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Passeio Químico em Évora

[Tive a ideia de escrever um passeio químico em Évora quando fiz uma palestra online para uma escola desta cidade, em 2020. Já não ia a Évora há bastante tempo, nem tinha fotografias, mas pensei fazer o passeio com base no Google Maps e roteiros e guias disponíveis. Acabou por não se concretizar, mas reuni, nessa altura, algum material. Em 2026, surgiu de novo a oportunidade com a participação, em maio, no SciCom 2026 e a preparação do passeio Químico para realizar em setembro no Encontro da Associação Portuguesa de Professores de Física e Química (APPFQ). Juntei mais material e, durante o SciCom, tirei as fotografias, fiz a preparação do percurso a fazer no congresso da APPFQ e criei agora a presente crónica. Évora será Capital Europeia da Cultura em 2027.]

Évora é uma elegante cidade alentejana, que, sendo rica em passado, vive bem no presente e parece projetar-se de forma confortável no futuro. Como este passeio se centra na Química, iremos discorrer, no que concerne ao passado, sobre a presença romana na cidade e sobre a sua universidade antiga, fundada no século XVII, a qual foi interrompida com a expulsão dos jesuítas, sendo retomada em 1973. Seguiremos também percursos relacionados com a água de abastecimento urbano, desde os romanos ate à atualidade, ligando passado e presente. Chamaremos ainda a atenção para a investigação e a indústria aeronáutica e os laboratórios de análise e conservação do património.     

Os químicos costumam dizer que a química está em todo o lado, mas essa presença acaba por se tornar invisível de tão trivial que parece ser. Os materiais de que é feita a matéria: os elementos, as substâncias elementares e compostas, as misturas homogéneas e heterogéneas; os metais, os sais e os polímeros; os átomos, as moléculas e os iões. O que é ensinado na escola sobre a Química tem um propósito e pode sair da sala de aula e ser relacionado com o que nos rodeia. E ser utilizado de forma útil para perceber e agir sobre o mundo. Mas, este “sermão,” além de ser antigo, é bastante inútil, pois, se a generalidade dos alunos e público podem intuir o óbvio, quase nunca ficam fascinados com as aplicações da Química que estão à sua volta, por estas parecerem triviais ou serem invisíveis. 

Assim, estes passeios, mais do que falar sobre as "maravilhas" da Química em abstrato, buscam tornar visíveis essas "maravilhas" que nos rodeiam. Para Évora, em particular, foi relevante a consulta de um livro sobre percursos científicos na cidade (Soler et al., 2019). Foram também úteis vários guias (Turismo de Portugal, 2016;Visit Portugal, 2016; Câmara Municipal de Évora, 2019; Bairro dos Livros, 2022), assim como livros (Mendonça, 2000;  Mendeiros, 2002; Polónia, 2005; Guimarães, 2006; Galopim de Carvalho, 2021) e artigos (Matos, 1991) e o dossiê (DGEMN, 2007). 

Para ilustrar de forma inesperada e interdisciplinar, a presença ubíqua da Química, começo com a literatura. Poderia começar pelos monumentos, pelos jardins, pelos meios de transporte, pelos supermercados e farmácias e, em última análise, poderia iniciar com o que temos nos bolsos ou pelo nosso próprio corpo. Qualquer coisa serviria, mas começo com um livro passado em Évora: “Aparição”, de Vergílio Ferreira, publicado originalmente em 1959. 

O livro espelha a alienação, o mal-estar e a claustrofobia da sociedade portuguesa da altura, assim como, indelevelmente, as condições sociais e políticas opressivas em que se vivia (lembremos os reparos subtis aos métodos pedagógicos que realçavam as diferenças sociais e a “sabotagem” das conferências que se destinavam às classes trabalhadoras), mas também, na minha opinião, servia inadvertidamente os interesses do Estado Novo, pois eram precisamente “os que estudavam” e que pensavam o mundo, que se revelam mais infelizes e com mais problemas existenciais. Esta introdução parece não ter nada a ver com Química? Tem a ver com o ensino desta ciência e com os mecanismos da Química da vida, os neurotransmissores, as hormonas e outras moléculas. Claro que a realidade é muito mais complexa do que os processos e moléculas com que esta se relaciona, mas estes estão presentes, estendendo as possibilidades de explicação disponíveis.       

“Aparição” é também espelho das separações sociais implícitas na sociedade portuguesa e da condição da mulher nesse tempo. Escreve Galopim de Carvalho (2021): “embora na letra da constituição de 1933, figurasse o principio de igualdade perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona de casa, e submissa ao marido (…) As enfermeiras não podiam casar e as professoras tinham de pedir autorização”, e, mais à frente, “depois do jantar os homens saiam e as mulheres ficavam em casa.” 

Em "Aparição", todas as personagens estudaram pelo menos até ao fim do liceu, mesmo as mulheres, havendo médicos, engenheiros, agrónomos e professores. Isso contrasta muito com o facto de, em Portugal, na altura, haver um nível de analfabetismo enorme. Em 1960, era de 32%, sendo que a percentagem nas mulheres era 41% e nos homens 26%. O desprezo pela verdadeira cultura e as separações sociais implícitas (muitas vezes explícitas), assentavam muito bem ao Estado Novo. Era uma forma de pensar que pagámos muito caro em termos de desenvolvimento social e económico. E já vinha de trás esse “orgulho” na incultura. Por exemplo, Virgínia de Castro no Jornal o Século de 5 de fevereiro de 1927, escrevia: "sabendo ler e escrever nascem-lhes ambições. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa, reside nesses 75% de analfabetos.”

Vergilio Ferreira Ferreira foi professor no Liceu de Évora de 1945 a 1960, e, no livro, descreve aspetos, hoje quase esquecidos, relacionados com a iluminação, água canalizada, automóveis, entre muitos outros. Galopim de Carvalho (2021), embora escrevendo reletivamente às décadas anteriores, refere também muito desses aspetos, havendo muita semelhança. Achei curioso, por exemplo, a referência aos doces de raiz de escorcioneira (Scorzonera hispanica) hoje quase esquecidos, tanto no livro de Vergílio Ferreira como no de Galopim de Carvalho. São doces da raiz caramelizada desta planta. Dizer “raiz caramelizada” pode não evocar logo a Química, mas pense-se nos processos de obtenção da sacarose e da sua caramelização, pense-se na moléula da sacarose, nos compostos responsáveis pelo sabor e cheiro da planta, e será fácil ter uma ideia das possibilidades “químicas” do tema.  

