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Passeios Químicos em Madrid entre o Natal e o Ano Novo de 2025

[Fomos alguns dias a Madrid no Natal de 2025, essencialmente para a ver a exposição sobre Robert Capa no Círculo de Belas Artes e as exposições-diálogos entre Wahrol e Pollock (Warhol, Pollock and other American spaces) e Picasso e Klee (Picasso and Klee in the Heinz Berggruen Collection) no Museu Thyssen-Bornemisza]

Já não iamos a Madrid há alguns anos (ver aqui e aqui e Saz, 2018) e agora há uma muito maior precupação - e bem - com as emissões de gases dos carros. Na nossa casa temos um carro a gasóleo – e é o único que temos – cujo motor funciona pela queima de hidrocarbonetos, os quais podem ser aproximados (no caso do gasóleo) pela fórmula C12H26, produzindo-se assim 12 moléculas de dióxido de carbono por cada molécula de hidrocarboneto queimada.

Pelo menos 7% deste combustível tem de ter origem não fóssil e renovável (é o chamado biodiesel que é assinalado com um quadrado branco com um um sete nas bombas de gasolina), mas neste momento já há carros que usam gasóleo 100% renovável (HVO, hidrogeneated vegetal oil), o qual só está disponível, no entanto, para empresas. Este gasóleo é, por agora, tanto quanto percebi, mais caro e as perolíferas não divulgam publicamente o seu custo. Como se pode imaginar, estes combustíveis exigem uma grande quantidade de gorduras, o que origina periodicamente os óelos usados serem mais caros do que os virgens ou muita procura por óleo de palma cuja produção intensiva também não é boa para o ambiente. As reações químicas de produção de biodiesel são relativamente simples e chamadas pelos químicos de esterifiação correspendendo de forma simplificsada a R1COOH+R2OH→ R1COOR2+H2O

Por outro lado, estão a ser desenvolvidos métodos para o uso de outros tipos de desperdícios de gorduras que não apenas os dos óleos usados. O que ressalta disto é que vivemos num mundo muito complexo que envolve um número muito grande de relações também complexas. Claro que isso não nos deve, nem pode, impedir de agir, mas dever-nos-á alertar para o facto de não existirem quase nunca soluções simples e que as melhores soluções são muitas vezes inesperadas.  

Íamos ficar alojados na Zona de Baixas Emissões (ZBE) e pedimos autorização para entrar na cidade com o carro (deve pedir-se com antecedência de 20 dias). O nosso carro, embora seja de gasóleo, é Euro 5 (mais à frente comentarei os carros mais modernos Euro 6) e estava dentro das condições requeridas, mas mesmo assim havia zonas centrais da cidade onde só poderia passar para estacionar num parque. Basicamente, nas ZBE mais restritivas só podem circular carros elétricos que não emitem gases com efeito de estufa. Estes, para além de não emitirem gases, têm menos componentes o que torna a sua produção mais sustentável. Mas, obviamente, não são completamente isentos de problemas ambientais.
Desde logo, as baterias que são de lítio e cobalto. A obtenção destes elementos, tem obrigado à muito maior exploração destes recursos minerais. Já começam a existir baterias sem cobalto e baterias de ião sódio, mas ainda estamos longe de ter o problema resolvido pois o crescimento da produção de carros elétricos tem sido exponencial. Estão a ser estudados também outros tipos de baterias como as de metais e ar, mas também ainda estamos longe da sua produção em massa. Também a produção de eletricidade pode originar problemas ambientais, nomeadamente a que é obtida por queima de metano ou carvão.
No primeiro caso a sua produção em ciclos combinados é mais eficiente do que a queima de hidrocarbonetos nos carros, mas a sua eficiência ainda ronda os 60% (referi isso a propósito do Passeio Químico em Setúbal). Também as eólicas, as centrais fotovoltaicas e as barragens hidroelétricas não são isentas de questões ambientais. Desde logo o cimento e os espaço que tem de ser usado. Depois, se as primeiras usam grandes quantidades de terras raras, as segundas necessitam de silício de grande pureza, etc. Em qualquer dos casos, a análise completa dos processos envolvidos tem mostrado que são os carros elétricos mais vantajosos ambientalmente. Mas podemos ainda ir muito mais longe: produzir carros mais pequenos que usem menos recursos e emitam menos partículas dos seus pneus quando em circulação, ou andar mais a pé, de bicicleta e de transportes públicos.

No bairro de Arganzuela, junto ao rio Manzanares, situavam-se alguns dos equipamentos que faziam funcionar a cidade de Madrid no início do século XX, nomeadamente o matadouro e o gasómetro. O primeiro está agora transformado num centro cultural e de lazer (Centro de Créación Contemporânea) e do segundo resta o nome de uma rua e um parque com uma chaminé (onde não fui). O matadouro funcionou até 1996 e tem uma área bastante grande com pavilhões onde eram abatidos os diferentes animais (tem ainda as placas de cerâmica com as designações dos animais), um depósito de água e vários outros equipamentos. 

Chamou-me a atenção existir uma porta identificada com o nome de laboratório, onde seriam analisadas as carnes dos animais. Provavelmente não irão gostar do que escreverei a seguir por ser demasiado cru, por isso podem saltar para o parágrafo seguinte, mas, na minha opinião, estes números continuam a existir algures e deveremos ter consciência deles - o abate de animais para alimentação continua a ser feito, mas cada vez mais afastado das nossas vistas. Na região central de Madrid vivem cerca de 3.5 milhões de pessoas. Se essas pessoas consumirem cerca de 100 gramas de proteína, mesmo que metade das pessoas seja vegetariana o número de animais abatidos por dia será da ordem dos milhares (estimativa com um valor médio do peso de um bovino de 500 kg, ovelhas de 100 kg e galináceos de 5 kg). E os números de 1996 não serão muito diferentes pois a população era mais ou menos a mesma em quantidade de pessoas. 

Entretanto, estes milhões de pessoas têm de ser alimentados. Além da proteína vegetal, modificada  (ou não) geneticamente, ou produzida (ou não) por biotecnologia, há experiências interessantes com o que é designado como “agricultura celular” ou por “carne cultivada” nas quais são produzidos carne a partir de células de animais vivos, sem que este tenham de ser abatidos. Os problemas de aspeto e sabor já estão em boa parte resolvidos, mas o principal problema continua a ser o custo. Esta proteína é ainda muito cara e por isso não é competitiva economicamente num mundo em a carne dos animais abatidos é muito mais barata. Outra possibilidade é o uso da proteína proveniente de insetos, mas também em relação a isto há alguma resistência na sociedade. O ser humano é bastante incoerente: não gosta de ver matar animais, mas pode ao mesmo tempo salivar por um bife ou costeleta se não souber de onde estes vieram.  

No matadouro visitámos uma exposição de Cristina Mejías (“Lengua em coro, cuenta”) que consistia numa instalação numa zona escura, iluminada com luzes cenográficas, onde circulava água, tendo como canos e recipentes diferentes materiais (madeira, bambu, vários tipos de metais, vidro, fibra de vidro e plástico – foram os em que repare). Eram bastante bonitas as imagens, os reflexos nos vidro e água e a oxidação de alguns metais. Curiosamente, reside aqui uma das grandes possibilidades da arte moderna. Uma instalação parecida, embora menos complexa e com menos partes inúteis, mas potencialmente igualmente bela poderia ser feita por um agricultor imaginativo, para regar as suas plantas. Entretanto, ouve-se cada vez menos a triste expressão: “eu também poderia fazer isto”. Mas, paradoxalmente, faz sentido. Não no sentido de desvalorizar a arte moderna, mas mas para reafirmar que todos somos artistas em potência, embora alguns muito melhores do que os outros, claro, e que poderemos encontrar beleza e motivos para refletir sobre qual é a nossa posição no mundo, em tudo o que nos rodeia. O exemplo clássico é Pablo Picasso e até será interessante citá-lo pois irei mais à frente referir uma exposição com quadros dele. Toda a gente "sabe" que este sabia desenhar, mas foi ao longo tempo trabalhando as suas imagens para obter os efeitos que agora nos fascinam. E poderemos ainda ir mais atrás: os pintores considerados clássicos e os melhores pintores académicos queriam-nos dizer alguma coisa que quase numa era a simples reprodução acrítica da realidade. 

Eu também visitei nesses dias o Museu do Prado (valeu a pena ficar nas filas) e quem já viu com atenção as Meninas de Diego Velázquez, as Majas de Francisco de Goya e muitos outros trabalhos, sabe a que me refiro (Museo Nacional del Prado, 2019). As sensações estéticas (e não me refiro à emoção básica de estar ao lado de obras famosas) são devidas a coisas muito para além da reprodução formal da realidade (pense-se noutros artistas presentes no Prado, por exemplo, El Greco, José de Ribera, Caravaggio, Tintoretto ou Tiziano). Uma quase magia das telas e da pintura a óleo é que parecem, especialmente se bem iluminadas e restauradas (retirando o pó e os vernizes que as recobriam e escureciam) que acabaram de ser pintadas. Isso acontece, penso eu, por os pigmentos usados serem muito coloridos e brilhantes, já que os óleos secam em poucos dias. 

Alguns pintores, como El Greco, usavam pó de vidro para misturar com os pigmentos para maximizar esse efeito (referi isso, assim como a química dos pigmentos usados no Passeio Químico em Toledo e mais informações podem ser obtidas em Smith, 2003). Referi ainda nesse passeio, o uso de resina de pinheiro, mas isso acarreta alguns problemas de conservação a longo prazo, segundo li agora: escurecimento e formação de rachadelas. Na exposição-diálogo Wharol e Pollock (Museo Nacional Thyssen Bornemisza, s.d.b) há um efeito brilhante numa tela negra na qual Wharol usou pó de diamante. Diz-se que "os diamantes são eternos" mas os químicos sabem que são um estado metaestável do carbono, sendo a grafite mais estável. Há também uma frase que gosto muito de Michael Faraday: "a vela é mais brilhante do que um diamante, pois tem luz própria".

O matadero e o gasómetro ficavam na parte Sul de Madrid junto ao rio Manzanares no bairro de Arganzuela, sendo agora esta parte da cidade chamada Madrid-Rio. Estava frio e a chover e acabámos por não explorar a zona, mas há pelo menos duas pontes que parecem valer a pena visitar. Também não fomos ao Palacio do Cristal de Arganzuela construído pelo arquiteto Luis Bellido e González entre os anos 1908 e 1928 e reabilitado em 1992. O acesso a um site com mais informações não parece ser fácil de assnalar (o link está sempre a mudar) mas pode chegar-se lá pelo site do Turismo, mas uma vez acedido temos acesso a a um conjunto de informação muito interessante sobre as espécies disponíveis na estufa (Turismo de Madrid, s.d.), o mapa do Palácio de Cristal e também sobre as pontes sobre o rio e a qualidade da sua águas do Manzanares.
Segundo li, uma parte estava encanada (eu nem sabia que Madrid tinha um rio) e debaixo de autoestradas de acesso a Madrid, mas agora há um movimento de renaturalização e depuração das suas águas. Já referi em vários passeios os esqueletos dos gasómetros onde o gás era armazenado e distribuído pela cidade, que a qui em Madrid já não parecem existir. A produção de gás era feita por aquecimento de carvão a cerca de 1000ºC. Um pouco por acaso, fui dar à famosa feira do Rastro. À primeira vista não é muito diferente das nossas feiras atuais mas é interessante pela mistura de produtos que oferece e pela riqueza e contacto humanos. 

No Círculo de Belas Artes fomos ver a exposição sobre Robert Capa (1913-1954) (Círculo de Bellas Artes, s.d.c), autor de fotografias emblemáticas da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, da primeira Guerra Israel-Árabe e da Guerra da Indochina (onde morreu com 40 anos ao pisar uma mina terrestre). Achei especialmente interessante, estarem lá muitas das fotografias originais que foram usadas para as publicações, assim como cartas e outros objetos pessoais. Curiosamente, várias fotografias icónicas estão ligeiramente desfocadas ou tremidas, mas é precisamente isso que as torna muito mais interessantes, pois foram tiradas em situações perigosas ou difíceis e criam uma dinâmica que consideramos hoje genial. Robert Capa costumava dizer que "se a fotografia não é interessante não tinha sido tirada suficientemente perto”. 

No Círculo de Bellas Artes havia também a exposição “¡Aquí hay petróleo!” (Círculo de Bellas Artes, s.d.a), que toma o nome de uma comédia de 1955, que aborda, segundo os seus curadores, “as relações entre os combustíveis fósseis, as forma contemporâneas de poder e os imaginários do desejo” em particular durante o franquismo até ao presente. Achei interessante a exposição, por um lado parecer apresentar uma tensão (que já tinha notado em Valência) entre o olhar olhar atual em Espanha e o passado e o que resta do franquismo, e, por outro lado, por explorar uma estética irónica que a relaciona com o “machismo tóxico”, usando expressões com “petromasculinidade e fascismo fóssil”. Ironia à parte, trata-se de um assunto muito sério, pois o franquismo abraçou abertamente a modernidade e a industrialização, em particular química, ao mesmo tempo que era repressivo para as pessoas e ambientalmente desplicente. Infelizmente, o preço dessa modernidade, mesmo quando as alternativas eram ainda piores, foi (e ainda é) demasido alto. Foi também apropriado pois ainda estava a refletir sobre as ZBE.

