala! 

A religiosidade popular é muito forte em Nápoles. Por exemplo, li num artigo, que nas catacumbas do cemitério de Fantanella (fechado quando lá fomos) há caveiras que são veneradas.
E, claro,  há o San Gennaro que duas vezes por ano arrasta multidões que vão ver o “milagre” do seu “sangue” sólido a liquefazer-se. Em termos estritamente científicos parece tratar de um efeito relativamente comum: os materiais tixotrópicos, ou fluidos não-Newtonianos, ficam mais fluidos com a agitação. É o que acontece aos iogurtes e outros materiais. Foi publicado um artigo na Nature que reproduz esse efeito e são feitas alguma considerações sobre os estudos que já foram feitos, alguns deles nunca publicados. Estes estudos são espectroscópicos e, embora os espetros sejam compatíveis com sangue, muitas coisas apresentam picos semelhantes, dizem vários autores. E, de facto, a ampola não foi aberta e estudado diretamente o seu conteúdo. O resultado não é em si um milagre, mas pode estar ligado a um milagre. Ciência e religião não são incompatíveis, pois a última tem a ver com fé.  Num sentido mais lato e profundo, como escreveu São Paulo, um milagre é “a prova do que não se vê”.   

O busto de San Gennaro e várias outras estátuas são de prata que ficou enegrecida. Ao longo dos anos, a prata reage com o dióxido de enxofre e forma sulfureto de prata, que enegrece a prata à superfície.  Seria possível recuperar o efeito prateado, mas as pessoas não estão habituadas a isso. Assim, o que se mantém é o tom acinzentado. Curiosamente, algumas das peças têm uma razoável quantidade de cobre o que deve ajudar a terem aquele aspeto acinzentado amarelado.

Na capela de Sansevero era proibido fotografar, mas eu trouxe o catálogo e tirei algumas fotografias ao catálogo. Nesta capela está a famosa estátua do Cristo velado, onde o mármore parece ser transparente. Muitas das estátuas aqui presentes têm o mesmo efeito de transparência. Goethe referiu esse aspeto quase mágico do mármore. Nesse pequeno museu, podemos ainda observar o que é conhecido por “Máquina Anatómica”: dois esqueletos, um de uma mulher e outro de um homem, com o emaranhado de vasos sanguíneos. Inicialmente, pensou-se que o médico que fez isso, tinha descoberto formas de metalizar os vasos, mas as análises têm mostrado que aqueles que se analisaram são essencialmente de cera. O Príncipe de Sangro de Sanseveso, criador desta capela, inventor e alquimista, está envolto numa aura de mistério. Para aumentar esta aura, a pintura do seu retrato funerário sobre cobre, está bastante danificada.  

Uma das coisas que me surpreendeu em Nápoles foi a muito maior limpeza do que em Roma. As ruas eram sistematicamente limpas nas manhã e o aspeto era bastante bom. Havia muitos turistas nas ruas, mas não se sentia a sua pressão como em Roma. Vaguear pelas ruas de Nápoles é uma experiência interessante e a cada passo podemos ser surpreendidos. Há muitas pinturas nas paredes e chamou-me a atenção um mural enorme, nas traseiras da universidade de Nápoles, de Fidel Castro que tinha a sua imagem no espelho, como um isómero ótico de uma molécula. Há outro mural enorme com San Gennaro e, já referi, o “São Maradona”. Em todos sítios de Itália onde passei – Nápoles também se bebia um cocktail chamado Spritz de Aperol ou de Campari (mas menos). Só em Nápoles vi algo que parecia um altar ao “São Spritz”. 

Nápoles está muito perto do Vesúvio, o vulcão que foi responsável pela tragédia de Pompeia. Fomos lá de comboio, o que é bastante simples e barato. Cerca de 10% das pessoas não conseguiu fugir e morreram com a nuvem gases incandescentes e asfixiantes, tendo ficado soterrada pelas cinzas. Surpreendeu-me a forma como foram consolidadas as vítimas de Pompeia. Só descobri depois.  Ao longo de centenas de anos, as partes moles dos seus corpos desapareceram, só ficando os esqueletos e os espaço vazio dos seus corpos nas cinzas, entretanto solidificadas. Um arqueólogo descobriu que vertendo cimento por orifícios podia recuperar as suas formas e é assim, basicamente, que são obtidos aqueles “vultos” tridimensionais das vítimas. 

Também não tinha bem essa ideia, mas ouvi um guia dizer isso e faz bastante sentido: Pompeia era uma cidade produtiva, havia algumas diversões, claro, mas não era o seu principal objetivo. Teve azar de ficar no caminho de um dos vulcões mais perigosos em atividade: o Vesúvio. Também ouvi um guia referir como o vermelho era precioso e dizer vermelhão nas paredes. Diria que não. Os vermelhos dos paredes devem ser de óxidos de ferro.

