Passeio Químico em Évora

[Tive a ideia de escrever um passeio químico em Évora quando fiz uma palestra online para uma escola desta cidade, em 2020. Já não ia a Évora há bastante tempo, nem tinha fotografias, mas pensei fazer o passeio com base no Google Maps e roteiros e guias disponíveis. Acabou por não se concretizar, mas reuni, nessa altura, algum material. Em 2026, surgiu de novo a oportunidade com a participação, em maio, no SciCom 2026 e a preparação do passeio Químico para realizar em setembro no Encontro da Associação Portuguesa de Professores de Física e Química (APPFQ). Juntei mais material e, durante o SciCom, tirei as fotografias, fiz a preparação do percurso a fazer no congresso da APPFQ e criei agora a presente crónica. Évora será Capital Europeia da Cultura em 2027.]

Évora é uma elegante cidade alentejana, que, sendo rica em passado, vive bem no presente e parece projetar-se de forma confortável no futuro. Como este passeio se centra na Química, iremos discorrer, no que concerne ao passado, sobre a presença romana na cidade e sobre a sua universidade antiga, fundada no século XVII, a qual foi interrompida com a expulsão dos jesuítas, sendo retomada em 1973. Seguiremos também percursos relacionados com a água de abastecimento urbano, desde os romanos ate à atualidade, ligando passado e presente. Chamaremos ainda a atenção para a investigação e a indústria aeronáutica e os laboratórios de análise e conservação do património.     

Os químicos costumam dizer que a química está em todo o lado, mas essa presença acaba por se tornar invisível de tão trivial que parece ser. Os materiais de que é feita a matéria: os elementos, as substâncias elementares e compostas, as misturas homogéneas e heterogéneas; os metais, os sais e os polímeros; os átomos, as moléculas e os iões. O que é ensinado na escola sobre a Química tem um propósito e pode sair da sala de aula e ser relacionado com o que nos rodeia. E ser utilizado de forma útil para perceber e agir sobre o mundo. Mas, este “sermão,” além de ser antigo, é bastante inútil, pois, se a generalidade dos alunos e público podem intuir o óbvio, quase nunca ficam fascinados com as aplicações da Química que estão à sua volta, por estas parecerem triviais ou serem invisíveis. 

Assim, estes passeios, mais do que falar sobre as "maravilhas" da Química em abstrato, buscam tornar visíveis essas "maravilhas" que nos rodeiam. Para Évora, em particular, foi relevante a consulta de um livro sobre percursos científicos na cidade (Soler et al., 2019). Foram também úteis vários guias (Turismo de Portugal, 2016;Visit Portugal, 2016; Câmara Municipal de Évora, 2019; Bairro dos Livros, 2022), assim como livros (Mendonça, 2000;  Mendeiros, 2002; Polónia, 2005; Guimarães, 2006; Galopim de Carvalho, 2021) e artigos (Matos, 1991). 

Para ilustrar de forma inesperada e interdisciplinar, a presença ubíqua da Química, começo com a literatura. Poderia começar pelos monumentos, pelos jardins, pelos meios de transporte, pelos supermercados e farmácias e, em última análise, poderia iniciar com o que temos nos bolsos ou pelo nosso próprio corpo. Qualquer coisa serviria, mas começo com um livro passado em Évora: “Aparição”, de Vergílio Ferreira, publicado originalmente em 1959. 

O livro espelha a alienação, o mal-estar e a claustrofobia da sociedade portuguesa da altura, assim como, indelevelmente, as condições sociais e políticas opressivas em que se vivia (lembremos os reparos subtis aos métodos pedagógicos que realçavam as diferenças sociais e a “sabotagem” das conferências que se destinavam às classes trabalhadoras), mas também, na minha opinião, servia inadvertidamente os interesses do Estado Novo, pois eram precisamente “os que estudavam” e que pensavam o mundo, que se revelam mais infelizes e com mais problemas existenciais. Esta introdução parece não ter nada a ver com Química? Tem a ver com o ensino desta ciência e com os mecanismos da Química da vida, os neurotransmissores, as hormonas e outras moléculas. Claro que a realidade é muito mais complexa do que os processos e moléculas com que esta se relaciona, mas estes estão presentes, estendendo as possibilidades de explicação disponíveis.       