Como já referi, muitos dos aspetos químicos de “Aparição” estão implícitos. Queria chamar a atenção para três deles: o nascimento “tardio” de Cristina, o banho que prepara o sr. Machado da pensão e o automóvel que comprou Alberto Soares, a principal personagem. No primeiro caso,  é dito que o pai de Cristina se “enganou com a fisiologia” (vamos por agora esquecer os aspetos de machismo implícito, embora se tratasse de um médico). Devemos, no entanto, notar que os contracetivos orais (vulgarmente conhecidos como “a pílula”) só surgiram nos anos 1960, depois de a molécula que permitiu a sua existência ter sido desenvolvida, nos anos 1950. 

No segundo caso, sendo precisa cerca de meia hora para preparar o banho, suspeitamos que a água tinha de ser aquecida e transportada, não sendo canalizada. Mais uma vez, citamos Galopim de Carvalho (2021): “eram então muitas poucas as casas com água canalizada e quem não tinha poço ia abastecer-se no chafariz.” Sobre o automóvel, atente-se às questões comuns na altura de “rodagem” e “lubrificação”. Como os óleos e os materiais vedantes dos carros não estavam tão otimizados como hoje, os carros tinham de fazer essa rodagem, mudar de óleo e ser lubrificados com frequência. 

Além disso, os carros gastavam muita gasolina, dez litros aos cem quilómetros, ou mais, era frequente. A gasolina tinha um composto de chumbo para aumentar o seu poder detonante. Hoje em dia, os carros têm catalisadores para evitar a formação de NO2, numa reação do oxigénio com o nitrogénio que ocorre a altas temperaturas, as gasolinas não têm aditivos com compostos de chumbo e os automóveis gastam cerca de cinco litros de gasolina aos cem quilómetros. E não precisam de rodagem e lubrificações frequentes, fazem as mudanças de óleo muito mais espaçadas, sendo que o óleo pode ser reciclado. Mas isso não chega, claro, os carros que eram “motores de combustão Vitorianos” rodeados de metal, são agora cada vez mais” computadores com rodas” rodeados de polímeros. Sendo que muitos carros têm motores elétricos. Mas também isso não chega. Os carros são mais pesados devido às baterias que precisam de lítio e cobalto, fazendo mais pressão sobre os pneus que libertam, agora, mais partículas. Há, no entanto, uma intensa busca de soluções: reciclagem do lítio, outros tipos de baterias, etc. Em todos estes aspetos, a Química tem, ou pode ter, contribuições importantes para a sustentabilidade. E, na minha opinião, mais do que o crescimento exponencial das tecnologias, a marca mais relevante da atualidade é o nível de atenção e busca ativa  de soluções.            

Vamos agora referir a universidade antiga e, em particular, os seus azulejos. Como é bem sabido, os azulejos tradicionais têm cor azul devido ao óxido de cobalto. E no cozimento a altas temperaturas, ocorrem várias reações químicas, sendo a mais relevante a formação de ligações químicas irreversíveis com libertação de água. Por outro lado, os vidrados têm em geral óxidos de chumbo que fazem baixar o ponto de fusão. Também sobre a formação dos azulejos e outros materiais cerâmicos, podería discorrer longamente, como já fiz noutros Passeios Químicos e livros (veja-se, em particular, Rodrigues, 2014). 

Vou, no entanto, concentrar-me nas imagens dos azulejos. Nesse aspeto, os azulejos da universidade de Évora são riquíssimos e espelham bem o nível de conhecimentos e práticas da época. Na minha opinião, contrariamente ao que se diz por vezes, havia um ensino com vertentes experimentais e práticas, suportado claro, pela teoria. E, embora na universidade da altura, houvesse tendência para sobrevalorizar a segunda, estes são indissociáveis. Um exemplo paradigmático são os azulejos da aula de Filosofia Metafísica. José Filipe Mendeiros (2019), refere que João Simões (1945) apenas os interpretou em termos físicos, quando as interpretações metafísicsa são fundamentais. Não vou tomar partido nessa discussão, mas as imagens dos azulejos mostram claramente as interpretações físicas, que são óbvias, em particular, num painel vê-se o funcionamento de um tear e são destiladas rosas para obter a sua essência. As interpretações metafísicas, não anulam as interpretações físicas e práticas, só as enriquecem. 

Também na aula de Filosofia Natural vários azulejos evocam aspetos científicos. Num painel pode ver-se a famosa demonstração dos hemisférios de Magdeburgo. Noutro, as virtudes do peixe elétrico, noutra o “pó de simpatia” e ainda noutros o fenómeno do magnetismo.

O magnetismo é muitas vezes apresentado como um fenómeno puramente físico. Mas não é. A natureza dos materiais é importante. O ferro, e outros metais, apresentam propriedades magnéticas por o spin dos seus eletrões se alinhar, criando um efeito macroscópico de atração e repulsão. Curiosamente, esse efeito pode ser amplificado em ligas de vários metais, sendo muito conhecidos os ímanes de neodímio que são feitos de neodímio, ferro e boro. E ímanes mais fortes permitem fazer turbinas eólicas mais eficientes para a produção de eletricidade.      

Uma boa parte dos metais não tem propriedades magnéticas, havendo ligas de ferro (alguns aços inoxidáveis, por exemplo) que não apresentam magnetismo (sugere-se que os leitores experimentem). Mas, para separar estas ligas e o alumínio e o cobre, que se sabe bem não terem propriedades magnéticas, é usado o magnetismo. Como? Através da denominada corrente de Eddy. Como os metais são condutores, pode ser criada nestes uma corrente elétrica, e assim magnetismo, quando o material é exposto a um campo magnético variável ou em movimento. Esta corrente permite repelir as latas de alumínio e o cobre do lixo, separado-os. Deve notar-se também que o alumínio pode ser separado facilmente do cobre pois é muito menos denso. 

Se a demonstração dos hemisférios de Magdeburgo para ilustrar o efeito dramático da pressão atmosférica é bem conhecido, o caso do “pó de simpatia” é menos conhecido, assim como as polémicas a que desde sempre esteve ligado. De facto, era usado para “curar” um ferimento de um duelo, ou outro, aplicado sobre a arma que provocou o ferimento e não no ferido! Obviamente, muitas pessoas contestavam a eficácia do “tratamento”, incluindo vários jesuítas. 

