[Vou nesta entrada mostrar o que faço quando preparo os passeios químicos, usando como exemplo o Bombarral. Fui convidado para dar uma palestra no Agrupamento de Escolas Fernão do Pó desta vila e quando lá for irei tirar as fotografias para o texto e completar o passeio.]
Começo por fazer uma pesquisa geral acerca do local. Sobre a sua história, indústrias e gentes. Já sabia que a região do Bombarral era marcadamente vinícula e a “pêra rocha” era também um dos seus ex-libris. Em termos gerais poderei desde logo referir a química do vinho e das árvores de fruto e agricultura. Como já fiz isso outras vezes, noutros locais, não é difícil: o que é o vinho? Como é obtido? E o que rodeia a sua produção, assim como a da “pera rocha”? Isso é suficiente para uma abordagem básica, mas pode não chegar para fazer um trabalho mais profundo.
Na minha pesquisa dei conta de que ficava nesta vila uma instalação de Enotorismo: Herdade do Sanguinhal. Mas entretanto, numa outra pesquisa tinha aparecido “fábrica do Sanguinhal”. De que se trata? Uma das destilarias mais antigas de Portugal, segundo percebi.
Entretanto, fiz uma pesquisa de livros sobre o Bombarral nas bibliotecas a que tenho acesso. Aqui em Coimbra, temos a sorte de ter duas bibliotecas com depósito legal e as duas ficam no meu caminho. Trouxe de lá um livro técnico sobre a pera rocha e outro sobre a casa no Bombarral de Abel Pereira da Fonseca. Quem era? Foi o fundador da Casa do Sanguinhal e ficou conhecido como o “rei da tabernas”, tendo um impacto enorme na comercialização de vinho na primeira metade do século XX. Entretanto, era referido o primeiro congresso do vinho, no início do século, e lembrei-me que tinha uma revista “História” sobre isso e que me lembrava de uma frase que estava lá “Portugal já exportou vinho para fazer Bordéus”. Será que a frase era mesmo assim? Tenho de confimar, mas não sei onde está revista. Mas mesmo antes de confirmar posso fazer considerações de como a Química pode ser usada para relevar a autenticidade do vinho usando a Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Já tenho aqui dois temas que posso explorar em mais detalhe.
Ao mesmo tempo, exploro outros temas. Neste caso, o nome da Escola: quem era Fernão do Pó? Vi logo que era um navegador do século XV que deu o nome a uma ilha em África. Mas qual era a sua relação com a Escola? Há uma aldeia chamada Pó perto da vila, de onde este parece ter sido originário. Fiz um mapa para perceber o enquadramento. Por acaso estou a ler o livro de Howard W. French, Origem África, que frisa bem o enquadramento destas viagens, o papel das civilizações locais e o interesse dos portugueses em explorar a região e negociar ouro e escravos. Para mim isto não é novo, pois já tinha lido alguns trabalhos de Arlindo Manuel Caldeira que me deram uma visão diferente tanto da escravatura como das explorações portuguesas em África e por outras leituras tinha chegado a conclusões semelhantes, nomeadamente que o nível de civilização encontrado em África era muito maior do que a historiografia tradicional nos conta. Eu próprio também já escrevi sobre isso num outro contexto, num livro que está no prelo. Podemos encontrar ecos, por exemplo, em Os Lusíadas de Luís de Camões. Paradoxalmente, os africanos foram vítimas do avanço e organização das suas várias civilizações, mas também das fraquezas destas devido às lutas e interesses comérciais. O nível médio de escolaridade dos locais era muitas vezes maior do que o dos portugueses que chegavam. Os avanços na metalurgia e tecelagem eram também muitas vezes superiores. Curiosamente, as explorações de Fernão Pó são ainda perto das regiões com mais intensidade de comércio. Será assim, um pretexto para referir os descobrimentos, as navegações, a exploração africana, e, claro, os Lusíadas e a Química, agora com um enquadramento um pouco diferente.