“Aparição” é também espelho das separações sociais implícitas na sociedade portuguesa e da condição da mulher nesse tempo. Escreve Galopim de Carvalho (2021): “embora na letra da constituição de 1933, figurasse o principio de igualdade perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona de casa, e submissa ao marido (…) As enfermeiras não podiam casar e as professoras tinham de pedir autorização”, e, mais à frente, “depois do jantar os homens saiam e as mulheres ficavam em casa.” 

Em

"Aparição", todas as personagens estudaram pelo menos até ao fim do liceu, mesmo as mulheres, havendo médicos, engenheiros, agrónomos e professores. Isso contrasta muito com o facto de, em Portugal, na altura, haver um nível de analfabetismo enorme. Em 1960, era de 32%, sendo que a percentagem nas mulheres era 41% e nos homens 26%. O desprezo pela verdadeira cultura e as separações sociais implícitas (muitas vezes explícitas), assentavam muito bem ao Estado Novo. Era uma forma de pensar que pagámos muito caro em termos de desenvolvimento social e económico. E já vinha de trás esse “orgulho” na incultura. Por exemplo, Virgínia de Castro no Jornal o Século de 5 de fevereiro de 1927, escrevia: "sabendo ler e escrever nascem-lhes ambições. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa, reside nesses 75% de analfabetos.”

Vergilio Ferreira Ferreira foi professor no Liceu de Évora de 1945 a 1960, e, no livro, descreve aspetos, hoje quase esquecidos, relacionados com a iluminação, água canalizada, automóveis, entre muitos outros. Galopim de Carvalho (2021), embora escrevendo reletivamente às décadas anteriores, refere também muito desses aspetos, havendo muita semelhança. Achei curioso, por exemplo, a referência aos doces de raiz de escorcioneira (Scorzonera hispanica) hoje quase esquecidos, tanto no livro de Vergílio Ferreira como no de Galopim de Carvalho. São doces da raiz caramelizada desta planta. Dizer “raiz caramelizada” pode não evocar logo a Química, mas pense-se nos processos de obtenção da sacarose e da sua caramelização, pense-se na moléula da sacarose, nos compostos responsáveis pelo sabor e cheiro da planta, e será fácil ter uma ideia das possibilidades “químicas” do tema.  

Como já referi, muitos dos aspetos químicos de “Aparição” estão implícitos. Queria chamar a atenção para três deles: o nascimento “tardio” de Cristina, o banho que prepara o sr. Machado da pensão e o automóvel que comprou Alberto Soares, a principal personagem. No primeiro caso,  é dito que o pai de Cristina se “enganou com a fisiologia” (vamos por agora esquecer os aspetos de machismo implícito, embora se tratasse de um médico). Devemos, no entanto, notar que os contracetivos orais (vulgarmente conhecidos como “a pílula”) só surgiram nos anos 1960, depois de a molécula que permitiu a sua existência ter sido desenvolvida, nos anos 1950. 

No segundo caso, sendo precisa cerca de meia hora para preparar o banho, suspeitamos que a água tinha de ser aquecida e transportada, não sendo canalizada. Mais uma vez, citamos Galopim de Carvalho (2021): “eram então muitas poucas as casas com água canalizada e quem não tinha poço ia abastecer-se no chafariz.” Sobre o automóvel, atente-se às questões comuns na altura de “rodagem” e “lubrificação”. Como os óleos e os materiais vedantes dos carros não estavam tão otimizados como hoje, os carros tinham de fazer essa rodagem, mudar de óleo e ser lubrificados com frequência. 