Há ainda azulejos relacionados com outras demonstrações, nomeadamente do uso de espelhos. Gostaria de voltar ao peixe elétrico, pois foi alvo de muitas investigações científicas, nomeadamente de Henry Cavendish, que descobriu o hidrogénio. Há várias espécies de peixes elétricos, mas os mais conhecidos são a tremelga, ou raia elétrica, (Torpedo torpedo) - que parece ser mais ou menos a que está no desenho do azulejo - e a enguia elétrica (Electrophorus electricus), que têm em comum a produção de uma descarga de corrente elétrica que atordoa os peixes à sua volta, sendo que a espécie de água doce, a enguia elétrica, tem de produzir maiores voltagens, pois a água doce é menos condutora. Pode perguntar-se porque não sofrem eles próprios com essa corrente. Tem a ver com a direção da descarga (como um teaser), que é emitida por partes do seu corpo que estão “isoladas”, sendo a energia elétrica também armazenada em partes “isoladas” do corpo. Mas são afetados pela corrente produzida por outros peixes. 

Há muitos outros aspetos a descobrir nos azulejos, nomeadamente quatro conjuntos alusivos à teoria dos quatro elementos (água, terra, ar e fogo). Esta vigorou desde a Grécia Antiga quase até ao século XIX, mas há alguns aspetos a considerar. Não se tratava de elementos químicos no sentido moderno mas mais de princípios (esse aspeto é bastante conhecido, discuto-o em Rodrigues, 2026). Para além disso, os nomes evocam claramente os três estados da matéria e, de alguma forma, a energia. Mais aspetos, desafiamos os leitores a descobrir entrando nas salas quando não há aulas.             

Como mostra Alice Mendonça (2000), houve no Concelho de Évora - e não é muito diferente do que ocorria noutros locais - bastantes episódios de mortalidade excecional na segunda metade do século XIX. Segundo esta autora, embora alguns episódios possam ser atribuídos a surtos de doenças infeciosas como cólera, varíola, ou gripe, outros foi impossível identificar se a sua natureza era epidémica ou outra (nestes estão incluídos as fomes periódicas, as elevações de temperatura, associados a deterioração dos alimentos e estagnação das águas, por exemplo). Curiosamente, não fala de febre tifóide ou difteria (Galopim de Carvalho, 2019, refere a segunda) que eram também muito comuns em Portugal, mas sendo o Alentejo menos povoado podem ter tido menos expressão. No entanto, em apêndice, são apresentados dados das mortes hospitais desde 1881 e aparecem mais de uma dezena de casos de febre tifóide, além de outras doenças não referidas, como a tuberculose. Muito provavelmente, estes episódio irão repetir-se ao longo da primeira metade do século XX, altura em que a melhor qualidade alimentar, tratamento das águas, higiene e aparecimento de medicamentos, como antibióticos, diminuiu a importância destes episódios. Ora, para o aumento da produção agrícola, tratamento das águas, surgimento de medicamentos, entre outros fatores, os desenvolvimentos químicos foram, e continuam a ser, fundamentais (Rodrigues, 2022a).

Os percursos da água em Évora, recuam a tempos muito antigos. Onde está a Câmara Municipal foram as Termas Romanas e tem sido descoberto um antigo aqueduto romano para o qual foram usadas as técnicas de construção características em silharia (pedras quadrangulares sobrepostas sem argamassa). Há também vários vestígios do uso de betão romano, nomeadamente uma “sapata” de um pilar, construído em opus caementicium, onde não há vestígios de materiais de materiais quinhentistas (Câmara Municipal de Évora, 2019). Uma teoria para a obtenção deste betão é de que no próprio local era realizada a produção de cal apagada a partir de cal viva, o que originava um grande aquecimento. Embora perigoso e insalubre, este método de construção permitia obter as características únicas que hoje conhecemos (Seymor et al., 2023). Na foto pode ver-se o Laconicum que foi encontrado quando fizeram obras. Neste local podem ainda ver-se restos de uma capela posterior, de um silo medieval e de ter sido arquivo. Esta sobreposição de contribuições históricas enriquece, na minha opinião, muito o lugar. 

O átrio da Câmara Municipal era um claustro de um palácio e está agora coberto com vidro,  tendo umas elegantes escadas de ferro fundido. O que me achei muito interessante foi perceber que uma parte desses "vidros" são painéis solares transparentes e que há um projeto para cobrir os equipamentos municipais com "telhas" transparentes à radiação solar para serem usadas como painéis solares (Câmara Municipal de Évora, 2024). No meu departamento há bastante investigação sobre estes painéis solares transparente e sobre as formas de armazenamento da energia.    

A “Água de Prata”  era obtida do Divorum, o “campo dos deuses”, onde Tejo, Sado e Guadiana se encontram a uma altitude superior à da cidade (Câmara Municipal de Évora, 2019). Embora houvesse formas de elevação da água, só seria exequível o seu uso, descendo por gravidade de uma altura superior.  

No Palácio D. Manuel estava, quando estive em Évora, em exposição uma réplica de um antigo de cano romano de chumbo usado nas canalizações. Tratava-se de um metal durável pouco dado à formação de óxidos, muito maleável e de baixo ponto de fusão. Obviamente não é aceitável a canalização de chumbo e mesmo as antigas com ferro galvanizado têm sido substituídas por aço inoxidável ou vários polímeros, em particular PVC (policloreto de vinil) nas condutas pensadas para durar mais tempo. Em qualquer dos casos, felizmente, em geral, as canalizações de chumbo eram protegidas da libertação de sais de chumbo pela formação de camadas de carbonato de cálcio em águas mais calcárias. 

O Aqueduto da prata é uma obra do século XVI que a cerca de um quilómetro do centro da cidade atinge uma altura considerável. Este aqueduto, que tem cerca de 18,5 km de comprimento, todo ele de acesso público, trazia água para a cidade, abastecendo várias fontes públicas, mosteiros e palácios. No Palácio de D. Manuel estavam em exposição as "chaves" correspondentes à água atribuída. A media é a “pena”, a qual corresponde a um cano com um diâmetro de uma pena de pato (cerca de 1 milímetro) e o “anel” que corresponde a oito “penas”. Ora, sendo medidas de caudal deveria ser indicado o tempo, mas não consegui verificar os detalhes.

Perto deste palácio encontra-se a imponente e bem cuidada Igreja dos Franciscanos ao lado da qual está a conhecida capela dos ossos (onde não fui, desta vez). Nesta igreja, e noutras, claro, podemos ver vários altares com folha de ouro. Como já referi várias vezes, trata-se mesmo de folhas de ouro, mas muito finas (cerca 0.1 mm), que podem ser usadas para cobrir uma extensão bastante grande sem que a quantidade de ouro usada seja muito elevada.  

