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Passeio Químico nos museus de Anadia

[Fui com a Liga dos Amigos da Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra (LiBUC) ao Museu José Luciano de Castro e Museu do Vinho, em Anadia, e procurei estudar mais dois assuntos que me intrigaram. Esse texto resulta dessa procura de mais informação sobre eles.]

Em Anadia, a visita ao Museu José Luciano de Castro foi uma agradável surpresa. Por um lado, o interessante trabalho do Plano Nacional de Artes que levou os alunos das escolas locais a fazer as suas interpretações, muitas delas bastante boas, dos quadros e esculturas presentes e, por outro lado, as cópias das páginas de um livro de aguarelas que a Rainha D. Amélia editou em 1926, para reunir fundos para apoiar a luta anti-tuberculose. 

O livro de D. Amélia foi impresso em Paris em 1926 usando litografia. Foram feitos, se percebi bem, 250 exemplares, em excelente papel, os quais foram vendidos a preço desconhecido a mecenas, tendo o dinheiro obtido sido dado para a causa da luta antiberculose. Sobre a tuberculose, que só começou a ser curável nos anos 1940 com a estreptomicina, mas sobretudo nos anos1960, com o aparecimento da rifampina, já falei bastante vezes (mas, vejo agora, sempre circunstancialmente). Sobre a técnica da litografia, falei no Passeio Químico em Setúbal, mas não indiquei referências e, vejo também agora, que não a percebi completamente. Como em todas as coisas, é a prática e a revisão que trás o conhecimento mais profundo e completo. E, embora perceba, em termos químicos, a litografia, esse conhecimento é apenas geral sem o aprofundamento e a prática.

Como referi, a litografia é baseada na incompatibilidade entre a água e gordura (Jorge & Gabriel, 1986; Bigalhose, 1996) que origina vários tipos de fenómenos bem conhecidos. 

As cores das aguarelas e desenhos de D. Amélia foram cuidadosamente analisados e separadas em diferentes pedras litográficas que foram usadas para imprimir cada uma das cores. Desde o final do século XVIII que se conhece a técnica da quadricromia, segundo a qual a sobreposição de amarelo, ciano (um tom de de azul) e magenta, em diferentes quantidades, origina todas as cores. Se a estas cores juntarmos o negro, a impressão fica ainda com mais contraste. Mas não é garantido que as aguarelas da rainha D. Amélia tenham sido reproduzidas desta forma. Podem ter sido usadas mais do que quatro pedras litográficas, e as cores usadas podem ter sido diferentes. Por exemplo em (Meggs, 1998) é referido um exemplo em que são usadas cinco impressões com cores diferentes. 

Há uma grande diferença da litografia tradicional, mesmo usando quadricromia, em relação às técnicas modernas de impressão offset. Se for suficientemente ampliado uma imagem impressa por esta última técnica, notam-se os pontos descontínuos da imagem e as cores separadas e sobrepostas, mas em litografia tradicional não é assim pois cada cor pode ser contínua e na sobreposição não se nota esse efeito. A desvantagem da litografia é que cada pedra (podem também ser usadas outros suportes, ver. e.g., Bilhose, 1996) tem de ser preparada cuidadosamente e o processo é moroso e caro, incompatível assim com a comodidade e a rapidez da impressão offset.  

A técnica da litografia é especialmente boa para fazer reproduções de desenhos e aguarelas, pois as cores aparecem contínuas, os esbatidos e aguadas ficam perfeitos e podem ser usados papéis especiais, nomeadamente papel de aguarela. Um resultado disso, é que a impressão fica quase indistinguivel do original. Se forem aproveitadas as potencialidades da técnica – e muitos artistas modernos usam a litografia precisamente nesse sentido – podemos ter obras que são ao mesmo tempo de grande qualidade e que são originais reproduzidas em número limitado.   

Neste museu pode também encontrar-se uma interessante coleção de búzios, tendo eu notado com particular atenção os que eram usados para obter o púrpura de Tiro. Nestes, o molusco quando vivo, tem uma glândula que produz pequenas quantidades do corante, que uma vez extraído era usado para tingir tecidos valiosos. Encontramos referências a este processo de tingimento e ao búzio em Os Lusíadas de Camões (Rodrigues, 2025). E refiro isto, para relembrar, mais uma vez, que este livro pode também lido como um testemunho do grau, muitas vezes elevado, de civilização que os portugueses encontraram em África, antes de o continente ser quase exaurido pela escravatura e colonialismo.  

A região de Anadia é pioneira na produção de vinho espumante tradicional, o qual é em geral um vinho branco feito a partir de uvas tintas, "Blanc de Noir" (Martins, 2025). Deve notar-se que nesse método tradicional é feita a filtração do mosto pois por mais suave que seja a prensagem há sempre alguma cor das cascas (a cor é dada pelas antocianinas presentes na casca das uvas) que fica, ficando o vinho rosado. Essa filtração era feita com bentonite (uma espécie de barro) e outros materiais, usando aparelhos que ajudavam à filtração ativa, podendo pelo menos uma delas ser vista no museu (na sala central está uma muito caraterística, pode ver-se num canto de uma das fotografias). Hoje em dia, são feitos vários vinhos espumantes de uvas exclusivamente brancas (penso que agora é a maioria) mas imagino também que continue a ser feita a filtração, mas de forma mais suave. Deve  notar-se que filtrações que retirem cores e cheiros, podem retirar também muitas vezes outros compostos relevantes para o aroma e o paladar. 

Atualmente, há mais procura por vinhos brancos, os quais exibem muito mais complexidade do que há uns anos atrás em que eram considerados, por muitos consumidores, como vinhos de segunda categoria. Há a ideia de que o vinho tinto, pode ser mais complexo, e de certa forma é verdade, mas se recuarmos a tempos anteriores ao século XX, o vinho branco era o mais requintado. Com as filtrações e outras operações, poderiam obter-se brancos muito mais límpidos e confiáveis do que vinhos tintos, os quais poderiam ter muito mais impurezas e ser alvo de muitas e variadas falsificações.       

Para se obter o gás (que é dióxido de carbono) na garrafa é estimulada uma segunda fermentação, colocando quantidades rigorosamente medidas de açucar de uva (glicose) e leveduras que no processo de fermentação produzem mais álcool e dióxido de carbono (Navarre, 1997). Curiosamente, o livro português clássico sobre a produção de vinho (Pato, 1992), tem poucas referências à produção de espumantes. 

Hoje em dia há uma grande quantidade de processos, inclusive alguns que não envolvem a adição de glicose, provavelmente deixando ficar alguma da inicial das uvas. Na Anadia, e em Portugal, é pioneira na investigação vinícula a Estação Vitivinícola da Bairrada, fundada em 1887.

Referências

Robin Bigalhose. Guia prático de Gravura. Editorial Estampa, 1996. 

Alice Jorge, Maria Gabriel. Técnicas de Gravura Artística. Livro Horizonte, 1986.

João Paulo Martins. "Blanc de Noirs: Quando as tintas viram brancas." Grandes Escolhas, Dezembro de 2025. Acessível em https://grandesescolhas.com/blanc-de-noirs-quando-as-tintas-viram-brancas/ (acedido em 15 de junho de 2026). 

Philip B. Meggs. A History of Graphic Design (3rd edition). Wiley, 1998.

Colette Navarre. Enologia – Técnicas de Produção do Vinho. Publicações Europa-América, 1997.

Otávio Pato. O vinho – sua Preparação e Conservação. Clássica Editora, 1992.

Sérgio P. J. Rodrigues. "Uma Perspetiva Interdisciplinar: A Química n’Os Lusíadas". Boletim da Sociedade Portuguesa de Química 49 177 (2025): 113-118. https://doi.org/10.52590/m3.p721.a30003009.

Preparação de um passeio químico

[Vou nesta entrada mostrar o que faço quando preparo os passeios químicos, usando como exemplo o Bombarral. Fui convidado para dar uma palestra no Agrupamento de Escolas Fernão do Pó desta vila e quando lá for irei tirar as fotografias para o texto e completar o passeio.]

Começo por fazer uma pesquisa geral acerca do local. Sobre a sua história, indústrias e gentes. Já sabia que a região do Bombarral era marcadamente vinícula e a “pêra rocha” era também um dos seus ex-libris. Em termos gerais poderei desde logo referir a química do vinho e das árvores de fruto e agricultura. Como já fiz isso outras vezes, noutros locais, não é difícil: o que é o vinho? Como é obtido? E o que rodeia a sua produção, assim como a da “pêra rocha”? Isso é suficiente para uma abordagem básica, mas pode não chegar para fazer um trabalho mais profundo.

 Na minha pesquisa dei conta de que ficava nesta vila uma instalação de Enotorismo: Herdade do Sanguinhal. Mas entretanto, numa outra pesquisa tinha aparecido “fábrica do Sanguinhal”. De que se trata? Uma das destilarias mais antigas de Portugal, segundo percebi. 

Entretanto, fiz uma pesquisa de livros sobre o Bombarral nas bibliotecas a que tenho acesso. Aqui em Coimbra, temos a sorte de ter duas bibliotecas com depósito legal e as duas ficam no meu caminho. Trouxe de lá um livro técnico sobre a pêra rocha e outro sobre a casa no Bombarral de Abel Pereira da Fonseca (Santos, 2009). Quem era? Foi o fundador da Casa do Sanguinhal e ficou conhecido como o “rei da tabernas”, tendo um impacto enorme na comercialização de vinho na primeira metade do século XX. Entretanto, era referido o primeiro congresso do vinho, no início do século, e lembrei-me que tinha uma revista “História” sobre isso e que me lembrava de uma frase que estava lá “Portugal já exportou vinho para fazer Bordéus”. Será que a frase era mesmo assim? Tenho de confimar, mas não sei onde está revista. Mas mesmo antes de confirmar posso fazer considerações de como a Química pode ser usada para relevar a autenticidade do vinho usando a Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Já tenho aqui dois temas que posso explorar em mais detalhe. Entretanto encontrei a revista. A frase não era, de facto, aquela, nem o contexto estava certo, mas estava correta a ideia de que Portugal exportou vinhos para Bordéus. Em 1885 e 1886, na sequência da epidemia de filoxera, os agentes de Bordéus compram todo o vinho que puderam em Portugal (Freire, 1997, p. 11), mas não é certo que fosse para "fazer Bordéus", muito provavelmente seria para abastecer as tabernas francesas sem indicação da origem. Este pequeno episódio sem importância, relembra que é necessário verificar todas as fontes e não confiar na memória.   

Ao mesmo tempo, exploro outros temas. Neste caso, o nome da Escola: quem era Fernão do Pó? Vi logo que era um navegador do século XV que deu o nome a uma ilha em África. Mas qual era a sua relação com a Escola? Há uma aldeia chamada Pó perto da vila, de onde este parece ter sido originário. Fiz um mapa para perceber o enquadramento. Por acaso estou a ler o livro de Howard W. French (2022), que frisa bem o enquadramento destas viagens, o papel das civilizações locais e o interesse dos portugueses em explorar a região e negociar ouro e escravos. Para mim isto não é novo, pois já tinha lido alguns trabalhos de Arlindo Manuel Caldeira (2013, 2024) que me deram uma visão diferente tanto da escravatura como das explorações portuguesas em África e por outras leituras tinha chegado a conclusões semelhantes, nomeadamente que o nível de civilização encontrado em África era muito maior do que a historiografia tradicional nos conta. Eu próprio também já escrevi sobre isso num outro contexto, num livro que está no prelo. Podemos encontrar ecos, por exemplo, em Os Lusíadas de Luís de Camões. Paradoxalmente, os africanos foram vítimas do avanço e organização das suas várias civilizações, mas também das fraquezas destas devido às lutas e interesses comérciais. O nível médio de escolaridade dos locais era muitas vezes maior do que o dos portugueses que chegavam. Os avanços na metalurgia e tecelagem eram também muitas vezes superiores. Curiosamente, as explorações de Fernão Pó são ainda perto das regiões com mais intensidade de comércio. Será assim, um pretexto para referir os descobrimentos, as navegações, a exploração africana, e, claro, os Lusíadas e a Química, agora com um enquadramento um pouco diferente.

No que concerne à “pêra rocha” achei muito proveitoso e surpreendente ter lido um livro técnico sobre o seu cultivo (Cardeira et al., 2002). Como não poderia deixar de ser a Química está muito presente, mas a linguagem técnica é bastante diferente da usada normalmente em Química. Quando é referida a adubação, são indicadas as percentagens de elementos essenciais para as plantas pelos seus óxidos mais comuns. Assim, temos P2O5, K2O, CaO, MgO, SO3, mas há exceções como o nitrogénio que é indicado pelo elemento. Também os nomes podem ser ser enganadores (para um químico). Por exemplo, o superfostato de cálcio tem enxofre! Como? É produzido pela reação entre o fostato de cálcio (Ca3(PO4)2) e o ácido sulfúrico (H2SO4), resultando numa mistura equimolar de Ca(H2PO4)2.2H2O e CaSO4. Este é um caso é que era referido 8% de S (se fosse SO3 daria 21%), mas 18% de P2O5 e 16% de CaO (eu obtive 14%). Outros casos são o cloreto de potássio (KCl) que corresponde a 62% de K2O (eu obtive 63%) e pode, nalguns trabalhos, ser designado por um nome antigo: muriato de potássio. Outros exemplo podem ser considerados, mas dá para perceber como funciona. As pessoas desta área trabalham com os valores das percentagens dos óxidos que já referi, sendo o nitrogénio (em geral designado azoto) uma exceção. Assim, um adubo NPK (10-26-26) tem 10% de N, 26% de P2O5 e 26% de K2O. 

Neste trabalho são referidos outros elementos como o boro e o zinco e também quelatos de ferro. Este últimos, apareciam designados pelas suas siglas EDDHA e EDDHMA. A primeira refere-se ao composto cujo nome em inglês é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-phenylacetic) acid, sendo que o segundo tem grupos metilo adicionais e é ethylenediamine-di(o-hydroxy-p-methylphenylacetic) acid, sendo bastante semelhantes a um composto mais conhecido dos químicos, o EDTA (etilenodiaminatetraacetato). Não vou entrar na discussão dos pesticidas que são propostos, em particular por o documento ter mais de 20 anos, e provavelmente alguns destes já foram retirados do mercado (as autorizações são provisórias podendo a todo o momento ser revogadas). Já na altura havia bastante cuidado com o seu uso e já era praticado o conceito de agricultura integrada. Houve um grupo de pesticidade que me chamaram a atenção, os reguladores e estimulantes de crescimento. Em particular, o  cloreto de clormequat, que embora ainda esteja aprovado na União Europeia (UE), tem valores máximos de resíduos inferiroes a 0.4-0.5 partes por milhão, é interdito na cultura da pêra rocha. Já na altura se sentiam - e bem - os efeitos dos mercados que exigiam “zero” resíduos. Assim, para evitar alguma questão este composto era proibido simplesmente. 

Muito surpreendente para mim foi o material usado para diminuir o pH do solo: enxofre. Como eu estava ainda a tentar perceber (e tinham alguma desconfiança em relação à "linguagem química" usada em agricultura), fiquei a pensar que "enxofre" seria um composto de enxofre (mas qual? pensei eu). Bem, é mesmo enxofre elementar que, ao ser oxidado pelas bactérias do solo, origina ácido sulfúrico!  

Finalmente, no “meu curso rápido” deparei com a medição do teor de açucar usando um refratómetro portátil. Tive curiosidade em perceber como funcionava e percebi que havia, muitas vezes, uma relação linear entre concentração de açúcar (em geral medida em graus Brix, os quais correspondem à percentagem de açúcar) e o índice de refração. Daí a tentar perceber como o teor de açúcar leva à percentagem de álcool dos vinhos foi um passo rápido. Do que li, 17 g/L de glicose origina cerca de 1% de graduação alcooólica e que os graus Brix devem ser multiplicados por 0.55-0.60 para obter o teor alcoólico potencial. Boa! Não tinha pensado em chegar a esta dúvida, mas ainda bem que a esclareci.

Como se pode perceber pelo texto acima, a preparação dos passeios químicos envolve bastante investigação, mas é normal qualquer que seja o trabalho que procuremos fazer bem feito. Mesmo assim, estes podem ter ideias menos corretas (muitas vezes abordam temas muito vastos e afastados da minhas especialidade) e, claro, gralhas, as quais vão sendo corrigidas quando são descobertas.  

Entretanto, no próprio local, vou encontrando outras coisas que não tinha previsto e que irei estudar quando puder. Muitas vezes abandono algumas das ideias iniciais que tinha, pois no local não as achei interessantes. Finalmente, muitos textos ficam a amadurecer bastante tempo (em Portugal, Figueira da Foz e no estrangeiro Maastricht, por exemplo), mas outros são escritos rapidamente. 

Bibliografia

Arlindo Manuel Caldeira, Escravos e Traficantes no Império Português. O comércio negreiro português no Atlântico durante os Séculos XV a XIX, Esfera dos Livros, 2013.

Arlindo Manuel Caldeira, O Apelo da Liberdade, Casa das Letras, 2024.

Albertino Cardeira, Alfredo Rodrigues, Amado da Silva, Délia Fialho, José Alexandre, Pedro Almeida. Caderno de encargos do produto “pêra rocha”: algumas orientações práticas. Cooperativa Agrícola do Bombarral, 2002.

Dulce Freire. Retrato(s) de um país vinícula. História, XIX(35) 6-18, 1997. 

Howard W. French. Origem África. Bertrand, 2022

Dóris Joana Santos. A casa de Abel Pereira da Fonseca no Bombarral. Câmara Municipal do Bom barral, 2009.

Passeios Químicos no Sul de Itália

[Como tenho feito noutros anos, aproveitei as férias que fizemos no Sul de Itália, em particular na Puglia, para referir alguns aspetos químicos em que reparei. Fiz uma pesquisa inicial, mas fui complementando o passeio com outras reflexões que localmente fui fazendo. Não consegui colocar todas as fotografias que tinha para ilustrar este texto, nem sequer coloquei as melhores (acho eu), mas procurei colocar as que estavam mais relacionadas com o que escrevi.]

Bari é para um químico italiano, um nome muito curioso, pois é a mesma palavra usada para o elemento químico 56, o bário. Chegamos a esta cidade ao fim do dia e havia muita animação na rua e um caos de estacionamento. Nas ruas junto ao mar, os carros estavam em segunda fila e havia carros estacionados por todo o centro histórico, com as as praças e ruas cheias de pessoas. Mas tudo isso se esfumou magicamente pela meia-noite, ficando a cidade muito calma. 

Um dos aspetos que tinha investigado, foi o acidente com armas químicas que aconteceu em 1943, no porto de Bari, durante a Segunda Guerra Mundial. Um navio americano com gás mostarda foi bombardeado pelos alemães, originando cerca de cem vítimas devido ao gás. O incidente foi mantido secreto pois as armas químicas estavam proibidas durante a Guerra e os americanos disserem publicamente que só as usariam como retaliação em relação ao uso de armas químicas por parte dos alemães (Scorrano, 2015). Curiosamente, o gás mostarda está também associado ao início da quimioterapia (Scorrano, 2015). Não procurei, nem encontrei, qualquer referência a isso, mas uma visita ao museu local mostrou-me, o que depois fui verificando: que quase não há referências à Segunda Guerra Mundial, mas há muitas (neste museu havia) à Primeira Guerra Mundial.

É costume evocar a ideia (estafada) da desorganização italiana e das diferenças entre o Norte e o Sul, que os “semáforos são obrigação em Milão, sugestão em Roma e decoração em Nápoles”, etc. Não é verdade, as pessoas são semelhantes à partida, simplesmente, o Sul tem estado na periferia e abandonado à sua sorte e aos seus problemas. No meio da beleza da paisagem, da tolice e do génio, iremos encontrar alguns problemas horríveis e muitas soluções fantásticas em que a generalidade dos turistas não repara (e eu estou a incluir-me nesse conjunto), mas também a generalidade dos italianos. Ao longo do passeio, irei referindo algumas ligadas à química em que reparei, mas tenho a consciência que há muitos mais em que não reparei.  

De Bari seguimos para Polignano a Mare, Monopoli (sim, o nome é idêntico ao do jogo) e Alberobello. Há povoações muito bonitas, com praias fantásticas de águas muito azuis e mornas (a temperatura da água variava entre 25 e 27ºC). Fomos a uma praia no Polignano a Mar, julgo que Lama Monaquile, que é de rochas e tem uma ponte muito interessante. Foi aqui que reparei pela primeira vez nas rochas calcárias esburacadas e rendilhadas. Iremos encontrar esse efeito de várias maneiras ao longo da viagem.

Polignano a Mare é uma povoação típica desta parte do país, muito organizada no que concerne ao trânsito e estacionamento. Reparei no monumento relativo à Primeira Guerra Mundial, mas onde havia também uma placa relativa aos soldados mortos em missões de paz atuais, e numa caldeira que usa gás natural (essencialmente metano) para aquecer a água.  Depois encontrei “Metano” escrito em bombas de gasolina. Depreendi que têm bastantes carros movidos a gás natural. A combustão do metano (CH4) liberta um pouco de menos de dióxido de carbono do que os combustíveis normais e é mais limpa, mas, além de continuar a produzir CO2, exige depósitos de gás que aceitem até cerca de 160 atmosferas.     

Monopoli é uma povoação lindíssima, mas reparei em duas chaminés muito altas na zona portuária. O que eram? Verifiquei que era uma antiga fábrica de cimento abandonada que várias organizações têm tentado requalificar. E aproveito para fazer um aparte. Eu “não procuro só as coisas feias” como já fui acusado, mas não deixo de as ver. Eu reparo e valorizo muito as belas, mas entendo que as “menos belas” fazem parte da realidade humana e que, de certa forma, são também belas. Partilho do aforismo atribuído a John Constable de que “nunca vi uma coisa feia na minha vida” e concordo com o que é atribuído a Coco Chanel de que “nada é feio se estiver vivo”.      

Alberobello é a famosa povoação dos Trulli (Trullo no singular) (Conte, s.d.) que são casas de pedra com telhado cónico, também de pedra, as quais eram originalmente construídas sem ligante entre as pedras, havendo várias versões, mais ou menos lendárias, sobre a sua origem. Muitas destas têm a ver, claro, com miséria e condições locais, mas também com a invenção humana. Uma coisa que me chamou a atenção foi as diferenças de cor entre telhados e as paredes exteriores. Como alguns telhados estavam ao alcance pude verificar que o tom mais escuro era devido aos fungos que crescem nas rochas e que, por outro lado, o branco das paredes se devia provavelmente a estas serem pintadas ou caiadas. É uma povoação cada vez mais turística, com exposições dos “verdadeiros trulli” (ver mais à frente), artesanato relacionado, etc.  


Foi aqui que reparei numa planta que identifiquei como sendo alcaparras (Capparis spinosa) cujos botões das flores são postos em vinagre e por vezes uso nos meus pratos. Nunca imaginei que era isso e que a planta era tão comum aqui, crescendo nos muros. 

Entrei, por acaso, numa loja de vinhos que estava vazia e o dono achou que teria “capturado” um bom cliente e fechou a porta. Os vinhos eram caríssimos e senti que entrei numa “armadilha para turistas” mas acabei por provar um vinho (que nem achei grande coisa – tendo depois bebido num restaurante um de muito melhor qualidade) de uma casta de que nunca tinha ouvido falar: “Primitivo”. 

Trata-se de uma casta tinta que dá origem a vinhos complexos e caraterísticos que podem ter graduações em etanol altas (vi num supermercado 15% - volume de etanol em volume de água) muito cultivada aqui e que tem a caraterística principal de amadurecer mais cedo (daí o nome). Depois reparei em extensões enormes de vinhas desta variedade, com uvas que já pareciam maduras. Como é conhecido, o vinho é obtido da fermentação da glicose das uvas, originando etanol, sendo parado o processo antes de atingir o seu fim que é a produção de ácido acético.
Dito assim, parece simples, mas a produção de vinho envolve muitos outros aspetos que já aflorei antes. A denominada graduação é uma percentagem de volume em volume de etanol em água. Eu costumo fazer com os alunos do primeiro ano uma aula antes da Festa das Latas em que estimamos as concentrações e discutimos, sem moralismos as questões da segurança, e outros aspetos científicos relacionados com o consumo de álcool (quem quiser saber mais pode ler o artigo que escrevi sobre o assunto, Rodrigues, 2022). Uma nota sobre o “Primitivo Branco”. No restaurante a que fomos, pedimos vinho a copo, e quem nos atendeu referiu essa possibilidade. Nós escolhemos um copo de “Primitivo” clássico e outro de “Primitivo Branco”. Entretanto, eu não encontrei nos supermercados a versão branco, tendo só encontrado o rosé. O branco só seria possível a partir de uvas tintas com aplicação de uma técnica de bica aberta. Nesta forma de fazer vinho, o sumo é separado das cascas que são a fonte das antocianinas responsáveis pela cor.     

De Alberobello fomos dormir em Locorotondo, encantadora localidade com um centro histórico de forma muito redonda e com casas muito brancas. Notava-se que essa beleza e organização era conseguida com muita manutenção. A localidade é notável também pelo cultivo dos aspetos culturais e históricos. Trouxe de lá uma monografia local que tem um interessante artigo sobre o Trullo de Marziolla (Lillo & Cevellera, 2024), que é uma das mais antigas construções deste tipo, não tendo cimento a unir as pedras, e não sendo tão pronunciada a diferença entre as cores das paredes e telhado (nas fotografias que vi). Está situado numa propriedade privada e não fomos lá. 

É notável a construção de muros e paredes de pedra que permite a condensação da água que está na atmosfera. Nas zonas secas isso é fundamental para as plantas e também para as pessoas. Nesta região há centenas de quilómetros de muros e parece tratar-se de uma técnica tradicional com muito interesse (mais à frente, ao referir Matera, chamo atenção para o facto de isso ser também reconhecido na atribuição do estatuto de Património da Humanidade). Ao meditar sobre isto, pergunto-me se não será esse fenómeno que torna as casas com paredes grossas de pedra mais frescas, da mesma forma que a água fica fresca nas bilhas de barro, em vez da usual explicação da capacidade térmica. Depois da condensação da água nas pedras, a sua lenta evaporação com o calor, pode contribuir para o arrefecimento, uma vez que a evaporação é um fenómeno endotérmico. 

Estima-se que existam na Puglia cerca de 60 milhões de oliveiras, 15 milhões destas com mais mil anos, estando, atualmente, cerca de 10% doentes, atacadas por Xyllela fastidiosa, a qual é uma bactéria que, não tendo impacto na qualidade do azeite, pode causar a morte da árvore. Este número impressionante de oliveiras reflete-se em extensões enormes com esta árvore. No século XIX, algumas pessoas ficaram muito ricas com a venda de azeite para iluminação a países como a Grã-Bretanha. Deve notar-se que antes do aparecimento do petróleo e da eletricidade e com o desenvolvimento de candeeiros que produziam muitas luz à custa do uso intensivo de óleo, provocou este aumento de procura muito grande. Paralelamente, desenvolveu-se a caça às baleias pelo óleo que se obtinha. 

Não há tratamentos eficazes contra a Xyllela fastidiosa, embora desde há vários anos sejam estudados métodos para a combater. Vi um trabalho que me pareceu muito interessante com óleos naturais. Os inseticidas, para o inseto vetor, são uma outra possibilidade, por vezes evocada, mas provavelmente pouco eficaz. Outra possibilidade é o cultivo de variedades ou híbridos mais resistentes, mas isso não resolve o problemas das oliveiras milenárias.

O alerta foi dado em 2013 e, em 2015, teve início um processo judicial insólito contra 10 cientistas acusados de “criar a doença”. Eu tinha nos meus arquivos vários artigos sobre esta questão (inclusive um artigo da revista Nature), datados de 2015, pois pareceu-me, na altura, muito importante e crítica a questão. Fui agora consultar esses artigos e ver o que aconteceu depois. Já em 2015, apontava-se para que a acusação fosse infundada e, mais do que isso, absurda, mas só em 2019 o caso foi arquivado. Segundo percebi, estava em causa um conjunto de questões, desde a doença ser, ou não, considerada endémica ou recente (sobre isso parecia que estava a ser chegado a acordo com os peritos da acusação em 2015). 

Neste contexto, é preciso notar que uma doença ser considerada endémica e antiga ou recente tem efeitos completamente diferente, sendo que no segundo caso leva a restrições e quarentenas que teriam efeitos devastadores na economia da região. Por outro lado, havia na altura (e penso que ainda hoje) acusações de pressão imobiliária e a recusa intransigente do uso de inseticidas, etc. Sobre os trabalhos e resultados científicos que serviram de base ao processo, vale a pena refletir, mesmo sendo estes maioritariamente da área da Biologia. Os dados brutos analisados pelas diferentes equipas apontavam para várias sub-espécies e variedades da bactéria e foram muitas vezes interpretados de formas diferentes, corrigidas e alteradas as análises. É assim que funciona a ciência, mas chegar a tribunal é um caso extremo.  

Da observação das oliveiras milenárias que há na região, fomos para Ostuni, conhecida como a cidade branca. A pressão turística é muito grande e eu espero que a Locorotondo, sendo muito mais cuidada, não lhe aconteça o mesmo. E isso é possível, com ganhos para todos, como referirei a propósito de Matera. A localidade é interessante, com vistas até ao mar nas quais se veem os campos com oliveiras e vinhas, mas também indústrias. Via Google Maps identifiquei uma de produção de plásticos e outra de processamento de azeite. 

Fomos dormir a Lecce, cidade que é uma agradável surpresa. Trata-se de uma cidade cosmopolita muito bonita, com imensos atrativos. É especialmente, interessante a pedra branca esculpida pelo tempo que faz notáveis rendilhados para acrescentar aos já complexos, e barrocos, iniciais. Na Basilica di Santa Croce, uma beleza incrível do barroco local, que tinha ar de ter sido restaurada recentemente, é feito uma notável integração desse efeito. Vale a pena ficar a olhar para os pormenores da sua fachada, onde se encontram aspetos que parecem hoje bastante bizarros, explicados detalhadamente aqui (Leccenelsalento.it, s.d.). 

A pedra era para mim um problema, pois parecia por vezes um calcário (essencialmente CaCO3) mole de grão grosso (um pouco como a pedra de Ançã, mas mais mole e granuloso) ou outras um arenito muito fino (essencialmente SiO2) e não tinha forma fácil de o testar (lembrei-me agora que com vinagre talvez o conseguisse). Mas, obviamente, a ciência é acumulativa e construída sobre o conhecimento já obtido e centenas ou milhares de pessoas já fizeram essa pergunta. Várias páginas indicaram-me que é sem sombra de dúvida um calcário, que ficou conhecido como o “mármore dos pobres”. 

Outra coisa que me fascinou foram as pedras que pareciam novas, mas eram simplesmente as pedras antigas cobertas com um cimento de uma cor e uma textura, provavelmente feito de pó de rocha, que parecia ser uma rocha nova. E muitas vezes para a integração visual fosse mais harmoniosa  eram picadas as aplicações novas.  

Em Lecce reparei pela primeira vez noutro produto turístico: uma loiça em formato de balão, com um fio, que os vendedores associam a este objeto. Na minha opinião trata-se de uma ideia bastante paradoxal, pois a densidade da loiça (cerca 1.8 g/mL) é muito superior à do ar (cerca 1.4 g/L) e mesmo à da água (cerca de 1 g/mL). Mas a imaginação deve ser valorizada e, pensando bem, pode ser um paradoxo interessante, ter um balão que de maneira nenhuma se eleva nos ares sem a nossa ajuda. Mais à frente, no entanto, numa feira local vi queijo Caciocavallo, que tem precisamente o mesmo formato, mas ao contrário: uma bolsa redonda pendurada por um fio. Não sei se há alguma relação, mas achei muito curioso. 

Com sede em Lecce formos à gruta da poesia, para onde, supostamente, poderíamos saltar (tínhamos visto muitas fotografias sobre isso). O meu filho mais novo, de forma sensata, perguntou “e como é que saímos de lá?”. Vimos que havia umas escadas de pedra, mas era proibido saltar. Acabámos por ir a um sítio ao lado (cerca de 200 metros) bastante parecido, onde, embora não se devesse saltar podia-se entrar, que tinha umas escadas de ferro. A água como de costume estava com uma excelente temperatura. A salinidade aqui é relativamente elevada (36-38 g de sais por quilograma de água do mar), sendo que o valor típico é de 35 g/kg, ou seja cerca de um quilograma de água da mar, tem 35 gramas de sais dissolvidos.  

No mapa do local reparei que havia uma gruta denominada “da bauxite”, mas não fui lá. A bauxite  é o mineral de onde se extrai a alumina (Al2O3) para obter alumínio por eletrólise deste material fundido. Mas para baixar a temperatura de fusão, usar-se o mineral criolite (Na3AlF6) que é extremamente raro e foi minerado até à extinção, em 1987, na Groenlândia (Öhrström, 2012). Este mineral continua a ser usado, mas é agora obtido de forma sintética a partir de fluoreto de cálcio (CaF), sulfato e cálcio (CaSO4) e hidróxido de alumínio (Al(OH)3).     

Otranato foi outra encantadora povoação que visitámos e onde almoçamos. Foi aqui que mais uma vez alarguei os meus horizontes culinários com a sugestão de um pesto de limão e laranja que dava um sabor delicioso à minha salada.
No porto, estava ancorado um navio que tinha escrito Gold Energy, e que segundo o meu filho, era de nacionalidade norueguesa. Parecia-me um navio de apoio às plataformas petrolíferas, e confirmei depois que era.

Em Galatina, visitámos a basílica de Santa Catarina de Alexandria. Trata-se de uma igreja do século XIV que está toda coberta de frescos. Como em toda a região, há muita influência dos Normandos, que em conjunto com as tradições locais, geram resultados muito interessantes. Mas o aspeto mais interessante, estava para vir. Em Galatina, quase por acaso, comprei um livro (Conesa, s.d.) sobre as tradições da dança terapêutica após a picada de uma tarântula e percebi, finalmente, as pandeiretas, fitas, e outros objetos turísticos, que encontramos em todo o lado nesta região. Inicialmente, pensei que tratava de um dos fenómenos de alucinação coletiva que ficaram associados a danças sem parar. Não, era o caso. Trata-se de um fenómeno muito mais antigo e diferente. Num mundo rural incerto e perigoso, as picadas das tarântulas, que raramente são fatais, e as mordeduras de cobras, originavam fenómenos de torpor e dor intensa para os quais não havia tratamento.
Quase só restava a fé e a água benta que, desencadeando a libertação de endorfinas, servia de alívio e possibilidade de melhoria. Depois apareceu a música e os rituais. Os músicos procuravam o “tom certa da tarântula” com rápidas variações de ritmo, levando o paciente (quase sempre uma mulher jovem) a dançar, contribuindo assim, supostamente, para o alívio e a mais rápida recuperação, sendo por outro lado a cerimónia mágico-religiosa conduzidas por mulheres. O livro é interessante, também pelas fotografias.

Fizemos um pouco de praia na Torre de Santo Andrea, que tem uma excelente paisagem circundante e está muito organização em termos de estacionamento (pago, claro). Fomos de seguida à praia de Santo Isidro, que tem torres de ambos os lados (todas as praias que vimos aqui têm torres, e nalgumas vimos aquilo que pareciam  bunkers, provavelmente ainda da Segunda Guerra Mundial), onde almoçamos. Seguimos em seguida para Porto Servaggio, que fica numa reserva natural. Vamos a pé cerca de dois quilómetros para chegar à praia pelo meio de pinhais cheios de cigarras a cantar, mas vale a pena.

A caminho de Nardò, onde íamos dormir, passámos por Brindisi, mas quase não parámos. Trata-se de uma cidade que parece pouco bonita, infelizmente, talvez em parte devido ao desenvolvimento industrial, em particular químico, e ao aeródromo militar. Falarei um pouco mais desta relação pouco virtuosa com a indústria mais abaixo, mas queria desde já referir esses aspetos. Pois deveria ser precisamente ao contrário. O desenvolvimento industrial deveria estar associada às mais belas paisagens artificiais e procurar a melhor qualidade do ar, água e solo, numa busca de sustentabilidade permanente e genuína (evitando o greenwashing) para que a generalidade das pessoas se sentisse bem com ele, uma vez que muito produtos obtidos se tornaram necessários. 

Daqui seguimos para Matera, tendo passado perto de Taranto (onde não parámos) que é uma cidade portuária. Notava-se da estrada que era também uma cidade muito industrial. Mas o que achámos mais impressionante foi uma cobertura metálica fechada e enorme. O que estaria debaixo? Depois de alguma pesquisa verificámos que cobria as escórias da antiga siderurgia e ocupava uma impressionante área equivalente a 56 campos de futebol (700 metros de comprimento por 254 metros de largura) com 77 metros de altura no ponto mais alto. Embora tivesse custado cerca de 370 milhões de euros, ajudou a resolver o problema das poeiras contaminadas que eram levadas pelo vento e pensa-se que será uma solução para outros lugares de mineração a céu aberto (Ricapito & di Taranto, 2018). 

Em Matera sentia-se bastante serenidade e a cidade não era ferozmente turística como outras cidades que visitámos, mas por outro lado, eu senti-me bastante turista. A cidade ficou famosa por terem sido aqui filmados o “Evangelho Segundo São Mateus” de Pasolini e "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson. Trata-se de uma das cidades mais antigas da humanidade ainda com pessoas, comparável com Aleppo e Jericó. O documentário, de 2019,  “Mathera”, de Francesco Invernizzi, dá uma ideia do que os turistas não veem ou nem reparam com atenção. 

Os Sassi, as grutas mais famosas habitadas, eram habitações miseráveis com só uma porta onde vivia toda a família e os animais. Mas algumas dessas grutas tinham frescos com mais de mil anos. Nos anos 1950, todo o espaço antigo estava em ruínas e pensou-se acabar com ele, ou, então, cinicamente (como diz Raffaello de Ruggeri, na altura presidente da Câmara da Cidade), para "mostrar como se vivia antigamente". Mas não se evoluiu nesse sentido. Houve um movimento de recuperação, começaram a ser encontradas capelas em grutas com frescos e o lugar foi classificado como Património da Humanidade pela Unesco.

Eu tinha-me perguntado como obtinham a água, pois o rio ficava muito abaixo e o documentário é muito claro sobre isso. Uma das maravilhas de Matera é o seu extraordinário sistema hídrico que envolve cisternas para recolher a água da chuva e condensação e conduzi-la para as grutas e para chafarizes. A declaração da Unesco também valorizou isso.

Tivemos de voltar a Bari e decidimos ir para Norte, para o Monte de Sant'Ângelo, onde fica um interessante santuário de São Miguel, numas grutas, respeitante a aparições deste anjo no século V. Curiosamente, (vi depois) há uma relação forte deste santurário com o muito conhecido Monte Saint Michel, em França. Mas antes formos à praia! Na direção da praia de Punta Rosa, reparei numa grande fábrica de vidro plano na cidade de Manfredonia. Como já referi várias vezes, este material é solidificado sobre estanho liquido para obter vidro plano de grandes dimensões. Depois, na volta, ao descer da Floresta Umbra para a costa, reparei numa enorme pedreira a céu aberto. Alguma pesquisa, levou-me a encontrar outras industrias, mas não explorei muito o assunto.

Paradoxalmente, dada a riqueza que parece criar e a necessidade extrema de cuidados, depois de um acidente muito grave de 1976, Manfredonia apresenta atualmente uma paisagem urbana desqualificada (pelo menos na parte que eu vi). No acidente, uma quantidade estimada entre 12 e 39 toneladas de um aerossol de arsénio (segundo um trabalho que li, K3AsO3 e HAsO3), usado numa chaminé de produção de amoníaco,  foi libertado para a atmosfera, caindo num espaço de 15 km2. Mesmo que o número fosse muito mais pequeno, tratar-se-ia igualmente de um acidente muito grave. 

Morreram logo muitos animais e várias pessoas ficaram gravemente envenenadas. Segundo li, começou-se por desvalorizar e esconder o problema, houve algumas medidas de mitigação, como oxidar o arsénio para compostas mais insolúveis, mas, para uma comunidade que vivia essencialmente da agricultura e da pesca, foi devastador. Agora o local está indicado como sendo uma região de preocupação nacional, mas, sinceramente, não se nota. A circulação rápida pela cidade que fizemos revela um ambiente desqualificado, como já referi, com ruas esburacadas, prédios sujos, mal pintados e desorganizados, sinais e marcas e trânsito apagados, sem espaços verdes, etc. As praias são todas Lido (que para quem não sabe são a versão paga de praia – não temos isso em Portugal) com estacionamento algo caótico. Ao lado fica uma zona húmida pantanosa que faz parte do Parque do Gargano e que bem poderia ser mais valorizada.

Este acidente tem, entretanto, sido muito estudado, tanto em termos da segurança e política industrial como epidemiológicos (Liberti & Palemio, 1981; Mangia et al., 2018; Staso et al., 2024). O que salta à  vista é o desconhecimento que ainda hoje temos do que aconteceu realmente (os três artigos científicos que cito, indicam valores bastante diferentes das quantidades e dos compostos envolvidos), assim como a ligeireza com que o problema foi tratado pelas autoridades, inserido-se em problemas mais vastos (Barca, 2010) . Não pode nem deve ser assim, como já referi. As cidades não têm de ser feias só porque são industriais, nem por serem industriais têm de ser feias. Muitos dos produtos  são fundamentais para a nossa vida, mas isso não implica que sejam produzidos em condições insalubres. Os custos disto, são muito maiores do que os da segurança e da estética. Ao provocarem desconfiança justificada, quando se procura instalar uma mina ou fábrica perto de nós, estas acabam por ir parar ao locais mais pobres e com menor poder de revindicação, perpetuando a situação.

Gostaria de acabar com a Floresta Umbra. Trata-se de uma floresta essencialmente de bétulas que tem na sua base alguns azevinhos, gilbardeiras e poucas mais espécies que conseguem resistir à sombra (daí o nome) causada por estas árvores. Havia um lago muito bonito, uma cerca com veados e um pequeno mercado de produtos locais (foi neste que vi o queijo). Uma boa parte das árvores estavam atacadas por trepadeiras que quase sempre levam à morte da árvore hospedeira, penso que por enterrarem fundo as suas raízes (a natureza não é boa em si: é como é). Por isso, muito troncos das trepadeiras estavam cortados (para mantermos o ambiente que queremos, temos de fazer algumas intervenções). 

Quando chegámos, pelas dez horas da manhã, havia muito poucos carros. Entretanto, seguimos um percurso pedonal com cerca de sete a dez quilómetros, tendo só encontrado pelo caminho um casal com um cão. Mas, quando voltámos (fazendo outros sete a dez quilómetros, pelo menos), agora pela estrada, o local estava cheio de carros. Pelo caminho fui reparando que a maioria das rochas era de um material que parecia ter um interior de silex, mas tinha várias camadas e só as rochas partidas evidenciavam isso. 

Há imensas coisas para fazer e ver na Puglia, mas sobretudo o que está bem ou mal faz-nos pensar em nós. Toda a viagem é também uma viagem interior, de alguma forma. Havia por vezes lixo a mais nas ruas e autoestradas. Mas estavam mais limpas as estradas de vegetação. Se, no primeiro caso, é uma questão de civismo e organização, no segundo também. Havia praias e locais lindíssimos que tinham ao lado a maior desorganização e estadas esburacadas e sujas para lá chegar, mas havia sítios extremamente organizados e limpos. Não é uma fatalidade, os sítios organizados e limpos, podem ultrapassar os lugares desorganizados e sujos, tanto no Sul de Itália, como em Portugal, com trabalho, dedicação, atenção e consistência. Se virmos imagens antigas da Suécia, Islândia, ou de outros lugares que hoje nos parecem paradisíacos, vemos que a mudança é possível.   

Referências

Stefania Barca (2010), Pão e veneno : reflexões para uma investigação sobre o ‘ambientalismo do trabalho’ em Itália, 1968-1998, Laboreal 6(2). https://doi.org/10.4000/laboreal.8590

Gianfranco Conese (s.d.). La Tarantate a Galantina. Società Operaia di Sccorso, Galantina.

Antonio Conte (s.d.). Trullo di Marziolla. https://www.atlasobscura.com/places/trullo-di-marziolla (acedido a 14 de agosto de 2025)

Leccenelsalento.it (s.d.). Basilica di Santa Croce. https://www.leccenelsalento.it/basilica-s-croce/ (acedido a 14 de agosto de 2025)

Lars Öhrström (2012), Cryolite, May 2012, https://www.chemistryworld.com/podcasts/cryolite/3005746.article (acedido 18 de agosto de 2025).

L. Liberti, M. Polemio (1981), Arsenic accidental soil contamination near Manfredonia. A case history, Journal of Environmental Science and Health . Part A: Environmental Science and Engineering 16 (3) 297-314. https://doi.org/10.1080/10934528109374983

Antonio Lillo e Zelda Cevellera (eds.) (2024) Locorotondo. Rivista di Economia, Agicoltura, Cultura e Documentatione della Valle d’Itria 59, agosto de 2024. 

Cristina Mangia, Marco Cervino, Emilio Antonio Luca Gianicolo (2018), Arsenic contamination assessment 40 years after an industrial disaster: measurements and deposition modeling, Air Quality, Atmosphere & Health 11, 1081-1089. https://doi.org/10.1007/s11869-018-0610-4

Vittorio Ricapito (2018). Ilva di Taranto, al via la copertura dei parchi minerari. Emiliano contro il governo: "Danni gravissimi". La Repubblica – Bari, 1 de fevereiro de 2018. https://bari.repubblica.it/cronaca/2018/02/01/news/ilva_al_via_copertura_parchi_minerali_ilva_emiliano_dal_governo_danni_gravissimi_-187812116/ (acedido 16 de agosto de 2025)

Sérgio P. J. Rodrigues (2022), Ethanol in class and at home: guided inquiry-based learning, 8th International Conference on Higher Education Advances (HEAd'22), Valencia. https://doi.org/10.4995/head22.2022.14411

Gianfranco Scorrano (2015), La tragedia di Bari e la nascita della chemioterapia. https://ilblogdellasci.wordpress.com/2015/02/09/la-tragedia-di-bari-e-la-nascita-della-chemioterapia/ (acedido 16 de agosto de 2025)

R. Di Staso, D. Wollschläger, M. Blettner, E. Gianicolo (2024), Mortality risk associated to arsenic exposure after a major disaster. Results from the Manfredonia occupational cohort study 1976–2021, International Journal of Hygiene and Environmental Health 261, 114428, 2024. https://doi.org/10.1016/j.ijheh.2024.114428

Adega de Figueira de Castelo Rodrigo

[Foi há quase dois anos que estiva a visitar a Adega da Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo. Uma terra fantástica que tem além da adega da cooperativa também, a alguns quilómetros, as adegas do Beyra e da Quinta do Cardo, assim como muitas outras coisas. Tudo tem muito que se lhe diga, claro, como o azeite, a cerveja ou os doces. Mas isso fica para outra altura]

Estava a chegar um carregamento de uvas da casta trincadeira, usadas para fazer um vinho monovarietal. O grau estimado com base no sumo era, salvo erro, de 13,4 graus. Entretanto, no pequeno laboratório, media-se o pH de outros vinhos, assim como o nitrogénio disponível. Esses parâmetros são necessários para se poder conduzir o processo natural para o resultado esperado: um vinho de boa qualidade e sem defeitos. A maioria das pessoas, quando ouve a palavra "laboratório", penso logo em coisas adicionadas. Não é verdade. Laboratório pode ser sinónimo de análise e controlo. Quando as uvas eram tratadas de qualquer maneira com pesticidas sem controlo nenhum, com ácidos tartárico e outros e caldas bordalesas de qualquer maneira e mesmo assim eram maus, muito maus, pareciam ser naturais, mas nunca o foram. A natureza abandonada a si própria faz o que lhe apetece e nem sempre, quase nunca, o que nós queremos.

Numa outra parte é feita a flotação com nitrogénio para separar a matéria particulada e ficar o vinho clarificado. O nitrogénio existe naturalmente, ocupando 78% da nossa atmosfera. É um gás inerte à temperatura ambiente, ao contrário do oxigénio que reagiria com o mosto. Este processo pode ser complementado com a utilização de enzimas clarificadoras. Estas enzimas são o equivalente actual e mais racional, seguro e higiénico do uso ancestral de carcaças de animais, cuja matéria azotada contribuía para essa clarificação.

A produção de vinho é um processo natural milenar que se baseia, como é bem conhecido, na fermentação das uvas. Na ausência de oxigénio, um conjunto de bactérias, que existem naturalmente nas uvas, oxida o açúcar destas, originando etanol. Ao longo dos séculos este processo tem sido melhorado e é hoje muito bem conhecido, sendo possível conduzi-lo para o resultado que gostamos em vez de seguir um dos muitos outros processos, também naturais, que podem conduzir a rsultados que não queremos como sejam os maus vinhos e a formação de vinagre. Hoje em dia, por exemplo, como a selecção de enzimas e da temparatura adequadas obter vinhos naturais de 17%. A produção de vinho é um processo concebido pela natureza mas que é conduzido e controlado pela ciência.

Um exemplo muito interessante da transformação de uma desvantagem numa oportunidade é contado a seguir. As uvas brancas da casta síria em Outubro tinham a tendência natural, devido ao terroir particular de Figueira de Castelo Rodrigo, para originar um vinho com uma cor salmão. Isso era considerado um problema pois tratava-se de um vnho branco e não de um vinho rosé. Estudando o processo, a enóloga Jenny Silva e outros investigadores verificaram que a cor era devida à produção natural pelas uvas das antocianinas, delfinidina, petunidina, cianidina, peonidina, e malvidina, ligadas, cada uma, a uma molécula de glicose, com concentrações entre 0.1 e 75 mg/L, e que era possível controlar e estabilizar o processo por forma a que o vinho sofresse alterações de cor durante o processo. Dessa investigação, que teve bastante impacto nos meios de comunicação nacionais, resultou uma patente internacional e um vinho único que é comercializado com a marca “Pinking”. De salientar que o processo envolve também algumas simplificações com vista à maior sustentabilidade do processo. Desta forma, uma desvantagem tornou-se uma oportunidade.