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Passeios químicos na ilha da Madeira

[Eu já não ia à ilha da Madeira há cerca de vinte anos. Aproveitando que participei no congresso SciComPT 2025, nas horas livres, muitas vezes muito cedo, fui a alguns locais que tinha selecionado para tomar algumas notas e fazer fotografias para um passeio química. A ilha está muito modificada, em particular os túneis permitiram vias rápidas para chegar rapidamente a muitas partes da ilha.]

A ilha da Madeira é constituída por rochas vulcânicas. A alteração ao longo tempo de algumas destas rochas deu origem a argilas que servem de suporte à água que origina nascentes em todas as altitudes, em particular nas zonas mais altas, onde a pluviosidade é superior. A ilha é muito acidentada e íngreme, chegando-se em poucos quilómetros do nível do mar a lugares acima dos mil metros. Também as costas são muitas vezes muito escarpadas (no Cabo Girão atinge-se a altura de quase seiscentos metros), havendo por vezes desabamentos e tendo-se formado ao longo do tempo pequenos espaços junto ao mar conhecidos como fajãs que são muito férteis onde é realizada a agricultura. 

É preciso notar que o ponto de ebulição da água diminui, com a altitude, sendo 95ºC a 1500 metros e 93ºC a 2000 metros, por exemplo. Atingindo-se rapidamente valores muito elevados de altitude, há grande condensação do vapor de água presente nas massas de ar húmido e formação de precipitação, dando origem a muitas vezes a grandes enxurradas e aluviões. Deve também notar-se que embora todos estes fenómenos sejam complexos, se verifica que a precipitação aumenta linearmente com a altitude.
Os aluviões devidos às terras que se deslocam e as enxurradas são relativamente comuns na ilha, sendo a primeira referência a aluviões já no século XVI. Havendo tanta água nos lugares altos, desde cedo esta foi canalizada nas conhecidas levadas de que há dezenas na Ilha da Madeira, mas por outro lado para evitar inundações foram realizadas obras de regularização das margens de ribeiras, o que muitas vezes não teve bons resultados. Por outro lado, o ponto de fusão do gelo não é muito afetado pela altitude, podendo considerar-se o mesmo valor do nível do mar, ou seja 0ºC. No entanto, é comum estar bom tempo no Funchal e ver-se nevar nos picos que rodeiam a cidade pois estes estão a menor temperatura e há mais água disponível. 

O Poço da Neve, que fica a 1650 metros, era um local onde se armazenava neve para fazer gelados. Este tem cerca de oito metros de profundidade. Hoje em dia podem obter-se gelo facilmente (as pessoas podem observar e fazer a sua produção nos congeladores dos frigoríficos, por exemplo), mas antigamente isso não era possível, e a única forma de o obter era conservando-o quando se formava naturalmente. A história das vantagens e problemas envolvidos nos frigoríficos, assim como a sua forma de funcionamento, já foi referido em vários passeios.   

As paredes da Sé do Funchal podem ser vistas como um catálogo das rochas vulcânicas disponíveis, havendo quase uma dezena de tipos de rochas vulcânicas em mais de duas dezenas de tonalidades. Não tive tempo de entrar, mas as fotos que vi do interior são muito bonitas, em particular a talha dourada que também já referi noutros passeios. Tinha pensado ir ao mercado do Funchal mas não tive tempo de ir lá pois o pouco tempo que tinha foi gasto a esperar numa farmácia do centro. Enquanto esperava e observava as pessoas a levar dezenas de medicamentos e cosméticos, alguns deles fundamentais, outros nem por isso, refleti sobre esta evolução e aumento da complexidade. Temos hoje em dia quase dois milhares de moléculas aprovadas como medicamentos, muitas delas de grande complexidade e cada vez menos bioinspiradas, validados por estudos clínicos e várias fases de aprovação, e são aprovadas cerca de quatro dezenas por ano (mas também são retiradas do mercado outras), para tratamento de doenças de que se morria e nem se sabia que existiam. Claro que há ainda vários problemas e temos novas questões, mas é muito interessante refletir sobre este aspeto.   

O clima da Madeira desde cedo foi considerado benéfico para o tratamento da tuberculose, numa altura que não havia outros tratamento para esta doença além dos "bons ares," a boa alimentação e o descanso. São em número muito grande os doentes desta doença que passaram pela ilha, sendo de referir a princesa Sissi, bem conhecida pelo filme e outras obras que narram a sua história, e Júlio Dinís. Deste último, há uma estátua na baixa do Funchal que encontrei quase por acaso. Júlio Dinís era o pseudónimo do médico José Gomes Coelho, o qual, na sua passagem pela ilha, fez herbários e escreveu uma parte dos seus livros. Como se sabe, este escritor morreu dessa doença que hoje pode ser tratada com alguns tipos de antibióticos, mas não a penicilina que é pouco eficaz contra esta doença. A partir de meados dos anos 1940, com a descoberta da estreptomicina e o uso da isoniazida, e sobretudo a partir de meados dos dos anos 1965, com a descoberta da rifampicina, a doença começou a ter melhores prognósticos. Contudo, a micobactéria responsável por esta doença é muito difícil  de combater, envolvendo misturas de antibióticos no seu tratamento que é realizado durante bastante tempo.   

O Jardim Botânico do Funchal é relativamente pequeno, mas faz jus à exuberância da vegetação e flores locais. Eu tinha pouco tempo e procurei os canteiros com as plantas úteis, aromáticas e usadas tradicionalmente em têxteis (assinalados no mapa do Jardim). Só encontrei os primeiros, em particular com vários tipos de bananeiras e legumes, mas o linho, por exemplo, que é uma planta anual e podia não ser visível na altura, não vi. Não detetei haver canteiro com plantas tintureiras, mas penso que deveria haver, pois a Madeira tem bastante tradição de usar cores nas roupas, em particular os vermelhos, provavelmente tradicionalmente devido à Rubia spp. e o azul, provavelmente devido ao pastel dos tintureiros. 

Encontrei quase por acaso, cicuta e rícino, que deveria fazer parte de um canteiro com plantas venenosas. Mas, se o rícino encontrei na ilha, não vi cicuta, embude ou erva-moira, plantas venenosas bastante comuns no continente. Vi no entanto trombeteiras (Datura spp.) que são também venenosas e, que, se não me engano, as suas sementes causaram a morte de um adolescente na ilha. 
Foi na minha primeira passagem pela Madeira, há quase 20 anos, que comecei a interessar-me pela identificação de plantas, com um livro que trouxe da ilha.

A história da produção de açúcar na Madeira começou quase ao mesmo tempo que a história da expansão marítima. Para além do açúcar, era explorado o mel (ou melaço) que é um produto líquido, de cor escura, confeccionado a partir da cozedura e concentração do sumo de cana, e a aguardente. A produção de aguardente só se iniciou por meados do século XIX e hoje em dia já não se fabrica açúcar na ilha da Madeira. Dos textos que li, nota-se algum desconhecimento da química envolvida nos processos e, podemos dizer com ironia, que antigamente, afinal, “não era bom”. 

Em todos os processos a cana é esmagada e obtido um caldo, a garapa. No caso do mel e açúcar esse caldo é fervido até atingir uma determinada cor e grau (ou seja concentração, a qual só indiretamente tem que que ver com a temperatura pois o ponto de ebulição aumenta com a concentração). Para o mel procura-se manter o pH em cerca de quatro, adicionando-se, se necessário, ácido cítrico ou outros ácidos naturalmente existentes na cana. Isto é também realizado no caso do sumo de cana para aguardente, usando-se antigamente ácido clorídrico e sulfúrico, e, para ajudar à fermentação, fermento de pão e sulfato de amónio (é caso para dizer, com ironia, que “antigamente não era bom…”), sendo que o sumo obtido é depois destilado. No caso da açúcar usava-se cal para precipitar as impurezas e ajudar a formar cristais. Simplificando, parece que os pH mais baixos ajudam a manter todos os componentes, criando mel e aguardentes mais aromáticos, enquanto os pH altos ajudam a precipitar esses componentes, obtendo-se um açúcar mais puro. Queria chamar a atenção para o facto de o entendimento básico dos processos pode ser feito com base em conhecimentos simples de Química.  