A dimensão relativamente reduzida da elegante caixa de água na Rua Nova indica que era uma  caixa de distribuição e não de um reservatório. Perto desta, na Praça do Giraldo a água que está na fonte circula em circuito fechado e já não faz parte da rede de abastecimento. Esta água é provavelmente tratada com hipoclorito de sódio como acontece em muitas fontes deste tipo, por exemplo em Lisboa, que “cheiram a lixívia” pois têm concentrações de hipoclorito muito acima daquele que é usado nas águas de consumo humano (não dei conta desta fonte ter esse cheiro). 

Escreve Galopim de Carvalho (2021) que, sob as arcadas da Praça ficava o Café Arcada, que apareceu em 1942 para o público da classe média, possuindo frigorífico e outras inovações (deve notar-se que em Portugal até aos ano 1960, o figorífico era relativamente raro). De acordo com este autor, o café enchia-se todas as terças-feiras que era o dia do mercado semanal, “dia dos porcos”, refere. Galopim de Carvalho, relembra também o pirolito que era fabricado num vidro transparente esverdeado devido às impurezas da matéria-prima, óxido de ferro (+2).

Perto da Praça do Giraldo, no início da Rua Serpa Pinto, fica um possível bebedouro de animais. Além de não ter água, não me lembro de ter visto as clássicas argolas de ferro ou outros equipamentos para prender os animais. Os grampos de fixação das pedras, que originalmente deveriam ter tido chumbo para ajudar à sua fixação, têm agora argamassa à superfície, mas quase de certeza que encontramos chumbo mais abaixo. 

Pode visitar-se a antiga estação elevatória de água, agora Museu da Água (Unidade Museológica CEA, 2023). Aqui podem ver-se vários contadores que mediam a quantidade de água consumida, bombas elevatórias, entre outros objetos. A questão das bombas serem elevatórias e estarem na parte de baixo do depósito, em vez de estarem no cimo do próprio depósito é interessante por si só. De facto, com bombas elevatórias pode elevar-se a água a virtualmente qualquer altura, mas se estas estivessem no topo do depósito atuariam por sucção e o depósito só poderia estar a cerca de dez metros! 

Em termos químicos, chamou-me a atenção um papel que servia de guia ao tratamento manual da água com hipoclorito de sódio. Salta logo à vista que se trata de uma tabela com diluições, mas a solução inicial não é indicada. Para além disso, parece ser muito manual e possível de correr mal. Considerando que a solução inicial poderia ser de 10% (valor típico para  soluções de hipoclorito de sódio industriais), daria um valor para cloro ativo na água de cerca de 0.5 ppm, o que está dentro dos valores hoje em dia usados (0.2-1.0 ppm). 

A água de abastecimento urbano vem atualmente barragem de Monte Novo, a qual abastece os concelhos de Évora, Reguengos de Monsaraz e Mourão (Soler et al., 2019). Além de proporcionar um volume muito maior de água, envolve com certeza um conjunto de tratamentos e análises muito mais complexo, rigoroso e automatizado.

As cores das casas são muito caraterísticas em tons de branco com amarelo nos rodapés, ombreiras, arestas e esquinas. Era tradicionalmente feita uma caiação na qual se usava um pigmento natural entre o amarelo e castanho obtido da terra que continha óxidos de ferro. Na parede limpa e com uma demão de cal branca, procedia-se à caiação com terra corada incorporada (Soler et al., 2021). A juntar a isto, é tradicional a técnica do esgrafito, no qual os desenhos são realizados com estilete através da remoção de das argamassas superficiais (Soler et al., 2019). 

Os brancos muito claros e brilhantes das paredes, agora devem ser muitos de dióxido de titânio, um pigmento mais versátil e duradouro, mas antigamente e ainda agora eram de cal, hidróxido de cálcio, e a cor branca muito intensa era devida ao cálcio.  

O museu de Évora é designado Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. Este foi um dos membros da comissão criada pelo Marquês de Pombal para reformar a Universidade de Coimbra. Sabemos muito do que se passou nessas sessões por este ter deixado um diário em que falava delas (vários textos sobre a reforma pombalina em Coimbra podem ser consultados em, Simões et al, 2022). Trata-se de um museu muito interessante, tendo-me chamado a atenção vários aspetos, em particular, algo que não sendo novo, estava muito bem feito: a utilização de réplicas que se podem tocar, usando impressão 3D. Em frente fica a galeria da Fundação Eugénio de Almeida, onde se podem ver muitos trabalhos modernos, mas também, entrando mais para dentro, ver as paredes pintadas com frescos antigos.  

No Jardim Público, vi as “ruínas fingidas” mas não encontrei (pretendo fazê-lo quando voltar a Évora) a “Cúpula da Bomba Atómica” de Hiroshima, onde estão depositadas sementes de árvores sobreviventes ao bombardeamento atómico de 1945 de cânfora (Cinnamonum camphora) e kurogane-azevinho (Ilex rotunda).

Finalmente, queria chamar a atenção para a “Rota dos ODS” (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) de Évora que foram elaborados por alunos da Escola Severim de Faria (Pires et al. s.d). Na, minha opinião, estão muito bem escolhidos. Costumo dizer que todos os ODS, envolvem Química (Rodrigues, 2022b). Não vou referir todos, mas o ODS – Igualdade de género, indica a Travessa do Açal, onde nasceu a escritora Diana de Liz, pseudónimo da escritora eborense Maria Eugénia Haas da Costa Ramos (Bairro dos Livros, 2022), companheira de outro nome grande da igualdade, liberdade e literatura portuguesa, Ferreira de Castro, cujos livros e a sua relação com a Química já referi anteriormente (Rodrigues, 2014).     

Referências

A. M. Galopim de Carvalho (2021). Évora: Anos 30 e 40. Âncora.    

 Bairro dos Livros (2022). Évora : Mapa dos Livros – Guia Literário. Portfólio.

Câmara Municipal de Évora (2019). O aqueduto da Água de Prata e o Património Hidráulico de Évora, Câmara Municipal de Évora.

Câmara Municipal de Évora (2024). Remodelação da cobertura do edifício dos Paços do Concelho. https://www.cm-evora.pt/remodelacao-da-cobertura-do-edificio-dos-pacos-do-concelho-vidro-fotovoltaico-substitui-antigas-placas-de-acrilico-do-lanternim/ (acedido a 8 de setembro de 2026).    