A Sorrento fomos também de comboio (é na mesma linha) mas voltámos a Nápoles de barco. Há uma certa magia neste belo lugar turístico, mas as praias, para um português, são bastante cómicas e absurdas. São quase todas na forma de “lido” e paga-se para entrar e ter chapéu de sol e cadeiras num espaço minúsculo e quase sem areia, que é muito escura, devido a vir em boa parte de rochas negras de origem vulcânica. 

O metro de Nápoles tem estações muito bonitas e diferentes. Acabou de inaugurada uma desenhada por Siza Vieira e Souto Moura (ainda não estava pronta quando lá estivemos).

Vou aqui referir a estação de metro que era conhecida como "a mais bela estação de metro do mundo" (agora diz-se que a mais bela é a mais recente). Esta, com luz e pequenos azulejos de pastilha, dá o efeito de uma galáxia, ou, com alguma imaginação, de início do universo. Achei muito curioso a Sociedade Italiana de Física ter ali também uma câmara de faíscas para visualizar a passagem de raios cósmicos. É essencialmente física, mas vou aqui referir como a química contribui para esses problemas fundamentais e aplicados com dois exemplos: para a deteção de matéria negra podem ser usados reservatórios de xénon que tem ser obtido com elevada pureza; para as janelas das naves espaciais, são continuamente desenvolvidos novos materiais e colas.

Em Nápoles comi bacalhau fresco frito e gostei bastante. Para, um português, habituado à propaganda sobre o bacalhau e os portugueses, fiquei surpreendido, em 1995, altura em que este peixe era para nós pouco mais do que um trapésio espalmando, quando vi pela primeira vez bacalhau frito em Roma. Mas tratava-se de bacalhau fresco, um dos melhores peixes para ser frito, é certo, apesar de tudo (os melhores fish-and-chips dos ingleses são também desse peixe). Nós, os portugueses, por várias razões, até pela nossa pobreza até há relativamente pouco tempo, temos explorado as receitas que envolvem bacalhau salgado demolhado. Entretanto, das dificuldades nascem muitas vezes o engenho e as novidades. Nesse processo, as fibras do bacalhau, um peixe quase sem gordura, ficam mais firmes e com sabor mais complexo. A carne do peixe fica uma pouco mais amarela, mas mesmo ainda bastante branca, perdendo o branco imaculado do bacalhau fresco, mas ganha novos sabores e maior complexidade. Mas, embora tenhamos os sentidos abertos e atentos para essas subtilezas, recusamos muitas vezes a complexidade dos odores e sabores do peixe fumado por não os conhecermos. Essas recusas e desconhecimentos, deveriam diminuir quando viajamos com a mente aberta e vontade de aprender. E nisso, Nápoles, é também uma lição.   

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Chemical trail in Naples, Pompei, and Sorrento


Naples is one of those fantastic places to go. On the one hand, much of what has been heard is not true and on the other hand, new truths and fantasies are discovered. The history of Italy and its unification is complex and difficult to understand, at least for me. But what caught my attention, was a local heroine of independence being of Portuguese origin and having been hanged as a Jacobin, Leonor Fonseca Pimentel (1752-1799). She was director of “Monitor Napolitano” and prominent during the Neapolitan republic.

In several places in Naples, there are images of a certain “Saint Maradona.” And, interestingly, what made some of us go to this city was the movie “The Hand of God”. And, coincidentally, at the Archeology Museum, there was a temporary exhibition of photographs from this film, amidst the statues of the baths of Caracalla! Popular religiosity is very strong in Naples. For example, I read in an article, that in the catacombs of the Fantanella cemetery (closed when we went there) some skulls are venerated. And, of course, there is San Gennaro, which twice a year draws crowds to see the “miracle” of its solid “blood” liquefying. In strictly scientific terms it seems to deal with a relatively common effect: thixotropic materials, or non-Newtonian fluids, become more fluid with agitation. This is what happens to yogurts and other materials. An article was published in Nature that reproduces this effect and some considerations are made about the studies that have already been carried out, some of them never published. These studies are spectroscopic, and although the spectra are consistent with blood, many things show similar peaks, say several authors. And the ampoule was not opened and directly studied its contents. Though the result is not in itself a miracle, it can be linked to a miracle. Science and religion are not incompatible, as the latter has to do with faith. In a broader and deeper sense, as Saint Paul wrote, a miracle is “the proof of what is not seen”.

