Passeio Químico em Évora

[Tive a ideia de escrever um passeio químico em Évora quando fiz uma palestra online para uma escola desta cidade, em 2020. Já não ia a Évora há bastante tempo, nem tinha fotografias, mas pensei fazer o passeio com base no Google Maps e roteiros e guias disponíveis. Acabou por não se concretizar, mas reuni, nessa altura, algum material. Em 2026, surgiu de novo a oportunidade com a participação, em maio, no SciCom 2026 e a preparação do passeio Químico para realizar em setembro no Encontro da Associação Portuguesa de Professores de Física e Química (APPFQ). Juntei mais material e, durante o SciCom, tirei as fotografias, fiz a preparação do percurso a fazer no congresso da APPFQ e criei agora a presente crónica. Évora será Capital Europeia da Cultura em 2027.]

Évora é uma elegante cidade alentejana, que, sendo rica em passado, vive bem no presente e parece projetar-se de forma confortável no futuro. Como este passeio se centra na Química, iremos discorrer, no que concerne ao passado, sobre a presença romana na cidade e sobre a sua universidade antiga, fundada no século XVII, a qual foi interrompida com a expulsão dos jesuítas, sendo retomada em 1973. Seguiremos também percursos relacionados com a água de abastecimento urbano, desde os romanos ate à atualidade, ligando passado e presente. Chamaremos ainda a atenção para a investigação e a indústria aeronáutica e os laboratórios de análise e conservação do património.     

Os químicos costumam dizer que a química está em todo o lado, mas essa presença acaba por se tornar invisível de tão trivial que parece ser. Os materiais de que é feita a matéria: os elementos, as substâncias elementares e compostas, as misturas homogéneas e heterogéneas; os metais, os sais e os polímeros; os átomos, as moléculas e os iões. O que é ensinado na escola sobre a Química tem um propósito e pode sair da sala de aula e ser relacionado com o que nos rodeia. E ser utilizado de forma útil para perceber e agir sobre o mundo. Mas, este “sermão,” além de ser antigo, é bastante inútil, pois, se a generalidade dos alunos e público podem intuir o óbvio, quase nunca ficam fascinados com as aplicações da Química que estão à sua volta, por estas parecerem triviais ou serem invisíveis. 

Assim, estes passeios, mais do que falar sobre as "maravilhas" da Química em abstrato, buscam tornar visíveis essas "maravilhas" que nos rodeiam. Para Évora, em particular, foi relevante a consulta de um livro sobre percursos científicos na cidade (Soler et al., 2019). Foram também úteis vários guias (Turismo de Portugal, 2016;Visit Portugal, 2016; Câmara Municipal de Évora, 2019; Bairro dos Livros, 2022), assim como livros (Mendonça, 2000;  Mendeiros, 2002; Polónia, 2005; Guimarães, 2006; Galopim de Carvalho, 2021) e artigos (Matos, 1991). 

Para ilustrar de forma inesperada e interdisciplinar, a presença ubíqua da Química, começo com a literatura. Poderia começar pelos monumentos, pelos jardins, pelos meios de transporte, pelos supermercados e farmácias e, em última análise, poderia iniciar com o que temos nos bolsos ou pelo nosso próprio corpo. Qualquer coisa serviria, mas começo com um livro passado em Évora: “Aparição”, de Vergílio Ferreira, publicado originalmente em 1959. 

O livro espelha a alienação, o mal-estar e a claustrofobia da sociedade portuguesa da altura, assim como, indelevelmente, as condições sociais e políticas opressivas em que se vivia (lembremos os reparos subtis aos métodos pedagógicos que realçavam as diferenças sociais e a “sabotagem” das conferências que se destinavam às classes trabalhadoras), mas também, na minha opinião, servia inadvertidamente os interesses do Estado Novo, pois eram precisamente “os que estudavam” e que pensavam o mundo, que se revelam mais infelizes e com mais problemas existenciais. Esta introdução parece não ter nada a ver com Química? Tem a ver com o ensino desta ciência e com os mecanismos da Química da vida, os neurotransmissores, as hormonas e outras moléculas. Claro que a realidade é muito mais complexa do que os processos e moléculas com que esta se relaciona, mas estes estão presentes, estendendo as possibilidades de explicação disponíveis.       

“Aparição” é também espelho das separações sociais implícitas na sociedade portuguesa e da condição da mulher nesse tempo. Escreve Galopim de Carvalho (2021): “embora na letra da constituição de 1933, figurasse o principio de igualdade perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona de casa, e submissa ao marido (…) As enfermeiras não podiam casar e as professoras tinham de pedir autorização”, e, mais à frente, “depois do jantar os homens saiam e as mulheres ficavam em casa.” 

Em

"Aparição", todas as personagens estudaram pelo menos até ao fim do liceu, mesmo as mulheres, havendo médicos, engenheiros, agrónomos e professores. Isso contrasta muito com o facto de, em Portugal, na altura, haver um nível de analfabetismo enorme. Em 1960, era de 32%, sendo que a percentagem nas mulheres era 41% e nos homens 26%. O desprezo pela verdadeira cultura e as separações sociais implícitas (muitas vezes explícitas), assentavam muito bem ao Estado Novo. Era uma forma de pensar que pagámos muito caro em termos de desenvolvimento social e económico. E já vinha de trás esse “orgulho” na incultura. Por exemplo, Virgínia de Castro no Jornal o Século de 5 de fevereiro de 1927, escrevia: "sabendo ler e escrever nascem-lhes ambições. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa, reside nesses 75% de analfabetos.”

Vergilio Ferreira Ferreira foi professor no Liceu de Évora de 1945 a 1960, e, no livro, descreve aspetos, hoje quase esquecidos, relacionados com a iluminação, água canalizada, automóveis, entre muitos outros. Galopim de Carvalho (2021), embora escrevendo reletivamente às décadas anteriores, refere também muito desses aspetos, havendo muita semelhança. Achei curioso, por exemplo, a referência aos doces de raiz de escorcioneira (Scorzonera hispanica) hoje quase esquecidos, tanto no livro de Vergílio Ferreira como no de Galopim de Carvalho. São doces da raiz caramelizada desta planta. Dizer “raiz caramelizada” pode não evocar logo a Química, mas pense-se nos processos de obtenção da sacarose e da sua caramelização, pense-se na moléula da sacarose, nos compostos responsáveis pelo sabor e cheiro da planta, e será fácil ter uma ideia das possibilidades “químicas” do tema.  

Como já referi, muitos dos aspetos químicos de “Aparição” estão implícitos. Queria chamar a atenção para três deles: o nascimento “tardio” de Cristina, o banho que prepara o sr. Machado da pensão e o automóvel que comprou Alberto Soares, a principal personagem. No primeiro caso,  é dito que o pai de Cristina se “enganou com a fisiologia” (vamos por agora esquecer os aspetos de machismo implícito, embora se tratasse de um médico). Devemos, no entanto, notar que os contracetivos orais (vulgarmente conhecidos como “a pílula”) só surgiram nos anos 1960, depois de a molécula que permitiu a sua existência ter sido desenvolvida, nos anos 1950. 

No segundo caso, sendo precisa cerca de meia hora para preparar o banho, suspeitamos que a água tinha de ser aquecida e transportada, não sendo canalizada. Mais uma vez, citamos Galopim de Carvalho (2021): “eram então muitas poucas as casas com água canalizada e quem não tinha poço ia abastecer-se no chafariz.” Sobre o automóvel, atente-se às questões comuns na altura de “rodagem” e “lubrificação”. Como os óleos e os materiais vedantes dos carros não estavam tão otimizados como hoje, os carros tinham de fazer essa rodagem, mudar de óleo e ser lubrificados com frequência. 

Além disso, os carros gastavam muita gasolina, dez litros aos cem quilómetros, ou mais, era frequente. A gasolina tinha um composto de chumbo para aumentar o seu poder detonante. Hoje em dia, os carros têm catalisadores para evitar a formação de NO2, numa reação do oxigénio com o nitrogénio que ocorre a altas temperaturas, as gasolinas não têm aditivos com compostos de chumbo e os automóveis gastam cerca de cinco litros de gasolina aos cem quilómetros. E não precisam de rodagem e lubrificações frequentes, fazem as mudanças de óleo muito mais espaçadas, sendo que o óleo pode ser reciclado. Mas isso não chega, claro, os carros que eram “motores de combustão Vitorianos” rodeados de metal, são agora cada vez mais” computadores com rodas” rodeados de polímeros. Sendo que muitos carros têm motores elétricos. Mas também isso não chega. Os carros são mais pesados devido às baterias que precisam de lítio e cobalto, fazendo mais pressão sobre os pneus que libertam, agora, mais partículas. Há, no entanto, uma intensa busca de soluções: reciclagem do lítio, outros tipos de baterias, etc. Em todos estes aspetos, a Química tem, ou pode ter, contribuições importantes para a sustentabilidade. E, na minha opinião, mais do que o crescimento exponencial das tecnologias, a marca mais relevante da atualidade é o nível de atenção e busca ativa  de soluções.            

