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Passeios Químicos no Sul de Itália

[Como tenho feito noutros anos, aproveitei as férias que fizemos no Sul de Itália, em particular na Puglia, para referir alguns aspetos químicos em que reparei. Fiz uma pesquisa inicial, mas fui complementando o passeio com outras reflexões que localmente fui fazendo. Não consegui colocar todas as fotografias que tinha para ilustrar este texto, nem sequer coloquei as melhores (acho eu), mas procurei colocar as que estavam mais relacionadas com o que escrevi.]

Bari é para um químico italiano, um nome muito curioso, pois é a mesma palavra usada para o elemento químico 56, o bário. Chegamos a esta cidade ao fim do dia e havia muita animação na rua e um caos de estacionamento. Nas ruas junto ao mar, os carros estavam em segunda fila e havia carros estacionados por todo o centro histórico, com as as praças e ruas cheias de pessoas. Mas tudo isso se esfumou magicamente pela meia-noite, ficando a cidade muito calma. 

Um dos aspetos que tinha investigado, foi o acidente com armas químicas que aconteceu em 1943, no porto de Bari, durante a Segunda Guerra Mundial. Um navio americano com gás mostarda foi bombardeado pelos alemães, originando cerca de cem vítimas devido ao gás. O incidente foi mantido secreto pois as armas químicas estavam proibidas durante a Guerra e os americanos disserem publicamente que só as usariam como retaliação em relação ao uso de armas químicas por parte dos alemães (Scorrano, 2015). Curiosamente, o gás mostarda está também associado ao início da quimioterapia (Scorrano, 2015). Não procurei, nem encontrei, qualquer referência a isso, mas uma visita ao museu local mostrou-me, o que depois fui verificando: que quase não há referências à Segunda Guerra Mundial, mas há muitas (neste museu havia) à Primeira Guerra Mundial.

É costume evocar a ideia (estafada) da desorganização italiana e das diferenças entre o Norte e o Sul, que os “semáforos são obrigação em Milão, sugestão em Roma e decoração em Nápoles”, etc. Não é verdade, as pessoas são semelhantes à partida, simplesmente, o Sul tem estado na periferia e abandonado à sua sorte e aos seus problemas. No meio da beleza da paisagem, da tolice e do génio, iremos encontrar alguns problemas horríveis e muitas soluções fantásticas em que a generalidade dos turistas não repara (e eu estou a incluir-me nesse conjunto), mas também a generalidade dos italianos. Ao longo do passeio, irei referindo algumas ligadas à química em que reparei, mas tenho a consciência que há muitos mais em que não reparei.  

De Bari seguimos para Polignano a Mare, Monopoli (sim, o nome é idêntico ao do jogo) e Alberobello. Há povoações muito bonitas, com praias fantásticas de águas muito azuis e mornas (a temperatura da água variava entre 25 e 27ºC). Fomos a uma praia no Polignano a Mar, julgo que Lama Monaquile, que é de rochas e tem uma ponte muito interessante. Foi aqui que reparei pela primeira vez nas rochas calcárias esburacadas e rendilhadas. Iremos encontrar esse efeito de várias maneiras ao longo da viagem.

Polignano a Mare é uma povoação típica desta parte do país, muito organizada no que concerne ao trânsito e estacionamento. Reparei no monumento relativo à Primeira Guerra Mundial, mas onde havia também uma placa relativa aos soldados mortos em missões de paz atuais, e numa caldeira que usa gás natural (essencialmente metano) para aquecer a água.  Depois encontrei “Metano” escrito em bombas de gasolina. Depreendi que têm bastantes carros movidos a gás natural. A combustão do metano (CH4) liberta um pouco de menos de dióxido de carbono do que os combustíveis normais e é mais limpa, mas, além de continuar a produzir CO2, exige depósitos de gás que aceitem até cerca de 160 atmosferas.     

Monopoli é uma povoação lindíssima, mas reparei em duas chaminés muito altas na zona portuária. O que eram? Verifiquei que era uma antiga fábrica de cimento abandonada que várias organizações têm tentado requalificar. E aproveito para fazer um aparte. Eu “não procuro só as coisas feias” como já fui acusado, mas não deixo de as ver. Eu reparo e valorizo muito as belas, mas entendo que as “menos belas” fazem parte da realidade humana e que, de certa forma, são também belas. Partilho do aforismo atribuído a John Constable de que “nunca vi uma coisa feia na minha vida” e concordo com o que é atribuído a Coco Chanel de que “nada é feio se estiver vivo”.      

Alberobello é a famosa povoação dos Trulli (Trullo no singular) (Conte, s.d.) que são casas de pedra com telhado cónico, também de pedra, as quais eram originalmente construídas sem ligante entre as pedras, havendo várias versões, mais ou menos lendárias, sobre a sua origem. Muitas destas têm a ver, claro, com miséria e condições locais, mas também com a invenção humana. Uma coisa que me chamou a atenção foi as diferenças de cor entre telhados e as paredes exteriores. Como alguns telhados estavam ao alcance pude verificar que o tom mais escuro era devido aos fungos que crescem nas rochas e que, por outro lado, o branco das paredes se devia provavelmente a estas serem pintadas ou caiadas. É uma povoação cada vez mais turística, com exposições dos “verdadeiros trulli” (ver mais à frente), artesanato relacionado, etc.  


Foi aqui que reparei numa planta que identifiquei como sendo alcaparras (Capparis spinosa) cujos botões das flores são postos em vinagre e por vezes uso nos meus pratos. Nunca imaginei que era isso e que a planta era tão comum aqui, crescendo nos muros. 

Entrei, por acaso, numa loja de vinhos que estava vazia e o dono achou que teria “capturado” um bom cliente e fechou a porta. Os vinhos eram caríssimos e senti que entrei numa “armadilha para turistas” mas acabei por provar um vinho (que nem achei grande coisa – tendo depois bebido num restaurante um de muito melhor qualidade) de uma casta de que nunca tinha ouvido falar: “Primitivo”. 