Paulo Eduardo Guimarães (2006). Elites e Indústria no Alentejo (1890-1960). Edições Colibri.

Ana Maria Cardoso de Matos (1991). A indústria no distrito de Évora, 1836-90 Análise social 26,561-581.

Alice Mendonça (2000). Crises de mortalidade no concelho de Évora (1850-1900). Cosmos.

José Filipe Mendeiros (2002). Os azulejos da Universidade de Évora. Câmara Municipal de Évora.

Alice Pires, Ana Beatriz Pacheco, Beatriz Recto, Daniela Chambel, Diana Santos, Hugo Leonardo, José Mealha, Lara Pires, Lara Vital, Leandro Queimado, Margarida Oliveira, Maria Luiza Oliveira, Nuno Charrua, Rafaela Santos, Raquel Endemann, Rita Riço. Rota dos ODS – Évora. Rural Voices, 2030, s.d.

DGEMN (2007) Munumentos (Dossiê do Centro Histórico de Évora) 26.

Amélia Polónia (2005). O Cardeal Infante D. Henrique, arcebispo de Évora: um prelado no limiar da viragem tridentina. Edição de Autor.

Sérgio P. J. Rodrigues (2014) Jardins de Cristais - Química e Literatura. Lisboa: Gradiva.

Sérgio P. J. Rodrigues (2022a) Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. revistamultidisciplinar.com. https://doi.org/10.23882/rmd.22087

Sérgio P. J. Rodrigues (2022b) "Acerca das Contribuições da Química para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas - Atualização de 2022". Em Meio ambiente: Princípios ambientais, preservação e sustentabilidade 3, 1-12. Atena Editora. https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/acerca-das-contribuicoes-da-quimica-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-das-nacoes-unidas-atualizacao-de

Sérgio P. J. Rodrigues (2026). Uma História das Ideias em Química. Imprensa da Universidade de Coimbra, no prelo.

Linda M. Seymour, Janille Maragh, Paolo Sabatini, Michel Di Tommaso, James C. Weaver, Admir Masic (2023). Hot mixing: Mechanistic insights into the durability of ancient Roman concrete. Science Advances. 9, eadd1602. https://doi.org/10.1126/sciadv.add1602

Carlota Simões, Ana Cristina Araújo, Pedro Casaleiro (2022). Redes Científicas da Universidade de Coimbra no Iluminismo. Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/978-989-26-2263-7

João dos Santos Simões (1945). Alguns Azulejos de Évora  [Câmara Municipal de Évora].

Mariana Soler, Mariana Valente, António Candeias (Eds.) (2019). Évora com Ciência: Percursos. Universidade de Évora.

Turismo de Portugal (2016). Évora e Elvas: Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora. 

Unidade Museológica CEA, (2023). Unidade Museológica CEA-antiga Central Elevatória de Água. Câmara Municipal de Évora.

Visit Portugal (2016). Évora e Elvas. Roteiro Turístico do Património Mundial. Porto Editora.

Passeios químicos em Ovar


[Estive várias vezes em Ovar. A última, foi nas II Jornadas Dinisinas, para cujo convite pela Câmara Municipal de Ovar foi central uma visita que fiz ao Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense organizada pela Liga dos Amigos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.]

Ovar é uma cidade cheia de atrativos e curiosidades, de que referirei aqui alguns, nos quais reparei e que têm a ver com a Química. Há com certeza outros a descobrir.  

Júlio Dinis (1839-1871) é o pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, formado em Medicina e professor na Escola Médico-Cirúrgica. Não exerceu a profissão de médico, devido, em parte, à tuberculose de que sofria, mas segundo o professor Levi Guerra, ainda chegou a ter um consultório. O escritor esteve na casa, que é agora o Museu Júlio Dinis, a qual era de sua tia, cerca de quatro meses a repousar e a procurar melhorar da tuberculose, tendo escrito uma parte do seus romances "As Pupilas do Senhor Reitor" e “A Morgadinha dos Canaviais”, assim como outros trabalhos de que se destaca “O Canto da Sereia”. 

Eu escrevi um artigo para a Revista Dunas deste ano sobre Júlio Dinis e a Ciência do seu tempo, sendo que esta revista será apresentada em 8 de dezembro de 2025. Embora não seja só de Júlio Dinis de que quero falar, não posso deixar de referir o que escrevi no artigo: “num país essencialmente analfabeto, Júlio Dinis procurou educar a população, de uma forma bastante avançada para a época, através dos seus livros. De facto, ao longo de todo o século XIX, e mais tarde, iremos encontrar pessoas genuinamente preocupadas com a Educação em Portugal, mas não consideraram a atitude popular e pragmática que Júlio Dinis desenvolveu” e mais adiante “Júlio Dinis procurou estimular a Educação e o Desenvolvimento num país atrasado e não glorificar a vida campestre, como por vezes se pensa.”

Uma das coisas que me chamou a atenção na Casa-Museu foram os talheres que pareciam entre prateado e acobreado (aliás eram muito semelhantes aos que estão em exposição na cozinha da Casa-Museu Egas Moniz). Poderão ser de um material denominado “prata alemã.” Ora o que é essa prata alemã? Uma coisa é certa não tem na sua composição o metal prata. É cobre recoberto de zinco e níquel. Provavelmente ao longo o tempo, o zinco e o níquel foram-se misturando com o cobre ou oxidando (o zinco pois o níquel já tem uma camada de óxido estável na sua superfície), ou sendo removidos pelo uso, ficando os talheres mais amarelos. É preciso notar que século XIX e primeira metade do século XX, o aço inoxidável não existia. Na Casa-Museu Egas Moniz, há talheres de prata que deveriam ser usados na refeições dos patrões, mas nos dez ou onze meses em que os criados estavam sozinhos, deveriam usar os outros. 