Além disso, os carros gastavam muita gasolina, dez litros aos cem quilómetros, ou mais, era frequente. A gasolina tinha um composto de chumbo para aumentar o seu poder detonante. Hoje em dia, os carros têm catalisadores para evitar a formação de NO2, numa reação do oxigénio com o nitrogénio que ocorre a altas temperaturas, as gasolinas não têm aditivos com compostos de chumbo e os automóveis gastam cerca de cinco litros de gasolina aos cem quilómetros. E não precisam de rodagem e lubrificações frequentes, fazem as mudanças de óleo muito mais espaçadas, sendo que o óleo pode ser reciclado. Mas isso não chega, claro, os carros que eram “motores de combustão Vitorianos” rodeados de metal, são agora cada vez mais” computadores com rodas” rodeados de polímeros. Sendo que muitos carros têm motores elétricos. Mas também isso não chega. Os carros são mais pesados devido às baterias que precisam de lítio e cobalto, fazendo mais pressão sobre os pneus que libertam, agora, mais partículas. Há, no entanto, uma intensa busca de soluções: reciclagem do lítio, outros tipos de baterias, etc. Em todos estes aspetos, a Química tem, ou pode ter, contribuições importantes para a sustentabilidade. E, na minha opinião, mais do que o crescimento exponencial das tecnologias, a marca mais relevante da atualidade é o nível de atenção e busca ativa  de soluções.            

Vamos agora referir a universidade antiga e, em particular, os seus azulejos. Como é bem sabido, os azulejos tradicionais têm cor azul devido ao óxido de cobalto. E no cozimento a altas temperaturas, ocorrem várias reações químicas, sendo a mais relevante a formação de ligações químicas irreversíveis com libertação de água. Por outro lado, os vidrados têm em geral óxidos de chumbo que fazem baixar o ponto de fusão. Também sobre a formação dos azulejos e outros materiais cerâmicos, podería discorrer longamente, como já fiz noutros Passeios Químicos e livros (veja-se, em particular, Rodrigues, 2014). 

Vou, no entanto, concentrar-me nas imagens dos azulejos. Nesse aspeto, os azulejos da universidade de Évora são riquíssimos e espelham bem o nível de conhecimentos e práticas da época. Na minha opinião, contrariamente ao que se diz por vezes, havia um ensino com vertentes experimentais e práticas, suportado claro, pela teoria. E, embora na universidade da altura, houvesse tendência para sobrevalorizar a segunda, estes são indissociáveis. Um exemplo paradigmático são os azulejos da aula de Filosofia Metafísica. José Filipe Mendeiros (2019), refere que João Simões (1945) apenas os interpretou em termos físicos, quando as interpretações metafísicsa são fundamentais. Não vou tomar partido nessa discussão, mas as imagens dos azulejos mostram claramente as interpretações físicas, que são óbvias, em particular, num painel vê-se o funcionamento de um tear e são destiladas rosas para obter a sua essência. As interpretações metafísicas, não anulam as interpretações físicas e práticas, só as enriquecem. 

Também na aula de Filosofia Natural vários azulejos evocam aspetos científicos. Num painel pode ver-se a famosa demonstração dos hemisférios de Magdeburgo. Noutro, as virtudes do peixe elétrico, noutra o “pó de simpatia” e ainda noutros o fenómeno do magnetismo.

O magnetismo é muitas vezes apresentado como um fenómeno puramente físico. Mas não é. A natureza dos materiais é importante. O ferro, e outros metais, apresentam propriedades magnéticas por o spin dos seus eletrões se alinhar, criando um efeito macroscópico de atração e repulsão. Curiosamente, esse efeito pode ser amplificado em ligas de vários metais, sendo muito conhecidos os ímanes de neodímio que são feitos de neodímio, ferro e boro. E ímanes mais fortes permitem fazer turbinas eólicas mais eficientes para a produção de eletricidade.      

