O grande industrial de Tomar foi Manuel Mendes Godinho, mas eu não sabia. Ao ver uma estátua com o seu nome, fiz alguma pesquisa, em particular li o livro de Manuel Valente (3) e aprendi muitas coisas sobre Mendes Godinho. O império industrial da sua família envolvia moagens de farinha, aproveitando a energia do rio, fábricas de rações e de cerâmica, instalações de extração de óleo de bagaço de azeitona e uma central elétrica (esta última, mais pela necessidade de energia para as anteriores, segundo percebi), entre muitas outras. Algumas destas indústrias mais antigas fazem agora parte do Complexo Cultural da Levada, junto ao rio. Neste, além da fábrica de moagem, de acesso limitado que foi adaptada para a realização de residências artísticas, podemos visitar a central elétrica, uma fundição e o centro interpretativo de Tomar. Vou-me concentrar nos dois primeiros.
Na fundição podem ver-se os processos tradicionais de fusão deste metal e o seu uso para obter peças de ferro fundido. Podem também ver-se as condições e rotinas dos funcionários. Deve notar-se que o ferro, não existia livre na natureza (para além de ocasionais meteoritos) e que devido ao seu alto ponto de fusão (1538ºC) só se pode começar a fundir em fornos especiais pelo fim da Idade Média. Antes, obtinha-se a partir dos seus óxidos com carvão, , sendo feita a sua redução, e obtinha-se nas forjas um material suficientemente maleável para ser trabalhado mas não para ser fundido. Até à chamada "Idade do Ferro", os metais disponíveis eram o ouro, a prata, o cobre, o estanho e o chumbo - o mercúrio é um caso particular-, sendo que eram todos bastante maleáveis. O bronze (liga tradicinalmente de 12% de estanho, ponto de fusão 232ºC, e cobre, ponto de fusão 1085ºC) veio aumentar muito as possibilidades pois permitiu obter materiais mais duros e com ponto de fusão relativamente baixo (850-900ºC). A central elétrica tem várias máquinas para obter energia elétrica a partir da força eletromotriz e combustíveis. Chamou-me a atenção os manómetros para afinar a frequência da corrente alternada. Mas o que achei mais curioso foi uma exposição temporária de Romy Castro, numa extensão do Núcleo de Arte Moderna. Os objetos artísticos expostos eram ou de carvão ou fotografias de carvão. Pode parecer algo estranho expor pedaços de carvão, mas é isso que é em boa parte a melhor arte contemporânea: obras que nos interrogam e surpreendem.Porque refiro estas empresas que parecem não ter nada a ver com Química? Começando pela primeira não há dúvida que têm. Queremos azeite “puro” no sentido de ter vindo diretamente da azeitona sem intervenções “químicas” mas estas intervenções têm necessariamente de existir, nem que seja na análise química do resultado, confirmando essa “pureza”, através da química analítica e controlo de qualidade. É que não podemos confiar cegamente na “pureza” publicitada. Os possíveis vigaristas conhecem essa nossa fraqueza por coisas “puras” e usam-na a seu favor. Em Espanha, por exemplo, nos anos oitenta do século XX morreram várias pessoas que compraram azeite em mercados, provavelmente “caseiro”, que era obtido destilando um óleo que não se destinava a consumo humano.
Não quero com isto dizer que o conceito de “caseiro” seja mau – é bom com certeza -, o que é necessário é que seja verificado e estudado, não só que se verifique que o produto mesmo “caseiro”, mas também que não origine riscos para a saúde, pois não faltam coisas “caseiras” perigosas. Mas há mais. A Química permite também a análise detalhada da composição e a otimização das condições de fabrico para ajudar a Natureza a agir de forma mais rápida e segura. A Química não procura fazer um azeite “melhor” (embora no seu programa de alargamento da natureza possa tentá-lo), mas verificar, estudar e otimizar o resultado “natural”.
