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Passeio Químico em Setúbal

[Aproveitando que fui preparar um Passeio Químico no Mosteiro da Arrábida para o III Encontro de Professores Portugueses de Física e Química, visitei Setúbal brevemente e fiz algumas fotografias, mas acabei por não visitar uma parte das coisas que queria. Visitei, no entanto, o Museu do Trabalho, que fica instalado numa antiga fábrica de conservas, andei um pouco pela cidade, comi choco frito e escrevi este texto. Mais tarde, durante o III Encontro de Professores Portugueses de Física e Química que decorreu na Escola de Sebastião da Gama, pude completar e melhorar algumas coisas.]

Setúbal é uma interessante cidade na foz do Rio Sado. Para além da história e dos personagens como Bocage, que está imortalizado num estátua colocada bastante alta e a cantora Luísa Todi, e muitas outras coisas, saltam à vista as chaminés das antigas fábricas de conservas.

Já referi, a propósito do Passeio Químico na Arrábida, as salgadeiras de peixe romanas, conhecidas como cetéreas. A partir do século XVI, o “tempo do peixe” deu lugar ao “tempo do sal” e, a partir do século XIX, ao “tempo das conservas”, que entretanto deu lugar agora a outros tempos. Ao longo da cidade podemos ver muitas chaminés de fábricas de conservas desativadas. Nalguns textos encontrei alguma perplexidade com isso, mas os diferentes autores acabaram por se decidir pela ideia de memória.  

A forma como funcionavam antigamente as “fábricas de peixe” ou de conservas pode ser vista no Museu do Trabalho, também denominado Museu Giacometti, que está instalado nas antigas instalações da fábrica Perines de conservas de peixe. Esta ainda usava latas de conserva de folha de Flandres (aço recoberto de estanho) que eram soldadas e abertas com uma chave caraterística. Mais recentemente as latas de conserva são de alumínio, sendo usado um verniz designado por BADGE (do inglês Bysphenol A DiGlycidyl Ether). Este não foi retirado, mas em 2024 a UE fez uma diretiva em que se retirava a bisfenol A, o qual só poderia ter valores inferiores a 0.05 mg/kg.
Note-se, mas uma vez a evolução tecnológica e científica. As latas de folha de Flandres iniciais era o estanho que estava em contacto com os alimentos. Nas latas de alumínio, era o seu óxido. Isto começou a a ser considerado inaceitável, tendo começado a ser usado um verniz. Esse verniz liberta bisfenol A e há 20 anos atrás Lopes e Pereira referem um limite de 1 mg/kg, o qual é hoje em dia 200 vezes menor (0.05 mg/kg). Isto reflete o nosso maior conhecimento e capacidades analíticas. 

No museu é também mostrado como eram impressos os rótulos de papel destas conservas antigas, usando litografia. Esta técnica baseia-se na incompatibilidade da gordura com a água. A pedra litográfica recebe uma imagem com tinta à base de gordura, sendo coberta em seguida com goma arábica acidificada. A goma arábica, que é um polisacarídio, liga-se bem a essa tinta mas não à água com que a pedra é humedecida. A partir daqui a imagem fixa na goma arábica pode ser usada para fixar mais tinta e realizar as impressões. 

Podem ainda ver vistos outras atividades antigas como uma loja. Parecem só estar disponíveis os materiais tradicionais em metal, madeira, porcelana e vidro. Mas, se olharmos com atenção, embora não sejam tão visíveis e ubíquos os polímeros sintéticos como são hoje em embalagens, móveis e equipamentos, estes estão presentes nas tampas de alguns frascos.     


Voltando às chaminés, é na maior empresa de Setúbal, a Navigator, que encontramos a maior caldeira a gás natural portuguesa (li em notícias), a qual pode ser convertida para utilização de hidrogénio verde. A queima de gás natural, essencialmente metano (CH4) produz menos cerca de 20% de CO2 que a queima de fuelóleo para a mesma energia obtida, mas a queima de hidrogénio é ainda melhor pois não produz nenhum dióxido de carbono (2H2+O2→ 2H2O).

Em 1859, a iluminação a azeite cedeu o lugar à iluminação a gás, mas não encontrei o lugar dos gasómetros. Como já referi em muitos passeios, em todas as grandes cidades, a partir de meados do século XIX, o gás, que era obtido com o aquecimento do carvão, era usado para iluminação. Em Setúbal, apenas em 1927 foram encomendados os primeiros estudos, e só a partir de 1930 a eletricidade só começou a ser usada nas casas. 

A desativada central termoelétrica de Setúbal é um exemplo interessante da evolução tecnológica. Esta começou a ser parada em 2012 e o espaço está agora quase limpo, tendo as suas duas chaminés sido demolidas em 2020. Esta central havia sido projetada antes do choque petrolífero de 1973 e funcionava a fuelóleo. As suas quatro unidades podiam fornecer cerca de mil megawatts (MW), consumindo cerca de 64 mil toneladas de fuleóleo por dia. A sua eficiência era da ordem dos 40% e já por aqui vemos como era considerada hoje antiquada, havendo atualmente centrais de ciclo combinado que atingem mais de 60% de eficiência. Ainda mais relevante, era muito poluente e só nos anos 1990 começaram a ser instalados (pois só nessa altura se generalizaram) sistemas computadorizados de monitorização e despoiradores eletrostáticos.    

A aquicultura no estuário do Sado tem tido um desenvolvimento significativo, associado ao declínio da salinicultura e à transformação das salinas em viveiros de peixe. Produz-se dourada, robalo, linguado e ostra, entre outras espécies. Como já referi, no recente Passeio Químico na ilha da Madeira, a aquicultura ultrapassou a pesca em quantidade disponibilizada, sendo que envolve muitos desafios em relação à qualidade e segurança alimentares, sustentabilidade ambiental e bem estar animal. Os peixes mais “esquisitos” em termos de dieta acabam por ser os mais difíceis de domesticar e alimentação é um dos principais fatores para o sucesso desta atividade. Como estes têm milhares de sensores para o paladar, a formulação cuidadosa dos alimentos envolvem muito trabalho e investigação química.   

A cultura da vinha assume uma grande importância no setor agrícola do concelho. O moscatel de Setúbal é um vinho fortificado ou licoroso. É parada a fermentação do mosto com a adição de aguardente ficando a graduação entre 17 e 18º. Nesse aspeto é parecido com o vinho do porto. A origem da expressão “sol em garrafa” intrigou-me, sendo atribuída ao francês Léon Douarche. Só num local referiam os anos 1930 para essa ideia. Por outro lado, em 1949 numa introdução ao romance “Horizonte cerrado” Alves Redol refere que a expressão “sol engarrafado” era usada para o vinho do Porto. 

Não vi na primeira vez o Balneário Dr. Francisco de Paula Borba e o Portal da Gafaria, nem o Mercado do Livramento (era fim de semana). Na segunda vez, já vi o Balneário e o Portal. O Balneário foi concluído e inaugurado em maio de 1926. Este servia os utentes da Misericórdia mas também o público em geral. Estava divido em três classes, sendo que na primeira classe as cabinas de imersão eram equipadas com banheiras inglesas de ferro esmaltado. Mas outras duas classes as cabines de imersão eram de brecha da Arrábida e cimento. Todos tinham casas de banho e dispositivo de desinfeção pelo vapor. No telhado ficavam dois tanques com capacidade de 10 mil litros (penso que somadas as capacidades). 
Este balneário deve fazer-nos refletir sobre várias coisas. Primeiro, os equipamentos de banho nas casas não eram comuns como são hoje. Em 1970, num censo nacional, mais de 50% das casas portuguesas não tinham água canalizada, banho, retrete ou luz. Por outro lado, a estratificação da sociedade que fez com que existissem três classes. Se notarmos os equipamentos das várias classes, reparamos que não eram muito diferentes (tirando as banheira de ferro esmaltado na primeira classe, as quais eram importadas), mas havia uma separação muito vincada entre as pessoas, embora a água fosse a mesma. 

O Portal da Gafaria, situado na Avenida da Portela, evoca um tempo em que a lepra era uma doença para a qual não havia cura e que os doentes eram isolados (no século XV este local era fora da cidade), conhecida desde antiguidade e de evolução lenta, causando deformações. Só a partir dos anos 1940 apareceram alguns medicamentos para o seu tratamento, sendo hoje curável em ambulatório. As gafarias são hoje apenas memórias de um tempo antigo. 

Uma outra doença que existiu no estuário do Sado, mas também existiu nos estuários do Tejo, Mondego, e outros rios, e mesmo em Berlim, em geral em zonas temperadas com águas paradas, era o malária, ou paludismo. Hoje, as pessoas receiam que a doença venha de África para a Europa, mas já tivemos malária aqui, tendo as pessoas febres intermitentes. Tal como em África, as principais vítimas eram as crianças pequenas. Como acabou aqui na Europa? Com a drenagem dos pântanos e a morte dos mosquitos com DDT (diclorodifeniltricloroetano). De facto, em meados do século, campanhas uso maciço do inseticida acabaram com a doença na Europa. Ao mesmo tempo, apareceram tratamentos melhores para além da quinina, conhecida desde a expansão marítima. Poderíamos ficar a falar sobre malária de química interminavelmente, mas temos de acabar.  

A SAPEC foi criada em 1926 para explorar as pirites do couto mineiro do Lousal, mas rapidamente incluiu outros negócios como os adubos. Estas minas foram desativadas nos anos 1980, havendo agora no local um Centro de Ciência Viva que através da Fundação Frédéric Velge, está ligado à SAPEC. Há em Setúbal outras empresas relacionadas com a Química. Já referi a Navigator e a SAPEC e vou em seguida referir a Carmona. A grande fábrica de engarrafamento da Coca Cola situa-se também em Lisboa. Embora não seja um negócio químico,  envolve um conjunto operações que vão desde o uso de dióxido de carbono no refrigerante, baixar o pH com ácido fosfórico (E338), obtenção do caramelo por vias ácidas e básicas, etc. que podem ser interessantes para explorar. Há muitas outras, mas chamou-me a atenção a Lallemand que produz leveduras. Não sendo as leveduras um produto químico, estas proporcionam muitas reações químicas que nos interessam com as da fermentação alcoólica. 

A fábrica das baleia é um aspeto curioso e menos conhecido da cidade. Funcionava junto à União Elétrica Portuguesa (UEP), relativamente perto da entrada da SAPEC, na estrada da Miterna. Nos três anos que a sociedade se manteve ativa foram capturadas 408 baleias e 54 cachalotes que produziram 2013 toneladas de óleo. Fechou em 1928 mas voltou à atividade de 1947 a 1951. Também já referi várias vezes as razões pelas quais se capturavam baleias.
No século XX, a principal razão era o uso do seu óleo para a produção de margarinas e para óleos finos. Hoje em dia, essas utilizações foram todas substituídas pelas melhores formas de obter óleos vegetais e alteração química dos óleos minerais (obtidos do petróleo) lubrificantes. Além disso, há toda um conjunto de novas indústrias de reciclagem e reutilização de óleos minerais e outros produtos petrolíferos (em Setúbal, a Carmona, por exemplo). Os óleos vegetais são reciclados para a produção de biodíesel e detergentes, por exemplo. Nas idas às escolas costumo perguntar aos estudantes se sabem o que é o quadrado branco com B7 que aparece nas bombas de gasóleo. Alguns já repararam, mas em geral não sabem. Indicam que 7% de biodíesel é acrescentado (legalmente esse é o mínimo, havendo uma empresa que tem 15%). Por outro lado, os óleos minerais dos carros são regenerados e reutilizados. 

Tirei um fotografia de uma árvore das garrafas (Callistemon citrinus) que está na origem de um herbicida, a mesotriona. A empresa que começou a comercializar esta molécula, indica ter sido descoberto com base numa observação de 1977 de que debaixo desta árvore não nasciam infestantes, sendo sido comercializado a partir de 2001. É hoje um produto que já não está protegido por patentes, não deixando de ser curioso que a marca inicial (Callisto) use como símbolo uma flor da árvore. Outro herbicida muito conhecido é o glifosato que foi descoberto nos anos 1970 e é hoje também um genérico, mas é muito conhecido pela marca que primeiro o conteve (Roundup). De entre os muitos outros herbicidas aprovados, refiro o triclopir que é também genérico, mas é muito conhecido pela marca Galron

Nesta altura do ano, as árvores das garrafas estão em flor por todo o país. Sabemos hoje muito mais sobre elas e sobre a o mundo natural do que sabíamos há centenas de anos e isso deve acrescentar beleza e admiração, não as retira nem as destrói. Também acrescenta mais responsabilidades, é certo, pois não podemos evocar a ignorância nem o privilégio. E devemos às pessoas que lutaram e trabalharam, e ainda lutam e trabalham, para fazer um mundo melhor, em particular, poetas, pensadores e trabalhadores de Setúbal, não ter medo de sonhar com os olhos abertos.    

Referências

António Cunha Bento, Francisco Moniz Borba. O balneário: Memória de Setúbal, 2017

Augusto Martins. Breve História da Baixa de Setúbal. Edição de autor, 2016.

EDP – Eletricidade de Portugal SA. Central Térmica de Setúbal, 1993.

José A. Salvador. Moscatel de Setúbal: o príncipe dos Moscateis. Edições Afrontamento, 2010.

José Manuel Madureira Lopes, Alberto Manuel de Sousa Pereira. A Indústria das Conservas de Peixe em Setúbal, Estuário, 2015.

Maria do Carmo Vieira da Silva. Descobrir Setúbal: Itinerários Pedagógicos. Escola Superior de Educação de Setúbal, 1992.

Nuno Marques (coord.) Setúbal, uma baía aberta ao mundo: Retrato da Economia do Concelho. Câmara Municipal de Setúbal, 2021.

Rui Canas Gaspar. Histórias, coisas e Gentes de Setúbal. Edição de autor, 2015.

Passeios químicos na ilha da Madeira

[Eu já não ia à ilha da Madeira há cerca de vinte anos. Aproveitando que participei no congresso SciComPT 2025, nas horas livres, muitas vezes muito cedo, fui a alguns locais que tinha selecionado para tomar algumas notas e fazer fotografias para um passeio química. A ilha está muito modificada, em particular os túneis permitiram vias rápidas para chegar rapidamente a muitas partes da ilha.]

A ilha da Madeira é constituída por rochas vulcânicas. A alteração ao longo tempo de algumas destas rochas deu origem a argilas que servem de suporte à água que origina nascentes em todas as altitudes, em particular nas zonas mais altas, onde a pluviosidade é superior. A ilha é muito acidentada e íngreme, chegando-se em poucos quilómetros do nível do mar a lugares acima dos mil metros. Também as costas são muitas vezes muito escarpadas (no Cabo Girão atinge-se a altura de quase seiscentos metros), havendo por vezes desabamentos e tendo-se formado ao longo do tempo pequenos espaços junto ao mar conhecidos como fajãs que são muito férteis onde é realizada a agricultura. 

É preciso notar que o ponto de ebulição da água diminui, com a altitude, sendo 95ºC a 1500 metros e 93ºC a 2000 metros, por exemplo. Atingindo-se rapidamente valores muito elevados de altitude, há grande condensação do vapor de água presente nas massas de ar húmido e formação de precipitação, dando origem a muitas vezes a grandes enxurradas e aluviões. Deve também notar-se que embora todos estes fenómenos sejam complexos, se verifica que a precipitação aumenta linearmente com a altitude.
Os aluviões devidos às terras que se deslocam e as enxurradas são relativamente comuns na ilha, sendo a primeira referência a aluviões já no século XVI. Havendo tanta água nos lugares altos, desde cedo esta foi canalizada nas conhecidas levadas de que há dezenas na Ilha da Madeira, mas por outro lado para evitar inundações foram realizadas obras de regularização das margens de ribeiras, o que muitas vezes não teve bons resultados. Por outro lado, o ponto de fusão do gelo não é muito afetado pela altitude, podendo considerar-se o mesmo valor do nível do mar, ou seja 0ºC. No entanto, é comum estar bom tempo no Funchal e ver-se nevar nos picos que rodeiam a cidade pois estes estão a menor temperatura e há mais água disponível. 

O Poço da Neve, que fica a 1650 metros, era um local onde se armazenava neve para fazer gelados. Este tem cerca de oito metros de profundidade. Hoje em dia podem obter-se gelo facilmente (as pessoas podem observar e fazer a sua produção nos congeladores dos frigoríficos, por exemplo), mas antigamente isso não era possível, e a única forma de o obter era conservando-o quando se formava naturalmente. A história das vantagens e problemas envolvidos nos frigoríficos, assim como a sua forma de funcionamento, já foi referido em vários passeios.   

As paredes da Sé do Funchal podem ser vistas como um catálogo das rochas vulcânicas disponíveis, havendo quase uma dezena de tipos de rochas vulcânicas em mais de duas dezenas de tonalidades. Não tive tempo de entrar, mas as fotos que vi do interior são muito bonitas, em particular a talha dourada que também já referi noutros passeios. Tinha pensado ir ao mercado do Funchal mas não tive tempo de ir lá pois o pouco tempo que tinha foi gasto a esperar numa farmácia do centro. Enquanto esperava e observava as pessoas a levar dezenas de medicamentos e cosméticos, alguns deles fundamentais, outros nem por isso, refleti sobre esta evolução e aumento da complexidade. Temos hoje em dia quase dois milhares de moléculas aprovadas como medicamentos, muitas delas de grande complexidade e cada vez menos bioinspiradas, validados por estudos clínicos e várias fases de aprovação, e são aprovadas cerca de quatro dezenas por ano (mas também são retiradas do mercado outras), para tratamento de doenças de que se morria e nem se sabia que existiam. Claro que há ainda vários problemas e temos novas questões, mas é muito interessante refletir sobre este aspeto.   

O clima da Madeira desde cedo foi considerado benéfico para o tratamento da tuberculose, numa altura que não havia outros tratamento para esta doença além dos "bons ares," a boa alimentação e o descanso. São em número muito grande os doentes desta doença que passaram pela ilha, sendo de referir a princesa Sissi, bem conhecida pelo filme e outras obras que narram a sua história, e Júlio Dinís. Deste último, há uma estátua na baixa do Funchal que encontrei quase por acaso. Júlio Dinís era o pseudónimo do médico José Gomes Coelho, o qual, na sua passagem pela ilha, fez herbários e escreveu uma parte dos seus livros. Como se sabe, este escritor morreu dessa doença que hoje pode ser tratada com alguns tipos de antibióticos, mas não a penicilina que é pouco eficaz contra esta doença. A partir de meados dos anos 1940, com a descoberta da estreptomicina e o uso da isoniazida, e sobretudo a partir de meados dos dos anos 1965, com a descoberta da rifampicina, a doença começou a ter melhores prognósticos. Contudo, a micobactéria responsável por esta doença é muito difícil  de combater, envolvendo misturas de antibióticos no seu tratamento que é realizado durante bastante tempo.   

O Jardim Botânico do Funchal é relativamente pequeno, mas faz jus à exuberância da vegetação e flores locais. Eu tinha pouco tempo e procurei os canteiros com as plantas úteis, aromáticas e usadas tradicionalmente em têxteis (assinalados no mapa do Jardim). Só encontrei os primeiros, em particular com vários tipos de bananeiras e legumes, mas o linho, por exemplo, que é uma planta anual e podia não ser visível na altura, não vi. Não detetei haver canteiro com plantas tintureiras, mas penso que deveria haver, pois a Madeira tem bastante tradição de usar cores nas roupas, em particular os vermelhos, provavelmente tradicionalmente devido à Rubia spp. e o azul, provavelmente devido ao pastel dos tintureiros. 

Encontrei quase por acaso, cicuta e rícino, que deveria fazer parte de um canteiro com plantas venenosas. Mas, se o rícino encontrei na ilha, não vi cicuta, embude ou erva-moira, plantas venenosas bastante comuns no continente. Vi no entanto trombeteiras (Datura spp.) que são também venenosas e, que, se não me engano, as suas sementes causaram a morte de um adolescente na ilha. 
Foi na minha primeira passagem pela Madeira, há quase 20 anos, que comecei a interessar-me pela identificação de plantas, com um livro que trouxe da ilha.

A história da produção de açúcar na Madeira começou quase ao mesmo tempo que a história da expansão marítima. Para além do açúcar, era explorado o mel (ou melaço) que é um produto líquido, de cor escura, confeccionado a partir da cozedura e concentração do sumo de cana, e a aguardente. A produção de aguardente só se iniciou por meados do século XIX e hoje em dia já não se fabrica açúcar na ilha da Madeira. Dos textos que li, nota-se algum desconhecimento da química envolvida nos processos e, podemos dizer com ironia, que antigamente, afinal, “não era bom”. 

Em todos os processos a cana é esmagada e obtido um caldo, a garapa. No caso do mel e açúcar esse caldo é fervido até atingir uma determinada cor e grau (ou seja concentração, a qual só indiretamente tem que que ver com a temperatura pois o ponto de ebulição aumenta com a concentração). Para o mel procura-se manter o pH em cerca de quatro, adicionando-se, se necessário, ácido cítrico ou outros ácidos naturalmente existentes na cana. Isto é também realizado no caso do sumo de cana para aguardente, usando-se antigamente ácido clorídrico e sulfúrico, e, para ajudar à fermentação, fermento de pão e sulfato de amónio (é caso para dizer, com ironia, que “antigamente não era bom…”), sendo que o sumo obtido é depois destilado. No caso da açúcar usava-se cal para precipitar as impurezas e ajudar a formar cristais. Simplificando, parece que os pH mais baixos ajudam a manter todos os componentes, criando mel e aguardentes mais aromáticos, enquanto os pH altos ajudam a precipitar esses componentes, obtendo-se um açúcar mais puro. Queria chamar a atenção para o facto de o entendimento básico dos processos pode ser feito com base em conhecimentos simples de Química.  

O cultivo dos canaviais é limitado essencialmente a uma estreita faixa no litoral sul. As canas são atacadas por uma lagarta sendo antigamente usada estricnina para a matar. Hoje devem usar-se inseticidas mais seguros e, conhecendo-se o ciclo, da lagarta, outros tratamentos.  A caminho do Cabo Girão vi um canavial (mas não fotografei). O da figura vio-o no Jardim Botânico. Na Calheta situam-se alguns dos mais conhecidos engenhos, mas antigamente havia muito mais. 

O vinho da Madeira é um dos produtos agrícolas mais conhecidos da ilha. Para o fazer, é acrescentada aguardente ao mosto, parando a fermentação, ficando assim o vinho doce, sendo comuns graduações entre 17º e 22º (que corresponde a uma percentagem de volumes de álcool sobre o volume total). O que faz o vinho único são as castas usadas e o processo de envelhecimento que simula as condições de uma viagem por mar, pois reza a lenda que as cargas enviadas por mar pareciam mais saborosas.  

Muitos percursos de baleias passam na ilha da Madeira, além de que o mar é profundo perto de terra, assim era mais fácil a sua caça. No entanto, a caça à baleia só começou na Madeira no final dos anos 1940 com o recrudescimento da procura do seu óleo para a produção de margarinas, penso eu. Como já referi em vários passeios, a caça à baleia tinha a ver com a procura do seu óleo que, no século XIX, era usado para fazer velas e outras formas de iluminação. No Caniçal, onde estes animas eram desmanchados, em boa por ser a região mais desabitada da ilha, podemos agora visitar um museu relacionado com estes animais. Neste museu há uma parte dedicada à memória da sua caça e outra dedicada à biologia e observação destes cetáceos.

No Caniçal fica também a Zona Franca Industrial (ZFI) onde podemos ver várias indústrias, algumas relacionadas com a Química. Eu tive muito pouco tempo para estudar a questão e observar, quando lá estive, mas salta à vista o letreiro enorme da Insular, que é uma empresa madeirense centenária.  Vemos também algumas chaminés, tanques de combustível e muitos painéis solares. 

As chaminés que se veem parecem ser da Central Térmica do Caniçal, Esta central privada está equipada com  geradores a diesel/fuleóleo, assegurando a produção de uma parte da energia consumida na ilha da Madeira (vi valores diferente em vários sítios), penso que cada vez menor. Na Vitória situa-se uma outra central térmica a diesel/fuleóleo, muito maior, tendo nos últimos anos sido inaugurada neste local uma central térmica que usa gás natural.

Este último tipo de central térmica é muito mais eficiente, chegando aos 60%, enquanto que as centrais térmicas a diesel são menos eficientes (pela ordem dos 40%), além de que eram mais poluentes, embora com equipamentos de limpeza dos gases e de controlo automático se tenham tornado muito melhores. Fica também na ZFI a MadeBiotech que realiza investigação sobre biocombustíveis, nomeadamente, se não me engano, sobre o uso de algas e aproveitamento de restos de peixe. Para completar as fontes de energia elétrica, existem na Ilha da Madeira várias centrais hídricas, eólicas centrais fotovoltaicas e uma central de baterias.

No Caniçal encontrei também instalações de aquicultura situadas no mar. Nos últimos anos a aquicultura ultrapassou a pesca em volume de peixe disponibilizado. Esta prática pode ser mais sustentável, mas envolve muito desafios em relação à qualidade e segurança alimentar, assim como o bem estar animal. Embora usualmente não se pense n«muito nisso envolve muita química e não me estou a referir a antibióticos e outros medicamentos dados aos peixes. Refiro-me a algo muto óbvio, mas tão simples como complexo, o sentido do paladar dos peixes. Estes têm milhares de receptores para analisar os alimentos que estão na água. Para além disso, os peixes carnívoros (uma boa parte dos que mais gostamos) são mais poluentes que os vegetarianos e também os mais difíceis de contentar com dietas vegetarianas. Assim, há muito investigação envolvendo estes aspetos.      

Como é obvio, ficou uma grande parte de coisas por ver. Tenho de voltar.

[versão inicial de 19 de abril de 2025; pequenas alterações em 27 de abril de 2025]

Referências

Alberto Vieira, Filipe dos Santos. Açúcar, Melaço, Álcool e aguardente. Notas e experiências de João Higino Ferraz (1884-1946). Governo Regional da Madeira, 2006. 

António Marques da Silva. Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha). Direção Regional da Cultura, 2016.

João Mimoso Loureiro. A água na Ilha da Madeira. Caracterização hidrológica. As grandes Aluviões 1600-2010. Eletricidade da Madeira, 2010.

Marco Livramento. Levadas da Madeira: uma herança para o mundo. Diário de Notícia – Madeira, 2022.

Museu Etnográfico da Madeira. O Engenho. Direção Regional da Cultura, 2016.

RTP. Madeira Profunda. Temporada 1 e Temporada 2, Episódios 1-12, 2023, 2024.

Passeios Químicos na Escócia

[O que se segue são as impressões que que ficaram, em termos químicos, de uma viagem de férias em família em agosto de 2024. Edimburgo e Glasgow e mereciam por si só entradas particulares, mas decidi escrever desta forma que parecia fazer mais sentido.]

 
A paisagem natural da Escócia é muito bonita, mas também são muito interessantes a maioria das cidades e povoações. Não raramente, ficámos deslumbrados por locais e coisas que não estavam nas guias e listas de locais a visitar.

O guia da Lonely Planet (1) dizia que, embora o campo parecesse natural, não era. Que a maior parte da floresta original tinha sido limpa para criar ovelhas (eu acrescentaria também para ser usada como combustível). Mas que a Escócia, mesmo assim, era muito bela. Sim, confirmo. Em particular porque a paisagem alterada pelo homem pode ter muito encantos.

Há vários cientistas relacionados com a Química que viveram na Escócia e que estão imortalizadas em estátuas, placas azuis e edifícios. Chamaram-me a atenção Joseph Black (1728-1799) e Thomas Graham (1805-1869) em Glasgow. O primeiro pode ser relacionado com muitas descobertas, mas é especialmente conhecido pelas do calor latente e do dióxido de carbono, tendo placas e edifícios com o seu nome (que não vi) em Edimburgo e Glasgow. O segundo, está relacionado com a descoberta das leis de difusão dos gases e está imortalizado em Glasgow com uma estátua, uma placa azul e um edifício e seu nome.   

Em Glasgow chamam-me a atenção os arenitos de várias cores, em particular os vermelhos escuros, usados na construção. Há cerca de 270 milhões de anos na Escócia havia um vasto deserto com dunas e condições áridas, semelhantes às do Saara atual, que originaram estes arenitos ricos em sais de ferro (1). Num livro que comprei em Edimburgo e que recomendo chamado "Material World" de Ed Conway é referida uma mina, que era uma antiga praia com areia muito branca, praticamente só de sílica, a qual é a base para o obter silício que é a base para a revolução digital.

Curiosamente, em muitas partes da Escócia podem observar-se águas bastante amarelas, provavelmente devido a isso. Num ancoradouro de Loch Ness, por exemplo, podem observar-se manchas que parecem adequar-se a essa descrição. Talvez esteja a exagerar o seu efeito, mas reparei que as cascas brancas de algumas bétulas estavam mais escuras. Obviamente esse efeito não aparecia nas águas de consumo humano, pois caso estas tivesse ferro a mais esse sal seria precipitado.

Perto da Universidade de Glasgow, fotografei uma chaminé que não consegui identificar. Mas a pesquisa mostrou-me que a cidade teve, entre 1859 (altura em que foi construída) e 1928 (altura em que foi demolida), a maior chaminé do mundo (mais de 138 metros). O funcionamento das chaminés é muito curioso e foi alvo de uma das demonstrações de Michael Faraday na "História Química de uma Vela." Basta a existência de um tubo em altura para que a diferença de pressão entre a base o topo aspire os gases, em particular os envolvidos numa chama. Usando um tubo em forma de bengala, em que a curva estava no lado de baixo, Faraday mostrou que as chamas poderiam orientar-se para o lado e que a forma e posição da chama tinha muito que ver com a gravidades. 

A cidade de Stirling antiga é muito elegante e bonita. Passámos pelas ruas rapidamente e vimos o cemitério antigo. Não vi, mas estava num folheto, que tem uma lápide em que se referem os ladrões de tumbas, num tempo em que a dissecação de cadáveres era proibida (diz o folheto que “um cadáver em bom estado podia custar até 4 guinéus”). Já agora, pode ser interessante procurar saber o que  um “guinéu”. Segundo li, é simplesmente um libra de ouro que foi usada há alguns séculos, que, com a valorização do ouro, se tornou equivalente a uma libra e um xelim (cinco cêntimos de libra) e começou a ser designado como “dinheiro de cavalheiros”, correspondendo a uma libra e um xelim.

Aproveito, para fazer algumas reflexões sobre os museus que visitei na Escócia. Em Glasgow, na Kelvingrove Art Gallery, os aspetos pedagógicos estão muito bem conseguidos, mas todos os museus que visitei na Grã-Bretanha têm também esses aspetos (já o tinha referido a propósito do Passeio Químico em Londres). Além disso, as entrada são gratuitas. É como se os museus regressassem ao seu fim inicial: educar os visitantes, sendo que todos têm acesso. 

As legendas são chamativas e, em geral, surpreendentes. É referido que todos os quadros contam histórias, sendo que um estava encerrado numa estrutura onde são apresentados balões de fala com ecrãs e onde os textos que são escritos pelos visitantes vão aparecendo (o que digo é baseado essencialmente na Kelvingrove Art Gallery de Glasgow). Noutro local do museu, uma impressão de alta resolução da cópia de um quadro com alterações, é usada para mostrar com seria se este fosse limpo. São feitas explicações das análises que se podem fazer aos quadros para revelar os aspetos invisíveis e químicos, sendo usadas imagens das telas que estão ao lado. Também a explicação dos testes que foram feitos aos quadros de Rembrandt para confirmar a sua autenticidade são mostradas ao lado destes.

As disposições das obras de arte são realizadas para criar continuidade de ideias. Por exemplo, abaixo de um quadro em que está uma pessoa com uma pistola antiga, há uma pistola real igual. Vários quadros de pintores franceses impressionistas (Courbet, Renoir, Cezanne, Matisse e outros)  estão juntos e têm como tema naturezas mortas. Acima de um quadro que representa a pesca do bacalhau é apresentado um modelo de um bacalhau. É feita a apresentação da evolução da formas de fazer café com base em recipientes históricos. Podemos ver muitos outros exemplos.

Havia um mostruário com arte feita por doentes mentais, sendo discutido o seu efeito para a recuperação destes. Há um texto com imagens e filme sobre a compra de um quadro de Salvador Dali que está em destaque. Ao lado de um quadro, é feita a explicação de como este foi salvo durante a guerra por um militar. Estão disponíveis cadeiras articuladas que se podem levar para sentar em frente aos quadros ou para pintar (isso já é feito em Portugal). Num tigre empalhado é mostrado como é feito o interior, mostrando-se na metade posterior a estrutura (sem pele).
Tanto neste, como noutros museus escoceses são misturadas coisas, criando efeitos estimulantes. No museu Nacional da Escócia, em Edimburgo, pode ver-se empalhada a ovelha Dolly que foi usada para a primeira experiência de clonagem de um mamífero ao lado de objetos artísticos e de desenvolvimento tecnológico. 

Na Galeria Nacional, em Edimburgo, muitas legendas são duplas, sendo que está lá a usual e a que foi feita por um aluno de uma escola primária do país. Já referi isso a propósito dos museus e Londres, mas, em todos os museus que visitei há quadros inacabados, em particular de artistas famosos, que são expostos para mostrar os seus processos de produção. Em suma, os museu não têm apenas um conjunto de obras de arte ou objetos organizados, mas providenciam experiências muito ricas e interativas em termos pedagógicos.   


Claro que, sendo os museus gratuitos, há uma procura muito grande por donativos, havendo sempre em locais estratégicos caixas de acrílico para estes donativos, sendo recomendados valores específicos, em geral cinco ou dez libras. Os museus são gratuitos, mas as exposições temporárias são pagas, ficando em geral rapidamente esgotados os bilhetes.

Andámos por muitos sítios na Escócia, mas não vi instalações de aquicultura, embora o guia referisse que desde 1980 muitos “glens” foram desfiguradas devido a elas. A aquicultura é um aspeto muito importante da economia da Escócia. Existe um mapa interativo com as instalações (4), mas embora tivesse estado perto de algumas não as vi, em particular em Granton, uma zona marítima perto de Edimburgo. É importante aqui lembrar que na última década, a aquicultura ultrapassou a pesca em termos de volume de produção para consumo humano (5). Isto, podendo ser bom para o mar, acarreta problemas acrescidos em termos de sustentabilidade e saúde animal.  

Em Edimburgo estava a decorrer o Festival Fringe. Edimburgo está sempre em festivais no verão. Este estava sobreposto com o festival das artes e começaria em breve o festival literário. Isto é bom em termos de visitantes, mas provoca muita pressão na gestão da cidade, em particular na gestão do seu lixo, água para consumo humano e outros e serviços básicos. 

Naturalmente, procurei ver se no programa havia espetáculos científicos. Identifiquei alguns, essencialmente espetaculares e explosivos, mas também alguns mais reflexivos, como a palestra Professor Pankaj Pankaj, da Escola de Engenharia de Edimburgo, denominada “Physical Experiments Are So Passé” que já referi a propósito do Passeio Químico em Londres. De facto, entre o espetacular e a simulação, há espaço para várias possibilidades, como referi. Havia muitas pessoas nas ruas, e as coisas, em particular, o alojamento, eram caríssimas. 

Acabámos por ficar perto de Granton, uma zona marítima nos arredores de Edimburgo, como já referi, a cerca de cinco milhas do centro da cidade, mas os transportes públicos eram muito bons. A meio do caminho ficava o Jardim Botânico, de que falarei mais adiante, e mesmo ao lado encontrava-se o esqueleto de um gasómetro que estava a ser restaurado. Uma nota sobre isso: li que era muito discutido, pois durante mais de um século, esta estrutura esteve no horizonte da cidade. Da Arthur’s Seat, um monte bastante alto, pode ver-se bem Edimburgo e esta construção, em particular por estar rodeada de andaimes tapados.

Como já referi várias vezes, os gasómetros são memórias de século XIX, altura em que nas grandes cidades a iluminação pública era feita usando gás, o qual era também canalizado para as casas das pessoas mais abastadas. A partir de meados do século XIX, surgiu o uso do petróleo que passou a ser empregue nalgumas aplicações da iluminação, mas a partir do final do século XIX, a eletricidade, que era produzida com vapor, obtido queimando carvão ou petróleo. ou em barragens, substituiu tudo isso. Como era obtido este gás? Aquecendo o carvão a alta temperatura, libertava-se um gás que era armazenado à pressão atmosférica nos gasómetros, os quais eram cilíndricos.

A praia de Granton não é muito convidativa, mas é bonita, apesar de tudo. Mais longe fica a Praia de Portobello, muito mais conhecida, onde não fui, mas entre as duas há uma zona da baía que as forças locais querem revitalizar e usar para acesso balnear, li nas pequisas que fiz. Como já referi, era aqui que existiam, de acordo com o mapa (4), algumas instalações de aquicultura, mas não as vi. 

Junto a esta praia fica o Farol antigo de Granton, que li nunca ter servido como farol mesmo, mas era antes uma escola de faroleiros. Trata-se de um farol clássico, agora num edifício fechado. No Museu Nacional da Escócia há pelo menos duas estruturas de lentes de faróis em tamanho real, onde se pode apreciar como funcionavam.

Não notei por onde andei plantas venenosas, para além de dedaleira (Digitalis purpurea, numa variedade mais clara do que as que temos aqui em Portugal), mas também no pesquisa que fiz verifiquei que há na Escócia plantas venenosas que são raras ou desconhecidas em Portugal e posso assim não as ter visto. 

Cerca 1919, uma criança de sete anos comeu bagas venenosas de beladona (Atropa belladona) no Jardim Botânico de Glasgow e morreu. A sentença, datada de 1922 (6), foi que o Jardim Botânico deveria ter sido mais cuidadoso e foi considerado culpado. Em Portugal, um rapaz da madeira morreu em 2006 por comer as bagas de uma planta semelhante (7).   

Os jardim botânicos de Edimburgo e Glasgow, que visitei, são excelentes. No de Edimburgo notei que, no bar, as mesas eram de plástico reciclado que parecia madeira. Se pensarmos bem, podemos usar esse material para postes, tábuas e outras coisas sem que seja necessário cortar árvores. Noutros locais vimos também plástico a imitar madeira. 

O “mulching” é uma prática agrícola, em que reparei no comboio de Londres para Edimburgo, e que consiste em revestir as culturas com plásticos (que parecem meios brancos e transparentes). Isso serve para reter a água e evitar danos causados pelo gelo e geada. Esta prática tem sido muito discutida devido aos resíduos, havendo vários aspetos relacionados com a reciclagem e uso de plásticos biodegradáveis. Este último aspeto é muito relevante, pois a ideia de “biodegradável” tem muitas nuances. A norma Europeia EN13432 implica que os materiais são de origem biológica e que a sua degradação acontece de forma biológica, mas não especifica o tempo em que isso acontece. 

O nosso guia respondia (com alguma piada) à pergunta de qual seria o melhor local para comprar uísque como sendo um supermercado fora da Escócia, pois que os impostos faziam com que a Escócia fosse um dos piores locais para comprar a sua bebida tradicional. Julgo que não seja bem assim, em particular porque em muitas destilarias se podem comprar produtos únicos que não estão no comércio internacional. Não fizemos nenhuma visita guiada a destilarias, mas bebemos uísque em destilarias e vimos por fora os canos e instalações e, sobretudo, sentimos o cheiro, claro.

O uísque é feito pela fermentação da cevada maltada (ou seja humedecida para começar a fermentar) mas há uísque de outros cereais e de cevada não maltada. Depois de se promover a fermentação dos cereais para produzir etanol, destila-se a mistura para concentrar o etanol e compostos voláteis e separá-los das impurezas sólidas. Faz-se ainda uma nova destilação do líquido obtido, o qual fica a repousar em barris durante pelo menos três anos. Se for feito a partir de uma única porção de cevada maltada é designado como “single malt”, se for uma mistura de diferentes lote e mesmo anos é um “blend”.

Há uma grande combinação destas possibilidades, sendo atualmente o “single malt” o mais considerado, mas podemos imaginar que um “blend” que usa os melhores lotes e anos tem muito mais possibilidades.

A questão do cubo de gelo ou água no uísque tem sido muito debatida, mas lembro-me de ter visto um artigo científico que mostrava por simulação molecular que a presença de água em pequena quantidade melhorava a experiência sensorial. 

Há caixas (agora de plástico) com saibro e sal (grit and salt) ao longo das estadas das terras altas. O sal ao ser misturado com o gelo (ou a neve) baixa o ponto de fusão da mistura, melhorando as possibilidades de circulação rodoviária. 

Há muita água na Escócia e demos conta quase por acaso, a caminho de Glasgow, de uma central hidroelétrica bastante interessante que aproveita o desnível do Loch Sloy para o Loch Dosmond, percorrendo a água três quilometros de túneis até às turbinas. 

Antes, tinha visto uma barragem, Dalwhinnie Dam, que me pareceu muito baixa. Como se sabe, são as diferenças na altura que fazem com que a água possa ser usada para acionar turbinas. Vi depois, com alguma pesquisa, que esta fazia parte de um sistema de barragens e centrais hidroelétricas cuja água desaguava no Rio Tummel e servia para se obter eletricidade no Norte da Escócia. 

Reparei também em vários locais, no que pareciam ser pequenas Estações de Tratamento de Águas (ETA). De facto, dado as distâncias entre localidades e as pequena densidade populacional nas Terras Altas, faz todo o sentido ter estas pequenas estações.    

O viaduto de Glenfinnan é bonito por si próprio, mas tornou-se uma grande atração depois dos filmes de Harry Potter (se quiser ver isso planeie bem a ida, chegue com antecedência e prepare-se para ter um dia de nevoeiro ou chuva em que quase não se vê nada, além de ter de andar bastante pois os sítios para estacionar podem ser longe).

A famosa imagem do comboio a vapor, deitando fumo branco (vista de cima), não é a mesma que se tem no local onde se pára (vista de baixo). Desaconselho de todo – é melhor ficar com a ideia. E os comboio a vapor? A imagem é romântica, mas há várias coisas que originaram o seu desaparecimento. Eram muito ineficientes e poluentes. O fumo branco é do vapor de água, mas faz esquecer o fumo negro da queima do carvão que era usado para aquecer a água que para maior eficiência poderia ser levada a uma temperatura acima da ebulição (isso implicava ter maior pressão) e o vapor era usado para fazer funcionar o aparelho.    

Não visitei em Edimburgo, o Surgeons Hall, um museu de medicina para adultos. Mas o meu filho, que é estudante de medicina, foi e achou muito interessante. Não vi também a placa comemorativa de James Lind (1716-1794) na escola de medicina. Na ponte (que dizem os locais que está em obras há anos) há uma placa indicativa de uma velha farmácia onde foi obtido o clorofórmio para anestesia desenvolvida por Sir James Young Simpson (1827-1912), o qual descobriu as propriedades anestésicas deste composto. Além da anestesia, muitos procedimentos médicos de natureza química começaram com médicos cientistas escoceses. Além dos já referidos Lind e Simpson, podemos referir Joseph Lister (1827-1912), que desenvolveu a assépecia,e Sir Alexander Fleming (1881-1955) que descobriu a peniclina.

James Clerk Maxwell (1831-1879), muito conhecido pelas suas leis do eletromagnetismo, era natural da Escócia (nasceu em Edimburgo). Na cidade há um pequeno museu dedicado a ele a que não fui. Outros cientistas escoceses que ainda não foram referidos e que fizeram contribuições para a Química, podendo não ser Químicos, nas suas atividades principais. São eles, entre outros, William Thompson, Lord Kelvin (1824-1907),  Charles Macintosh (1706-1843) inventor da gabardina e materiais à prova de água, James Young (1811-1883), que realizou a primeira extração de petróleo e Sir William Ramsay (1852-1916).

Um prato nacional da Escócia são os haggis, nos quais, pedaços muito pequenos de vísceras de carneiro são ligados por farinha e colocados no buxo deste animal. Em Portugal temos algo parecido, mas não igual, que são os maranhos. Contrariamente à ideia popular, o sabor não e o cheiro não são assim tão fortes e as pessoas que são carnívoras e que comem os lombos e as costeletas podem também comer as vísceras pois assim é mais sustentável!  

Como já referi noutros passeios, tradicionalmente ligava-se o ferro à pedra usando chumbo pois este metal é facilmente fundido e maleável. Chama-se ao processo “chumbar”. Mas cada vez encontro menos esse processo tradicional, sendo agora substituído pela ligação usando argamassas. Por acaso reparei num que achei muito curioso para segurar uma espécie de picos para evitar que as pessoas se sentassem. 

A Ilha de Skye é muito bonita. Visitámos as Fairie Pools, onde reparei de novo que a água aqui é muitas vezes amarelada. Em Portree ninguém se lembrou de fotografar as casas coloridas que aparecem em todas as fotografias dos guias. Ao vivo é simultaneamente menos colorido, mas mais vivo (no sentido de real). Estava maré-baixa e obtive boas fotografias do outro lado do monte com as redes tradicionais (sintéticas em curso de transição para materiais mais sustentáveis) e enferrujamento caraterístico das zonas marítimas (acelerado pela presença dos iões cloreto).

Referências

(1) Wilson, Neil, Cornwallis, Graeme, Smallman, Tom. Scotland. Lonely Planet Publications, 2002.

(2) Strathclyde Geoconservation Group. Glasgow Rocks. What stones were used to build Glasgow? 2014. https://geologyglasgow.org.uk/docs/017_070__glasgowrocks_1466894586.pdf (acedido 1 de setembro de 2024).

(3) Glasgow Live. The incredible Glasgow mega-chimney that was the tallest in the world. https://www.glasgowlive.co.uk/news/history/incredible-glasgow-mega-chimney-tallest-23386331 (acedido 2 de setembro de 2024).

(4) Scotland’s Environment. Scotland’s Aquiculture. https://aquaculture.scotland.gov.uk/ (acedido 1 de setembro de 2024).

(5) Jornal Público. Aquacultura ultrapassa pesca e torna-se a principal fonte mundial de peixe, diz ONU. https://www.publico.pt/2024/06/07/azul/noticia/aquacultura-ultrapassa-pesca-tornase-principal-fonte-mundial-peixe-onu-2093372 (acedido 3 de setembro de 2024).

(6) LawTeacher. Glasgow Corporation v Taylor – 1922. https://www.lawteacher.net/cases/glasgow-corporation-v-taylor.php (acedido 1 de setembro de 2024).

(7) Jornal Público. Beladona mas perigosa. https://www.publico.pt/2006/08/18/jornal/beladona-mas-perigosa-93981 (acedido 1 de setembro de 2024).