The bust of San Gennaro and several other statues are made of silver that has become blackened. Over the years, silver reacts with sulfur dioxide and forms silver sulfide, which blackens the silver on the surface. It would be possible to recover the silver effect, but people are not used to it. So what remains looks gray. Interestingly, some of the pieces have a fair amount of copper which should help them to have this color.

In Sansevero's chapel, photography was  prohibited, but I brought the catalog and took photographs of the catalog. In this chapel, it is located the famous statue of the Veiled Christ, where the marble appears to be transparent. Many of the statues present here have the same transparency effect. Goethe referred to this almost magical aspect of marble. In this small museum, we can still observe what is known as the “Anatomical Machine”: two skeletons, one of a woman and one of a man, with a tangle of blood vessels. Initially, it was thought that the doctor who did this had discovered ways to metalize the vessels, but analyzes have shown that those vessels analyzed are essentially wax. The Prince of Sangro de Sanseveso, the creator of this chapel, inventor, and alchemist, is involved in mystery. To add to this aura, his funeray portrait, painting on copper, is badly damaged.

One of the things that surprised me in Naples was the much greater cleanliness than in Rome. The streets were systematically cleaned in the mornings and the appearance was quite good. There were a lot of tourists on the streets, but you didn't feel their pressure like you did in Rome. Wandering through the streets of Naples is an interesting experience and, at every step, we can be surprised. There are many paintings on the walls and what caught our attention was a huge mural at the back of the University of Naples, by Fidel Castro that had his image in the mirror, as an optical isomer of a molecule. There is another huge mural with San Gennaro and I have already mentioned the “Saint Maradona”. Everywhere in Italy – ​​Naples also - it is drunk a cocktail called de Aperol Spritz  (also with Campari, but less). Only in Naples did I see something that looked like an altar to “Saint Spritz”!

Naples is very close to Vesuvius, the volcano that was responsible for the tragedy of Pompeii. We went there by train, which is quite simple and cheap.

About 10% of the people were unable to escape and died in the cloud of incandescent and asphyxiating gases, having been buried by the ash. I was surprised by how the victims of Pompeii were consolidated. I only found it later. After hundreds of years, the soft parts of their bodies disappeared, leaving only the skeletons and empty spaces of their bodies in the ashes, meanwhile solidified. An archeologist discovered that putting cement through holes could restore their shapes and that's basically how those three-dimensional "figures" of victims are made.

I didn't have this idea either, but I heard a guide say that and it makes sense: Pompeii was a productive city. There were some diversions, of course, but it wasn't their main objective. The city was unlucky enough to get in the way of one of the most dangerous active volcanoes: Vesuvius. I also heard a guide mention how precious red was and talk about vermilion on the walls. I would say no. The reds on the walls are probably iron oxides.

We also went to Sorrento by train (it's on the same line) but we returned to Naples by boat. There is a certain magic in this nice tourist place, but the beaches, for a Portuguese, are quite comical and absurd. They are almost all in the form of a “lido” and you pay to get in and have a sun hat and chairs in a tiny space with almost no sand that is very dark, due to most of the black rocks of volcanic origin.

The Naples metro has very beautiful and and very different stations. One designed by Siza Vieira and Souto Moura has just been inaugurated (it was not yet open when we were there).

I will refer here to what was knew as "the most beautiful metro station in the world" (now it is said the same about the most recent). This one, with light and small tiles gives the effect of a galaxy, and with some imagination, of the beginning of the universe. I found it very curious that the Italian Physical Society also had a spark chamber there to visualize the passage of cosmic rays. It is essentially physics, but here I will refer to how chemistry contributes to these fundamental and applied problems with two examples: for the detection of dark matter, xenon reservoirs can be used, which must be obtained with high purity; also for spacecraft windows, new materials and glues are always been developed.

In Naples, I had fresh cod fried and I liked it. As a Portuguese, I used to listen to propaganda about cod and the Portuguese. So, I was surprised, in 1995, when the fish was for us little more than a flat trapeze, when I first saw fried cod in Rome. But it is fresh cod - anyway one of the best fish to be fried (the best fish-and-chips of the English are also of this fish). We Portuguese, for various reasons, including our poverty until relatively recently, have been exploring recipes that involve soaked salted cod. However, many ingenuity and novelties are born out of difficulties. In this process, the fibers of cod, an almost fat-free fish, become firmer and have a more complex flavor. The meat of the fish becomes a little more yellow, but even still quite white, losing the immaculate white of fresh cod, gaining new flavors and greater complexity. But although our senses are open and attentive to these subtleties, we often reject the complexity of the smells and flavors of smoked fish because we don't know them. These refusals and ignorance should diminish when we travel with an open mind and willingness to learn. And in this, Naples is also a lesson.