Uma boa parte dos metais não tem propriedades magnéticas, havendo ligas de ferro (alguns aços inoxidáveis, por exemplo) que não apresentam magnetismo (sugere-se que os leitores experimentem). Mas, para separar estas ligas e o alumínio e o cobre, que se sabe bem não terem propriedades magnéticas, é usado o magnetismo. Como? Através da denominada corrente de Eddy. Como os metais são condutores, pode ser criada nestes uma corrente elétrica, e assim magnetismo, quando o material é exposto a um campo magnético variável ou em movimento. Esta corrente permite repelir as latas de alumínio e o cobre do lixo, separado-os. Deve notar-se também que o alumínio pode ser separado facilmente do cobre pois é muito menos denso. 

Se a demonstração dos hemisférios de Magdeburgo para ilustrar o efeito dramático da pressão atmosférica é bem conhecido, o caso do “pó de simpatia” é menos conhecido, assim como as polémicas a que desde sempre esteve ligado. De facto, era usado para “curar” um ferimento de um duelo, ou outro, aplicado sobre a arma que provocou o ferimento e não no ferido! Obviamente, muitas pessoas contestavam a eficácia do “tratamento”, incluindo vários jesuítas. 

Há ainda azulejos relacionados com outras demonstrações, nomeadamente do uso de espelhos. Gostaria de voltar ao peixe elétrico, pois foi alvo de muitas investigações científicas, nomeadamente de Henry Cavendish, que descobriu o hidrogénio. Há várias espécies de peixes elétricos, mas os mais conhecidos são a tremelga, ou raia elétrica, (Torpedo torpedo) - que parece ser mais ou menos a que está no desenho do azulejo - e a enguia elétrica (Electrophorus electricus), que têm em comum a produção de uma descarga de corrente elétrica que atordoa os peixes à sua volta, sendo que a espécie de água doce, a enguia elétrica, tem de produzir maiores voltagens, pois a água doce é menos condutora. Pode perguntar-se porque não sofrem eles próprios com essa corrente. Tem a ver com a direção da descarga (como um teaser), que é emitida por partes do seu corpo que estão “isoladas”, sendo a energia elétrica também armazenada em partes “isoladas” do corpo. Mas são afetados pela corrente produzida por outros peixes. 

Há muitos outros aspetos a descobrir nos azulejos, nomeadamente quatro conjuntos alusivos à teoria dos quatro elementos (água, terra, ar e fogo). Esta vigorou desde a Grécia Antiga quase até ao século XIX, mas há alguns aspetos a considerar. Não se tratava de elementos químicos no sentido moderno mas mais de princípios (esse aspeto é bastante conhecido, discuto-o em Rodrigues, 2026). Para além disso, os nomes evocam claramente os três estados da matéria e, de alguma forma, a energia. Mais aspetos, desafiamos os leitores a descobrir entrando nas salas quando não há aulas.             

Como mostra Alice Mendonça (2000), houve no Concelho de Évora - e não é muito diferente do que ocorria noutros locais - bastantes episódios de mortalidade excecional na segunda metade do século XIX. Segundo esta autora, embora alguns episódios possam ser atribuídos a surtos de doenças infeciosas como cólera, varíola, ou gripe, outros foi impossível identificar se a sua natureza era epidémica ou outra (nestes estão incluídos as fomes periódicas, as elevações de temperatura, associados a deterioração dos alimentos e estagnação das águas, por exemplo). Curiosamente, não fala de febre tifóide ou difteria (Galopim de Carvalho, 2019, refere a segunda) que eram também muito comuns em Portugal, mas sendo o Alentejo menos povoado podem ter tido menos expressão. No entanto, em apêndice, são apresentados dados das mortes hospitais desde 1881 e aparecem mais de uma dezena de casos de febre tifóide, além de outras doenças não referidas, como a tuberculose. Muito provavelmente, estes episódio irão repetir-se ao longo da primeira metade do século XX, altura em que a melhor qualidade alimentar, tratamento das águas, higiene e aparecimento de medicamentos, como antibióticos, diminuiu a importância destes episódios. Ora, para o aumento da produção agrícola, tratamento das águas, surgimento de medicamentos, entre outros fatores, os desenvolvimentos químicos foram, e continuam a ser, fundamentais (Rodrigues, 2022a).

