[Fui bastantes vezes a Tomar, mas tinha passado lá sempre pouco tempo ou só tinha estado à noite. Agora, na sequência de umas atividades que estou a fazer lá em março de 2026, vou procurar atualizar o texto. Em 2024, juntando as várias fotografias que tinha, e porque fiz em Tomar uma palestra no final do mês de abril desse ano, aproveitei para refletir sobre algumas das coisas que tinha visto. Em 2026, estou a substituir as fotografias e melhorar o texto.]
Tomar é uma cidade com antigos e novos atrativos. A enciclopédia Portuguesa-Brasileira dedica-lhe inúmeras páginas, dando muita relevância aos monumentos. De facto, um dos ícones mais conhecidos da cidade é a Janela Manuelina do Convento de Cristo. Mas Tomar tem muito mais interesses. Não só assumiu a herança dos templários, como também apresenta muitas inovações, que em boa parte envolvem a proximidade do Instituto Politécnico de Tomar.
José-Augusto França (1922-2021), historiador de arte, nasceu em Tomar e escreveu alguns trabalhos sobre a cidade. Podemos visitar o "Centro de Arte Contemporânea" do Museu Municipal, que tem cerca de duzentas obras que este colecionou durante a sua atividade, em particular relacionadas com os movimentos artísticos portugueses, mas eu ainda não tive tempo para ir lá.
Embora já tenha ido várias vezes ao Convento de Cristo, não tenho fotografias. Entretanto, a última vez que fui a Tomar fotografei a entrada da Igreja da Misericórdia. Fico sempre surpreendido com o que se pode fazer com a pedra. Durante milénios a humanidade só tinha disponíveis cinco tipos de materiais: minerais (rochas e metais), vegetais (fibras, etc.), animais (couro, ossos, etc.), cerâmicos e vidros. Os polímeros sintéticos, para além dos avanços que proporcionaram em relação a estes tipos tradicionais, vieram aumentar muito as possibilidades, mas só no século XX. Agora causam problemas, mas é preciso não esquecer esse alargamento das possibilidade e, paradoxalmente, da sustentabilidade. Fernando Lopes-Graça (1906-1997) nasceu também em Tomar. No Parque da Levada, há uma estátua alusiva a este personagem importante da nossa história. A sua obra é lembrada na “Casa da Memória”, onde também ainda não tive tempo de ir.Também não fui ao Museu dos Fósforos, mas o guia que consultei refere que neste podemos ver milhares de caixas (mais de sessenta mil) de mais de 120 países. Curiosamente, em Jonkoping, na Suécia, visitei o Museu dos Fósforos, que não dá tanta importância às imagens das caixas, mas às questões da produção destes.
Ao passar a ponte sobre o Rio Nabão, chamou-me a atenção a calçada portuguesa com rochas rosa e brancas. As calçadas em Portugal continental são em geral feitas de rochas calcárias de carbonato de cálcio, mas a presença de óxidos de ferro, ou de outros metais, ou de compostos de carbono, fá-las apresentar uma gama muito grande de cores. No caso dos vermelhos e rosa, são provavelmente óxidos de ferro.No parque da levada do mouchão (1), há uma roda de madeira alusiva ao aproveitamento da água realizado pelos árabes. Mas quando dizemos isto podemos refletir um pouco. Portugal e a Península Ibérica durante muitos séculos foram colonizados por esses povos do Sul, havendo uma razoável harmonia e tolerância, além de trocas e entrosamento culturais.O grande industrial de Tomar foi Manuel Mendes Godinho, mas eu não sabia. Mas, ao ver uma estátua com o seu nome, fiz alguma pesquisa, em particular li o livro de Manuel Valente (2) e aprendi muitas coisas sobre Mendes Godinho. O império industrial da sua família envolvia moagens de farinha, aproveitando a energia do rio, fábricas de rações e de cerâmica, instalações de extração de óleo de bagaço de azeitona e uma central elétrica (esta última, mais pela necessidade de energia para as anteriores, segundo percebi), entre muitas outras. Algumas destas indústrias mais antigas fazem agora parte do Complexo Cultural da Levada, junto ao rio. Neste, além da fábrica de moagem, de acesso limitado que foi adapatada para a realização de residências artísticas, podemos visitar a central elétrica, uma fundição e um centro interpretativo de Tomar. Vou-me concentrar nos dois primeiros.