Vamos agora referir a universidade antiga e, em particular, os seus azulejos. Como é bem sabido, os azulejos tradicionais têm cor azul devido ao óxido de cobalto. E no cozimento a altas temperaturas, ocorrem várias reações químicas, sendo a mais relevante a formação de ligações químicas irreversíveis com libertação de água. Por outro lado, os vidrados têm em geral óxidos de chumbo que fazem baixar o ponto de fusão. Também sobre a formação dos azulejos e outros materiais cerâmicos, podería discorrer longamente, como já fiz noutros Passeios Químicos e livros (veja-se, em particular, Rodrigues, 2014). 

Vou, no entanto, concentrar-me nas imagens dos azulejos. Nesse aspeto, os azulejos da universidade de Évora são riquíssimos e espelham bem o nível de conhecimentos e práticas da época. Na minha opinião, contrariamente ao que se diz por vezes, havia um ensino com vertentes experimentais e práticas, suportado claro, pela teoria. E, embora na universidade da altura, houvesse tendência para sobrevalorizar a segunda, estes são indissociáveis. Um exemplo paradigmático são os azulejos da aula de Filosofia Metafísica. José Filipe Mendeiros (2019), refere que João Simões (1945) apenas os interpretou em termos físicos, quando as interpretações metafísicsa são fundamentais. Não vou tomar partido nessa discussão, mas as imagens dos azulejos mostram claramente as interpretações físicas, que são óbvias, em particular, num painel vê-se o funcionamento de um tear e são destiladas rosas para obter a sua essência. As interpretações metafísicas, não anulam as interpretações físicas e práticas, só as enriquecem. 

Também na aula de Filosofia Natural vários azulejos evocam aspetos científicos. Num painel pode ver-se a famosa demonstração dos hemisférios de Magdeburgo. Noutro, as virtudes do peixe elétrico, noutra o “pó de simpatia” e ainda noutros o fenómeno do magnetismo.

O magnetismo é muitas vezes apresentado como um fenómeno puramente físico. Mas não é. A natureza dos materiais é importante. O ferro, e outros metais, apresentam propriedades magnéticas por o spin dos seus eletrões se alinhar, criando um efeito macroscópico de atração e repulsão. Curiosamente, esse efeito pode ser amplificado em ligas de vários metais, sendo muito conhecidos os ímanes de neodímio que são feitos de neodímio, ferro e boro. E ímanes mais fortes permitem fazer turbinas eólicas mais eficientes para a produção de eletricidade.      

Uma boa parte dos metais não tem propriedades magnéticas, havendo ligas de ferro (alguns aços inoxidáveis, por exemplo) que não apresentam magnetismo (sugere-se que os leitores experimentem). Mas, para separar estas ligas e o alumínio e o cobre, que se sabe bem não terem propriedades magnéticas, é usado o magnetismo. Como? Através da denominada corrente de Eddy. Como os metais são condutores, pode ser criada nestes uma corrente elétrica, e assim magnetismo, quando o material é exposto a um campo magnético variável ou em movimento. Esta corrente permite repelir as latas de alumínio e o cobre do lixo, separado-os. Deve notar-se também que o alumínio pode ser separado facilmente do cobre pois é muito menos denso. 

Se a demonstração dos hemisférios de Magdeburgo para ilustrar o efeito dramático da pressão atmosférica é bem conhecido, o caso do “pó de simpatia” é menos conhecido, assim como as polémicas a que desde sempre esteve ligado. De facto, era usado para “curar” um ferimento de um duelo, ou outro, aplicado sobre a arma que provocou o ferimento e não no ferido! Obviamente, muitas pessoas contestavam a eficácia do “tratamento”, incluindo vários jesuítas. 

Há ainda azulejos relacionados com outras demonstrações, nomeadamente do uso de espelhos. Gostaria de voltar ao peixe elétrico, pois foi alvo de muitas investigações científicas, nomeadamente de Henry Cavendish, que descobriu o hidrogénio. Há várias espécies de peixes elétricos, mas os mais conhecidos são a tremelga, ou raia elétrica, (Torpedo torpedo) - que parece ser mais ou menos a que está no desenho do azulejo - e a enguia elétrica (Electrophorus electricus), que têm em comum a produção de uma descarga de corrente elétrica que atordoa os peixes à sua volta, sendo que a espécie de água doce, a enguia elétrica, tem de produzir maiores voltagens, pois a água doce é menos condutora. Pode perguntar-se porque não sofrem eles próprios com essa corrente. Tem a ver com a direção da descarga (como um teaser), que é emitida por partes do seu corpo que estão “isoladas”, sendo a energia elétrica também armazenada em partes “isoladas” do corpo. Mas são afetados pela corrente produzida por outros peixes. 

Há muitos outros aspetos a descobrir nos azulejos, nomeadamente quatro conjuntos alusivos à teoria dos quatro elementos (água, terra, ar e fogo). Esta vigorou desde a Grécia Antiga quase até ao século XIX, mas há alguns aspetos a considerar. Não se tratava de elementos químicos no sentido moderno mas mais de princípios (esse aspeto é bastante conhecido, discuto-o em Rodrigues, 2026). Para além disso, os nomes evocam claramente os três estados da matéria e, de alguma forma, a energia. Mais aspetos, desafiamos os leitores a descobrir entrando nas salas quando não há aulas.             

Como mostra Alice Mendonça (2000), houve no Concelho de Évora - e não é muito diferente do que ocorria noutros locais - bastantes episódios de mortalidade excecional na segunda metade do século XIX. Segundo esta autora, embora alguns episódios possam ser atribuídos a surtos de doenças infeciosas como cólera, varíola, ou gripe, outros foi impossível identificar se a sua natureza era epidémica ou outra (nestes estão incluídos as fomes periódicas, as elevações de temperatura, associados a deterioração dos alimentos e estagnação das águas, por exemplo). Curiosamente, não fala de febre tifóide ou difteria (Galopim de Carvalho, 2019, refere a segunda) que eram também muito comuns em Portugal, mas sendo o Alentejo menos povoado podem ter tido menos expressão. No entanto, em apêndice, são apresentados dados das mortes hospitais desde 1881 e aparecem mais de uma dezena de casos de febre tifóide, além de outras doenças não referidas, como a tuberculose. Muito provavelmente, estes episódio irão repetir-se ao longo da primeira metade do século XX, altura em que a melhor qualidade alimentar, tratamento das águas, higiene e aparecimento de medicamentos, como antibióticos, diminuiu a importância destes episódios. Ora, para o aumento da produção agrícola, tratamento das águas, surgimento de medicamentos, entre outros fatores, os desenvolvimentos químicos foram, e continuam a ser, fundamentais (Rodrigues, 2022a).

Os percursos da água em Évora, recuam a tempos muito antigos. Perto da Câmara Municipal estão as Termas Romanas e tem sido descoberto um antigo aqueduto romano para o qual foram usadas as técnicas de construção características em silharia (pedras quadrangulares sobrepostas sem argamassa). Há também vários vestígios do uso de betão romano, nomeadamente uma “sapata” de um pilar, construído em opus caementicium, onde não há vestígios de materiais de materiais quinhentistas (Câmara Municipal de Évora, 2019). Uma teoria para a obtenção deste betão é de que no próprio local era realizada a produção de cal apagada a partir de cal viva, o que originava um grande aquecimento. Embora perigoso e insalubre, este método de construção permitia obter as características únicas que hoje conhecemos (Seymor et al., 2023).  

A “Água de Prata”  era obtida do Divorum, o “campo dos deuses”, onde Tejo, Sado e Guadiana se encontram a uma altitude superior à da cidade (Câmara Municipal de Évora, 2019). Embora houvesse formas de elevação da água, só seria exequível o seu uso, descendo por gravidade de uma altura superior.  