Nesta casa da tia de Júlio Dinis cozinhava-se provavelmente usando panelas de ferro fundido de três pés na lareira e na casa de Egas Moniz há um fogão a lenha. O gás só se tornou preponderante depois da Segunda Guerra Mundial. Antes eram mais comuns o uso da lenha, diretamente ou em fogões, ou os fogões de petróleo. Nos jornais dos anos 1940 são costume os anúncios a estes fogões a petróleo nos quais a combustão é feita com o vapor combustível do composto e se aumenta a pressão com um pistão parecido com os bombas de ar das bicicletas. Hoje é comum o gás de botija que, embora seja designado "butano", tem cerca de um terço de propano, o gás natural que é essencialmente gás metano, e os discos elétricos e de indução eletromagnética.
Nos dois últimos casos o fogão funciona com eletricidade, sendo no primeiro uma resistência que aquece com a passagem de corrente elétrica e no segundo com a indução obtida com a passagem de uma corrente elétrica numa bobine abaixo do vidro de cobertura do fogão e uma panela de material ferromagnético, em geral aço. Deve notar-se que nem todo o aço é feromagnético e as composições usuais com 18% de crómio e 10% de níquel (corrijo) podem ou não ser (poderá testar-se com um íman). Depende da quantidade de ferrita que temos nos 72% de ferro. Uma das formas de aumentar a eficiência deste tipo de fogão é ter panelas mais magnéticas, mas mesmo assim a eficiência desta forma de aquecimento é relativamente alta, sendo de 80-90% comparada com os 60-70% do aquecimento elétrico normal e 40% do gás. Pode pensar-se que o gás é menos eficiente mas deve ter-se em conta como é obtida a energia elétrica (se for em turbinas de co-geração a gás natural, esta é de cerca de 60%). Poderia parecer também que nada disto tem a ver com Química, mas pense-se nas composições das panelas e dos bobines, a composição do gás e a sua combustão, entre muitas outras coisas.       

Ainda no Museu Júlio Dinis, podemos reparar nos vidros antigos das janelas. Como já referi várias vezes, ate cerca de 1950 os processos de produção de vidros planos faziam com que os vidros ficassem com imperfeições que são são bem visíveis. Depois desta data, os vidros planos comecaram a ser fabricados num processo que envolve estes solidificarem (o que acontece no intervalo entre 700 e 900ºC, dependente do tipo de vidro) em estanho líquido (ponto de fusão 232ºC) e assim ficarem com a superfície muito lisa e plana. 

Na casa pode também reparar-se que não havia água canalizada, sendo que a água tinha de se ir buscar a uma fonte. Mas, mais do que a comodidade, existiam outros problemas. De facto, nesta altura a água não era tratada nem analisada em relação a contaminações microbianas ou outras. Embora fossem usados alguns processos de filtração com areia e as águas correntes fossem melhor oxigenadas, havia uma elevada probabilidade de contaminações. Não esqueçamos que a água não tratada matou um rei português (D. Pedro V) e na primeira metade do século XX ainda eram comuns as epidemias de febre tifóide, cólera e outras. 

Até à segunda metade do século XIX, ainda não eram bem conhecidos os processos de contaminação biológica. A teoria dos germens desenvolvida por Pasteur estava a dar os seus primeiros passos no final da vida de Júlio Dinis. E no início do século XX ainda não tinham sido bem optimizadas as redes de abastecimento de água. 

Uma fonte do centro da cidade, e que era usada para abastecimento de água, é a Fonte de Neptuno. Nesta elegante fonte podem observar-se os canos de saída de água. Uma fonte mais moderna em que reparei estava situada junto ao Museu Júlio Dinis. Ao longo de toda a cidade à fontes que são agora essencialmente decorativas, mas no tempo de Júlio Dinis era nestas que a população se abastecia de água. Quando estive em Ovar a última vez, estava a chover muito e as fontes que se situavam abaixo do nível do solo estavam inundadas. 

Em Ovar há muita água quando chove. Pude observar, quando lá estive, o parque da cidade onde passa o Rio Cáster parcialmente inundado. Mas esse efeito foi previsto no desenho do parque para absorver a água do rio e não causar inundações na cidade. Muitas vezes não percebemos essas coisas, mas isso foi-me muito bem explicado pelo diretor do Museu Júlio Dinis, dr. António França.   

Ali perto, no Parque Cáster, estão as engraçadas e conhecidas estátuas alusivas ao Carnaval de Ovar da autoria de José Guimarães, em bronze e aço inoxidável. O bronze como já referi várias vezes é uma liga com cerca de 70% de cobre e 30% de estanho que é muito usado nestas estruturas públicas devido à sua resistência e bom envelhecimento durante o qual se forma na superfície uma camada cabonato básico de cobre que é verde escuro. O uso de aco inoxidável é interessante pois dá um aspeto espelhado, onde nos podemos ver. 
O Carnaval de Ovar é considerado o mais típico e o maior do país com milhares de foliões e participantes. Curiosamente, as cerimónias da posterior Semana Santa são também muito importantes, havendo na cidade várias capelas para isso. O Presidente da Câmara, dr. Domingos Silva, disse-me que a cidade fazia parte de uma rede ibérica de comemorações da semana santa. Não sendo um assunto de Química diretamente, vê-se facilmente que os dois aspetos estão relacionados entre si e com a religiosidade e extroversão das populações, assim com as suas relações antigas com o mar.  

Voltando ao Museu Júlio Dinis, outro aspeto a considerar é a iluminação. Esta era feita na casa essencialmente através de velas e candeeiros. Nas grandes cidades, como o Porto, já existiam estruturas de abastecimento de gás para iluminação na rua e nas casas ricas, mas não em cidades pequenas como Ovar. As velas poderiam ser de sebo que era de gordura animal, ou de estearina que implicava serem feitas retirando os componentes da gordura que são líquidos ficando a estearina. Eram velas mais claras e não tinham cheiro, mas mesmo assim eram muito pouco eficientes.
Uma vela típica tem uma potência total de cerca de 50 watts, o que seria razoável, mas o problema é que quase toda a potência e usada para aquecimento. Temos cerca de 0.05% de eficiência luminosa, sendo os restantes 99.95% perdidos como calor. Ao longo do século XX melhorou a eficiência luminosa, sendo que uma lâmpara incandescente têm cerca de 2%, uma lâmpada fluorescente cerca de 15% e uma lâmpada LED tem um máximo teórico de eficiência de 40%. Vê-se assim que ainda há espaço para melhorar a eficiência. Também em termos de sustentabilidade, há muito para dizer. Uma lâmpada LED pode durar 50 mil horas e uma vela típica cerca de seis horas. Assim, precisariamos de cerca de 8 mil velas ou cerca de 350 quilogramas de velas para ter o mesmo resultado que uma lâmpada LED, sendo que a luz gerada por uma vela será cerca de mil vezes inferior. No tempo de Júlio Dinis, o uso de petróleo  (querosene) em candeeiros estava a popularizar-se mas nos seus livros este só refere candeeiros de azeite que provavemente eram menos cheirosos e fumarentos.