O cultivo dos canaviais é limitado essencialmente a uma estreita faixa no litoral sul. As canas são atacadas por uma lagarta sendo antigamente usada estricnina para a matar. Hoje devem usar-se inseticidas mais seguros e, conhecendo-se o ciclo, da lagarta, outros tratamentos.  A caminho do Cabo Girão vi um canavial (mas não fotografei). O da figura vio-o no Jardim Botânico. Na Calheta situam-se alguns dos mais conhecidos engenhos, mas antigamente havia muito mais. 

O vinho da Madeira é um dos produtos agrícolas mais conhecidos da ilha. Para o fazer, é acrescentada aguardente ao mosto, parando a fermentação, ficando assim o vinho doce, sendo comuns graduações entre 17º e 22º (que corresponde a uma percentagem de volumes de álcool sobre o volume total). O que faz o vinho único são as castas usadas e o processo de envelhecimento que simula as condições de uma viagem por mar, pois reza a lenda que as cargas enviadas por mar pareciam mais saborosas.  

Muitos percursos de baleias passam na ilha da Madeira, além de que o mar é profundo perto de terra, assim era mais fácil a sua caça. No entanto, a caça à baleia só começou na Madeira no final dos anos 1940 com o recrudescimento da procura do seu óleo para a produção de margarinas, penso eu. Como já referi em vários passeios, a caça à baleia tinha a ver com a procura do seu óleo que, no século XIX, era usado para fazer velas e outras formas de iluminação. No Caniçal, onde estes animas eram desmanchados, em boa por ser a região mais desabitada da ilha, podemos agora visitar um museu relacionado com estes animais. Neste museu há uma parte dedicada à memória da sua caça e outra dedicada à biologia e observação destes cetáceos.

No Caniçal fica também a Zona Franca Industrial (ZFI) onde podemos ver várias indústrias, algumas relacionadas com a Química. Eu tive muito pouco tempo para estudar a questão e observar, quando lá estive, mas salta à vista o letreiro enorme da Insular, que é uma empresa madeirense centenária.  Vemos também algumas chaminés, tanques de combustível e muitos painéis solares. 

As chaminés que se veem parecem ser da Central Térmica do Caniçal, Esta central privada está equipada com  geradores a diesel/fuleóleo, assegurando a produção de uma parte da energia consumida na ilha da Madeira (vi valores diferente em vários sítios), penso que cada vez menor. Na Vitória situa-se uma outra central térmica a diesel/fuleóleo, muito maior, tendo nos últimos anos sido inaugurada neste local uma central térmica que usa gás natural.

Este último tipo de central térmica é muito mais eficiente, chegando aos 60%, enquanto que as centrais térmicas a diesel são menos eficientes (pela ordem dos 40%), além de que eram mais poluentes, embora com equipamentos de limpeza dos gases e de controlo automático se tenham tornado muito melhores. Fica também na ZFI a MadeBiotech que realiza investigação sobre biocombustíveis, nomeadamente, se não me engano, sobre o uso de algas e aproveitamento de restos de peixe. Para completar as fontes de energia elétrica, existem na Ilha da Madeira várias centrais hídricas, eólicas centrais fotovoltaicas e uma central de baterias.

No Caniçal encontrei também instalações de aquicultura situadas no mar. Nos últimos anos a aquicultura ultrapassou a pesca em volume de peixe disponibilizado. Esta prática pode ser mais sustentável, mas envolve muito desafios em relação à qualidade e segurança alimentar, assim como o bem estar animal. Embora usualmente não se pense n«muito nisso envolve muita química e não me estou a referir a antibióticos e outros medicamentos dados aos peixes. Refiro-me a algo muto óbvio, mas tão simples como complexo, o sentido do paladar dos peixes. Estes têm milhares de receptores para analisar os alimentos que estão na água. Para além disso, os peixes carnívoros (uma boa parte dos que mais gostamos) são mais poluentes que os vegetarianos e também os mais difíceis de contentar com dietas vegetarianas. Assim, há muito investigação envolvendo estes aspetos.      

Como é obvio, ficou uma grande parte de coisas por ver. Tenho de voltar.

[versão inicial de 19 de abril de 2025; pequenas alterações em 27 de abril de 2025]

Referências

Alberto Vieira, Filipe dos Santos. Açúcar, Melaço, Álcool e aguardente. Notas e experiências de João Higino Ferraz (1884-1946). Governo Regional da Madeira, 2006. 

António Marques da Silva. Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha). Direção Regional da Cultura, 2016.

João Mimoso Loureiro. A água na Ilha da Madeira. Caracterização hidrológica. As grandes Aluviões 1600-2010. Eletricidade da Madeira, 2010.

Marco Livramento. Levadas da Madeira: uma herança para o mundo. Diário de Notícia – Madeira, 2022.

Museu Etnográfico da Madeira. O Engenho. Direção Regional da Cultura, 2016.

RTP. Madeira Profunda. Temporada 1 e Temporada 2, Episódios 1-12, 2023, 2024.

Passeios Químicos em Braga

[Aproveitando que estava a participar no congresso SciCom2024, que se realizou este ano na Universidade do Minho, e que fui convidado para organizar um passeio químico em Braga, em setembro próximo, no 2º Congresso da Associação Portuguesa de Professores de Física e Química, e já pensando que, em 2025, Braga será a Capital Portuguesa da Cultura, tirei algumas fotografias e realizei as reflexões que se seguem]


Braga tem mais de dois mil anos de história e uma grande quantidade de interesses patrimoniais, culturais e ambientais. Em particular, há uma grande variedade de guias e trabalhos sobre a cidade, dos quais refiro na bibliografia uma parte dos que consultei para este trabalho (Azeredo, 2008; Costa, 2013; Oliveira, 2014; Sousa, 2016). Há também guias de percursos pedonais da Câmara Municipal de Braga que estão online (Bonus, 2017).

Começo este passeio pelos aspetos ambientais, em particular, sobre a água. Para que uma cidade seja viável é necessário que tenha água suficiente disponível. Em Braga há bastante água, no passado essa disponibilidade era mais devido aos sítios altos que rodeiam a cidade do que devido à água que corre nos rios que estão à sua volta. Entretanto, atualmente, a água de consumo humano é captada no Rio Cávado (Agere, 2024), enquanto que as nascentes que rodeiam a cidade, nomeadamente proveniente do Parque das Sete Fontes, continuam a abastecer os fontanários públicos (Lopes, 2022). Mas lá iremos, por agora quero falar da água proveniente das nascentes em sítios elevados. 

Nunca tinha pensado com atenção na razão porque parecia haver mais água nas montanhas. A minha primeira ideia - algo ingénua - seria que haveria água em toda a parte, mas que só os sítios altos seriam úteis para que essa água descesse por gravidade. Ora, uma consulta dos trabalhos que foram feitos e escritos sobre o assunto mostra que essa ideia estava errada. A explicação corrente é de que este líquido transpira das plantas e evapora dos rios e mares, ficando na atmosfera como vapor. Entretanto, a quantidade de água máxima no estado vapor só depende da temperatura. Por outro lado, a densidade menor do ar quente faz com que este suba, indo condensar nas montanhas e sítios altos que se encontram a temperaturas mais baixas. o meu “erro” mostra, em parte, como funciona a ciência. Estudamos o que fizeram os outros investigadores antes de nós e propomos explicações para os acontecimentos que podemos testar. 