Os percursos da água em Évora, recuam a tempos muito antigos. Perto da Câmara Municipal estão as Termas Romanas e tem sido descoberto um antigo aqueduto romano para o qual foram usadas as técnicas de construção características em silharia (pedras quadrangulares sobrepostas sem argamassa). Há também vários vestígios do uso de betão romano, nomeadamente uma “sapata” de um pilar, construído em opus caementicium, onde não há vestígios de materiais de materiais quinhentistas (Câmara Municipal de Évora, 2019). Uma teoria para a obtenção deste betão é de que no próprio local era realizada a produção de cal apagada a partir de cal viva, o que originava um grande aquecimento. Embora perigoso e insalubre, este método de construção permitia obter as características únicas que hoje conhecemos (Seymor et al., 2023).  

A “Água de Prata”  era obtida do Divorum, o “campo dos deuses”, onde Tejo, Sado e Guadiana se encontram a uma altitude superior à da cidade (Câmara Municipal de Évora, 2019). Embora houvesse formas de elevação da água, só seria exequível o seu uso, descendo por gravidade de uma altura superior.  

No Palácio D. Manuel estava, quando estive em Évora, em exposição uma réplica de um antigo de cano romano de chumbo usado nas canalizações. Tratava-se de um metal durável pouco dado à formação de óxidos, muito maleável e de baixo ponto de fusão. Obviamente não é aceitável a canalização de chumbo e mesmo as antigas com ferro galvanizado têm sido substituídas por aço inoxidável ou vários polímeros, em particular PVC (policloreto de vinil) nas condutas pensadas para durar mais tempo. Em qualquer dos casos, felizmente, em geral, as canalizações de chumbo eram protegidas da libertação de sais de chumbo pela formação de camadas de carbonato de cálcio em águas mais calcárias. 

O Aqueduto da prata é uma obra do século XVI que a cerca de um quilómetro do centro da cidade atinge uma altura considerável. O troço público deste aqueduto tem cerca de 8 km e trazia água para a cidade, abastecendo várias fontes públicas, mosteiros e palácios. No Palácio de D. Manuel estavam em exposição as "chaves" correspondentes à água atribuída. A media é a “pena”, a qual corresponde a um cano com um diâmetro de uma pena de pato (cerca de 1 milímetro) e o “anel” que corresponde a oito “penas”. Ora, sendo medidas de caudal deveria ser indicado o tempo, mas não consegui verificar os detalhes.


Perto deste palácio encontra-se a imponente e bem cuidada Igreja dos Franciscanos ao lado da qual está a conhecida capela dos ossos (onde não fui, desta vez). Nesta igreja, e noutras, claro, podemos ver vários altares com folha de ouro. Como já referi várias vezes, trata-se mesmo de folhas de ouro, mas muito finas (cerca 0.1 mm), que podem ser usadas para cobrir uma extensão bastante grande sem que a quantidade de ouro usada seja muito elevada.  

A dimensão relativamente reduzida da elegante caixa de água na Rua Nova indica que era uma  caixa de distribuição e não de um reservatório. Perto desta, na Praça do Giraldo a água que está na fonte circula em circuito fechado e já não faz parte da rede de abastecimento. Esta água é provavelmente tratada com hipoclorito de sódio como acontece em muitas fontes deste tipo, por exemplo em Lisboa, que “cheiram a lixívia” pois têm concentrações de hipoclorito muito acima daquele que é usado nas águas de consumo humano (não dei conta desta fonte ter esse cheiro). 

Escreve Galopim de Carvalho (2021) que, sob as arcadas da Praça ficava o Café Arcada, que apareceu em 1942 para o público da classe média, possuindo frigorífico e outras inovações (deve notar-se que em Portugal até aos ano 1960, o figorífico era relativamente raro). De acordo com este autor, o café enchia-se todas as terças-feiras que era o dia do mercado semanal, “dia dos porcos”, refere. Galopim de Carvalho, relembra também o pirolito que era fabricado num vidro transparente esverdeado devido às impurezas da matéria-prima, óxido de ferro (+2).