No que concerne à “pera rocha” achei muito proveitoso e surpreendente ter lido um livro técnico sobre o seu cultivo. Como não poderia deixar de ser a Química está muito presente, mas a linguagem técnica é bastante diferente da usada normalmente em Química. Quando é referida a adubação, são indicadas as percentagens de elementos essenciais para as plantas pelos seus óxidos mais comuns. Assim, temos P2O5, K2O, CaO, MgO, SO3, mas há exceções como o nitrogénio que é indicado pelo elemento. Também os nomes podem ser ser enganadores (para um químico). Por exemplo, o superfostato de cálcio tem enxofre! Como? É produzido pela reação entre o fostato de cálcio (Ca3(PO4)2) e o ácido sulfúrico (H2SO4), resultando numa mistura equimolar de Ca(H2PO4)2.2H2O e CaSO4. Este é um caso é que era referido 8% de S (se fosse SO3 daria 21%), mas 18% de P2O5 e 16% de CaO (eu obtive 14%). Outros casos são o cloreto de potássio (KCl) que corresponde a 62% de K2O (eu obtive 63%) e pode, nalguns trabalhos, ser designado por um nome antigo: muriato de potássio. Outros exemplo podem ser considerados, mas dá para perceber como funciona. As pessoas desta área trabalham com os valores das percentagens dos óxidos que já referi, sendo o nitrogénio (em geral designado azoto) uma exceção. Assim, um adubo NPK (10-26-26) tem 10% de N, 26% de P2O5 e 26% de K2O.
Neste trabalho são referidos outros elementos como o boro e o zinco e também quelatos de ferro. Este últimos, apareciam designados pelas suas siglas EDDHA e EDDHMA. A primeira refere-se ao composto cujo nome em inglês é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-phenylacetic) acid, sendo que o segundo tem grupos metilo adicionais e é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-methylphenylacetic) acid, sendo bastante semelhantes a um composto mais conhecido dos químicos, o EDTA (etilenodiaminatetraacetato). Não vou entrar na discussão dos pesticidas que são propostos, em particular por o documento ter mais de 20 anos, e provavelmente alguns destes já foram retirados do mercado (as autorizações são provisórias podendo a todo o momento ser revogadas). Já na altura havia bastante cuidado com o seu uso e já era praticado o conceito de agricultura integrada. Houve um grupo de pesticidade que me chamaram a atenção, os reguladores e estimulantes de crescimento. Em particular, o cloreto de clormequat, que embora ainda esteja aprovado na União Europeia (UE), tem valores máximos de resíduos inferiroes a 0.4-0.5 partes por milhão, é interdito na cultura da pera. Já na altura se sentiam, e bem, os efeitos dos mercados que exigiam “zero” resíduos e que para evitar alguma questão era proibido simplesmente.
Muito surpreendente para mim foi o material usado para diminuir o pH do solo: enxofre. Como eu estava ainda a tentar perceber (e tinham alguma desconfiança em relação à "linguagem química" usada em agricultura), fiquei a pensar que "enxofre" seria um composto de enxofre, mas qual, pensei eu. Bem, é mesmo enxofre elementar que ao ser oxidado pelas bactérias do solo origina ácido sulfúrico!
Finalmente, no “meu curso rápido” deparei com a medição do teor de açucar usando um refratómetro portátil. Tive curiosidade em perceber como funcionava e percebi que havia, muitas vezes relação, uma relação linear entre concentração de açúcar (em geral medida em graus Brix, que correspondem ao percentagem de açúcar) e índice de refração. Daí a tentar perceber como o teor de açúcar leva à percentagem de álcool dos vinhos foi um passo rápido. Do que li, 17 g/L de glicose origina cerca de 1% de graduação alcooólica e que os graus Brix devem ser multiplicados por 0.55-0.60 para obter o teor alcoólico potencial.
Com se pode perceber pelo texto acima, a preparação dos passeios químicos envolve bastante investigação, mas é normal qualquer que seja o trabalho que procuramos fazer bem feito. Mesmo assim, estes podem ter ideias menos corretas (muitas vezes abordam temas muito vastos e afastados da minhas especialidade) e, claro, gralhas, as quais vão sendo corrigidas quando são descobertas.
Entretanto, no próprio local, vou encontrando outras coisas que não tinha previsto e que irei estudar. Muitas vezes abandono algumas das ideias iniciais que tinha, pois no local não as achei interessantes. Finalmente, muitos textos ficam a amadurecer bastante tempo (em Portugal, Figueira da Foz e no estrangeiro Maastricht, por exemplo), mas outros são escritos rapidamente.
Bibliografia
Albertino Cardeira, Alfredo Rodrigues, Amado da Silva, Délia Fialho, José Alexandre, Pedro Almeida. Caderno de encargos do produto “pêra rocha”: algumas orientações práticas. Cooperativa Agrícola do Bombarral, 2002.
Dóris Joana Santos. A casa de Abel Pereira da Fonseca no Bombarral. Câmara Municipal do Bom barral, 2009.