No Palácio D. Manuel estava, quando estive em Évora, em exposição uma réplica de um antigo de cano romano de chumbo usado nas canalizações. Tratava-se de um metal durável pouco dado à formação de óxidos, muito maleável e de baixo ponto de fusão. Obviamente não é aceitável a canalização de chumbo e mesmo as antigas com ferro galvanizado têm sido substituídas por aço inoxidável ou vários polímeros, em particular PVC (policloreto de vinil) nas condutas pensadas para durar mais tempo. Em qualquer dos casos, felizmente, em geral, as canalizações de chumbo eram protegidas da libertação de sais de chumbo pela formação de camadas de carbonato de cálcio em águas mais calcárias. 

O Aqueduto da prata é uma obra do século XVI que a cerca de um quilómetro do centro da cidade atinge uma altura considerável. Este aqueduto, que tem cerca de 18,5 km de comprimento, todo ele de acesso público, trazia água para a cidade, abastecendo várias fontes públicas, mosteiros e palácios. No Palácio de D. Manuel estavam em exposição as "chaves" correspondentes à água atribuída. A media é a “pena”, a qual corresponde a um cano com um diâmetro de uma pena de pato (cerca de 1 milímetro) e o “anel” que corresponde a oito “penas”. Ora, sendo medidas de caudal deveria ser indicado o tempo, mas não consegui verificar os detalhes.


Perto deste palácio encontra-se a imponente e bem cuidada Igreja dos Franciscanos ao lado da qual está a conhecida capela dos ossos (onde não fui, desta vez). Nesta igreja, e noutras, claro, podemos ver vários altares com folha de ouro. Como já referi várias vezes, trata-se mesmo de folhas de ouro, mas muito finas (cerca 0.1 mm), que podem ser usadas para cobrir uma extensão bastante grande sem que a quantidade de ouro usada seja muito elevada.  

A dimensão relativamente reduzida da elegante caixa de água na Rua Nova indica que era uma  caixa de distribuição e não de um reservatório. Perto desta, na Praça do Giraldo a água que está na fonte circula em circuito fechado e já não faz parte da rede de abastecimento. Esta água é provavelmente tratada com hipoclorito de sódio como acontece em muitas fontes deste tipo, por exemplo em Lisboa, que “cheiram a lixívia” pois têm concentrações de hipoclorito muito acima daquele que é usado nas águas de consumo humano (não dei conta desta fonte ter esse cheiro). 

Escreve Galopim de Carvalho (2021) que, sob as arcadas da Praça ficava o Café Arcada, que apareceu em 1942 para o público da classe média, possuindo frigorífico e outras inovações (deve notar-se que em Portugal até aos ano 1960, o figorífico era relativamente raro). De acordo com este autor, o café enchia-se todas as terças-feiras que era o dia do mercado semanal, “dia dos porcos”, refere. Galopim de Carvalho, relembra também o pirolito que era fabricado num vidro transparente esverdeado devido às impurezas da matéria-prima, óxido de ferro (+2).

Perto da Praça do Giraldo, no início da Rua Serpa Pinto, fica um possível bebedouro de animais. Além de não ter água, não me lembro de ter visto as clássicas argolas de ferro ou outros equipamentos para prender os animais. Os grampos de fixação das pedras, que originalmente deveriam ter tido chumbo para ajudar à sua fixação, têm agora argamassa à superfície, mas quase de certeza que encontramos chumbo mais abaixo. 

Pode visitar-se a antiga estação elevatória de água, agora Museu da Água (Unidade Museológica CEA, 2023). Aqui podem ver-se vários contadores que mediam a quantidade de água consumida, bombas elevatórias, entre outros objetos. A questão das bombas serem elevatórias e estarem na parte de baixo do depósito, em vez de estarem no cimo do próprio depósito é interessante por si só. De facto, com bombas elevatórias pode elevar-se a água a virtualmente qualquer altura, mas se estas estivessem no topo do depósito atuariam por sucção e o depósito só poderia estar a cerca de dez metros! 

Em termos químicos, chamou-me a atenção um papel que servia de guia ao tratamento manual da água com hipoclorito de sódio. Salta logo à vista que se trata de uma tabela com diluições, mas a solução inicial não é indicada. Para além disso, parece ser muito manual e possível de correr mal. Considerando que a solução inicial poderia ser de 10% (valor típico para  soluções de hipoclorito de sódio industriais), daria um valor para cloro ativo na água de cerca de 0.5 ppm, o que está dentro dos valores hoje em dia usados (0.2-1.0 ppm). 

A água de abastecimento urbano vem atualmente barragem de Monte Novo, a qual abastece os concelhos de Évora, Reguengos de Monsaraz e Mourão (Soler et al., 2019). Além de proporcionar um volume muito maior de água, envolve com certeza um conjunto de tratamentos e análises muito mais complexo, rigoroso e automatizado.

As cores das casas são muito caraterísticas em tons de branco com amarelo nos rodapés, ombreiras, arestas e esquinas. Era tradicionalmente feita uma caiação na qual se usava um pigmento natural entre o amarelo e castanho obtido da terra que continha óxidos de ferro. Na parede limpa e com uma demão de cal branca, procedia-se à caiação com terra corada incorporada (Soler et al., 2021). A juntar a isto, é tradicional a técnica do esgrafito, no qual os desenhos são realizados com estilete através da remoção de das argamassas superficiais (Soler et al., 2019). 

Os brancos muito claros e brilhantes das paredes, agora devem ser muitos de dióxido de titânio, um pigmento mais versátil e duradouro, mas antigamente e ainda agora eram de cal, hidróxido de cálcio, e a cor branca muito intensa era devida ao cálcio.  

O museu de Évora é designado Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. Este foi um dos membros da comissão criada pelo Marquês de Pombal para reformar a Universidade de Coimbra. Sabemos muito do que se passou nessas sessões por este ter deixado um diário em que falava delas (vários textos sobre a reforma pombalina em Coimbra podem ser consultados em, Simões et al, 2022). Trata-se de um museu muito interessante, tendo-me chamado a atenção vários aspetos, em particular, algo que não sendo novo, estava muito bem feito: a utilização de réplicas que se podem tocar, usando impressão 3D. Em frente fica a galeria da Fundação Eugénio de Almeida, onde se podem ver muitos trabalhos modernos, mas também, entrando mais para dentro, ver as paredes pintadas com frescos antigos.  

No Jardim Público, vi as “ruínas fingidas” mas não encontrei (pretendo fazê-lo quando voltar a Évora) a “Cúpula da Bomba Atómica” de Hiroshima, onde estão depositadas sementes de árvores sobreviventes ao bombardeamento atómico de 1945 de cânfora (Cinnamonum camphora) e kurogane-azevinho (Ilex rotunda).

Finalmente, queria chamar a atenção para a “Rota dos ODS” (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) de Évora que foram elaborados por alunos da Escola Severim de Faria (Pires et al. s.d). Na, minha opinião, estão muito bem escolhidos. Costumo dizer que todos os ODS, envolvem Química (Rodrigues, 2022b). Não vou referir todos, mas o ODS – Igualdade de género, indica a Travessa do Açal, onde nasceu a escritora Diana de Liz, pseudónimo da escritora eborense Maria Eugénia Haas da Costa Ramos (Bairro dos Livros, 2022), companheira de outro nome grande da igualdade, liberdade e literatura portuguesa, Ferreira de Castro, cujos livros e a sua relação com a Química já referi anteriormente (Rodrigues, 2014).     

Referências

A. M. Galopim de Carvalho (2021). Évora: Anos 30 e 40. Âncora.    

 Bairro dos Livros (2022). Évora : Mapa dos Livros – Guia Literário. Portfólio.

Câmara Municipal de Évora (2019). O aqueduto da Água de Prata e o Património Hidráulico de Évora, Câmara Municipal de Évora.    

Paulo Eduardo Guimarães (2006). Elites e Indústria no Alentejo (1890-1960). Edições Colibri.

Ana Maria Cardoso de Matos (1991). A indústria no distrito de Évora, 1836-90 Análise social 26,561-581.

Alice Mendonça (2000). Crises de mortalidade no concelho de Évora (1850-1900). Cosmos.

José Filipe Mendeiros (2002). Os azulejos da Universidade de Évora. Câmara Municipal de Évora.