Perto da Praça do Giraldo, no início da Rua Serpa Pinto, fica um possível bebedouro de animais. Além de não ter água, não me lembro de ter visto as clássicas argolas de ferro ou outros equipamentos para prender os animais. Os grampos de fixação das pedras, que originalmente deveriam ter tido chumbo para ajudar à sua fixação, têm agora argamassa à superfície, mas quase de certeza que encontramos chumbo mais abaixo. 

Pode visitar-se a antiga estação elevatória de água, agora Museu da Água (Unidade Museológica CEA, 2023). Aqui podem ver-se vários contadores que mediam a quantidade de água consumida, bombas elevatórias, entre outros objetos. A questão das bombas serem elevatórias e estarem na parte de baixo do depósito, em vez de estarem no cimo do próprio depósito é interessante por si só. De facto, com bombas elevatórias pode elevar-se a água a virtualmente qualquer altura, mas se estas estivessem no topo do depósito atuariam por sucção e o depósito só poderia estar a cerca de dez metros! 

Em termos químicos, chamou-me a atenção um papel que servia de guia ao tratamento manual da água com hipoclorito de sódio. Salta logo à vista que se trata de uma tabela com diluições, mas a solução inicial não é indicada. Para além disso, parece ser muito manual e possível de correr mal. Considerando que a solução inicial poderia ser de 10% (valor típico para  soluções de hipoclorito de sódio industriais), daria um valor para cloro ativo na água de cerca de 0.5 ppm, o que está dentro dos valores hoje em dia usados (0.2-1.0 ppm). 

A água de abastecimento urbano vem atualmente barragem de Monte Novo, a qual abastece os concelhos de Évora, Reguengos de Monsaraz e Mourão (Soler et al., 2019). Além de proporcionar um volume muito maior de água, envolve com certeza um conjunto de tratamentos e análises muito mais complexo, rigoroso e automatizado.

As cores das casas são muito caraterísticas em tons de branco com amarelo nos rodapés, ombreiras, arestas e esquinas. Era tradicionalmente feita uma caiação na qual se usava um pigmento natural entre o amarelo e castanho obtido da terra que continha óxidos de ferro. Na parede limpa e com uma demão de cal branca, procedia-se à caiação com terra corada incorporada (Soler et al., 2021). A juntar a isto, é tradicional a técnica do esgrafito, no qual os desenhos são realizados com estilete através da remoção de das argamassas superficiais (Soler et al., 2019). 

Os brancos muito claros e brilhantes das paredes, agora devem ser muitos de dióxido de titânio, um pigmento mais versátil e duradouro, mas antigamente e ainda agora eram de cal, hidróxido de cálcio, e a cor branca muito intensa era devida ao cálcio.  

O museu de Évora é designado Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. Este foi um dos membros da comissão criada pelo Marquês de Pombal para reformar a Universidade de Coimbra. Sabemos muito do que se passou nessas sessões por este ter deixado um diário em que falava delas (vários textos sobre a reforma pombalina em Coimbra podem ser consultados em, Simões et al, 2022). Trata-se de um museu muito interessante, tendo-me chamado a atenção vários aspetos, em particular, algo que não sendo novo, estava muito bem feito: a utilização de réplicas que se podem tocar, usando impressão 3D. Em frente fica a galeria da Fundação Eugénio de Almeida, onde se podem ver muitos trabalhos modernos, mas também, entrando mais para dentro, ver as paredes pintadas com frescos antigos.  

No Jardim Público, vi as “ruínas fingidas” mas não encontrei (pretendo fazê-lo quando voltar a Évora) a “Cúpula da Bomba Atómica” de Hiroshima, onde estão depositadas sementes de árvores sobreviventes ao bombardeamento atómico de 1945 de cânfora (Cinnamonum camphora) e kurogane-azevinho (Ilex rotunda).