O ácido tartárico está no centro de um grande avanço na Química: a descoberta da quiralidade (6) de algumas moléculas. Estas moléculas são em tudo iguais, exceto no que concerne às suas imagens num espelho e a natureza usa preferencialmente uma das formas. Por exemplo, nos açúcares, a maior parte das moléculas usadas pelos organismos vivos estão na forma D. Por outro lado, a maioria dos aminoácidos nos seres vivos está na forma L. Estas moléculas são muito comuns na natureza, mas até Pasteur não sabíamos da sua existência. Pasteur, com muita paciência e bastante sorte (mas a sorte conquista-se e é favorecida pelas mentes preparadas) separou as formas D e L dos cristais de ácido tartárico.
Assim, os pães de um tabuleiro dariam para cerca de 15 dias em termos de calorias de uma pessoa. Se consideramos o número que li de mais de 600 tabuleiros, dá mais de sete toneladas de pão. Todo este pão é entregue às populações. A Festa dos Tabuleiros só voltará a ocorrer em 2028.
Notas e referências
(1) Ana Carvalho Dias, Irene Frasão (Coords.) A Charola do Convento de Cristo. História e Restauro. DGPC, Lisboa, 2014,
(2) Mouchão é uma ilha num rio. Outros nomes usados são “murraça” ou “murraceira” por exemplo. Eu não conhecia o significado desta palavra mas hoje em dia podemos aprender as coisas rapidamente com a Internet. Muitas vezes só custa tempo e, claro, o uso de espírito crítico. E podemos saber com as coisas se pronunciam. Isso é muito útil para nomes estrangeiros.
(3) Leonel Valente. Mendes Godinho : uma história de empreendedorismo empresarial familiar. Associação MG – Memorial Mendes Godinho, 2018.
(4) Segundo o que li no livro de Leonel Valente (3) a "Tagol" foi a maior empresa privada de Portugal. Com a revolução, a família que era dona da empresa através do banco familiar, que foi nacionalizado, deixou de ser dona da empresa. De vicissitude em vicissitude, esta acabou na falência, tendo uma "segunda vida" agora como "Sovena" que é dona de marcas como a do azeite "Oliveira da Serra" e "Fula". Além das produções normais, em 2007 inaugurou uma unidade de produção de biodiesel que produzia 300 toneladas por dia. A Sovena, através de um complexo conjunto de participações é do Grupo Jorge Mello. A história é contada em detalhe no livro de Leonel Vicente, mas houve alturas que a Tagol esteve para ser da Tabaqueira, agora do grupo da Philip Morris, ou da Cargill, uma multinacional que o publico não conhece em geral por os seus negocios envolverem matérias primas alimentares e não produtos finais. Estar agora na esfera do Grupo Mello, foi conhecido na altura como a "vingança do amendoim" por inicialmente ter quebrado o monopólio das óleos alimentares da CUF (Companhia União Fabril, que irá dar mais tarde origem ao Grupo Mello).
(5) Jorge Böhm (Coord.) O grande livro da oliveira e do azeite. Dinalivro, 2013.
(6) Moléculas quirais que possuem geometrias que são a imagem no espelho umas das outras, como as nossas mãos esquerda e direita. São ditas “enantiómetos”, sendo que a sua mistura que não tem propriedades óticas é referida como “mistura racémica” ou “racemato”. A notação tradicional D e L para dextrogiro (seguindo o sentido horário) e levogiro (sentido anti-horário) foi sugerida por Emile Fischer tendo como base a posição dos grupos OH do formaldeído e é conhecia como a configuração absoluta. A notação (+) e (-) (ou d/l em minúsculas) refere-se ao valor experimental dessa rotação. Finalmente temos a notação R e S (rectus e sinistra) que se aplica para o ambiente químico que rodeia cada átomo de carbono. Apenas para o formaldeído é garantido que D é (+) e L (-). Nos restantes casos, podemos ter diferentes possibilidades.