Alice Pires, Ana Beatriz Pacheco, Beatriz Recto, Daniela Chambel, Diana Santos, Hugo Leonardo, José Mealha, Lara Pires, Lara Vital, Leandro Queimado, Margarida Oliveira, Maria Luiza Oliveira, Nuno Charrua, Rafaela Santos, Raquel Endemann, Rita Riço. Rota dos ODS – Évora. Rural Voices, 2030, s.d.

Amélia Polónia (2005). O Cardeal Infante D. Henrique, arcebispo de Évora: um prelado no limiar da viragem tridentina. Edição de Autor.

Sérgio P. J. Rodrigues (2014) Jardins de Cristais - Química e Literatura. Lisboa: Gradiva.

Sérgio P. J. Rodrigues (2022a) Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. revistamultidisciplinar.com. https://doi.org/10.23882/rmd.22087

Sérgio P. J. Rodrigues (2022b) "Acerca das Contribuições da Química para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas - Atualização de 2022". Em Meio ambiente: Princípios ambientais, preservação e sustentabilidade 3, 1-12. Atena Editora. https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/acerca-das-contribuicoes-da-quimica-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-das-nacoes-unidas-atualizacao-de

Sérgio P. J. Rodrigues (2026). Uma História das Ideias em Química. Imprensa da Universidade de Coimbra, no prelo.

Linda M. Seymour, Janille Maragh, Paolo Sabatini, Michel Di Tommaso, James C. Weaver, Admir Masic (2023). Hot mixing: Mechanistic insights into the durability of ancient Roman concrete. Science Advances. 9, eadd1602. https://doi.org/10.1126/sciadv.add1602

Carlota Simões, Ana Cristina Araújo, Pedro Casaleiro (2022). Redes Científicas da Universidade de Coimbra no Iluminismo. Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/978-989-26-2263-7

João dos Santos Simões (1945). Alguns Azulejos de Évora  [Câmara Municipal de Évora].

Mariana Soler, Mariana Valente, António Candeias (Eds.) (2019). Évora com Ciência: Percursos. Universidade de Évora.

Turismo de Portugal (2016). Évora e Elvas: Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora. 

Unidade Museológica CEA, (2023). Unidade Museológica CEA-antiga Central Elevatória de Água. Câmara Municipal de Évora.

Visit Portugal (2016). Évora e Elvas. Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora.

Passeio Químico nos museus de Anadia

[Fui com a Liga dos Amigos da Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra (LiBUC) ao Museu José Luciano de Castro e Museu do Vinho, em Anadia, e procurei estudar mais dois assuntos que me intrigaram. Esse texto resulta dessa procura de mais informação sobre eles.]

Em Anadia, a visita ao Museu José Luciano de Castro foi uma agradável surpresa. Por um lado, o interessante trabalho do Plano Nacional de Artes que levou os alunos das escolas locais a fazer as suas interpretações, muitas delas bastante boas, dos quadros e esculturas presentes e, por outro lado, as cópias das páginas de um livro de aguarelas que a Rainha D. Amélia editou em 1926, para reunir fundos para apoiar a luta anti-tuberculose. 

O livro de D. Amélia foi impresso em Paris em 1926 usando litografia. Foram feitos, se percebi bem, 250 exemplares, em excelente papel, os quais foram vendidos a preço desconhecido a mecenas, tendo o dinheiro obtido sido dado para a causa da luta antiberculose. Sobre a tuberculose, que só começou a ser curável nos anos 1940 com a estreptomicina, mas sobretudo nos anos1960, com o aparecimento da rifampina, já falei bastante vezes (mas, vejo agora, sempre circunstancialmente). Sobre a técnica da litografia, falei no Passeio Químico em Setúbal, mas não indiquei referências e, vejo também agora, que não a percebi completamente. Como em todas as coisas, é a prática e a revisão que trás o conhecimento mais profundo e completo. E, embora perceba, em termos químicos, a litografia, esse conhecimento é apenas geral sem o aprofundamento e a prática.

Como referi, a litografia é baseada na incompatibilidade entre a água e gordura (Jorge & Gabriel, 1986; Bigalhose, 1996) que origina vários tipos de fenómenos bem conhecidos. 

As cores das aguarelas e desenhos de D. Amélia foram cuidadosamente analisados e separadas em diferentes pedras litográficas que foram usadas para imprimir cada uma das cores. Desde o final do século XVIII que se conhece a técnica da quadricromia, segundo a qual a sobreposição de amarelo, ciano (um tom de de azul) e magenta, em diferentes quantidades, origina todas as cores. Se a estas cores juntarmos o negro, a impressão fica ainda com mais contraste. Mas não é garantido que as aguarelas da rainha D. Amélia tenham sido reproduzidas desta forma. Podem ter sido usadas mais do que quatro pedras litográficas, e as cores usadas podem ter sido diferentes. Por exemplo em (Meggs, 1998) é referido um exemplo em que são usadas cinco impressões com cores diferentes. 

Há uma grande diferença da litografia tradicional, mesmo usando quadricromia, em relação às técnicas modernas de impressão offset. Se for suficientemente ampliado uma imagem impressa por esta última técnica, notam-se os pontos descontínuos da imagem e as cores separadas e sobrepostas, mas em litografia tradicional não é assim pois cada cor pode ser contínua e na sobreposição não se nota esse efeito. A desvantagem da litografia é que cada pedra (podem também ser usadas outros suportes, ver. e.g., Bilhose, 1996) tem de ser preparada cuidadosamente e o processo é moroso e caro, incompatível assim com a comodidade e a rapidez da impressão offset.  

A técnica da litografia é especialmente boa para fazer reproduções de desenhos e aguarelas, pois as cores aparecem contínuas, os esbatidos e aguadas ficam perfeitos e podem ser usados papéis especiais, nomeadamente papel de aguarela. Um resultado disso, é que a impressão fica quase indistinguivel do original. Se forem aproveitadas as potencialidades da técnica – e muitos artistas modernos usam a litografia precisamente nesse sentido – podemos ter obras que são ao mesmo tempo de grande qualidade e que são originais reproduzidas em número limitado.   

Neste museu pode também encontrar-se uma interessante coleção de búzios, tendo eu notado com particular atenção os que eram usados para obter o púrpura de Tiro. Nestes, o molusco quando vivo, tem uma glândula que produz pequenas quantidades do corante, que uma vez extraído era usado para tingir tecidos valiosos. Encontramos referências a este processo de tingimento e ao búzio em Os Lusíadas de Camões (Rodrigues, 2025). E refiro isto, para relembrar, mais uma vez, que este livro pode também lido como um testemunho do grau, muitas vezes elevado, de civilização que os portugueses encontraram em África, antes de o continente ser quase exaurido pela escravatura e colonialismo.  

A região de Anadia é pioneira na produção de vinho espumante tradicional, o qual é em geral um vinho branco feito a partir de uvas tintas, "Blanc de Noir" (Martins, 2025). Deve notar-se que nesse método tradicional é feita a filtração do mosto pois por mais suave que seja a prensagem há sempre alguma cor das cascas (a cor é dada pelas antocianinas presentes na casca das uvas) que fica, ficando o vinho rosado. Essa filtração era feita com bentonite (uma espécie de barro) e outros materiais, usando aparelhos que ajudavam à filtração ativa, podendo pelo menos uma delas ser vista no museu (na sala central está uma muito caraterística, pode ver-se num canto de uma das fotografias). Hoje em dia, são feitos vários vinhos espumantes de uvas exclusivamente brancas (penso que agora é a maioria) mas imagino também que continue a ser feita a filtração, mas de forma mais suave. Deve  notar-se que filtrações que retirem cores e cheiros, podem retirar também muitas vezes outros compostos relevantes para o aroma e o paladar. 

Atualmente, há mais procura por vinhos brancos, os quais exibem muito mais complexidade do que há uns anos atrás em que eram considerados, por muitos consumidores, como vinhos de segunda categoria. Há a ideia de que o vinho tinto, pode ser mais complexo, e de certa forma é verdade, mas se recuarmos a tempos anteriores ao século XX, o vinho branco era o mais requintado. Com as filtrações e outras operações, poderiam obter-se brancos muito mais límpidos e confiáveis do que vinhos tintos, os quais poderiam ter muito mais impurezas e ser alvo de muitas e variadas falsificações.       

Para se obter o gás (que é dióxido de carbono) na garrafa é estimulada uma segunda fermentação, colocando quantidades rigorosamente medidas de açucar de uva (glicose) e leveduras que no processo de fermentação produzem mais álcool e dióxido de carbono (Navarre, 1997). Curiosamente, o livro português clássico sobre a produção de vinho (Pato, 1992), tem poucas referências à produção de espumantes. 

Hoje em dia há uma grande quantidade de processos, inclusive alguns que não envolvem a adição de glicose, provavelmente deixando ficar alguma da inicial das uvas. Na Anadia, e em Portugal, é pioneira na investigação vinícula a Estação Vitivinícola da Bairrada, fundada em 1887.

Referências

Robin Bigalhose. Guia prático de Gravura. Editorial Estampa, 1996. 

Alice Jorge, Maria Gabriel. Técnicas de Gravura Artística. Livro Horizonte, 1986.

João Paulo Martins. "Blanc de Noirs: Quando as tintas viram brancas." Grandes Escolhas, Dezembro de 2025. Acessível em https://grandesescolhas.com/blanc-de-noirs-quando-as-tintas-viram-brancas/ (acedido em 15 de junho de 2026). 

Philip B. Meggs. A History of Graphic Design (3rd edition). Wiley, 1998.

Colette Navarre. Enologia – Técnicas de Produção do Vinho. Publicações Europa-América, 1997.

Otávio Pato. O vinho – sua Preparação e Conservação. Clássica Editora, 1992.

Sérgio P. J. Rodrigues. "Uma Perspetiva Interdisciplinar: A Química n’Os Lusíadas". Boletim da Sociedade Portuguesa de Química 49 177 (2025): 113-118. https://doi.org/10.52590/m3.p721.a30003009.

Preparação de um passeio químico

[Vou nesta entrada mostrar o que faço quando preparo os passeios químicos, usando como exemplo o Bombarral. Fui convidado para dar uma palestra no Agrupamento de Escolas Fernão do Pó desta vila e quando lá for irei tirar as fotografias para o texto e completar o passeio.]

Começo por fazer uma pesquisa geral acerca do local. Sobre a sua história, indústrias e gentes. Já sabia que a região do Bombarral era marcadamente vinícula e a “pêra rocha” era também um dos seus ex-libris. Em termos gerais poderei desde logo referir a química do vinho e das árvores de fruto e agricultura. Como já fiz isso outras vezes, noutros locais, não é difícil: o que é o vinho? Como é obtido? E o que rodeia a sua produção, assim como a da “pêra rocha”? Isso é suficiente para uma abordagem básica, mas pode não chegar para fazer um trabalho mais profundo.

 Na minha pesquisa dei conta de que ficava nesta vila uma instalação de Enotorismo: Herdade do Sanguinhal. Mas entretanto, numa outra pesquisa tinha aparecido “fábrica do Sanguinhal”. De que se trata? Uma das destilarias mais antigas de Portugal, segundo percebi. 

Entretanto, fiz uma pesquisa de livros sobre o Bombarral nas bibliotecas a que tenho acesso. Aqui em Coimbra, temos a sorte de ter duas bibliotecas com depósito legal e as duas ficam no meu caminho. Trouxe de lá um livro técnico sobre a pêra rocha e outro sobre a casa no Bombarral de Abel Pereira da Fonseca (Santos, 2009). Quem era? Foi o fundador da Casa do Sanguinhal e ficou conhecido como o “rei da tabernas”, tendo um impacto enorme na comercialização de vinho na primeira metade do século XX. Entretanto, era referido o primeiro congresso do vinho, no início do século, e lembrei-me que tinha uma revista “História” sobre isso e que me lembrava de uma frase que estava lá “Portugal já exportou vinho para fazer Bordéus”. Será que a frase era mesmo assim? Tenho de confimar, mas não sei onde está revista. Mas mesmo antes de confirmar posso fazer considerações de como a Química pode ser usada para relevar a autenticidade do vinho usando a Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Já tenho aqui dois temas que posso explorar em mais detalhe. Entretanto encontrei a revista. A frase não era, de facto, aquela, nem o contexto estava certo, mas estava correta a ideia de que Portugal exportou vinhos para Bordéus. Em 1885 e 1886, na sequência da epidemia de filoxera, os agentes de Bordéus compram todo o vinho que puderam em Portugal (Freire, 1997, p. 11), mas não é certo que fosse para "fazer Bordéus", muito provavelmente seria para abastecer as tabernas francesas sem indicação da origem. Este pequeno episódio sem importância, relembra que é necessário verificar todas as fontes e não confiar na memória.   

Ao mesmo tempo, exploro outros temas. Neste caso, o nome da Escola: quem era Fernão do Pó? Vi logo que era um navegador do século XV que deu o nome a uma ilha em África. Mas qual era a sua relação com a Escola? Há uma aldeia chamada Pó perto da vila, de onde este parece ter sido originário. Fiz um mapa para perceber o enquadramento. Por acaso estou a ler o livro de Howard W. French (2022), que frisa bem o enquadramento destas viagens, o papel das civilizações locais e o interesse dos portugueses em explorar a região e negociar ouro e escravos. Para mim isto não é novo, pois já tinha lido alguns trabalhos de Arlindo Manuel Caldeira (2013, 2024) que me deram uma visão diferente tanto da escravatura como das explorações portuguesas em África e por outras leituras tinha chegado a conclusões semelhantes, nomeadamente que o nível de civilização encontrado em África era muito maior do que a historiografia tradicional nos conta. Eu próprio também já escrevi sobre isso num outro contexto, num livro que está no prelo. Podemos encontrar ecos, por exemplo, em Os Lusíadas de Luís de Camões. Paradoxalmente, os africanos foram vítimas do avanço e organização das suas várias civilizações, mas também das fraquezas destas devido às lutas e interesses comérciais. O nível médio de escolaridade dos locais era muitas vezes maior do que o dos portugueses que chegavam. Os avanços na metalurgia e tecelagem eram também muitas vezes superiores. Curiosamente, as explorações de Fernão Pó são ainda perto das regiões com mais intensidade de comércio. Será assim, um pretexto para referir os descobrimentos, as navegações, a exploração africana, e, claro, os Lusíadas e a Química, agora com um enquadramento um pouco diferente.

No que concerne à “pêra rocha” achei muito proveitoso e surpreendente ter lido um livro técnico sobre o seu cultivo (Cardeira et al., 2002). Como não poderia deixar de ser a Química está muito presente, mas a linguagem técnica é bastante diferente da usada normalmente em Química. Quando é referida a adubação, são indicadas as percentagens de elementos essenciais para as plantas pelos seus óxidos mais comuns. Assim, temos P2O5, K2O, CaO, MgO, SO3, mas há exceções como o nitrogénio que é indicado pelo elemento. Também os nomes podem ser ser enganadores (para um químico). Por exemplo, o superfostato de cálcio tem enxofre! Como? É produzido pela reação entre o fostato de cálcio (Ca3(PO4)2) e o ácido sulfúrico (H2SO4), resultando numa mistura equimolar de Ca(H2PO4)2.2H2O e CaSO4. Este é um caso é que era referido 8% de S (se fosse SO3 daria 21%), mas 18% de P2O5 e 16% de CaO (eu obtive 14%). Outros casos são o cloreto de potássio (KCl) que corresponde a 62% de K2O (eu obtive 63%) e pode, nalguns trabalhos, ser designado por um nome antigo: muriato de potássio. Outros exemplo podem ser considerados, mas dá para perceber como funciona. As pessoas desta área trabalham com os valores das percentagens dos óxidos que já referi, sendo o nitrogénio (em geral designado azoto) uma exceção. Assim, um adubo NPK (10-26-26) tem 10% de N, 26% de P2O5 e 26% de K2O. 

Neste trabalho são referidos outros elementos como o boro e o zinco e também quelatos de ferro. Este últimos, apareciam designados pelas suas siglas EDDHA e EDDHMA. A primeira refere-se ao composto cujo nome em inglês é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-phenylacetic) acid, sendo que o segundo tem grupos metilo adicionais e é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-methylphenylacetic) acid, sendo bastante semelhantes a um composto mais conhecido dos químicos, o EDTA (etilenodiaminatetraacetato). Não vou entrar na discussão dos pesticidas que são propostos, em particular por o documento ter mais de 20 anos, e provavelmente alguns destes já foram retirados do mercado (as autorizações são provisórias podendo a todo o momento ser revogadas). Já na altura havia bastante cuidado com o seu uso e já era praticado o conceito de agricultura integrada. Houve um grupo de pesticidade que me chamaram a atenção, os reguladores e estimulantes de crescimento. Em particular, o  cloreto de clormequat, que embora ainda esteja aprovado na União Europeia (UE), tem valores máximos de resíduos inferiroes a 0.4-0.5 partes por milhão, é interdito na cultura da pêra rocha. Já na altura se sentiam - e bem - os efeitos dos mercados que exigiam “zero” resíduos. Assim, para evitar alguma questão este composto era proibido simplesmente. 

Muito surpreendente para mim foi o material usado para diminuir o pH do solo: enxofre. Como eu estava ainda a tentar perceber (e tinham alguma desconfiança em relação à "linguagem química" usada em agricultura), fiquei a pensar que "enxofre" seria um composto de enxofre (mas qual? pensei eu). Bem, é mesmo enxofre elementar que, ao ser oxidado pelas bactérias do solo, origina ácido sulfúrico!  

Finalmente, no “meu curso rápido” deparei com a medição do teor de açucar usando um refratómetro portátil. Tive curiosidade em perceber como funcionava e percebi que havia, muitas vezes, uma relação linear entre concentração de açúcar (em geral medida em graus Brix, os quais correspondem à percentagem de açúcar) e o índice de refração. Daí a tentar perceber como o teor de açúcar leva à percentagem de álcool dos vinhos foi um passo rápido. Do que li, 17 g/L de glicose origina cerca de 1% de graduação alcooólica e que os graus Brix devem ser multiplicados por 0.55-0.60 para obter o teor alcoólico potencial. Boa! Não tinha pensado em chegar a esta dúvida, mas ainda bem que a esclareci.

Como se pode perceber pelo texto acima, a preparação dos passeios químicos envolve bastante investigação, mas é normal qualquer que seja o trabalho que procuremos fazer bem feito. Mesmo assim, estes podem ter ideias menos corretas (muitas vezes abordam temas muito vastos e afastados da minhas especialidade) e, claro, gralhas, as quais vão sendo corrigidas quando são descobertas.  

Entretanto, no próprio local, vou encontrando outras coisas que não tinha previsto e que irei estudar quando puder. Muitas vezes abandono algumas das ideias iniciais que tinha, pois no local não as achei interessantes. Finalmente, muitos textos ficam a amadurecer bastante tempo (em Portugal, Figueira da Foz e no estrangeiro Maastricht, por exemplo), mas outros são escritos rapidamente. 

Bibliografia

Arlindo Manuel Caldeira, Escravos e Traficantes no Império Português. O comércio negreiro português no Atlântico durante os Séculos XV a XIX, Esfera dos Livros, 2013.

Arlindo Manuel Caldeira, O Apelo da Liberdade, Casa das Letras, 2024.

Albertino Cardeira, Alfredo Rodrigues, Amado da Silva, Délia Fialho, José Alexandre, Pedro Almeida. Caderno de encargos do produto “pêra rocha”: algumas orientações práticas. Cooperativa Agrícola do Bombarral, 2002.

Dulce Freire. Retrato(s) de um país vinícula. História, XIX(35) 6-18, 1997. 

Howard W. French. Origem África. Bertrand, 2022

Dóris Joana Santos. A casa de Abel Pereira da Fonseca no Bombarral. Câmara Municipal do Bom barral, 2009.

Passeios Químicos em Madrid entre o Natal e o Ano Novo de 2025

[Fomos alguns dias a Madrid no Natal de 2025, essencialmente para a ver a exposição sobre Robert Capa no Círculo de Belas Artes e as exposições-diálogos entre Wahrol e Pollock (Warhol, Pollock and other American spaces) e Picasso e Klee (Picasso and Klee in the Heinz Berggruen Collection) no Museu Thyssen-Bornemisza]

Já não iamos a Madrid há alguns anos (ver aqui e aqui e Saz, 2018) e agora há uma muito maior precupação - e bem - com as emissões de gases dos carros. Na nossa casa temos um carro a gasóleo – e é o único que temos – cujo motor funciona pela queima de hidrocarbonetos, os quais podem ser aproximados (no caso do gasóleo) pela fórmula C12H26, produzindo-se assim 12 moléculas de dióxido de carbono por cada molécula de hidrocarboneto queimada.

Pelo menos 7% deste combustível tem de ter origem não fóssil e renovável (é o chamado biodiesel que é assinalado com um quadrado branco com um um sete nas bombas de gasolina), mas neste momento já há carros que usam gasóleo 100% renovável (HVO, hidrogeneated vegetal oil), o qual só está disponível, no entanto, para empresas. Este gasóleo é, por agora, tanto quanto percebi, mais caro e as perolíferas não divulgam publicamente o seu custo. Como se pode imaginar, estes combustíveis exigem uma grande quantidade de gorduras, o que origina periodicamente os óelos usados serem mais caros do que os virgens ou muita procura por óleo de palma cuja produção intensiva também não é boa para o ambiente. As reações químicas de produção de biodiesel são relativamente simples e chamadas pelos químicos de esterifiação correspendendo de forma simplificsada a R1COOH+R2OH→ R1COOR2+H2O

Por outro lado, estão a ser desenvolvidos métodos para o uso de outros tipos de desperdícios de gorduras que não apenas os dos óleos usados. O que ressalta disto é que vivemos num mundo muito complexo que envolve um número muito grande de relações também complexas. Claro que isso não nos deve, nem pode, impedir de agir, mas dever-nos-á alertar para o facto de não existirem quase nunca soluções simples e que as melhores soluções são muitas vezes inesperadas.  

Íamos ficar alojados na Zona de Baixas Emissões (ZBE) e pedimos autorização para entrar na cidade com o carro (deve pedir-se com antecedência de 20 dias). O nosso carro, embora seja de gasóleo, é Euro 5 (mais à frente comentarei os carros mais modernos Euro 6) e estava dentro das condições requeridas, mas mesmo assim havia zonas centrais da cidade onde só poderia passar para estacionar num parque. Basicamente, nas ZBE mais restritivas só podem circular carros elétricos que não emitem gases com efeito de estufa. Estes, para além de não emitirem gases, têm menos componentes o que torna a sua produção mais sustentável. Mas, obviamente, não são completamente isentos de problemas ambientais.
Desde logo, as baterias que são de lítio e cobalto. A obtenção destes elementos, tem obrigado à muito maior exploração destes recursos minerais. Já começam a existir baterias sem cobalto e baterias de ião sódio, mas ainda estamos longe de ter o problema resolvido pois o crescimento da produção de carros elétricos tem sido exponencial. Estão a ser estudados também outros tipos de baterias como as de metais e ar, mas também ainda estamos longe da sua produção em massa. Também a produção de eletricidade pode originar problemas ambientais, nomeadamente a que é obtida por queima de metano ou carvão.
No primeiro caso a sua produção em ciclos combinados é mais eficiente do que a queima de hidrocarbonetos nos carros, mas a sua eficiência ainda ronda os 60% (referi isso a propósito do Passeio Químico em Setúbal). Também as eólicas, as centrais fotovoltaicas e as barragens hidroelétricas não são isentas de questões ambientais. Desde logo o cimento e os espaço que tem de ser usado. Depois, se as primeiras usam grandes quantidades de terras raras, as segundas necessitam de silício de grande pureza, etc. Em qualquer dos casos, a análise completa dos processos envolvidos tem mostrado que são os carros elétricos mais vantajosos ambientalmente. Mas podemos ainda ir muito mais longe: produzir carros mais pequenos que usem menos recursos e emitam menos partículas dos seus pneus quando em circulação, ou andar mais a pé, de bicicleta e de transportes públicos.

No bairro de Arganzuela, junto ao rio Manzanares, situavam-se alguns dos equipamentos que faziam funcionar a cidade de Madrid no início do século XX, nomeadamente o matadouro e o gasómetro. O primeiro está agora transformado num centro cultural e de lazer (Centro de Créación Contemporânea) e do segundo resta o nome de uma rua e um parque com uma chaminé (onde não fui). O matadouro funcionou até 1996 e tem uma área bastante grande com pavilhões onde eram abatidos os diferentes animais (tem ainda as placas de cerâmica com as designações dos animais), um depósito de água e vários outros equipamentos. 

Chamou-me a atenção existir uma porta identificada com o nome de laboratório, onde seriam analisadas as carnes dos animais. Provavelmente não irão gostar do que escreverei a seguir por ser demasiado cru, por isso podem saltar para o parágrafo seguinte, mas, na minha opinião, estes números continuam a existir algures e deveremos ter consciência deles - o abate de animais para alimentação continua a ser feito, mas cada vez mais afastado das nossas vistas. Na região central de Madrid vivem cerca de 3.5 milhões de pessoas. Se essas pessoas consumirem cerca de 100 gramas de proteína, mesmo que metade das pessoas seja vegetariana o número de animais abatidos por dia será da ordem dos milhares (estimativa com um valor médio do peso de um bovino de 500 kg, ovelhas de 100 kg e galináceos de 5 kg). E os números de 1996 não serão muito diferentes pois a população era mais ou menos a mesma em quantidade de pessoas. 

Entretanto, estes milhões de pessoas têm de ser alimentados. Além da proteína vegetal, modificada  (ou não) geneticamente, ou produzida (ou não) por biotecnologia, há experiências interessantes com o que é designado como “agricultura celular” ou por “carne cultivada” nas quais são produzidos carne a partir de células de animais vivos, sem que este tenham de ser abatidos. Os problemas de aspeto e sabor já estão em boa parte resolvidos, mas o principal problema continua a ser o custo. Esta proteína é ainda muito cara e por isso não é competitiva economicamente num mundo em a carne dos animais abatidos é muito mais barata. Outra possibilidade é o uso da proteína proveniente de insetos, mas também em relação a isto há alguma resistência na sociedade. O ser humano é bastante incoerente: não gosta de ver matar animais, mas pode ao mesmo tempo salivar por um bife ou costeleta se não souber de onde estes vieram.  

No matadouro visitámos uma exposição de Cristina Mejías (“Lengua em coro, cuenta”) que consistia numa instalação numa zona escura, iluminada com luzes cenográficas, onde circulava água, tendo como canos e recipentes diferentes materiais (madeira, bambu, vários tipos de metais, vidro, fibra de vidro e plástico – foram os em que repare). Eram bastante bonitas as imagens, os reflexos nos vidro e água e a oxidação de alguns metais. Curiosamente, reside aqui uma das grandes possibilidades da arte moderna. Uma instalação parecida, embora menos complexa e com menos partes inúteis, mas potencialmente igualmente bela poderia ser feita por um agricultor imaginativo, para regar as suas plantas. Entretanto, ouve-se cada vez menos a triste expressão: “eu também poderia fazer isto”. Mas, paradoxalmente, faz sentido. Não no sentido de desvalorizar a arte moderna, mas mas para reafirmar que todos somos artistas em potência, embora alguns muito melhores do que os outros, claro, e que poderemos encontrar beleza e motivos para refletir sobre qual é a nossa posição no mundo, em tudo o que nos rodeia. O exemplo clássico é Pablo Picasso e até será interessante citá-lo pois irei mais à frente referir uma exposição com quadros dele. Toda a gente "sabe" que este sabia desenhar, mas foi ao longo tempo trabalhando as suas imagens para obter os efeitos que agora nos fascinam. E poderemos ainda ir mais atrás: os pintores considerados clássicos e os melhores pintores académicos queriam-nos dizer alguma coisa que quase numa era a simples reprodução acrítica da realidade. 

Eu também visitei nesses dias o Museu do Prado (valeu a pena ficar nas filas) e quem já viu com atenção as Meninas de Diego Velázquez, as Majas de Francisco de Goya e muitos outros trabalhos, sabe a que me refiro (Museo Nacional del Prado, 2019). As sensações estéticas (e não me refiro à emoção básica de estar ao lado de obras famosas) são devidas a coisas muito para além da reprodução formal da realidade (pense-se noutros artistas presentes no Prado, por exemplo, El Greco, José de Ribera, Caravaggio, Tintoretto ou Tiziano). Uma quase magia das telas e da pintura a óleo é que parecem, especialmente se bem iluminadas e restauradas (retirando o pó e os vernizes que as recobriam e escureciam) que acabaram de ser pintadas. Isso acontece, penso eu, por os pigmentos usados serem muito coloridos e brilhantes, já que os óleos secam em poucos dias. 

Alguns pintores, como El Greco, usavam pó de vidro para misturar com os pigmentos para maximizar esse efeito (referi isso, assim como a química dos pigmentos usados no Passeio Químico em Toledo e mais informações podem ser obtidas em Smith, 2003). Referi ainda nesse passeio, o uso de resina de pinheiro, mas isso acarreta alguns problemas de conservação a longo prazo, segundo li agora: escurecimento e formação de rachadelas. Na exposição-diálogo Wharol e Pollock (Museo Nacional Thyssen Bornemisza, s.d.b) há um efeito brilhante numa tela negra na qual Wharol usou pó de diamante. Diz-se que "os diamantes são eternos" mas os químicos sabem que são um estado metaestável do carbono, sendo a grafite mais estável. Há também uma frase que gosto muito de Michael Faraday: "a vela é mais brilhante do que um diamante, pois tem luz própria".

O matadero e o gasómetro ficavam na parte Sul de Madrid junto ao rio Manzanares no bairro de Arganzuela, sendo agora esta parte da cidade chamada Madrid-Rio. Estava frio e a chover e acabámos por não explorar a zona, mas há pelo menos duas pontes que parecem valer a pena visitar. Também não fomos ao Palacio do Cristal de Arganzuela construído pelo arquiteto Luis Bellido e González entre os anos 1908 e 1928 e reabilitado em 1992. O acesso a um site com mais informações não parece ser fácil de assnalar (o link está sempre a mudar) mas pode chegar-se lá pelo site do Turismo, mas uma vez acedido temos acesso a a um conjunto de informação muito interessante sobre as espécies disponíveis na estufa (Turismo de Madrid, s.d.), o mapa do Palácio de Cristal e também sobre as pontes sobre o rio e a qualidade da sua águas do Manzanares.
Segundo li, uma parte estava encanada (eu nem sabia que Madrid tinha um rio) e debaixo de autoestradas de acesso a Madrid, mas agora há um movimento de renaturalização e depuração das suas águas. Já referi em vários passeios os esqueletos dos gasómetros onde o gás era armazenado e distribuído pela cidade, que a qui em Madrid já não parecem existir. A produção de gás era feita por aquecimento de carvão a cerca de 1000ºC. Um pouco por acaso, fui dar à famosa feira do Rastro. À primeira vista não é muito diferente das nossas feiras atuais mas é interessante pela mistura de produtos que oferece e pela riqueza e contacto humanos. 

No Círculo de Belas Artes fomos ver a exposição sobre Robert Capa (1913-1954) (Círculo de Bellas Artes, s.d.c), autor de fotografias emblemáticas da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, da primeira Guerra Israel-Árabe e da Guerra da Indochina (onde morreu com 40 anos ao pisar uma mina terrestre). Achei especialmente interessante, estarem lá muitas das fotografias originais que foram usadas para as publicações, assim como cartas e outros objetos pessoais. Curiosamente, várias fotografias icónicas estão ligeiramente desfocadas ou tremidas, mas é precisamente isso que as torna muito mais interessantes, pois foram tiradas em situações perigosas ou difíceis e criam uma dinâmica que consideramos hoje genial. Robert Capa costumava dizer que "se a fotografia não é interessante não tinha sido tirada suficientemente perto”. 

No Círculo de Bellas Artes havia também a exposição “¡Aquí hay petróleo!” (Círculo de Bellas Artes, s.d.a), que toma o nome de uma comédia de 1955, que aborda, segundo os seus curadores, “as relações entre os combustíveis fósseis, as forma contemporâneas de poder e os imaginários do desejo” em particular durante o franquismo até ao presente. Achei interessante a exposição, por um lado parecer apresentar uma tensão (que já tinha notado em Valência) entre o olhar olhar atual em Espanha e o passado e o que resta do franquismo, e, por outro lado, por explorar uma estética irónica que a relaciona com o “machismo tóxico”, usando expressões com “petromasculinidade e fascismo fóssil”. Ironia à parte, trata-se de um assunto muito sério, pois o franquismo abraçou abertamente a modernidade e a industrialização, em particular química, ao mesmo tempo que era repressivo para as pessoas e ambientalmente desplicente. Infelizmente, o preço dessa modernidade, mesmo quando as alternativas eram ainda piores, foi (e ainda é) demasido alto. Foi também apropriado pois ainda estava a refletir sobre as ZBE.

Ainda no Círculo de Bellas Artes, fui uma a exposição com obras de Martín Chirino (1925-2019) (Círculo de Bellas Artes, s.d.b) o qual foi responsável pela rearticulação do Círculo de Bellas Artes de 1983 a 1992, segundo é dito na apresentação dos seus trabalhos. As suas esculturas metálicas têm valor artístico em si, mas o que me chamou mais a atenção foi o uso de diferentes metais e ligas metálicas o qual origina cores e superfícies diferentes, onde impera a figura gemétrica da espiral. O Círculo de Bellas Artes foi fundado em 1880 e é um edifício (na página dizem ser arquitetura neo-clássica) na Rua de Alcalá, perto da Gran Via, interessante em si mesmo, com uma explanada no sétimo andar que se paga para aceder (seis euros só o acesso ou um euro a somar aos valores dos bilhetes das exposições) onde há uma grande estátua de Minerva e se tem uma vista privilegiada da cidade.
As salas onde estavam as exposições eram da cave ao primeiro andar, mas continuando a subir passa-se por um salão de baile, uma sala de jogos e uma biblioteca (para associados, mas podem ser alugados as salas de baile e de jogos) e por muitas outras salas que podem ser alugadas, em particular duas que tinham os nomes de Maria Zambrano (falei dela a propósito de um Passeio Químico em Segóvia) e Ramón Goméz de la Serna. A entrada faz-se por uma rua lateral pois na rua principal tem uma cafetaria. O Círculo tem também uma sala de espetáculos, um cinema, uma rádio e uma revista (denominada “Minerva”).   

No Museu Thyssen-Bornemisza fomos ver as exposições-diálogos de Klee e Picasso e Pollock e Warhol (Museo Nacional Thyssen Bornemisza, s.d.a; s.d.b). Para a primeira não havia hora marcada e fomos visitar de imediato. Não tivemos grandes surpresas, nem o diálogo nos pareceu, inicialmente, muito frutifero (à primeira vista parecia um diálogo de surdos). No site dizia que “Picasso e Klee não podiam ser mais diferentes” mas partilharam, no entanto, temas e atitudes, uma “estratégia redutora e deformadora análoga” e uma forma “similar de utilizarem a arte como arma de transgressão”. Curiosamente, foi nesta ida a Madrid que reparei que as espadas dos toureiros matadores eram muito pequenas e um quadro Picasso reproduz bem isso. 

Esta exposição estava integrada na visita ao museu e acabei por ver todos os quadros. Com objetivos pedagógicos, havia modelos de quadros em relevo para cegos e de um dos quadros podia ser visto a análise das suas imagens obtidas em Infravermelho e de de outras formas. Não sei se a fotografia que fiz dá uma boa ideia do efeito, mas achei interrssante. Na minha opinião, ainda não atingiram a eficácia  e a extensão dos museus da Grã-Bretanha que visitei e referi a propósito dos Passeios Químicos em Londres e Escócia mas, mesmo assim, achei muito bem feito. 

Na exposição-diálogo entre Warhol e Pollock estavam os quadros ditos da “oxidação” (The Warhol, s.d.) e da “urina” de Andy Warhol, que eu não conhecia. Ambos os conjuntos de quadros foram “regados” com a urina de Warhol ou dos seus amigos, mas no primeiro conjunto as telas foram primeiro pintadas com uma tinta metálica de cobre ou de outras ligas e no segundo foram “regadas” as telas de pano cru. No primeiro caso, se as tintas metálicas forem de cobre, a urina promove a oxidação do metal, originando manchas verdes de sais de cobre (II). Mas a questão é muito mais complexa pois dependia da alimentação e fisiologia dos “executantes”. Notam-se também manchas mais escuras que podem ser de sais de cobre (I), os quais são castanhos avermelhados, ou de outros materiais.
Nas telas de pano cru, a urina originou manchas mais escuras que tanto podem ser devidas à oxidação do algodão da tela como a reação com outros materiais. Sabe-se, no entanto, que o estúdio cheirava bastante mal nos anos 1970 e que havia uma grande fixação na toma de vitaminas. Os estudos disponíveis não são muito claros sobre as composições, mas parece certo que é a ureia da urina que promove a oxidação. Esta moléculas está presente na urina (cerca de 20 g por litro ou 2%) e é em boa parte responsável pelos efeitos coloridos da formação de sais verdes de cobre (II) e (em muito menor quantidade), avermelhados de cobre (I). Não deixa de ser curioso que a ureia esteja a ser estudada para uso em células de combustível de carros. Uma coisa menos boa é que se forma dióxido de carbono nestas células (ânodo: NH2)2CO+6OH-→N2+ CO2+5H2O+6e-, cátodo: O2+2H2O+4e- →4OH-). 

Entretanto, nos automóveis classificados como Euro 6, é usada uma reação similar da ureia para eliminar os óxidos de nitrogénio (NOx) gerados combustão a altas temperaturas pela reação entre nitrogénio e oxigénio do ar, 6NO2 + 4 (NH2)2CO → 7 N2+ 4CO2 + 8H2O. Para isso é usada uma solução muito concentrada de ureia que atura sobre os gases de escape. Por exemplo, o AdBlue da Galp (s.d.) é uma solução aquosa de 32,5% de ureia. Assim, formos dos automóveis até arte e desta de novo para os automóveis, através da ureia! (A foto foi já tirada em Portugal, numa estação de serviço da Guarda) 

No Jardim Botânico de Madrid, como é inverno, muitas plantas estão adormecidas, mas se estivermos com atenção podem ainda ver muitas coisas interessantes. Quem me conhece, sabe que reparo sempre nos teixos (Taxus baccata). (Já referi a sua importância na produção de um medicamento para o cancro nos Passeios Químicos em Nova Iorque e Porto  entre outros locais) Há bastantes exemplares desta planta neste jardim que, além de estarem presentes em sebes, estão em exemplares de tupiária e bonsai e árvores. Também me chamou a atenção os metais nos tanques de água que parecem ser de zinco e os grampos de ferro chumbados com... chumbo. Mas disso eu já falei em vários passeios.

Encontro sempre alguma coisa nova, ou motivo de surpresa, nos Jardins Botânicos. Nas estufas, além do cafeeiro, que estava cheio de frutos (é a partir da semente, que depois de torrada, fazemos o café, estando nesta a cafeína), reparei numa pequena trepadeira que (estava assinalada) ser a pimenta (Piper nigrum). Eu nunca tinha visto (que me lembre) a planta e vi entretanto que é cultivada de outras formas. 

Havia também uma exposição muito bonita de fotografias de mulheres na ciência nas universidade bascas.

Entretanto regressámos, não antes de comermos vários salmorejos (os quais não eram muito diferentes do que faço) e provarmos novos e imaginativas pratos e renovadas formas de ver e agir sobre o mundo.   

Referências

Círculo de Bellas Artes (s.d.a) ¡Aquí hay petróleo! https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/aqui-hay-petroleo/ (acedido 8 de janeiro de 2026)

Círculo de Bellas Artes (s.d.b). Martín Chirino. Memoria del Círculo. https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/martin-chirino-memoria-del-circulo/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Círculo de Bellas Artes (s.d.c). Robert Capa. Icons https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/robert-capa-icons/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Galp (s.d.). Adblue: o que é e para que serve? https://www.galp.com/pt/pt/particulares/estrada/blog/detalhe/adblue-o-que-e-e-para-que-serve (acedido 9 de janeiro de 2026).

Pepo Paz Saz (2018). Un corto viage a Madrid. Anaya Touring.

Museo Nacional del Prado (2019). La Guía del Prado.  

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.a). Picasso y Klee en la colección de Heinz Berggruen. https://www.museothyssen.org/exposiciones/picasso-klee-coleccion-heinz-berggruen (acedido 8 de janeiro de 2026).

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.b). Warhol, Pollock and other American spaces. https://www.museothyssen.org/en/exhibitions/warhol-pollock  (acedido 8 de janeiro de 2026)

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.c). Warhol, Pollock and other American spaces. Guía didático 42, 2025.

Ray Smith (2003). Guia do Artista. Dorling Kinderley.

The Warhol (s.d.). Oxidation Paintings. https://www.warhol.org/conservation/oxidation-paintings/ (acedido 9 de janeiro de 2026).

Turismo de Madrid (s.d). Estufa do Palácio de Cristal de Arganzuela. https://www.esmadrid.com/pt/informacao-turistica/invernadero-del-palacio-de-cristal-de-arganzuela (acedido 8 de janeiro de 2026).