Trata-se de uma casta tinta que dá origem a vinhos complexos e caraterísticos que podem ter graduações em etanol altas (vi num supermercado 15% - volume de etanol em volume de água) muito cultivada aqui e que tem a caraterística principal de amadurecer mais cedo (daí o nome). Depois reparei em extensões enormes de vinhas desta variedade, com uvas que já pareciam maduras. Como é conhecido, o vinho é obtido da fermentação da glicose das uvas, originando etanol, sendo parado o processo antes de atingir o seu fim que é a produção de ácido acético.
Dito assim, parece simples, mas a produção de vinho envolve muitos outros aspetos que já aflorei antes. A denominada graduação é uma percentagem de volume em volume de etanol em água. Eu costumo fazer com os alunos do primeiro ano uma aula antes da Festa das Latas em que estimamos as concentrações e discutimos, sem moralismos as questões da segurança, e outros aspetos científicos relacionados com o consumo de álcool (quem quiser saber mais pode ler o artigo que escrevi sobre o assunto, Rodrigues, 2022). Uma nota sobre o “Primitivo Branco”. No restaurante a que fomos, pedimos vinho a copo, e quem nos atendeu referiu essa possibilidade. Nós escolhemos um copo de “Primitivo” clássico e outro de “Primitivo Branco”. Entretanto, eu não encontrei nos supermercados a versão branco, tendo só encontrado o rosé. O branco só seria possível a partir de uvas tintas com aplicação de uma técnica de bica aberta. Nesta forma de fazer vinho, o sumo é separado das cascas que são a fonte das antocianinas responsáveis pela cor.     

De Alberobello fomos dormir em Locorotondo, encantadora localidade com um centro histórico de forma muito redonda e com casas muito brancas. Notava-se que essa beleza e organização era conseguida com muita manutenção. A localidade é notável também pelo cultivo dos aspetos culturais e históricos. Trouxe de lá uma monografia local que tem um interessante artigo sobre o Trullo de Marziolla (Lillo & Cevellera, 2024), que é uma das mais antigas construções deste tipo, não tendo cimento a unir as pedras, e não sendo tão pronunciada a diferença entre as cores das paredes e telhado (nas fotografias que vi). Está situado numa propriedade privada e não fomos lá. 

É notável a construção de muros e paredes de pedra que permite a condensação da água que está na atmosfera. Nas zonas secas isso é fundamental para as plantas e também para as pessoas. Nesta região há centenas de quilómetros de muros e parece tratar-se de uma técnica tradicional com muito interesse (mais à frente, ao referir Matera, chamo atenção para o facto de isso ser também reconhecido na atribuição do estatuto de Património da Humanidade). Ao meditar sobre isto, pergunto-me se não será esse fenómeno que torna as casas com paredes grossas de pedra mais frescas, da mesma forma que a água fica fresca nas bilhas de barro, em vez da usual explicação da capacidade térmica. Depois da condensação da água nas pedras, a sua lenta evaporação com o calor, pode contribuir para o arrefecimento, uma vez que a evaporação é um fenómeno endotérmico. 

Estima-se que existam na Puglia cerca de 60 milhões de oliveiras, 15 milhões destas com mais mil anos, estando, atualmente, cerca de 10% doentes, atacadas por Xyllela fastidiosa, a qual é uma bactéria que, não tendo impacto na qualidade do azeite, pode causar a morte da árvore. Este número impressionante de oliveiras reflete-se em extensões enormes com esta árvore. No século XIX, algumas pessoas ficaram muito ricas com a venda de azeite para iluminação a países como a Grã-Bretanha. Deve notar-se que antes do aparecimento do petróleo e da eletricidade e com o desenvolvimento de candeeiros que produziam muitas luz à custa do uso intensivo de óleo, provocou este aumento de procura muito grande. Paralelamente, desenvolveu-se a caça às baleias pelo óleo que se obtinha. 

Não há tratamentos eficazes contra a Xyllela fastidiosa, embora desde há vários anos sejam estudados métodos para a combater. Vi um trabalho que me pareceu muito interessante com óleos naturais. Os inseticidas, para o inseto vetor, são uma outra possibilidade, por vezes evocada, mas provavelmente pouco eficaz. Outra possibilidade é o cultivo de variedades ou híbridos mais resistentes, mas isso não resolve o problemas das oliveiras milenárias.

O alerta foi dado em 2013 e, em 2015, teve início um processo judicial insólito contra 10 cientistas acusados de “criar a doença”. Eu tinha nos meus arquivos vários artigos sobre esta questão (inclusive um artigo da revista Nature), datados de 2015, pois pareceu-me, na altura, muito importante e crítica a questão. Fui agora consultar esses artigos e ver o que aconteceu depois. Já em 2015, apontava-se para que a acusação fosse infundada e, mais do que isso, absurda, mas só em 2019 o caso foi arquivado. Segundo percebi, estava em causa um conjunto de questões, desde a doença ser, ou não, considerada endémica ou recente (sobre isso parecia que estava a ser chegado a acordo com os peritos da acusação em 2015). 

Neste contexto, é preciso notar que uma doença ser considerada endémica e antiga ou recente tem efeitos completamente diferente, sendo que no segundo caso leva a restrições e quarentenas que teriam efeitos devastadores na economia da região. Por outro lado, havia na altura (e penso que ainda hoje) acusações de pressão imobiliária e a recusa intransigente do uso de inseticidas, etc. Sobre os trabalhos e resultados científicos que serviram de base ao processo, vale a pena refletir, mesmo sendo estes maioritariamente da área da Biologia. Os dados brutos analisados pelas diferentes equipas apontavam para várias sub-espécies e variedades da bactéria e foram muitas vezes interpretados de formas diferentes, corrigidas e alteradas as análises. É assim que funciona a ciência, mas chegar a tribunal é um caso extremo.  

Da observação das oliveiras milenárias que há na região, fomos para Ostuni, conhecida como a cidade branca. A pressão turística é muito grande e eu espero que a Locorotondo, sendo muito mais cuidada, não lhe aconteça o mesmo. E isso é possível, com ganhos para todos, como referirei a propósito de Matera. A localidade é interessante, com vistas até ao mar nas quais se veem os campos com oliveiras e vinhas, mas também indústrias. Via Google Maps identifiquei uma de produção de plásticos e outra de processamento de azeite. 