Finalmente, queria chamar a atenção para a “Rota dos ODS” (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) de Évora que foram elaborados por alunos da Escola Severim de Faria (Pires et al. s.d). Na, minha opinião, estão muito bem escolhidos. Costumo dizer que todos os ODS, envolvem Química (Rodrigues, 2022b). Não vou referir todos, mas o ODS – Igualdade de género, indica a Travessa do Açal, onde nasceu a escritora Diana de Liz, pseudónimo da escritora eborense Maria Eugénia Haas da Costa Ramos (Bairro dos Livros, 2022), companheira de outro nome grande da igualdade, liberdade e literatura portuguesa, Ferreira de Castro, cujos livros e a sua relação com a Química já referi anteriormente (Rodrigues, 2014).     

Referências

A. M. Galopim de Carvalho (2021). Évora: Anos 30 e 40. Âncora.    

 Bairro dos Livros (2022). Évora : Mapa dos Livros – Guia Literário. Portfólio.

Câmara Municipal de Évora (2019). O aqueduto da Água de Prata e o Património Hidráulico de Évora, Câmara Municipal de Évora.    

Paulo Eduardo Guimarães (2006). Elites e Indústria no Alentejo (1890-1960). Edições Colibri.

Ana Maria Cardoso de Matos (1991). A indústria no distrito de Évora, 1836-90 Análise social 26,561-581.

Alice Mendonça (2000). Crises de mortalidade no concelho de Évora (1850-1900). Cosmos.

José Filipe Mendeiros (2002). Os azulejos da Universidade de Évora. Câmara Municipal de Évora.

Alice Pires, Ana Beatriz Pacheco, Beatriz Recto, Daniela Chambel, Diana Santos, Hugo Leonardo, José Mealha, Lara Pires, Lara Vital, Leandro Queimado, Margarida Oliveira, Maria Luiza Oliveira, Nuno Charrua, Rafaela Santos, Raquel Endemann, Rita Riço. Rota dos ODS – Évora. Rural Voices, 2030, s.d.

Amélia Polónia (2005). O Cardeal Infante D. Henrique, arcebispo de Évora: um prelado no limiar da viragem tridentina. Edição de Autor.

Sérgio P. J. Rodrigues (2014) Jardins de Cristais - Química e Literatura. Lisboa: Gradiva.

Sérgio P. J. Rodrigues (2022a) Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. revistamultidisciplinar.com. https://doi.org/10.23882/rmd.22087

Sérgio P. J. Rodrigues (2022b) "Acerca das Contribuições da Química para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas - Atualização de 2022". Em Meio ambiente: Princípios ambientais, preservação e sustentabilidade 3, 1-12. Atena Editora. https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/acerca-das-contribuicoes-da-quimica-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-das-nacoes-unidas-atualizacao-de

Sérgio P. J. Rodrigues (2026). Uma História das Ideias em Química. Imprensa da Universidade de Coimbra, no prelo.

Linda M. Seymour, Janille Maragh, Paolo Sabatini, Michel Di Tommaso, James C. Weaver, Admir Masic (2023). Hot mixing: Mechanistic insights into the durability of ancient Roman concrete. Science Advances. 9, eadd1602. https://doi.org/10.1126/sciadv.add1602

Carlota Simões, Ana Cristina Araújo, Pedro Casaleiro (2022). Redes Científicas da Universidade de Coimbra no Iluminismo. Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/978-989-26-2263-7

João dos Santos Simões (1945). Alguns Azulejos de Évora  [Câmara Municipal de Évora].

Mariana Soler, Mariana Valente, António Candeias (Eds.) (2019). Évora com Ciência: Percursos. Universidade de Évora.

Turismo de Portugal (2016). Évora e Elvas: Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora. 

Unidade Museológica CEA, (2023). Unidade Museológica CEA-antiga Central Elevatória de Água. Câmara Municipal de Évora.

Visit Portugal (2016). Évora e Elvas. Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora.