Passeio Químico nos museus de Anadia

[Fui com a Liga dos Amigos da Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra (LiBUC) ao Museu José Luciano de Castro e Museu do Vinho, em Anadia, e procurei estudar mais dois assuntos que me intrigaram. Esse texto resulta dessa procura de mais informação sobre eles.]

Em Anadia, a visita ao Museu José Luciano de Castro foi uma agradável surpresa. Por um lado, o interessante trabalho do Plano Nacional de Artes que levou os alunos das escolas locais a fazer as suas interpretações, muitas delas bastante boas, dos quadros e esculturas presentes e, por outro lado, as cópias das páginas de um livro de aguarelas que a Rainha D. Amélia editou em 1926, para reunir fundos para apoiar a luta anti-tuberculose. 

O livro de D. Amélia foi impresso em Paris em 1926 usando litografia. Foram feitos, se percebi bem, 250 exemplares, em excelente papel, os quais foram vendidos a preço desconhecido a mecenas, tendo o dinheiro obtido sido dado para a causa da luta antiberculose. Sobre a tuberculose, que só começou a ser curável nos anos 1940 com a estreptomicina, mas sobretudo nos anos1960, com o aparecimento da rifampina, já falei bastante vezes (mas, vejo agora, sempre circunstancialmente). Sobre a técnica da litografia, falei no Passeio Químico em Setúbal, mas não indiquei referências e, vejo também agora, que não a percebi completamente. Como em todas as coisas, é a prática e a revisão que trás o conhecimento mais profundo e completo. E, embora perceba, em termos químicos, a litografia, esse conhecimento é apenas geral sem o aprofundamento e a prática.

Como referi, a litografia é baseada na incompatibilidade entre a água e gordura (Jorge & Gabriel, 1986; Bilhose, 1996) que origina vários tipos de fenómenos bem conhecidos. 

As cores das aguarelas e desenhos de D. Amélia foram cuidadosamente analisados e separadas em diferentes pedras litográficas que foram usadas para imprimir cada uma das cores. Desde o final do século XVIII que se conhece a técnica da quadricromia, segundo a qual a sobreposição de amarelo, ciano (um tom de de azul) e magenta, em diferentes quantidades, origina todas as cores. Se a estas cores juntarmos o negro, a impressão fica ainda com mais contraste. Mas não é garantido que as aguarelas da rainha D. Amélia tenham sido reproduzidas desta forma. Podem ter sido usadas mais do que quatro pedras litográficas, e as cores usadas podem ter sido diferentes. Por exemplo em (Meggs, 1998) é referido um exemplo em que são usadas cinco impressões com cores diferentes. 

Há uma grande diferença da litografia tradicional, mesmo usando quadricromia, em relação às técnicas modernas de impressão offset. Se for suficientemente ampliado uma imagem impressa por esta última técnica, notam-se os pontos descontínuos da imagem e as cores separadas e sobrepostas, mas em litografia tradicional não é assim pois cada cor pode ser contínua e na sobreposição não se nota esse efeito. A desvantagem da litografia é que cada pedra (podem também ser usadas outros suportes, ver. e.g., Bilhose, 1996) tem de ser preparada cuidadosamente e o processo é moroso e caro, incompatível assim com a comodidade e a rapidez da impressão offset.  

A técnica da litografia é especialmente boa para fazer reproduções de desenhos e aguarelas, pois as cores aparecem contínuas, os esbatidos e aguadas ficam perfeitos e podem ser usados papéis especiais, nomeadamente papel de aguarela. Um resultado disso, é que a impressão fica quase indistinguivel do original. Se forem aproveitadas as potencialidades da técnica – e muitos artistas modernos usam a litografia precisamente nesse sentido – podemos ter obras que são ao mesmo tempo de grande qualidade e que são originais reproduzidas em número limitado.   

Neste museu pode também encontrar-se uma interessante coleção de búzios, tendo eu notado com particular atenção os que eram usados para obter o púrpura de Tiro. Nestes, o molusco quando vivo, tem uma glândula que produz pequenas quantidades do corante, que uma vez extraído era usado para tingir tecidos valiosos. Encontramos referências a este processo de tingimento e ao búzio em Os Lusíadas de Camões (Rodrigues, 2025). E refiro isto, para relembrar, mais uma vez, que este livro pode também lido como um testemunho do grau, muitas vezes elevado, de civilização que os portugueses encontraram em África, antes de o continente ser quase exaurido pela escravatura e colonialismo.  

A região de Anadia é pioneira na produção de vinho espumante tradicional, o qual é em geral um vinho branco feito a partir de uvas tintas, "Blanc de Noir" (Martins, 2025). Deve notar-se que nesse método tradicional é feita a filtração do mosto pois por mais suave que seja a prensagem há sempre alguma cor das cascas (a cor é dada pelas antocianinas presentes na casca das uvas) que fica, ficando o vinho rosado. Essa filtração era feita com bentonite (uma espécie de barro) e outros materiais, usando aparelhos que ajudavam à filtração ativa, podendo pelo menos uma delas ser vista no museu (na sala central está uma muito caraterística, pode ver-se num canto de uma das fotografias). Hoje em dia, são feitos vários vinhos espumantes de uvas exclusivamente brancas (penso que agora é a maioria) mas imagino também que continue a ser feita a filtração, mas de forma mais suave. Deve  notar-se que filtrações que retirem cores e cheiros, podem retirar também muitas vezes outros compostos relevantes para o aroma e o paladar. 

Atualmente, há mais procura por vinhos brancos, os quais exibem muito mais complexidade do que há uns anos atrás em que eram considerados, por muitos consumidores, como vinhos de segunda categoria. Há a ideia de que o vinho tinto, pode ser mais complexo, e de certa forma é verdade, mas se recuarmos a tempos anteriores ao século XX, o vinho branco era o mais requintado. Com as filtrações e outras operações, poderiam obter-se brancos muito mais límpidos e confiáveis do que vinhos tintos, os quais poderiam ter muito mais impurezas e ser alvo de muitas e variadas falsificações.       

Para se obter o gás (que é dióxido de carbono) na garrafa é estimulada uma segunda fermentação, colocando quantidades rigorosamente medidas de açucar de uva (glicose) e leveduras que no processo de fermentação produzem mais álcool e dióxido de carbono (Navarre, 1997). Curiosamente, o livro português clássico sobre a produção de vinho (Pato, 1992), tem poucas referências à produção de espumantes. 

Hoje em dia há uma grande quantidade de processos, inclusive alguns que não envolvem a adição de glicose, provavelmente deixando ficar alguma da inicial das uvas. Na Anadia, e em Portugal, é pioneira na investigação vinícula a Estação Vitivinícola da Bairrada, fundada em 1887.

Referências

Robin Bigalhose. Guia prático de Gravura. Editorial Estampa, 1996. 

Alice Jorge, Maria Gabriel. Técnicas de Gravura Artística. Livro Horizonte, 1986.

João Paulo Martins. "Blanc de Noirs: Quando as tintas viram brancas." Grandes Escolhas, Dezembro de 2025. Acessível em https://grandesescolhas.com/blanc-de-noirs-quando-as-tintas-viram-brancas/ (acedido em 15 de junho de 2026). 

Philip B. Meggs. A History of Graphic Design (3rd edition). Wiley, 1998.

Colette Navarre. Enologia – Técnicas de Produção do Vinho. Publicações Europa-América, 1997.

Otávio Pato. O vinho – sua Preparação e Conservação. Clássica Editora, 1992.

Sérgio P. J. Rodrigues. "Uma Perspetiva Interdisciplinar: A Química n’Os Lusíadas". Boletim da Sociedade Portuguesa de Química 49 177 (2025): 113-118. https://doi.org/10.52590/m3.p721.a30003009.

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