Fomos dormir a Lecce, cidade que é uma agradável surpresa. Trata-se de uma cidade cosmopolita muito bonita, com imensos atrativos. É especialmente, interessante a pedra branca esculpida pelo tempo que faz notáveis rendilhados para acrescentar aos já complexos, e barrocos, iniciais. Na Basilica di Santa Croce, uma beleza incrível do barroco local, que tinha ar de ter sido restaurada recentemente, é feito uma notável integração desse efeito. Vale a pena ficar a olhar para os pormenores da sua fachada, onde se encontram aspetos que parecem hoje bastante bizarros, explicados detalhadamente aqui (Leccenelsalento.it, s.d.). 

A pedra era para mim um problema, pois parecia por vezes um calcário (essencialmente CaCO3) mole de grão grosso (um pouco como a pedra de Ançã, mas mais mole e granuloso) ou outras um arenito muito fino (essencialmente SiO2) e não tinha forma fácil de o testar (lembrei-me agora que com vinagre talvez o conseguisse). Mas, obviamente, a ciência é acumulativa e construída sobre o conhecimento já obtido e centenas ou milhares de pessoas já fizeram essa pergunta. Várias páginas indicaram-me que é sem sombra de dúvida um calcário, que ficou conhecido como o “mármore dos pobres”. 

Outra coisa que me fascinou foram as pedras que pareciam novas, mas eram simplesmente as pedras antigas cobertas com um cimento de uma cor e uma textura, provavelmente feito de pó de rocha, que parecia ser uma rocha nova. E muitas vezes para a integração visual fosse mais harmoniosa  eram picadas as aplicações novas.  

Em Lecce reparei pela primeira vez noutro produto turístico: uma loiça em formato de balão, com um fio, que os vendedores associam a este objeto. Na minha opinião trata-se de uma ideia bastante paradoxal, pois a densidade da loiça (cerca 1.8 g/mL) é muito superior à do ar (cerca 1.4 g/L) e mesmo à da água (cerca de 1 g/mL). Mas a imaginação deve ser valorizada e, pensando bem, pode ser um paradoxo interessante, ter um balão que de maneira nenhuma se eleva nos ares sem a nossa ajuda. Mais à frente, no entanto, numa feira local vi queijo Caciocavallo, que tem precisamente o mesmo formato, mas ao contrário: uma bolsa redonda pendurada por um fio. Não sei se há alguma relação, mas achei muito curioso. 

Com sede em Lecce formos à gruta da poesia, para onde, supostamente, poderíamos saltar (tínhamos visto muitas fotografias sobre isso). O meu filho mais novo, de forma sensata, perguntou “e como é que saímos de lá?”. Vimos que havia umas escadas de pedra, mas era proibido saltar. Acabámos por ir a um sítio ao lado (cerca de 200 metros) bastante parecido, onde, embora não se devesse saltar podia-se entrar, que tinha umas escadas de ferro. A água como de costume estava com uma excelente temperatura. A salinidade aqui é relativamente elevada (36-38 g de sais por quilograma de água do mar), sendo que o valor típico é de 35 g/kg, ou seja cerca de um quilograma de água da mar, tem 35 gramas de sais dissolvidos.  

No mapa do local reparei que havia uma gruta denominada “da bauxite”, mas não fui lá. A bauxite  é o mineral de onde se extrai a alumina (Al2O3) para obter alumínio por eletrólise deste material fundido. Mas para baixar a temperatura de fusão, usar-se o mineral criolite (Na3AlF6) que é extremamente raro e foi minerado até à extinção, em 1987, na Groenlândia (Öhrström, 2012). Este mineral continua a ser usado, mas é agora obtido de forma sintética a partir de fluoreto de cálcio (CaF), sulfato e cálcio (CaSO4) e hidróxido de alumínio (Al(OH)3).     

Otranato foi outra encantadora povoação que visitámos e onde almoçamos. Foi aqui que mais uma vez alarguei os meus horizontes culinários com a sugestão de um pesto de limão e laranja que dava um sabor delicioso à minha salada.
No porto, estava ancorado um navio que tinha escrito Gold Energy, e que segundo o meu filho, era de nacionalidade norueguesa. Parecia-me um navio de apoio às plataformas petrolíferas, e confirmei depois que era.

Em Galatina, visitámos a basílica de Santa Catarina de Alexandria. Trata-se de uma igreja do século XIV que está toda coberta de frescos. Como em toda a região, há muita influência dos Normandos, que em conjunto com as tradições locais, geram resultados muito interessantes. Mas o aspeto mais interessante, estava para vir. Em Galatina, quase por acaso, comprei um livro (Conesa, s.d.) sobre as tradições da dança terapêutica após a picada de uma tarântula e percebi, finalmente, as pandeiretas, fitas, e outros objetos turísticos, que encontramos em todo o lado nesta região. Inicialmente, pensei que tratava de um dos fenómenos de alucinação coletiva que ficaram associados a danças sem parar. Não, era o caso. Trata-se de um fenómeno muito mais antigo e diferente. Num mundo rural incerto e perigoso, as picadas das tarântulas, que raramente são fatais, e as mordeduras de cobras, originavam fenómenos de torpor e dor intensa para os quais não havia tratamento.
Quase só restava a fé e a água benta que, desencadeando a libertação de endorfinas, servia de alívio e possibilidade de melhoria. Depois apareceu a música e os rituais. Os músicos procuravam o “tom certa da tarântula” com rápidas variações de ritmo, levando o paciente (quase sempre uma mulher jovem) a dançar, contribuindo assim, supostamente, para o alívio e a mais rápida recuperação, sendo por outro lado a cerimónia mágico-religiosa conduzidas por mulheres. O livro é interessante, também pelas fotografias.

Fizemos um pouco de praia na Torre de Santo Andrea, que tem uma excelente paisagem circundante e está muito organização em termos de estacionamento (pago, claro). Fomos de seguida à praia de Santo Isidro, que tem torres de ambos os lados (todas as praias que vimos aqui têm torres, e nalgumas vimos aquilo que pareciam  bunkers, provavelmente ainda da Segunda Guerra Mundial), onde almoçamos. Seguimos em seguida para Porto Servaggio, que fica numa reserva natural. Vamos a pé cerca de dois quilómetros para chegar à praia pelo meio de pinhais cheios de cigarras a cantar, mas vale a pena.

A caminho de Nardò, onde íamos dormir, passámos por Brindisi, mas quase não parámos. Trata-se de uma cidade que parece pouco bonita, infelizmente, talvez em parte devido ao desenvolvimento industrial, em particular químico, e ao aeródromo militar. Falarei um pouco mais desta relação pouco virtuosa com a indústria mais abaixo, mas queria desde já referir esses aspetos. Pois deveria ser precisamente ao contrário. O desenvolvimento industrial deveria estar associada às mais belas paisagens artificiais e procurar a melhor qualidade do ar, água e solo, numa busca de sustentabilidade permanente e genuína (evitando o greenwashing) para que a generalidade das pessoas se sentisse bem com ele, uma vez que muito produtos obtidos se tornaram necessários. 

Daqui seguimos para Matera, tendo passado perto de Taranto (onde não parámos) que é uma cidade portuária. Notava-se da estrada que era também uma cidade muito industrial. Mas o que achámos mais impressionante foi uma cobertura metálica fechada e enorme. O que estaria debaixo? Depois de alguma pesquisa verificámos que cobria as escórias da antiga siderurgia e ocupava uma impressionante área equivalente a 56 campos de futebol (700 metros de comprimento por 254 metros de largura) com 77 metros de altura no ponto mais alto. Embora tivesse custado cerca de 370 milhões de euros, ajudou a resolver o problema das poeiras contaminadas que eram levadas pelo vento e pensa-se que será uma solução para outros lugares de mineração a céu aberto (Ricapito & di Taranto, 2018). 

Em Matera sentia-se bastante serenidade e a cidade não era ferozmente turística como outras cidades que visitámos, mas por outro lado, eu senti-me bastante turista. A cidade ficou famosa por terem sido aqui filmados o “Evangelho Segundo São Mateus” de Pasolini e "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson. Trata-se de uma das cidades mais antigas da humanidade ainda com pessoas, comparável com Aleppo e Jericó. O documentário, de 2019,  “Mathera”, de Francesco Invernizzi, dá uma ideia do que os turistas não veem ou nem reparam com atenção. 

Os Sassi, as grutas mais famosas habitadas, eram habitações miseráveis com só uma porta onde vivia toda a família e os animais. Mas algumas dessas grutas tinham frescos com mais de mil anos. Nos anos 1950, todo o espaço antigo estava em ruínas e pensou-se acabar com ele, ou, então, cinicamente (como diz Raffaello de Ruggeri, na altura presidente da Câmara da Cidade), para "mostrar como se vivia antigamente". Mas não se evoluiu nesse sentido. Houve um movimento de recuperação, começaram a ser encontradas capelas em grutas com frescos e o lugar foi classificado como Património da Humanidade pela Unesco.

Eu tinha-me perguntado como obtinham a água, pois o rio ficava muito abaixo e o documentário é muito claro sobre isso. Uma das maravilhas de Matera é o seu extraordinário sistema hídrico que envolve cisternas para recolher a água da chuva e condensação e conduzi-la para as grutas e para chafarizes. A declaração da Unesco também valorizou isso.

Tivemos de voltar a Bari e decidimos ir para Norte, para o Monte de Sant'Ângelo, onde fica um interessante santuário de São Miguel, numas grutas, respeitante a aparições deste anjo no século V. Curiosamente, (vi depois) há uma relação forte deste santurário com o muito conhecido Monte Saint Michel, em França. Mas antes formos à praia! Na direção da praia de Punta Rosa, reparei numa grande fábrica de vidro plano na cidade de Manfredonia. Como já referi várias vezes, este material é solidificado sobre estanho liquido para obter vidro plano de grandes dimensões. Depois, na volta, ao descer da Floresta Umbra para a costa, reparei numa enorme pedreira a céu aberto. Alguma pesquisa, levou-me a encontrar outras industrias, mas não explorei muito o assunto.

Paradoxalmente, dada a riqueza que parece criar e a necessidade extrema de cuidados, depois de um acidente muito grave de 1976, Manfredonia apresenta atualmente uma paisagem urbana desqualificada (pelo menos na parte que eu vi). No acidente, uma quantidade estimada entre 12 e 39 toneladas de um aerossol de arsénio (segundo um trabalho que li, K3AsO3 e HAsO3), usado numa chaminé de produção de amoníaco,  foi libertado para a atmosfera, caindo num espaço de 15 km2. Mesmo que o número fosse muito mais pequeno, tratar-se-ia igualmente de um acidente muito grave. 

Morreram logo muitos animais e várias pessoas ficaram gravemente envenenadas. Segundo li, começou-se por desvalorizar e esconder o problema, houve algumas medidas de mitigação, como oxidar o arsénio para compostas mais insolúveis, mas, para uma comunidade que vivia essencialmente da agricultura e da pesca, foi devastador. Agora o local está indicado como sendo uma região de preocupação nacional, mas, sinceramente, não se nota. A circulação rápida pela cidade que fizemos revela um ambiente desqualificado, como já referi, com ruas esburacadas, prédios sujos, mal pintados e desorganizados, sinais e marcas e trânsito apagados, sem espaços verdes, etc. As praias são todas Lido (que para quem não sabe são a versão paga de praia – não temos isso em Portugal) com estacionamento algo caótico. Ao lado fica uma zona húmida pantanosa que faz parte do Parque do Gargano e que bem poderia ser mais valorizada.

Este acidente tem, entretanto, sido muito estudado, tanto em termos da segurança e política industrial como epidemiológicos (Liberti & Palemio, 1981; Mangia et al., 2018; Staso et al., 2024). O que salta à  vista é o desconhecimento que ainda hoje temos do que aconteceu realmente (os três artigos científicos que cito, indicam valores bastante diferentes das quantidades e dos compostos envolvidos), assim como a ligeireza com que o problema foi tratado pelas autoridades, inserido-se em problemas mais vastos (Barca, 2010) . Não pode nem deve ser assim, como já referi. As cidades não têm de ser feias só porque são industriais, nem por serem industriais têm de ser feias. Muitos dos produtos  são fundamentais para a nossa vida, mas isso não implica que sejam produzidos em condições insalubres. Os custos disto, são muito maiores do que os da segurança e da estética. Ao provocarem desconfiança justificada, quando se procura instalar uma mina ou fábrica perto de nós, estas acabam por ir parar ao locais mais pobres e com menor poder de revindicação, perpetuando a situação.