Talvez não seja muito conhecido o legado de Mendes Godinho, mas se eu referir “Platex” e azeite “Oliveira da Serra” quase toda a gente conhece. Começando pelo segundo caso, Mendes Godinho e sua família não criaram diretamente a empresa “Sovena” responsável por esta marca de azeite, mas criaram a “Tagol” que na sua segunda vida, depois de passar por muitos problemas, deu origem à atual Sovena (3). Já a “Platex”, e as empresas de aproveitamento de fibras de madeira que se lhe seguiram, surgiu por intervenção direta de Mendes Godinho - “platex” permanece no nosso imaginário (pelo menos no meu) como sinónimo de um tipo de aglomerado de madeira. Porque refiro estas empresas que parecem não ter nada a ver com Química? Começando pela primeira não há dúvida que têm. Queremos azeite “puro” no sentido de ter vindo diretamente da azeitona sem intervenções “químicas” mas estas intervenções têm necessariamente de existir, nem que seja na análise química do resultado, confirmando essa “pureza”, através da química analítica e controlo de qualidade. É que não podemos confiar cegamente na “pureza” publicitada. Os possíveis vigaristas conhecem essa nossa fraqueza por coisas “puras” e usam-na a seu favor. Em Espanha, por exemplo, nos anos oitenta do século XX morreram várias pessoas que compraram azeite em mercados, provavelmente “caseiro”, que era obtido destilando um óleo que não se destinava a consumo humano. Não quero com isto dizer que o conceito de “caseiro” seja mau – é bom com certeza -, o que é necessário é que seja verificado e estudado, não só que se verifique que o produto mesmo “caseiro”, mas também que não origine riscos para a saúde, pois não faltam coisas “caseiras” perigosas. Mas há mais. A Química permite também a análise detalhada da composição e a otimização das condições de fabrico para ajudar a Natureza a agir de forma mais rápida e segura. A Química não procura fazer um azeite “melhor” (embora no seu programa de alargamento da natureza possa tentá-lo), mas verificar, estudar e otimizar o resultado “natural”. E o que é o azeite? Uma gordura vegetal natural, usada desde tempos imemoriais na alimentação, cosmética e iluminação. Na polpa do fruto, as azeitonas, formam-se gotículas deste óleo que é um triglicédido, sintetizado, por hidrólise, pela planta a partir de ácidos gordos e glicerol, que forma previamente sintetizados. Essas gotículas são rodeadas por uma biomembrana e têm também moléculas que são responsáveis pelo seu cheiro e cor. O ácido gordo mais comum no azeite é o ácido oleico.Notas e referências
(1) Mouchão é uma ilha num rio. Outros nomes usados são “murraça” ou “murraceira” por exemplo. Eu não conhecia o significado desta palavra mas hoje em dia podemos aprender as coisas rapidamente com a Internet. Muitas vezes só custa tempo e, claro, o uso de espírito crítico. E podemos saber com as coisas se pronunciam. Isso é muito útil para nomes estrangeiros.
(2) Leonel Valente. Mendes Godinho : uma história de empreendedorismo empresarial familiar. Associação MG – Memorial Mendes Godinho, 2018.
(3) Segundo o que li no livro de Leonel Valente (2) a "Tagol" foi a maior empresa privada de Portugal. Com a revolução, a família que era dona da empresa através do banco familiar, que foi nacionalizado, deixou de ser dona da empresa. De vicissitude em vicissitude, esta acabou na falência, tendo uma "segunda vida" agora como "Sovena" que é dona de marcas como a do azeite "Oliveira da Serra". Além das produções normais, em 2007 inaugurou uma unidade de produção de biodiesel que produzia 300 toneladas por dia. A Sovena, através de um complexo conjunto de participações é do Grupo Jorge Mello. A história é contada em detalhe no livro de Leonel Vicente, mas houve alturas que a Tagol esteve para ser da Tabaqueira, agora do grupo da Philip Morris, ou da Cargill, uma multinacional que o publico não conhece em geral por os seus negocios envolverem matérias primas alimentares e não produtos finais. Estar agora na esfera do Grupo Mello, foi conhecido na altura como a "vingança do amendoim" por inicialmente ter quebrado o monopólio das óleos alimentares da CUF (Companhia União Fabril, que irá dar mais tarde origem ao Grupo Mello).
(4) Moléculas quirais que possuem geometrias que são a imagem no espelho umas das outras, como as nossas mãos esquerda e direita. São ditas “enantiómetos”, sendo que a sua mistura que não tem propriedades óticas é referida como “mistura racémica” ou “racemato”. A notação tradicional D e L para dextrogiro (seguindo o sentido horário) e levogiro (sentido anti-horário) foi sugerida por Emile Fischer tendo como base a posição dos grupos OH do formaldeído e é conhecia como a configuração absoluta. A notação (+) e (-) (ou d/l em minúsculas) refere-se ao valor experimental dessa rotação. Finalmente temos a notação R e S (rectus e sinistra) que se aplica para o ambiente químico que rodeia cada átomo de carbono. Apenas para o formaldeído é garantido que D é (+) e L (-). Nos restantes casos, podemos ter diferentes possibilidades.
Jorge Böhm (Coord.) O grande livro da oliveira e do azeite. Dinalivro, 2013.








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