Finalmente, gostaria de referir os esgotos. Não existiam em geral. Os dejetos juntavam-se provavelmente com os dos animais e eram curtidos (processo em que o estrume é fermentado com palha ou outros restos vegetais dando-se o seu aquecimento o que  leva à morte de muitos microorganismos). As pessoas tinham nos quartos uma “peniqueira” e um penico onde faziam as suas necessidades (agradeço a um participante do colóquio referir isso a partir de uma fotografia que apresentei). Esse costume (de ter penicos nos quartos) continuou mesmo muito depois de se generalizarem os esgotos e casas de banho, mas hoje é só uma memória. Antes do advento dos plásticos, esses penicos eram de faiança, porcelana ou esmaltados.  

Uma antiga fábrica de papel junto ao rio Cáster depois de ser requalificado o edifício é agora a Escola de Artes e Ofícios. O fabrico artesanal de papel é bastante antigo, mas na Europa tornou-se significativo quando foram trazidas da China o conhecimento do uso de fibras vegetais para fazer papel. Logo na entrada da Escola ainda se pode ver o moinho onde eram trituradas as fibras vegetais e obtida a pasta de celulose através de um moinho de galgas (com uma espécie de mós rotativas e fixas no meio, segundo percebi e se pode intuir pela fotografia que fiz). 

Junto à escola reparei num grampo de ferro segurando duas pedras que é chumbado, ou seja tem chumbo à sua volta no encaixe do ferro com a pedra. Como já referi várias vezes, o chumbo tem um ponto de fusão relativamente baixo (327.5ºC) e é muito maleável, sendo por isso ideial para esta função antiga.  

Na Escola de Artes e Ofícios foram feitas várias esposições sobre as artes tradicionais do concelho. A primeira foi sobre a cordoaria e abarcou desde os tempos antigos e a utilização de materiais naturais (o sisal, e o cânhamo) até à atualidade com a utilização de materiais artificiais (polipropileno, polietileno, poliéster e a poliamida mais conhecida – o nylon). Em relação à atualidade há que realçar que a maior empresa portuguesa de produção de cordas, a Cordex, está localizada no concelho.  

No que concerne à roupas tradicionais, no século XIX e inicio do século XX, como se pode constatar num catálogo editado pela Câmara Municipal de Ovar, não existiam polímeros artificiais como o poliéster e as poliamidas, tendo os tecidos basicamente duas origens: vegetal ou animal. No caso das origens vegetais eram comuns o algodão e o linho, cujo material básico é a celulose, e no caso de origem animal, a seda e a lâ, cujos materiais básicos são proteínias, em particular queratina na última.   

A cerâmica de consumo tem uma tradição antiga em Ovar, como se pode verificar no muito bom catálogo da exposição relativa à olaria no concelho. E no século vinte, teve algum impacto nacional o fabrico de vasos, na fábrica Regalado e de telhas noutras fábricas. Tanto os vasos como as telhas são objetos de barro vermelho cozido, mas há também referências ao fabrico de loiça negra, as quais são cozidas como as de barro vermelho, mas em condições de pouco oxigénio para que ocorra essa incorporação de matéria negra carbonácea. Já referi várias vezes nestes passeios químicos, mas a produção de loiça de barro (aliás como as de grés e de porcelana) envolve um processo irreversível de cozedura, no qual se liberta água e se formam ligações química que asseguram a rigidez do material. Este, finamente moído, pode ser reciclado e incorporado nas pastas de cozedura, mas não volta a ser o barro que foi. Também interessante é a porosidade, tanto dos vasos e bilhas, como telhas, que acaba por ser útil de várias formas. No caso das bilhas para guardar água, essa porosidade é muito útil pois permite a lenta evaporação da água, o que, sendo um processo endotérmico (com libertação de energia), faz com que baixe a temperatura e assim mantendo a aǵua “sempre fresca”.      

O azulejo tem também bastante tradição em Ovar, que foi classificada como Cidade-Museu do Azulejo, existindo uma publicação pela Câmara Municipal de um guia com um percurso recomendado. A Câmara de Ovar assume de tal forma essa classificação que usa no seu símbolo um motivo típico de azulejos locais. Tratam-se de azulejos semi-industriais datados do século XIX e início do século XX usando três técnicas essencialmente: estampilhagem, estampagem e relevo. Na primeira aplicava-se a estampilha já depois do vidrado, na segunda antes do vidrado transparente e a última pode ser obtida usando moldes de madeira. As três técnicas envolvem cm certeza mais problemas específicos, mas consigo pensar em dois bastante óbvios: na primeira técnica tinham de ser usadas tintas que aderissem bem ao vidrado e resistissem ao tempo e no segundo caso as tintas teriam de resistir ao aquecimento, tendo se ser de compostos inorgânicos, sendo o mais comum os sais de cobalto que originam os coloridos azuis dos azulejos. Eu não tive oportunidade de visitar a capela da Válega, mas do que vi em fotos são fascinantes os seus azulejos com muitas cores que tiveram origem na Fábrica Aleluia.

Outra arte tradicinal de Ovar, era (e ainda é, mas com outros sentidos de utilidade) a tanoaria. Nesta, que chegou a ser muito mais importante que a cordoaria, como me referiu o diretor do Museu Júlio Dinis, eram produzidas barricas que serviam inicialmente para guardar peixe salgado e só depois encontraram caminho para guardar vinho. Não vou falar muito tempo desta arte, mas há muito ciência nas escolhas das madeiras, no fabrico das aduaelas e depois no uso dos barris. É o líquido interior que ajuda a impermeabilizar o conjunto e no caso do vinho e aguardentes, há uma parte que se perde absorvida e evaporando-se pelas madeiras que ao mesmo tempo transmitem sabores complexos ao líquidos. Também seria assim, penso eu, no armazenamento do peixe salgado, em que a madeira acabava por poder contribuir para os compostos que davam o sabor. 

O pão-de-ló de Ovar é muito famoso e há pouco tempo foi considerado, merecidamente, o melhor bolo do mundo. A descrição que dele é feita no livro de Luiz Dias é a seguinte: feito de ovos (especialmente gemas), açúcar e farinha, a sua estrutura é gradualmente composta, no seu todo, por uma massa muito fofa e leve, tendo na parte superior uma finíssima côdea, húmida e de cor levemente acastanhada, circundada por uma orla de massa cremosa de tom amarelo-ovo, toda ela com um magnífico e exótico aroma. Tanto os ovos, como a farinha são misturas muito complexas de materiais, mas curiosamente o açúcar, é essencialmente sacarose.
Lendo esta descrição que parece não ter nada a ver com Química, podemos facilmente referir os materiais, cores e estrururas (sacarose, côdeas, amarelo, misturas, e outras) e os processos. Quando as pessoas dizem (quase sem pensar) que "não tem químicos" referem-se às ideias de que "não tem químicos artificiais" ou "não tem químicos adicionados", mas mesmo nesses caso há ambiguidades, pois, por exemplo, o acúcar, sendo de origem natural, é obtido de "forma artificial" se consideramos o processamento. Na verdade, não há pão-de-ló sem processamento (os ovos têm de se misturar com a farinha e o açucar e têm de se levar ao forno, por exemplo). Mas que processamento bom! Tem "boa química", diriamos! 

O artista Emereciano, natural de Ovar, desenvolveu um estilo único e facilmente identificável. Queria referir dois aspetos em que a sua técnica e percurso se relacionam com a Química. Um mais direto que tem que ver com a tinta acrílica e outro, muito mais indireto e longínquo, mas que teve impacto, segundo o que este refere no catálogo, relevante na sua vida: a guerra de áfrica. Este texto já vai longo e não vou referir a química das tintas acrílicas nem a "má química" da guerra. Neste último caso, é bastante óbvio referir que são as más ações das pessoas e dos governantes que são responsáveis pela "maldade" e não os materiais ou os processos. 

Quando visitei a Museu Júlio Dinis com a Liga dos Amigos da Biblioteca Geral, estava lá uma exposição de Rosa Bela Cruz que usa uma técnica mista, mas tendo uma referência importante à pintura a óleo clássica. Também não vou referir a química envolvida na pintura a óleo, mas podemos ter a certeza que tem muita. Vou apenas referir que se a Ciência ajuda a explicar e criar a Arte, a Arte ajuda a gostar de Ciência, sendo ambas importantes para a nossa vida material e espiritual, dando a união harmoniosa das duas, a Cultura e a Alegria de Viver. 

Já depois de publicar a crónica acima, fiz alguma pesquisa sobre empresas relacionadas com a Química em Ovar. Temos bastante tendência para não pensar nas empresas que estão à nossa volta, também por estas não serem atualmente fumegantes, ruidosas e mal-cheirosas, e por cada vez mais usarem a linguagem das soluções em vez da linguagem dos produtos ou das matérias-primas, mas na verdade são estas empresas que desenvolvem muitos dos utensílios que usamos e que geram os empregos que as pessoas têm. 

Eu e uma das minhas cunhadas, Engenheira Química, numa fábrica perto de Ovar, por vezes filosofamos sobre a beleza quase escondida das instalações industriais que é infelizmente pouco conhecida. Eu tinha referido a Cordex acima, mas faz sentido referir, por exemplo, a Multicol que faz cordas finas usando polipropileno, assim como outras. Muitas das empresas desta região (mas de outras também) organizam-se em sistemas ecológicos que em vez de competirem, colaboram e diversificam. 
Não deixa de ser interessante que as empresas ligadas a produtos semelhantes ou complementares estejam muitas vezes localizadas perto. E, como referi acima, quase todas usarem a linguagem das soluções em vez da linguagem dos produtos. A Flex2000, por exemplo fabrica colções usando espumas de poliuretano, mas o que oferece são soluções de conforto, a Flexpur fabrica poliuretano, mas oferece conhecimento e soluções, EAB, fabrica espumas e solas de sapatos de látex, mas o que oferece é, mais uma vez, conforto, a Trimteck oferece soluções de fibras muito finas para o conforto e durabilidade na puericultura e na medicina e poderiamos referir outros exemplos. Estas empresas fabricas e usam poliureatano, polipropileno, polietileno, poliestireno, mas embora isso apareça na conversa o mais importante são as soluções e serviços que oferecem. As empresas ligadas ao papel, desde a pasta à embalagem, parecem também complentares e localizadas perto. Em Cortegaça encontramos a DS Smith, a PPS, Palm Packaging, entre outras. E mais uma vez o que oferecem são soluções. Na minha opinião, isto não é hipocrisia ou calculismo, mas uma verdadeira mudança de paradigma. A vantagem é óbvia, as desvantagens são a cada vez maior distância entre os consumidores e os produtores o que pode fazer com que se perca a noção das origens, dificuldades, necessidade e processos. Como eu já anteriormente referi a propósito do famoso poema de Sophia, O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que, 
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

O “erro” da civilização não é tanto Ulisses já não saber fazer ou usar um arado, mas já não ter nenhuma ideia de onde vem, para que serve e como é feito um arado.

Referências

António Manuel França de Jesus. Ovar: memórias industriais de uma urbe. Tese de Mestrado, Universidade do Minho, 2011.

Atelier d’arquitetura J. A. Lopes da Costa. Casa-Museu Júlio Dinis. Caleidoscópio, 2015.

Câmara Municipal de Ovar. 1.7 Cordoaria de Ovar – Catálogo da Exposição, 2016.

Câmara Municipal de Ovar. 3.7 Olaria de Ovar – Catálogo da Exposição, 2018.

Câmara Municipal de Ovar. Vai Passear. Ovar, cidade-museu do azulejo. s.d.

Câmara Municipal de Ovar. O trajo popular no concelho de Ovar 1850-1910, 2024.

Emerenciano Rodrigues. Querer dizer: Emerenciano, 50 anos entre a pintura e a escrita – Catálogo da Exposição. Câmara Municipal de Ovar, 2024.

Fernando Andrezo, Pedro Brás Marques, João Carlos Pinto, Luis Rodrigues, José Santa Clara. Na Fábrica. Edição de Autor, 2019.

Júlio Dinis. O Canto da Sereia (ilustração de Pedro Podre e estudo de Ana Soares Ferreira). Caleidoscópio, 2021.

Luiz Duarte de Oliveira Dias. Pão de ló de Ovar: o mais antigo e acreditado. Edição de Autor, 2010.

Maria Isabel Moura Ferreira. Azulejos tradicionais de fachada em Ovar. Câmara Municipal de Ovar, 2018.

Região de Aveiro. Barco Moliceiro – uma herança da Ria de Aveiro (2ª edição), 2025.

Revista Dunas, anos 2018-2024

Rosa Bela Cruz. Um rosto nunca é apenas um rosto – Catálogo da Exposição. Câmara Municipal de Ovar, 2025.

Sérgio P. J. Rodrigues. Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. Revista Multidisciplinar 4(2), 57-74, (2022), https://doi.org/10.23882/rmd.22087