Gostaria de acabar com a Floresta Umbra. Trata-se de uma floresta essencialmente de bétulas que tem na sua base alguns azevinhos, gilbardeiras e poucas mais espécies que conseguem resistir à sombra (daí o nome) causada por estas árvores. Havia um lago muito bonito, uma cerca com veados e um pequeno mercado de produtos locais (foi neste que vi o queijo). Uma boa parte das árvores estavam atacadas por trepadeiras que quase sempre levam à morte da árvore hospedeira, penso que por enterrarem fundo as suas raízes (a natureza não é boa em si: é como é). Por isso, muito troncos das trepadeiras estavam cortados (para mantermos o ambiente que queremos, temos de fazer algumas intervenções). 

Quando chegámos, pelas dez horas da manhã, havia muito poucos carros. Entretanto, seguimos um percurso pedonal com cerca de sete a dez quilómetros, tendo só encontrado pelo caminho um casal com um cão. Mas, quando voltámos (fazendo outros sete a dez quilómetros, pelo menos), agora pela estrada, o local estava cheio de carros. Pelo caminho fui reparando que a maioria das rochas era de um material que parecia ter um interior de silex, mas tinha várias camadas e só as rochas partidas evidenciavam isso. 

Há imensas coisas para fazer e ver na Puglia, mas sobretudo o que está bem ou mal faz-nos pensar em nós. Toda a viagem é também uma viagem interior, de alguma forma. Havia por vezes lixo a mais nas ruas e autoestradas. Mas estavam mais limpas as estradas de vegetação. Se, no primeiro caso, é uma questão de civismo e organização, no segundo também. Havia praias e locais lindíssimos que tinham ao lado a maior desorganização e estadas esburacadas e sujas para lá chegar, mas havia sítios extremamente organizados e limpos. Não é uma fatalidade, os sítios organizados e limpos, podem ultrapassar os lugares desorganizados e sujos, tanto no Sul de Itália, como em Portugal, com trabalho, dedicação, atenção e consistência. Se virmos imagens antigas da Suécia, Islândia, ou de outros lugares que hoje nos parecem paradisíacos, vemos que a mudança é possível.   

Referências

Stefania Barca (2010), Pão e veneno : reflexões para uma investigação sobre o ‘ambientalismo do trabalho’ em Itália, 1968-1998, Laboreal 6(2). https://doi.org/10.4000/laboreal.8590

Gianfranco Conese (s.d.). La Tarantate a Galantina. Società Operaia di Sccorso, Galantina.

Antonio Conte (s.d.). Trullo di Marziolla. https://www.atlasobscura.com/places/trullo-di-marziolla (acedido a 14 de agosto de 2025)

Leccenelsalento.it (s.d.). Basilica di Santa Croce. https://www.leccenelsalento.it/basilica-s-croce/ (acedido a 14 de agosto de 2025)

Lars Öhrström (2012), Cryolite, May 2012, https://www.chemistryworld.com/podcasts/cryolite/3005746.article (acedido 18 de agosto de 2025).

L. Liberti, M. Polemio (1981), Arsenic accidental soil contamination near Manfredonia. A case history, Journal of Environmental Science and Health . Part A: Environmental Science and Engineering 16 (3) 297-314. https://doi.org/10.1080/10934528109374983

Antonio Lillo e Zelda Cevellera (eds.) (2024) Locorotondo. Rivista di Economia, Agicoltura, Cultura e Documentatione della Valle d’Itria 59, agosto de 2024. 

Cristina Mangia, Marco Cervino, Emilio Antonio Luca Gianicolo (2018), Arsenic contamination assessment 40 years after an industrial disaster: measurements and deposition modeling, Air Quality, Atmosphere & Health 11, 1081-1089. https://doi.org/10.1007/s11869-018-0610-4

Vittorio Ricapito (2018). Ilva di Taranto, al via la copertura dei parchi minerari. Emiliano contro il governo: "Danni gravissimi". La Repubblica – Bari, 1 de fevereiro de 2018. https://bari.repubblica.it/cronaca/2018/02/01/news/ilva_al_via_copertura_parchi_minerali_ilva_emiliano_dal_governo_danni_gravissimi_-187812116/ (acedido 16 de agosto de 2025)

Sérgio P. J. Rodrigues (2022), Ethanol in class and at home: guided inquiry-based learning, 8th International Conference on Higher Education Advances (HEAd'22), Valencia. https://doi.org/10.4995/head22.2022.14411

Gianfranco Scorrano (2015), La tragedia di Bari e la nascita della chemioterapia. https://ilblogdellasci.wordpress.com/2015/02/09/la-tragedia-di-bari-e-la-nascita-della-chemioterapia/ (acedido 16 de agosto de 2025)

R. Di Staso, D. Wollschläger, M. Blettner, E. Gianicolo (2024), Mortality risk associated to arsenic exposure after a major disaster. Results from the Manfredonia occupational cohort study 1976–2021, International Journal of Hygiene and Environmental Health 261, 114428, 2024. https://doi.org/10.1016/j.ijheh.2024.114428

Passeio Químico em Tomar

[Fui bastantes vezes a Tomar, mas tinha passado lá sempre pouco tempo ou só tinha estado à noite. Na sequência de atividades que estou a fazer na cidade em março de 2026, atualizei o texto. Em 2024, juntando as várias fotografias que tinha, e porque tinha feito na cidade uma palestra no final do mês de abril desse ano, aproveitei para refletir sobre algumas das coisas que tinha visto. Agora, em março de 2026, substitui algumas fotografias, acrescentei outras e melhorei e aumentei o texto.]  

Tomar é uma cidade com antigos e novos atrativos. A enciclopédia Portuguesa-Brasileira dedica-lhe inúmeras páginas, dando muita relevância aos monumentos. De facto, um dos ícones mais conhecidos da cidade é a Janela Manuelina do Convento de Cristo. Mas Tomar tem muito mais interesses. Não só assumiu a herança dos templários, como também apresenta muitas inovações, que em boa parte envolvem a proximidade do Instituto Politécnico de Tomar.    

José-Augusto França (1922-2021), historiador de arte, nasceu em Tomar e escreveu alguns trabalhos sobre a cidade. Podemos visitar o "Núcleo de Arte Contemporânea" do Museu Municipal, que tem cerca de duzentas obras que este colecionou durante a sua atividade, em particular relacionadas com os movimentos artísticos portugueses do século XX. Tem trabalhos de Júlio Resende, José de Guimarães, Emília Nadal, Fernando Lanhas, Helena Almeida, Almada Negreiros e vários outros. Se os aspetos artísticos e sociais são muito relevantes, os aspetos químicos e físicos também o são: os suportes, as tintas, a conservação, etc.  

Consegui visitar o Convento de Cristo no final do mês de março de 2026 e tirei algumas fotografias, mas tive pouco pouco tempo para ver e procurar todos os aspetos que planeava. A Charola, que foi recentemente restauradas, é muito bonita e merecia que passasse mais tempo a observar os seus vários pormenores (1). O restauro de obras de arte é um trabalho muito demorado e minucioso pois envolve vários aspetos muito complexos. Desde o estudo de documentos e imagens antigas e a identificação dos materiais usados, nomeadamente pigmentos e vernizes, e dos restauros feitos anteriormente, seguidos da tomada de decisão sobre as ações a realizar e o trabalho muito lento e minucioso que deve ser feito. Vi vários dos claustros e a cozinha, mas não vi o aqueduto ou o Terraço da Cera (onde este material era colocado a secar) nem a Sala da Bela Vista (de que tinha visto fotografias).

Entretanto, tinha anteriormente fotografias da entrada da Igreja de São João Batista que apresento aqui ao lado. Fico sempre surpreendido com o que se pode fazer com a pedra. Durante milénios a humanidade só tinha disponíveis cinco tipos de materiais: minerais (rochas e metais), vegetais (fibras, madeira, etc.), animais (couro, ossos, etc.), cerâmicos e vidros. Os polímeros sintéticos, para além dos avanços que proporcionaram em relação a estes tipos tradicionais de materiais, vieram aumentar muito as possibilidades, mas só no século XX. Agora causam problemas, mas é preciso não esquecer esse alargamento das possibilidade e, paradoxalmente, o aumento da sustentabilidade que proporciona. 

No lado oposto da Biblioteca Municipal podem ver-se bancos com tábuas de plástico que parecem madeira. Isto é realizado cada vez mais, permitindo substituir a madeira por um material mais durável e provavelmente obtido por reciclagem. Aqui há também um ponto de saída de água potável com uma torneira de aço inoxidável. Esta liga de ferro tem em geral crómio e níquel que formam uma camada protetora em relação à corrosão. Em relação à água, muitas vezes nem se dá conta de que o tratamento de água e a sua vigilância sanitária, química e bactereológica foi um grande avanço que só ocorreu no século XX. 

O compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1997) nasceu também em Tomar. No Parque da Levada, há uma estátua alusiva a este personagem importante  da nossa história. A sua interessante e inovadora obra é lembrada na “Casa da Memória”. As suas composições podem parecer à primeira vista dissonantes, mas uma audição mais atenta, e sobretudo a prática de as interpretar, revela a sua riqueza de possibilidades. Os alunos de música gostam em geral de as interpretar. Vem isto a propósito de algo que costumo dizer aos alunos sobre o estudo da química e de outras matérias: é a prática que revela as pormenores mais interessantes. Ninguém toca piano só a ouvir. Tem de passar meses a praticar no teclado e, se quiser ir ainda mais longe, a estudar as partituras. O mesmo se passa com o estudo da Química.  

Não fui ao Museu dos Fósforos, mas os guias que consultei referem que neste museu podemos ver milhares de caixas (mais de sessenta mil) de mais de 120 países. Curiosamente, em Jonkoping, na Suécia, visitei o Museu dos Fósforos, que não dá tanta importância às imagens das caixas, dando sobretudo atenção às questões da produção destes. Hoje em dia, quase não se usam fósforos, mas foi uma grande e útil invenção. Sendo o elemento químico fósforo venenoso, começou a ser usado em muito pequena quantidade na lixa, nos denominados "fósforos de segurança", mas, mesmo assim, era inicialmente um problema grave. Em Jonkoping chamavam a atenção para os problemas de saúde dos trabalhadores, sobretudo mulheres. Nos fósforos tradicionais modernos, nas cabeças são usados sulfureto de antimónio e clorato de potássio. O primeiro facilmente inflamável e que dá o cheiro característico a enxofre (mas não é devido à formação de dióxido de enxofre, que não tem cheiro, mas devido uma pequena quantidade de sulfureto de hidrogénio) e o segundo é oxidante e que dá os tons arroxeados na chama.    

Ao passar a ponte sobre o Rio Nabão, chamou-me a atenção a calçada portuguesa com rochas rosa, pretas e brancas. As calçadas em Portugal continental são em geral feitas de rochas calcárias, ou seja de carbonato de cálcio, mas a presença de óxidos de ferro, ou de outros metais, ou de compostos de carbono, fá-las apresentar uma gama muito grande de cores. No caso rochas dos vermelhos e rosa, são provavelmente óxidos de ferro.

No parque da levada do mouchão (2), há uma roda de madeira alusiva ao aproveitamento da água realizado pelos árabes. Mas quando dizemos "pelos árabes" podemos refletir um pouco. Portugal e a Península Ibérica durante muitos séculos foram colonizados por esses povos do Sul, havendo uma razoável harmonia e tolerância, além de trocas e entrosamento culturais.     

O grande industrial de Tomar foi Manuel Mendes Godinho, mas eu não sabia. Ao ver uma estátua com o seu nome, fiz alguma pesquisa, em particular li o livro de Manuel Valente (3) e aprendi muitas coisas sobre Mendes Godinho. O império industrial da sua família envolvia moagens de farinha, aproveitando a energia do rio, fábricas de rações e de cerâmica, instalações de extração de óleo de bagaço de azeitona e uma central elétrica (esta última, mais pela necessidade de energia para as anteriores, segundo percebi), entre muitas outras. Algumas destas indústrias mais antigas fazem agora parte do Complexo Cultural da Levada, junto ao rio. Neste, além da fábrica de moagem, de acesso limitado que foi adaptada para a realização de residências artísticas, podemos visitar a central elétrica, uma fundição e o centro interpretativo de Tomar. Vou-me concentrar nos dois primeiros. 

Na fundição podem ver-se os processos tradicionais de fusão deste metal e o seu uso para obter peças de ferro fundido. Podem também ver-se as condições e rotinas dos funcionários. Deve notar-se que o ferro, não existia livre na natureza (para além de ocasionais meteoritos) e que devido ao seu alto ponto de fusão (1538ºC) só se pode começar a fundir em fornos especiais pelo fim da Idade Média. Antes, obtinha-se a partir dos seus óxidos com carvão, , sendo feita a sua redução, e obtinha-se nas forjas um material suficientemente maleável para ser trabalhado mas não para ser fundido. Até à chamada "Idade do Ferro", os metais disponíveis eram o ouro, a prata, o cobre, o estanho e o chumbo - o mercúrio é um caso particular-, sendo que eram todos bastante maleáveis. O bronze (liga tradicinalmente de 12% de estanho, ponto de fusão 232ºC, e cobre, ponto de fusão 1085ºC)  veio aumentar muito as possibilidades pois permitiu obter materiais mais duros e com ponto de fusão relativamente baixo (850-900ºC). 

A central elétrica tem várias máquinas para obter energia elétrica a partir da força eletromotriz e combustíveis. Chamou-me a atenção os manómetros para afinar a frequência da corrente alternada. Mas o que achei mais curioso foi uma exposição temporária de Romy Castro, numa extensão do Núcleo de Arte Moderna. Os objetos artísticos expostos eram ou de carvão ou fotografias de carvão. Pode parecer algo estranho expor pedaços de carvão, mas é isso que é em boa parte a melhor arte contemporânea: obras que nos interrogam e surpreendem.

Ouve-se por vezes "eu também podia fazer isto" e eu digo logo "mas não fez" e digo mais: estas pessoas para fazerem algo que "parece que também o público faria", seguiram um percurso, procuraram uma linguagem, fizeram parte de uma história e criaram um objeto único e irrepetível que agora nos interroga de forma por vezes provocadora. 

Quando voltei à exposição, dei conta de um cartaz com equações químicas que aqui reproduzo e nas quais não encontrei erros químicos (mas o que são "erros químicos" neste contexto?) Por outro lado, quem diria que iria encontrar a parte simbólica da Química aqui?          

Talvez não seja muito conhecido o legado de Mendes Godinho, mas se eu referir “Platex” e azeite “Oliveira da Serra” e óleo "Fula" quase toda a gente conhece. Começando pelo segundo caso, Mendes Godinho e sua família não criaram diretamente a empresa “Sovena” responsável por esta marca de azeite, mas criaram a “Tagol” que na sua segunda vida, depois de passar por muitos problemas, deu origem à atual Sovena (4).  Já a “Platex”, e as empresas de aproveitamento de fibras de madeira que se lhe seguiram, surgiu por intervenção direta de Mendes Godinho - “platex” permanece no nosso imaginário (pelo menos no meu) como sinónimo de um tipo de aglomerado de madeira. 

Porque refiro estas empresas que parecem não ter nada a ver com Química? Começando pela primeira não há dúvida que têm. Queremos azeite “puro” no sentido de ter vindo diretamente da azeitona sem intervenções “químicas” mas estas intervenções têm necessariamente de existir, nem que seja na análise química do resultado, confirmando essa “pureza”, através da química analítica e controlo de qualidade. É que não podemos confiar cegamente na “pureza” publicitada. Os possíveis vigaristas conhecem essa nossa fraqueza por coisas “puras” e usam-na a seu favor. Em Espanha, por exemplo, nos anos oitenta do século XX morreram várias pessoas que compraram azeite em mercados, provavelmente “caseiro”, que era obtido destilando um óleo que não se destinava a consumo humano. 

Não quero com isto dizer que o conceito de “caseiro” seja mau – é bom com certeza -, o que é necessário é que seja verificado e estudado, não só que se verifique que o produto  mesmo “caseiro”, mas também que não origine riscos para a saúde, pois não faltam coisas “caseiras” perigosas. Mas há mais. A Química permite também a análise detalhada da composição e a otimização das condições de fabrico para ajudar a Natureza a agir de forma mais rápida e segura. A Química não procura fazer um azeite “melhor” (embora no seu programa de alargamento da natureza possa tentá-lo), mas verificar, estudar e otimizar o resultado “natural”. 

E o que é o azeite? Uma gordura vegetal natural, usada desde tempos imemoriais na alimentação, cosmética e iluminação (5). Na polpa do fruto, as azeitonas, formam-se gotículas deste óleo que é um triglicédido, sintetizado, por hidrólise, pela planta a partir de ácidos gordos e glicerol, que foram previamente sintetizados. Essas gotículas são rodeadas por uma biomembrana e têm também moléculas que são responsáveis pelo seu cheiro e cor. O ácido gordo mais comum no azeite é o ácido oleico. O teor de ácidos gordos livres no azeite é a acidez e se os azeites forem obtidos por processos mecânicos são denominados "Azeite Virgem Extra" se tiverem acidez inferior a 0.8% e não tiver defeitos, "Azeite Virgem" se a acidez for de 0.8 a 2% ou simplesmente "Azeite" se a acidez for superior a 2%. Se forem obtidos por outros processos, incluindo a refinação, são denominados azeites refinados, azeite lampante, etc.  

Quanto ao “platex” (no estrangeiro “valbonite”) fiquei surpreendido com o que pesquisei. Os pedaços de madeira são reduzidos até ficarem quase só as fibras separadas e depois estas são prensadas, ficando coladas com a cola natural da madeira, a lignina. Não percebi bem de onde vinha a cor castanha caraterística, mas penso que possa ser acrescentado um corante que pode bem ser natural, pois o castanho é muito comum nestes contextos. Curiosamente, no caminho para o Convento de Cristo encontrei a crescer selvagem vários exemplares de sumagre (Rhus coriaria) que tem flores castanhas caraterísticas e foi uma importante fonte de taninos para a curtição de couros.
      
Com as ferramentas da Internet podemos “ver” muito mais do que antigamente. Só temos de estar atentos. Ao sair da cidade em direção a sul, notei uma instalação fabril. Usei o Google Maps, onde se viam muitos tanques. Depois de alguma pesquisa na Internet, verifiquei que era uma destilaria, que além disso tinha outros produtos. Há muito tempo que se destilam vinhos para obter álcool, e estes oferecem várias graduações alcóolicas. Mas além disso, na fábrica disponibilizam também grainhas de uva desidratadas e outro produto tradicional derivado do vinho, o ácido tartárico. 

O ácido tartárico está no centro de um grande avanço na Química: a descoberta da quiralidade (6) de algumas moléculas. Estas moléculas são em tudo iguais, exceto no que concerne às suas imagens num espelho e a natureza usa preferencialmente uma das formas. Por exemplo, nos açúcares, a maior parte das moléculas usadas pelos organismos vivos estão na forma D. Por outro lado, a maioria dos aminoácidos nos seres vivos está na forma L. Estas moléculas são muito comuns na natureza, mas até Pasteur não sabíamos da sua existência. Pasteur, com muita paciência e bastante sorte (mas a sorte conquista-se e é favorecida pelas mentes preparadas) separou as formas D e L dos cristais de ácido tartárico. 

Depois, juntando muitas informações, os químicos chegaram à conclusão que isto em geral envolvia o carbono estar num tetraedro rodeado de quatro grupos químicos diferentes (carbono assimétrico). Daqui até se poder hoje produzir só uma das formas das moléculas demorou algum tempo, mas não deixa de ser curioso que a L-DOPA, usada para o tratamento da doença de Parkinson tenha sido a primeira molécula a ser produzida de forma industrial na Monsanto (na altura uma empresa essencialmente química e já centenária). Hoje em dia há imensos processos para produzir apenas uma das formas das moléculas.      

A Festa dos Tabuleiros é uma das atividades mais conhecidas da cidade. Esta é realizada regularmente desde o século XIV. Desde há algum tempo é chamada Festa Templária, reunindo outra das atrações da cidade e é realizada de 4 em 4 anos. A festa de 2024 teve lugar de 11 a 14 de julho e envolveu, segundo vários sítios de divulgação, recriações, visitas, seminários, acampamentos, mercados, concursos, entre outras atividades, que evocaram a história, as lendas, os segredos e os mitos, da mais rica e poderosa instituição medieval, a Ordem dos Templários.

Segundo o sítio do turismo, o tabuleiro é o símbolo e a principal alfaia da Festa dos Tabuleiros e deve ter a altura da rapariga que o carrega. É ornamentado com flores de papel, verdura e espigas de trigo. Tem além disso, 30 pães de 400 gramas cada, enfiados em 5 ou 6 canas. Ainda no sítio, ficamos a saber que estas canas saem de um cesto de vime envolvido em pano bordado e são rematadas, no topo, por uma coroa encimada pela Cruz de Cristo ou Pomba do Espírito Santo. Há um monumento numa rotunda com esta iconografia, mas eu fiquei a pensar nos pães. De acordo com estas contas, estes teriam no total um peso de doze quilogramas, o que corresponderia a mais de 31 mil calorias (na verdade quilocalorias, sendo que um ser humano típico consome cerca de dois milhares diárias).

Assim, os pães de um tabuleiro dariam para cerca de 15 dias em termos de calorias de uma pessoa. Se consideramos o número que li de mais de 600 tabuleiros, dá mais de sete toneladas de pão. Todo este pão é entregue às populações. A Festa dos Tabuleiros só voltará a ocorrer em 2028.

[atualizado, 1 de abril de 2026]

Notas e referências

(1) Ana Carvalho Dias, Irene Frasão (Coords.) A Charola do Convento de Cristo. História e Restauro. DGPC, Lisboa, 2014,

(2) Mouchão é uma ilha num rio. Outros nomes usados são “murraça” ou “murraceira” por exemplo. Eu não conhecia o significado desta palavra mas hoje em dia podemos aprender as coisas rapidamente com a Internet. Muitas vezes só custa tempo e, claro, o uso de espírito crítico. E podemos saber com as coisas se pronunciam. Isso é muito útil para nomes estrangeiros. 

(3) Leonel Valente. Mendes Godinho : uma história de empreendedorismo empresarial familiar. Associação MG – Memorial Mendes Godinho, 2018. 

(4) Segundo o que li no livro de Leonel Valente (3) a "Tagol" foi a maior empresa privada de Portugal. Com a revolução, a família que era dona da empresa através do banco familiar, que foi nacionalizado, deixou de ser dona da empresa. De vicissitude em vicissitude, esta acabou na falência, tendo uma "segunda vida" agora como "Sovena" que é dona de marcas como a do azeite "Oliveira da Serra" e "Fula". Além das produções normais, em 2007 inaugurou uma unidade de produção de biodiesel que produzia 300 toneladas por dia. A Sovena, através de um complexo conjunto de participações é do Grupo Jorge Mello. A história é contada em detalhe no livro de Leonel Vicente, mas houve alturas que a Tagol esteve para ser da Tabaqueira, agora do grupo da Philip Morris, ou da Cargill, uma multinacional que o publico não conhece em geral por os seus negocios envolverem matérias primas alimentares e não produtos finais. Estar agora na esfera do Grupo Mello, foi conhecido na altura como a "vingança do amendoim" por inicialmente ter quebrado o monopólio das óleos alimentares da CUF (Companhia União Fabril, que irá dar mais tarde origem ao Grupo Mello).

(5) Jorge Böhm (Coord.) O grande livro da oliveira e do azeite. Dinalivro, 2013.

(6) Moléculas quirais que possuem geometrias que são a imagem no espelho umas das outras, como as nossas mãos esquerda e direita. São ditas “enantiómetos”, sendo que a sua mistura que não tem propriedades óticas é referida como “mistura racémica” ou “racemato”. A notação tradicional D e L para dextrogiro (seguindo o sentido horário) e levogiro (sentido anti-horário) foi sugerida por Emile Fischer tendo como base a posição dos grupos OH do formaldeído e é conhecia como a configuração absoluta. A notação (+) e (-) (ou d/l em minúsculas) refere-se ao valor experimental dessa rotação. Finalmente temos a notação R e S (rectus e sinistra) que se aplica para o ambiente químico que rodeia cada átomo de carbono. Apenas para o formaldeído é garantido que D é (+) e L (-). Nos restantes casos, podemos ter diferentes possibilidades.