Bastantes vezes (quase sempre) muitas pessoas já estudaram os assuntos, fizeram experiências sobre eles e realizaram revisões que mostram que foi atingido um consenso, o qual já está muitas vezes nos livros de texto (como acontece neste caso concreto). Mas, imaginemos, por hipótese, que eu persistia na minha ideia e queria verificá-la. Teria de desenhar uma experiência robusta para a verificar e deveria comparar com as hipóteses alternativas. O normal será que, com essa experiência, eu confirme o consenso e deveria ficar por aqui, mas, imaginemos de novo, que que obtenho que “tenho razão” na minha ideia. Depois de verificar tudo, vou tentar publicar o trabalho. 

É aqui que os revisores são mais importantes. Se houver um que descubra falhas no trabalho, eu deveria, mais uma vez, ficar por ali, mas imaginemos, de novo, que os revisores fazem eco do consenso e não me convencem. Devo ficar por aqui? O bom senso diz-me que sim, mas um bom cientista é persistente e podem acontecer duas coisas: eu efetivamente tenho razão (o que é muito pouco provável), e devo estar preparado para, mesmo fazendo as experiências mais engenhosas, não ter inicialmente adeptos, embora ao longo do tempo acabe por convencer algumas pessoas de que o consenso anterior tinha problemas. Ou então, persisto na minha ideia contra todos (mesmo estando errado). 

O primeiro caso é o dos cientistas de sucesso que mudaram a forma de ver o mundo e que, por vezes, ficam na história da ciência, o segundo é dos cientistas que se concentram nas franjas do conhecimento e podem ficar na história da ciência pela má de razão de insistir num “erro”. Ambos os tipos, se tiverem estudantes que seguem as suas ideias, acabam por criar nichos que se espalham ou que terminam com eles. Tudo isto, relembro, devido uma ideia errada, mas a ciência avança com a liberdade para errar e corrigir os erros. Entretanto, se as minhas experiências reforçarem o consenso, também estão a contribuir para a robustez da ciência. A maior parte das experiências científicas são nesse sentido. Por exemplo, eu poderia reformular o meu trabalho para aplicar o consenso à dinâmica da água numa determinada montanha que ninguém ainda tinha estudado. Provavelmente não teria problemas em publicar o trabalho. Não seria um grande avanço, mas seria um pequeno passo para reforçar a robustez da ciência e o conhecimento. Entretanto, no processo de aplicação do consenso poderiam surgir dúvidas e voltaria ao princípio. Não me parece, pois o consenso é bastante robusto e vou tomá-lo como certo. De facto, o que as pessoas do público em geral veem são os consensos atingidos e por isso a ciência parece paradoxalmente dogmática, mas não é!     

De acordo com o consenso, forma-se água no estado líquido nos sítios altos devido à diminuição de temperatura, que por gravidade desce para os sítios mais baixos. Estes fenómenos são aproveitados com engenho em Braga, sendo, por exemplo, o funicular do Bom Jesus do Monte movido por um sistema e pesos e contrapesos que usam a massa da água. Por outro lado, no Parque das Sete Fontes, a água desce para os fontanários da cidade. Mas se a água do funicular não se destinava a ser bebida, a dos fontanários foi bebida até ao princípio do século XX. 

A água das fontes e nascentes, antes do tratamento com cloro, só conseguia a sua pureza nas filtrações, que eram feitas tanto de forma artificial como natural. Nesses filtros naturais acumulam-se filmes de bactérias que “limpam” a água. Mas esses processos são muito falíveis pois não asseguram a proteção contra bactérias patogénicas ao longo da rede, o que é conseguido pela adição de ião hipoclorito. Mas a Química tem uma intervenção maior, nomeadamente, na análise da composição da água, verificação e correção da sua acidez e turvação, por exemplo. Como referi, a água para consumo humano da cidade de Braga é captada no rio Cávado (Agere, 2024). Não fui à ETA (Estação de Tratamento de Água), mas tenho grande certeza de que a água é rigorosamente vigiada e que os tratamentos e correções realizados são no sentido de acelerar os processos naturais de purificação e de reforço da proteção contra contaminações ao longo da rede.  

O abastecimento de água a Braga sofria de escassez crónica desde o século XIX (Cordeiro, 2018), mais do que isso, de problemas de salubridade, em particular era foco de epidemias de febre tifóide de que é dado conta em 1901, mas também em 1960 (Cordeiro, 2018). Hoje pode parecer absurdo falar-se de febre tifóide, mas esta doença era infelizmente comum devido às fontes não vigiadas. É preciso não esquecer que esta doença matou um rei português, D. Pedro V, em 1861, e alguns dos seus primos, os quais, ao irem caçar em Vila Viçosa, beberam água de uma fonte contaminada ficaram doentes, acabando por morrer (Rodrigues, 2022). Foi tal o tumulto popular, achando que o rei tinha sido envenenado, que no órgão oficial (que está agora online) foi descrita com todos os detalhes a autópsia do príncipe D. João, a qual teve a participação dos melhores Médicos e Químicos portugueses (Rodrigues, 2022).

Li (não me lembro da referência) que um estudo dos anos trinta do século XX estimava que nas Sete Fontes brotariam 500 mil litros de água por dia. Ora isso é muito pouco nos dias de hoje (em que uma pessoa em média usa 200 litros de água). Assim, estimo que a água das Sete Fontes daria para cerca de duas mil e quinhentas pessoas. Entretanto, a ETA do Cávado tem uma produção diária de cerca de trinta e dois mil metros cúbicos de água (Agere, 2024), permitindo abastecer, assim, cerca de 160 mil pessoas. Com cerca de 3600 metros de condutas, tem cerca de 2250 metros de galerias subterrâneas, nascentes ou mães de água e caixas de distribuição, e desde 2011 é Monumento Nacional (Fontes et al., 2021).

Para a preparação do Passeio Químico no Parque das Sete Fontes, além das questões das quantidades e tratamento da água, olhei com mais atenção para as plantas presentes e para a sua química. Entre as várias que encontrei, chamaram-me a atenção o embude, a dedaleira, a celidónia maior e vários sobreiros selvagens. Do embude, uma planta venenosa comum, falarei mais à frente. A dedaleira é também comum e facilmente identificável pelos seus “sinos” púrpura. É a fonte de um glícosídio com efeitos cardíacos que é ainda usado atualmente em medicina, mas não tem, segundo a literatura, aplicações ancestrais. A celidónia maior é uma planta também comum e facilmente identificável pelas suas flores amarelas e caules que, ao serem quebrados, libertam uma seiva amarela. Alguns usos tradicionais são externos como cicatrizante e cáustico. A minha avó chamava-a “erva das verrugas” que é outro dos nomes tradicionais.  

Visitei, um pouco por acaso, a Igreja de Santa Cruz, que tinha sido restaurada há pouco tempo (Ferreira, s.d.). As folhas de ouro estavam resplandecentes nesta igreja. É o que acontece quando são aplicadas folhas de ouro novas, pois, embora o ouro não reaja com o oxigénio e com outros compostos que estejam na atmosfera, ao longo dos anos, com a acumulação de gorduras, pó e outras sujidades, a superfície deste metal vai ficando baça. As folhas de ouro têm uma espessura típica de um décimo de milímetro e são demasiado frágeis para que a limpeza seja um processo útil. Que eu saiba, são aplicadas novas folhas de ouro no restauro. Note-se que, embora o ouro tenha uma densidade de cerca de 19,4 gramas por mililitro, ou seja um litro de ouro tem de massa 19,4 quilogramas, um metro quadrado coberto com folha de ouro pesaria cerca de 20 gramas e portanto não teria qualquer interesse para hipotéticos “criminosos” roubar folha de ouro que esteja aplicado em igrejas.  

Os monumentos de Braga são quase exclusivamente feitos de granito. Trata-se de uma rocha variável nas cores e composição, mas é mais ou menos assente que é quartzo (o mesmo componente da areia, óxido de silicio, SiO2), feldspato (mais complexo em termos de composição, (Na, K, Ca)(Si, Al)4O8, mas que é também um óxido, neste caso de vários elementos) e mica (vários tipos de minerais da família dos filossilicatos, que são caraterizados por terem em geral camadas de sílica e serem brilhantes; escuros se forem de moscovite, por exemplo, mas rosa, se forem de lepidolite, por exemplo, uma fonte secundária de lítio). 
O grão do granito é muito grande e não podem ser feitas esculturas complexas com este material, mas na fachada da Igreja de Santa Cruz e noutros locais é feito um aproveitamento bastante interessante das limitações e potencialidades deste material. No Santuário do Bom Jesus do Monte, chamou-me a atenção a fonte do pelicano que reproduz a lenda de que esta ave pica o seu próprio coração para alimentar os filhos. Reparei ainda noutras fontes, em particular as que tinham um aviso de que a água era imprópria para consumo. A água pode vir naturalmente de nascentes e mesmo assim ser imprópria para consumo por estar contaminada, sendo em geral estas contaminações de origem biológica, mais do que de origem química. Mas só as análises químicas e bacteriológicas permitem ter a certeza.  

O granito que vi é ligeiramente castanho e esverdeado, talvez também devido à presença de microrganismos. Entretanto, ainda no Santuário do Bom Jesus do Monte, reparei em quatro colunas de granito cinzentas que pareciam diferentes. Inicialmente, pensei ser algum tipo de calcário. No entanto, ao me aproximar reparei que poderiam ser, de facto, de outro tipo de granito, ou poderiam ser desta cor por estarem limpas; não consegui confirmar. Há uma história sobre a dificuldade de transporte destas colunas para o cimo do santuário, mas também não desenvolvi o seu conteúdo. Notei, ainda na Basílica, algumas aplicações de tinta muito branca. São claramente de tintas modernas cujo pigmento é o dióxido de titânio e permite brancos ainda mais brilhantes do que a cal.  

Ainda no Santuário do Bom Jesus do Monte, reparei nos azulejos da Casa das Estampas, nos azulejos coloridos de um edifício do lado direito, nas grutas fingidas ao gosto romântico, nos lagos artificiais, onde se pode andar de barcos a remos, no terreiro dos evangelistas e nos sobreiros, pintados a branco com o último número do ano em que lhes foi retirada a cortiça (2023). O funicular do Bom Jesus do Monte, que funciona com o peso da água, como já referi, foi o primeiro da Península Ibérica. Camilo Castelo Branco adorava o local (Peixoto, 2008; Gomes, 2014), tendo um dos seus livros o nome do santuário (pode ser encontrado online; está em domínio público). 

Como já referi, Camilo gostava bastante do local e voltava sempre que podia, mas em várias cartas queixou-se das pulgas e percevejos (Braga, 2015). Estes insetos que importunavam Camilo podem ser motivos de outras reflexões. Poderíamos pensar em falta de higiene, e, em parte, talvez fosse, mas podemos também ver as coisas noutra perspetiva (Rodrigues, 2022). Os inseticidas que havia na altura de Camilo eram muito perigosos (usavam, por exemplo, arsénio, e não seria sensato usá-los em camas). Só com o aparecimento, primeiro do DDT (diclorodifeniltricloroetano), em 1939, e depois das permetrinas, em 1986 (inspiradas em compostos dos crisântemos), foi possível fazer um controle mais seguro destas pragas, ao ponto de muitas pessoas nunca terem visto uma pulga ou um percevejo.   

Uma nota breve sobre os autocarros elétricos que vi em Braga. Com a eletricidade obtida de formas renováveis e sem produção de dióxido de carbono, estes permitem retirar os gases de combustão das cidades e diminuir os gases que aumentem o efeito de estufa, em geral. Entretanto, será necessário melhorar as suas baterias, fazer investigação e ter desenvolvimento sobre a sua reciclagem e produção, entre muitas outras coisas. Não entrei num desses autocarros, mas consigo imaginar as maravilhas da técnica que encerram: os estofos (provavelmente de algum polímero), os vidros com os seus revestimentos e métodos de produção, os pneus, os anúncios e ecrãs, etc. Na verdade, qualquer coisa que nos rodeie, mesmo já mais antiga, permite-nos algumas reflexões sobre a ciência e a técnica, as quais assentam em centenas ou milhares de anos de desenvolvimento humano.        

Por exemplo, os vitrais que reparei na Sé: de que serão feitos? Como foram feitos? Os cataventos de ferro forjado que podemos ver por toda a cidade: de que são feitos? As misturas de novos e velhos materiais são também desafiantes. É um nunca acabar de possibilidades que, parecendo invisíveis, são relevantes e envolvem desenvolvimentos complexos, assim como a colaboração de centenas de pessoas, alguns delas químicos.

As pessoas em Braga já se habituaram ao INL (Laboratório Ibérico de Nanotecnologia), mas pareceu-me muito curioso o testemunho de um jovem investigador que assinalou a estranheza inicial das pessoas. Este referiu que inicialmente houve alguma desconfiança em relação a este edifício que ocupou o espaço da Bracalândia (parque de diversões que funcionou de 1992 a 2007). Além de ser um edifício muito fechado e de acesso restrito, prometia fazer investigação ao nível atómico, o que “parecia perigoso”! O edifício que pude ver é muito elegante, sendo os vidros enormes duplos e temperados (o que se pode ver com óculos polarizados). Fica ao lado do rio Este, onde a água flui de forma relaxante. Ao lado deste rio, há um passeio bastante agradável, que é aproveitado pelas pessoas para correr ou passear. Chamou-me a atenção um cartaz com as plantas autóctones que não tem uma muito comum, o embude, que se encontra ao longo do rio. Faz sentido, uma vez que é uma planta muito venenosa de Portugal, mas dá uma ideia errada do nosso país. Foi a raiz dessa planta que dois caminheiros comeram e morreram, pensando que era a a raiz de uma cenoura selvagem. A planta é muito comum e vamos encontrá-la também em grande quantidade no Parque das Sete Fontes que já referi.

Antes de abandonar este caminho, queria chamar a atenção para os postes de eletricidade e os seus isoladores. É mais uma coisa em que raramente reparamos, mas os humanos são ávidos de energia e estas instalações lembram-nos bem disso. Aqui queria chamar a atenção para os materiais de que são feitos os postes e os isoladores. O aço anodizado (ou seja recoberto de zinco) e o vidro dos isoladores e o metal dos cabos elétricos. E o que é conduzir eletricidade? É permitir a passagem de eletrões, algo que é feito muito facilmente pelos metais, mas não pelo vidro que é constituído por vários materiais que não permitem o fácil fluxo dos eletrões, como o silício. Curiosamente, o silício dopado com alguns metais pode ser usado como semicondutor o que está na origem da eletrónica moderna. 
Também os cabos condutores de eletricidade são relevantes. A passagem de eletricidade a temperatura ambiente origina sempre perdas de energia por aquecimento (conhecido como efeito de Joule). Isso pode ser minimizado de duas maneiras. Aumentando muito a diferença de potencial, ou seja conduzindo a eletricidade usando altas voltagens, e escolhendo os metais melhores condutores. O melhor condutor é a prata, mas não se está a imaginar que os cabos sejam de prata. Isso pode ser feito em microeletrónica, mas não em grandes instalações, onde o seu uso seria demasiado caro. O segundo melhor metal é o cobre, mas mesmo esse começa a ser demasiado caro e a ser limitado o seu uso. Segundo percebi, usam agora alumínio (pelo menos em parte) e os cabos estão protegidos por um revestimento de plástico.     

Há muitos autores que nasceram em Braga, ou que aqui viveram, que valerá a pena referir, mas vou falar apenas de Francisco Sanches (1550-1622) e Pero de Magalhães Gândavo (ca. 1540-ca. 1580) pelas evocações sobre a ciência que suscitam. O primeiro é de origem judaica, cristão-novo, penso que antepassado do médico Ribeiro Sanches, e também, como este, de fama internacional; médico e filósofo, professor na universidade de Toulouse e autor de uma notável obra (ver e.g. Maia, 2003). Em Braga podemos encontrar uma sua estátua. A sua atitude cética, mas ao mesmo tempo observacional e experimental, irá antecipar várias ideias que iremos encontrar, por exemplo, em Bacon e Descartes (Maia, 2003). Sanches nasceu algures na comarca de Braga ou perto (o próprio refere que nasceu em Túi), mas foi batizado em Braga. Realizou nesta cidade os estudos primários, tendo, perto dos doze anos, rumado a Bordéus, onde tinha família. 
Estudou nesta cidade durante a adolescência e esteve, em seguida, em Roma quatro anos. Rumou, mais tarde, a Montpellier, onde se formou em medicina. Instalou-se a seguir em Toulouse onde foi professor de medicina, mas nunca deixou de exercer esta ciência e realizar dissecação em cadáveres e se manter atualizado. Aparentemente nunca foi incomodado pela Inquisição e teve a sorte de se movimentar em círculos progressistas e abertos. Em Roma, terá apanhado a abertura do Renascimento, em Montpellier a liberdade do cosmopolitismo e em Toulouse viveu num ambiente livre de opressão e nunca teve de fugir. Podemos comparar a sua vida com a de Amato Lusitano, médico português que teve de fugir para evitar ser perseguido, ou Garcia de Orta que gozou em Portugal de alguma liberdade, mas que acabou por ser perseguido na Índia, tendo os seus ossos sido queimados.          

Por outro lado, Gândavo embora fosse de origem flamenga  irá também nascer em Braga. É o autor da notável “História da Província de Santa Cruz” (o Brasil), que é um livro com uma atitude vincadamente experimental, mas que mistura elementos fantasistas. Sebastião Silva Dias (1988), dá especial atenção ao exemplo do método seguido para explicar de forma experimental a produção de âmbar cinzento pelos cachalotes. Infelizmente, a observação rigorosa e experimental que Gândavo descreve, envolve um conjunto de problemas que o empirismo ingénuo não permite resolver e a explicação acaba por se revelar incorreta. De facto, embora a formação de âmbar cinzento esteja relacionada com a alimentação e este material seja expelido no sistema digestivo, a sua produção pelos cachalotes não está relacionada diretamente com o que é comido, mas com uma reação ao que é comido: este é segregado pelo animal como resposta à alimentação baseada em lulas. Na minha opinião, este livro, e esta passagem em particular, é um exemplo das potencialidades das observações empíricas realizadas nas viagens dos portugueses. Do muito conhecido “dar novos mundos ao mundo”. Mas, sem que houvesse continuidade e contraditório, sem um ambiente livre e estimulante, em que se publicavam facilmente os resultados, rapidamente se extinguiu. Ficou a ideia das velhas glórias emolduradas e amarelecidas no cárcere de miséria em que se transformou Portugal. Felizmente, agora não é assim.

E, contrariamente ao que é dito por vezes, na minha opinião Portugal não é um país pobre e tem muito potencial para ser um país mais rico. É certo que tem acumulado dívidas desde há séculos e não se desenvolveu culturalmente até há umas décadas atrás – chegou ao final do século XIX com 80% de analfabetismo e a 1974, ainda, com 25% de pessoas sem saber ler e escrever. Mas tem, e sempre teve recursos minerais (uma maldição, quando não há cultura), e agora as maiores riquezas de entre todas: as do conhecimento e da cultura que tem trazido a escolaridade.   

Estas são algumas das reflexões que me suscitou o que vi em Braga. Estou a melhorá-las e acrescentar novas coisas.  [atualizado a 29 de junho de 2024]

Bibliografia

Agere. Água de consumo. https://agere.pt/agua-de-consumo/ (acedido a 20 de maio de 2024)

Azeredo, António Carlos de. Braga: Bracara Augusta, dois milénios de história. Caminhos Romanos, 2008. 

Bonus. Rede de Percursos Pedestres de Braga. Câmara Municipal de Braga, 2017. https://www.cm-braga.pt/archive/doc/Guia_Percursos_de_Braga.pdf (acedido a 25 de maio de 2024).

Braga, João Paulo. Coração, cabeça, estômago… e um par de calças! Correio do Minho. 18 de março de 2015. 

Cordeiro, José Manuel Lopes. História do Abastecimento de Água a Braga (1913-2013). Braga: Agere, 2018.

Costa, Margarida. Adoro conhecer Braga. Associação Comercial de Braga, 2013.

Ferreira, Rui. A Igreja de Santa Cruz. Irmandade de Santa Cruz, s.d.  

Fontes, Luís; Braga, Cristina; Pimenta, Mário; Guerreiro, Maurício. Sete Fontes : o sistema de captação de água da cidade de Braga (séculos IV-XX). Braga, 2021.

Gomes, Joaquim da Silva. O penedo do amor colocado no Bom Jesus. Correio do Minho, 21 de abril de 2014. https://correiodominho.pt/cronicas/o-penedo-do-amor-colocado-no-bom-jesus/15701 (acedido 12 de maio de 2024)

Lopes, Alexandre. Sete Fontes. 12 de julho de 2022. https://aguasesaneamento.pt/outros/colunistas/sete-fontes/ (acedido a 20 de maio de 2024)

Maia, Idalina . O problema do conhecimento em Francisco Sanches. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013.

Oliveira, Eduardo Pires de. Segredos de Braga: Braga top-secret. Centro Atlântico, 2014.

Peixoto, José Carlos Gonçalves. Camilo Castelo Branco no Bom Jesus do Monte. 13 de maio de 2008. https://historiaporumcanudo.blogspot.com/2008/03/camilo-castelo-branco-no-bom-jesus-do.html (acedido 12 de maio de 2024)

Rodrigues, Sérgio P. J. Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. Revista Multidisciplinar 4(2), 57-74, (2022), https://doi.org/10.23882/rmd.22087

Silva Dias, José Sebastião da. Os Descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Presença, 1988.

Sousa, Rogério. Guia simbólico do Bom Jesus: Paixão e alquimia no monte sagrado de Braga. Cronos, 2016.


Passeio Químico em Roma [Chemical Trail in Rome]

Já não estava em Roma há quase trinta anos, mas tinha memória bem viva de várias coisas. Nomeadamente de que não tinha ido ver o Coliseu nem a Capela Sistina. Fui lá agora. Estava muito calor, tentávamos ir pela sombra, bebíamos muita água e suávamos muito. Uma forma importante de arrefecermos é suar pois a condensação é um processo endotérmico. A água ao passar do estado de vapor ao estado líquido extrai calor da sua vizinhança e o sistema arrefece. 

Nos sítios onde andámos, nomeadamente junto ao rio, havia bastantes árvores. Chamou-me a atenção uma rua com Ginkgo biloba e as estátuas quase engolidas pelas árvores dos parques. Também reparei nas trepadeiras caraterísticas. Ainda alimentei a ideia de que estas podiam ser lúpulo, mas afinal são heras japonesas. Por acaso passei na rua Panisperna, onde as heras atravessam a rua. Nesta rua havia uma placa alusiva aos rapazes (Fermi, Segré, Majorana e outros) que pelo número 89 acediam ao instituto de Física. E que abriram o caminho à época nuclear, dizia a placa. Sim, embora a radioatividade já fosse conhecida, será com Fermi que é aberto o caminho para a síntese de elementos artificiais.  

A Fontana de Trevi é um daqueles lugares turísticos a evitar no verão, dir-se-ia. Todavia passei lá duas vezes. Pelas 16 horas, quando estava uma grande multidão, e pelas 8 horas, quando já havia pessoas mas em muito menor quantidade. Tirei algumas fotografias, em particular das muitas moedas que lançam os turistas. As moedas de dez ou mais cêntimos são resistentes à oxidação, mas as de um a cinco cêntimos não, pois são de ferro coberto de cobre. Mas julgo que estas últimas quase não têm tempo de oxidar pois imagino que as tirem com frequência. Se ficassem mais tempo, deixariam as suas marcas caraterísticas.

Na casa onde estávamos havia uma cafeteira clássica para fazer café no fogão. Coloca-se café moído no filtro e água no compartimento de baixo. Esta água é fervida e vai passando pelo café e condensando no compartimento de cima, originando o líquido aromático que é conhecido como café. O fogão era a gás que, quando queimado, tem uma cor azul devido à emissão dos de alguns dos radicais dos hidrocarbonetos. Isso é conhecido há mais de século e meio, sendo denominado bandas de Swan. 

No apartamento e no prédio dava-se muita atenção à separação dos lixos. No átrio havia cinco caixotes: vidro, embalagens de plástico, papel, lixo orgânico e não recicláveis. Reparei noutros lados que os carros do lixo iam buscar o lixo aos prédios, mas não tenho a certeza de isto ser muito eficiente. Pode parecer ridículo, numa cidade cheia de monumentos e aspetos históricos, alguém chamar a atenção para o lixo. Mas este era muito, em todas as ruas. Aparentemente, a cidade de Roma debate-se com esse problema há muito tempo. Claro que há uma grande pressão turística, mas é muito raro encontrar caixotes na rua para fazer aí a separação dos diferentes lixos. Nas casas e prédios os lixos são separados como já referi, mas na rua quase não havia. Quem decide as estratégias tem os números e se calhar é melhor assim, mas o resultado não tem bom aspeto. Como já referi, em Roma nota-se a grande pressão turística. Os lugares mais emblemáticos estão cheios de pessoas e o resultado é que se faz muitas coisas para os turistas. Há muitos vendedores de água fresca e outras coisas nas ruas. Na emblemática praça Campo de’ Fiori, na feira só havia uma tenda com flores, quase tudo o resto eram objetos para turistas. Nesta praça fizeram-se várias execuções públicas, nomeadamente de Giordano Bruno. Há muitos mal-entendidos e ideias feitas em relação a este filósofo e aventureiro e às razões da sua execução pública, mas o que há para reter é o fundamental: a liberdade de pensamento náo deve ser reprimida.      

A grande atração da galeria Doria Pamphilj é o impressionante retrato de Velázquez de Inocêncio X de que Francis Bacon, no século XX, fez muitas versões. Há vários retratos e estátuas deste papa que deu início à grande importância que esta família irá ter no futuro. Nesta galeria, são também interessantes as estátuas de Bellini, podendo ver-se nestas a capacidade de esculpir pequenos detalhes. Goethe, na sua viagem a Itália, refere que o mármore é um material “mágico” que parece dar vida aos objetos (voltarei a este assunto a propósito de Nápoles e do Cristo Velado da Capela de Sansevero).
No palácio Pamphilj há lâmpadas antigas que ainda funcionam, com filamentos de platina. Este tipo de filamentos foi mais tarde substituído por filamentos de tungsténio, metal com ponto de fusão mais elevado. Este desenvolvimento foi realizado nos laboratórios de Edison por Langmuir e a sua equipa, o qual viria a ganhar o prémio Nobel pelos seus estudos de gases em superfícies. Interessante é também o chão de tijolos de barro dispostos em vários arranjos. Nesta galeria podem também ver-se vidros antigos (julgo que do século XVII) de uma janela. E podem também ver-se espelhos antigos que perderam a capacidade de refletir pois o metal por detrás dos vidros oxidou-se. Uma boa parte destas informações são dadas no audioguia que, além de gratuito, é fundamental, sendo narrado por membros atuais da família.  

Hesitei um pouco antes de ir ao interior do Coliseu, mas valeu a pena. Não tinha bilhete “full experience”, de não senti falta, mas foi muito interessante. Gostei de perceber como o palco era elevado e os animais e gladiadores vinham de baixo em elevadores que envolviam  contrapesos (isso era mostrado no museu). Gostei também de ver as referências às diferentes coisas que quem assistia levava. Numa vitrina estavam caroços de pêssego e ossos dessa atividade. Podia-se levar uma medida de vinho, mas a água era gratuita e distribuída em vários lugares. Com estes dados podemos imaginar (embora essa imagem seja condicionada por um sem número de filmes) como era assistir a um espetáculo ali.
Voltando à água, em Roma havia muitos locais onde se podia beber água e encher as garrafas. Hoje que estamos habituados às torneiras em casa, quase não conseguimos perceber como isso foi um grande avanço e permitiu a vida nas cidades. Como essa água se mantinha potável sem cloro parece-me interessante. Suspeito que essas águas estavam bastante contaminadas com microrganismos, mas muitas dessas contaminações não seriam graves e a maioria das pessoas da altura vivia em equilíbrio com elas. Primeiro, essa água seria filtrada nas nascentes, passando por sucessivas camadas de sedimentos e por filmes de bactérias benéficas, depois libertava os sedimentos nos tanques, onde havia pouco oxigénio para as bactérias nocivas se desenvolverem, e finalmente corria nos aquedutos onde recebia oxigénio, chegando rapidamente às pessoas. Mas nada disto estava isento de problemas. Podia facilmente haver contaminações bacterianas e outros microrganismos, podiam as nascentes já ter compostos não benéficos como de arsénio e excesso de compostos de selénio, ou ganhar novos compostos nas redes como os compostos de chumbo.       

Reparei nos andaimes que têm tubos normalmente de ferro coberto com zinco (galvanizados), mas eram unidos de forma diferente do que eu conhecia, ou por ligações de plástico, ou de uma liga esverdeada que me pareceu conter manganésio. É assim em Roma, mas noutras cidades por onde passei, nomeadamente Nápoles, é semelhante. 

Referir andaimes, leva-me à clássica pergunta de como Miguel Ângelo pintou o teto da Capela Sistina. Obviamente com andaimes. Isso é válido para todas as pinturas nos tetos e paredes. Ao longo dos séculos, esta pintura ficou enegrecida devido ao pó e partículas de fumo e foi restaurada há pouco tempo.

Nessa altura reparou-se que tinha havido alterações ao longo dos séculos, nomeadamente pela introdução de panos nas partes pudendas das personagens representadas. Entretanto, essas alterações eram muito antigas, e também fazem parte da história, e por isso levantaram vários problemas filosóficos em relação ao restauro. Finalmente, foi decido manter esses panos. Problemas semelhantes se levantam em relação às estátuas, que no tempo dos gregos e romanos eram em geral pintadas, e, claro, tinham braços e pernas. Nós habituámos-nos a vê-las assim mutiladas e sem cor e não seria possível aceitar esse “retorno ao passado” tão radical, mas já encontrei museus onde é feita essa recriação (com modelos, claro) e achei muito interessante.   

No Vaticano, a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, e muitas outras coisas são muito interessantes obviamente. Mas é também interessante pensar nos meios, conhecimentos, quantidade de pessoas e tempo envolvidos. Todas estas coisas demoraram anos a ser feitas e envolveram centenas de trabalhadores. Quando dizemos que o papa, ou um rei, fez fez isto, ou aquilo estamos a resumir o que aconteceu. E mesmo quando dizemos que um artista fez algo, muitas vezes estamos a esquecer todas os operários e os aprendizes envolvidos, e os meios usados.  

Já quase na saída encontrámos uma montra denominada “farmácia do Vaticano.” É óbvio que é mais uma coisa para atrair os turistas, mas é baseada numa realizada histórica. Há toda uma tradição de medicamentos e cosméticos descobertos e feitos pelos monges. Não resisto a fazer uma citação de Prichett, de 1954, que encontrei num livro de Paul Theroux: “ O turista faz parte da nossa civilização, como o peregrino na Idade Média.” 

A Galeria de Arte Moderna e Contemporânea surpreendeu-nos pelos arranjos entre “novo” e “velho,” pelos diálogos entre as obras, e mesmo pelas obras em si. Fomos lá por não termos podido ido visitar a Galeria da Villa Borghese (os bilhetes estavam esgotados). Visitámos, no entanto, os jardins e andámos por ali. Já tinha reparado no mesmo em Florença, mas achei os jardins bastante pobres de espécies vegetais, se comparados com os portugueses. As sebes eram, tal como as de Florença, de louro-cerejo, uma espécie venenosa por ter amigdalina. Há quem diga que era esse “louro” que ornava as cabeças dos romanos (“qual coisa, bastava comer uma folhas”).
Não acredito muito nessa versão. Há um grande conjunto de mitos e histórias que se foram instalando. E é sobre as ideias feitas que em geral não meditamos. Uma delas seria a ideia de “vomitar”. As escadas do coliseu “vomitavam pessoas,” numa clara figura de estilo, não tinham em geral “pessoas a vomitar,” e muitas outras. Na galeria de arte moderna, tirei muitas fotos, mas aqui posso só partilhar algumas. Na minha opinião, não devemos só ir ver as coisas mais conhecidas como a Fontana de Trevi, o Panteão, ou a Capela Sistina, mas aventurar-se a ver outras coisas, muitas vezes por acaso.  Passei algum tempo a ver uma instalação-filme de 2020 de Egill Sæbjörnsson, “From Magma to Mankind.”
Achei muito interessante a ideia. Ao ver o filme refleti sobre o conhecimento que temos, mas também sobre o que se perdeu, ou é menos conhecido. O efeito de magma feito em casa é com o aquecimentos e cristalização de bismuto. Aqueles cristais azulados esverdeados, com formas retas, são espetaculares. E vendiam-se nas farmácias para diversas maleitas. Quantos de nós, mesmo químicos, os conhecemos?  Houve muitas outras coisas que me chamaram a atenção, mas gostaria de referir mais duas: aas cores das rochas e os materiais de que é feito o famoso urinol de Duchamp. Em itália vi muitas estátuas de mármore negro. Imagino que esse mármore incorpore bastante matérias carbonáceas que origianem essa cor. É o mesmo dos negros nas rochas dos passeios penso eu. O urinol parece um objeto trivial, mas quanta tecnologia encerra. O branco de óxido de estanho, o vidrado, a fainça que começou por ser uma argila que ao ser cozida perde água e ganha novas ligações química irreversívies. Sim, Duchamp tem razão. Merece estar no museu!  

A visita ao Jardim Botânico foi curta, mas pude reparar em duas coisas: a explicação da vegetação num lago e os canteiros das ervas medicinais. Se a explicação das plantas do lago era muito interessante em termos de comunicação científica, foi nos canteiros das ervas medicinais que me detive mais tempo. Podia referir muitas coisas, mas achei muito interessante uma planta (Centranthus ruber) ser aqui conhecida como “valeriana vermelha.” É muito comum  em Portugal, nos muros e telhados e eu já sabia que que tem mais valeriato que a própria valeriana que é usada como calmante. Isso, acontece muito mais vezes do que se pensa.
Uma planta pode ser a origem de uma molécula, mas como sabemos a sua estrutura e propriedades podemos encontrá-la noutras plantas, doseá-la rigorosamente, modificá-la ou obtê-la de forma sintética, evitando que a planta se extinga, ou usando processos mais económicos e sustentáveis.

Seria impossível resumir todos os aspetos científicos em que reparei e sobre os quais refleti. Mas isto é o que tenho para dizer por agora num passeio químico em Roma, trilhando o caminho do “Grand Tour.” A seguir seguiremos para Nápoles e Sicília.

[verified automatic translation]

I hadn't been in Rome for nearly thirty years, but I have a vivid memory of many things. Namely that I hadn't seen the Coliseum or the Sistine Chapel. I went there now. It was very hot, we tried to go in the shade, drank a lot of water, and also sweated a lot. An important way to cool down is to sweat, as condensation is an endothermic process. When water changes from a vapor state to a liquid state, it extracts heat from its surroundings and the system cools down.

In the places where we walked, namely near the river, there were many trees. I was struck by a street with Ginkgo biloba and by the statues that are almost swallowed up by the trees in the parks. I also noticed the characteristic vines. I still entertained the idea that these could be hops, but they are Japanese ivy after all. I happened to pass on Panisperna Street, where the ivy crosses the street. On this street, there was a sign alluding to the boys (Fermi, Segré, Majorana, and others) who accessed the Physics Institute at number 89. And that paved the way for the nuclear era, the sign said. Yes, although radioactivity was already known, it will be with Fermi that the way is opened for the synthesis of artificial elements.

The Trevi Fountain is one of those tourist places to avoid in the summer, one would say. However, I went there twice. Around 4 pm, when there was a large crowd, and around 8 am, when there were already people, but in much smaller numbers. I took some photographs, in particular of the many coins that tourists throw. Coins of ten or more cents are resistant to oxidation, but those of one to five cents are not, as they are made of copper-covered iron. But I think that the latter has almost no time to oxidize because I imagine they take them off frequently. If they stayed longer, they would leave their characteristic marks.

In the house where we were are staying there was a classic coffee maker to make coffee on the stove. Ground coffee is placed in the filter and water in the lower compartment. This water is boiled and passes through the coffee and condenses in the upper compartment, creating the aromatic liquid known as coffee. The stove uses gas which, when burned, has a blue color due to the emission of some of the hydrocarbon radicals. This has been known for over a century and a half, being called Swan bands.

In the apartment and the building, a lot of attention was paid to the separation of rubbish. In the lobby, there were five bins: glass, plastic packaging, paper, organic waste, and non-recyclables. I've noticed elsewhere that garbage trucks pick up garbage from buildings, but I'm not sure this is very efficient. It may seem ridiculous, in a city full of monuments and historical aspects, for someone to draw attention to garbage. But there was a lot on every street. The city of Rome has been struggling with this problem for a long time.
Of course, there is a lot of tourist pressure, but it is very rare to find bins on the street to separate the different types of garbage. In houses and buildings, garbage is separated as I mentioned, but on the street, there was almost none. Whoever decides the strategies has the numbers and maybe it's better that way, but the result doesn't look good. As I mentioned, in Rome there is great tourist pressure. The most emblematic places are full of people and the result is that many things are done for tourists. There are many sellers of fresh water and other things on the streets. In the emblematic "Campo de' Fiori" square, at the fair there was only one tent with flowers, almost everything else was for tourists. In this square, there were several public executions, namely of Giordano Bruno. There are many misunderstandings and misconceptions regarding this philosopher and adventurer and the reasons for his public execution, but to retain is the fundamental one: freedom of thought must not be repressed.

The great attraction of the Doria Pamphilj gallery is Velázquez's impressive portrait of Innocent X of which Francis Bacon, in the 20th century, made many versions. There are several portraits and statues of this pope who started the great importance that this family will have in the future. In this gallery, the statues of Bellini are also interesting, being able to see in them the ability to sculpt small details. Goethe, on his trip to Italy, mentions that marble is a “magical” material that seems to give life to objects (I will return to this subject in connection with Naples and the Veiled Christ in the Sansevero Chapel). In the Pamphilj palace, there are old lamps that still work, with platinum filaments.
This type of filament was later replaced by tungsten filaments, a metal with a higher melting point. This development was carried out in Edison's laboratories by Langmuir and his team, who would go on to win the Nobel Prize for their studies of gases on surfaces. Interesting is also the mud brick floor is arranged in various arrangements. In this gallery, you can also see old glass (I think from the 17th century) from a window. And you can also see old mirrors that have lost their ability to reflect because the metal behind the glass has oxidized. A good part of this information is given in the audio guide which, in addition to being free, is essential, being narrated by current family members.

I hesitated a little before going inside the Colosseum, but it was worth it. I didn't have a “full experience” ticket, but I didn't miss it. I liked how the stage was raised and the animals and gladiators came from below in elevators that involved counterweights (this was shown in the museum). I also liked seeing the references to the different things that those who watched took with them. In a display case were peach pits and bones from this activity. You could take a measure of wine, but the water was free and distributed in several places. With these data, we can imagine (although this image is conditioned by countless films) what it was like to watch a show there.
Returning to water, in Rome, there were many places where you could drink water and fill bottles. Today, as we are used to faucets at home, we can hardly understand how this was a great advance and allowed life in cities. How this water was kept potable without chlorine seems interesting to me. I suspect that these waters were heavily contaminated with microorganisms, but many of these contaminations were not serious, and most people at the time lived in balance with them. First, this water would be filtered in the springs, passing through successive layers of sediment and films of beneficial bacteria, then it would release their sediments into the tanks, where there was little oxygen for the harmful bacteria to develop, and finally, it would flow in the aqueducts where it received oxygen, reaching quickly to people. But none of this was without problems. There could easily be bacterial and other microorganisms contaminations, and the springs could already have non-beneficial compounds such as the ones of arsenic and excess selenium compounds or gain new ones in the networks such as the ones of lead.

I noticed the scaffolds that have tubes usually made of iron covered with zinc (galvanized), but they were joined in a different way than I knew, either by plastic connections, or a greenish alloy that seemed to contain manganese. It's like that in Rome, but in other cities I've been to, namely Naples, it's similar.

Referring to scaffolding leads me to the classic question of how Michelangelo painted the Sistine Chapel ceiling. Obviously with scaffolding. This is valid for all paintings on ceilings and walls. Over the centuries, this painting has blackened due to dust and smoke particles and has only recently been restored. At that time, it was noticed that there had been changes over the centuries, namely by the introduction of clothes in the private parts of the characters represented.

However, these changes were very old, and they are also part of history, so they raised several philosophical problems concerning restoration. Finally, it was decided to keep these clothes. Similar problems arise with the statues, which in Greek and Roman times were mostly painted, and, of course, had arms and legs. We got used to seeing them mutilated and colorless and it would not be possible to accept such a radical “return to the past”, but I have already found museums where this recreation is done (with models, of course) and I found it very interesting.

In the Vatican, St. Peter's Basilica, the Sistine Chapel, and many other things are very interesting. But it is also interesting to think about the means, knowledge, number of people, and time involved. All these things took years to do and involved hundreds of workers. When we say that the pope, or a king, "did this", or "made that", we are summarizing what happened. And even when we say that an artist has "done something", we are often forgetting all the workers and apprentices involved, and the means used.

Almost on the way out, we found a window called “Vatican Pharmacy.” It's one more thing to attract tourists, but it's based on a historic achievement. There is a whole tradition of medicines and cosmetics discovered and made by the monks. I cannot resist quoting Prichett, from 1954, which I found in a book by Paul Theroux: “The tourist is part of our civilization, like the pilgrim in the Middle Ages.”

The Gallery of Modern and Contemporary Art surprised us by the arrangements between “new” and “old”, by the dialogues between the works, and even by the works themselves. We went there because we couldn't visit the Villa Borghese Gallery (tickets were sold out). We did, however, visit the gardens and walk around. I had already noticed the same thing in Florence, but I found the gardens to be quite poor in plant species, compared to the Portuguese ones. The hedges were, like those in Florence, cherry laurel, a poisonous plant for having amygdalin. Some say that it was this plant that adorned the heads of the Romans (“any problem, it was enough to eat a leaf”). I don't believe in this. We note, that there is a large set of myths and stories that have been installed.
And it's preconceived ideas that we don't usually think about. One of them would be the idea of ​​“vomiting”. The coliseum stairs “vomited people,” in a clear figure of style, unlike the general idea of “people vomiting” over the stair, and many others. In the modern art gallery, I took a lot of pictures, but here I can only share a few. In my opinion, we shouldn't just go and see the most famous things like the Trevi Fountain, the Pantheon, or the Sistine Chapel, but venture out to see other things, often by chance. I spent some time watching a 2020 film installation by Egill Sæbjörnsson, “From Magma to Mankind.” I found the idea very interesting. When watching the film, I reflected on the knowledge we have, but also on the one been lost, or is less known. Homemade magma is made by the heating and crystallization of bismuth. Those bluish-green crystals, with straight shapes, are spectacular. And they were sold in pharmacies for various ailments. How many of us, even chemists, know this? Many other things caught my attention, but I would like to mention two more: the colors of the rocks and the materials that Duchamp's famous urinal is made of. In Italy, I saw many black marble statues. I imagine that this marble incorporates a lot of carbonaceous materials that give rise to this color. It's the same as the blacks on the rocks on the sidewalks I think. The urinal seems like a trivial object, but how much technology does it contain? The white of tin oxide, the glaze, the earthenware that began as clay that, when fired, loses water and gains new irreversible chemical bonds. Yes, Duchamp is right. Deserves to be in the museum!

The visit to the Botanical Garden was short, but I noticed two things: the explanation of the vegetation in a pound and the beds of medicinal herbs. The explanation of the plants in the pound was very interesting in terms of scientific communication, but it was on the medicinal herb beds that I spent the most time. I could mention many things, but I found it very interesting that a plant (Centranthus ruber) is known here as “red valerian.” It is very common in Portugal, on walls and roofs and I already knew that it has more valerate than valerian itself, which is used as a tranquilizer.

This happens much more often than you think. A plant can be the origin of a molecule, but as we know its structure and properties, we can find it in other plants, measure it rigorously, modify it or obtain it synthetically, preventing the plant from becoming extinct, or using more economical and sustainable processes.

It would be impossible to summarize all the scientific aspects I noticed and reflected on. But this is what I have to say for now on a chemical tour of Rome, following the path of the “Grand Tour.” Then we'll go to Naples and Sicily.

[atualização com um novo parágrafo em 29 de agosto de 2022]