Ainda no Círculo de Bellas Artes, fui uma a exposição com obras de Martín Chirino (1925-2019) (Círculo de Bellas Artes, s.d.b) o qual foi responsável pela rearticulação do Círculo de Bellas Artes de 1983 a 1992, segundo é dito na apresentação dos seus trabalhos. As suas esculturas metálicas têm valor artístico em si, mas o que me chamou mais a atenção foi o uso de diferentes metais e ligas metálicas o qual origina cores e superfícies diferentes, onde impera a figura gemétrica da espiral. O Círculo de Bellas Artes foi fundado em 1880 e é um edifício (na página dizem ser arquitetura neo-clássica) na Rua de Alcalá, perto da Gran Via, interessante em si mesmo, com uma explanada no sétimo andar que se paga para aceder (seis euros só o acesso ou um euro a somar aos valores dos bilhetes das exposições) onde há uma grande estátua de Minerva e se tem uma vista privilegiada da cidade.
As salas onde estavam as exposições eram da cave ao primeiro andar, mas continuando a subir passa-se por um salão de baile, uma sala de jogos e uma biblioteca (para associados, mas podem ser alugados as salas de baile e de jogos) e por muitas outras salas que podem ser alugadas, em particular duas que tinham os nomes de Maria Zambrano (falei dela a propósito de um Passeio Químico em Segóvia) e Ramón Goméz de la Serna. A entrada faz-se por uma rua lateral pois na rua principal tem uma cafetaria. O Círculo tem também uma sala de espetáculos, um cinema, uma rádio e uma revista (denominada “Minerva”).   

No Museu Thyssen-Bornemisza fomos ver as exposições-diálogos de Klee e Picasso e Pollock e Warhol (Museo Nacional Thyssen Bornemisza, s.d.a; s.d.b). Para a primeira não havia hora marcada e fomos visitar de imediato. Não tivemos grandes surpresas, nem o diálogo nos pareceu, inicialmente, muito frutifero (à primeira vista parecia um diálogo de surdos). No site dizia que “Picasso e Klee não podiam ser mais diferentes” mas partilharam, no entanto, temas e atitudes, uma “estratégia redutora e deformadora análoga” e uma forma “similar de utilizarem a arte como arma de transgressão”. Curiosamente, foi nesta ida a Madrid que reparei que as espadas dos toureiros matadores eram muito pequenas e um quadro Picasso reproduz bem isso. 

Esta exposição estava integrada na visita ao museu e acabei por ver todos os quadros. Com objetivos pedagógicos, havia modelos de quadros em relevo para cegos e de um dos quadros podia ser visto a análise das suas imagens obtidas em Infravermelho e de de outras formas. Não sei se a fotografia que fiz dá uma boa ideia do efeito, mas achei interrssante. Na minha opinião, ainda não atingiram a eficácia  e a extensão dos museus da Grã-Bretanha que visitei e referi a propósito dos Passeios Químicos em Londres e Escócia mas, mesmo assim, achei muito bem feito. 

Na exposição-diálogo entre Warhol e Pollock estavam os quadros ditos da “oxidação” (The Warhol, s.d.) e da “urina” de Andy Warhol, que eu não conhecia. Ambos os conjuntos de quadros foram “regados” com a urina de Warhol ou dos seus amigos, mas no primeiro conjunto as telas foram primeiro pintadas com uma tinta metálica de cobre ou de outras ligas e no segundo foram “regadas” as telas de pano cru. No primeiro caso, se as tintas metálicas forem de cobre, a urina promove a oxidação do metal, originando manchas verdes de sais de cobre (II). Mas a questão é muito mais complexa pois dependia da alimentação e fisiologia dos “executantes”. Notam-se também manchas mais escuras que podem ser de sais de cobre (I), os quais são castanhos avermelhados, ou de outros materiais.
Nas telas de pano cru, a urina originou manchas mais escuras que tanto podem ser devidas à oxidação do algodão da tela como a reação com outros materiais. Sabe-se, no entanto, que o estúdio cheirava bastante mal nos anos 1970 e que havia uma grande fixação na toma de vitaminas. Os estudos disponíveis não são muito claros sobre as composições, mas parece certo que é a ureia da urina que promove a oxidação. Esta moléculas está presente na urina (cerca de 20 g por litro ou 2%) e é em boa parte responsável pelos efeitos coloridos da formação de sais verdes de cobre (II) e (em muito menor quantidade), avermelhados de cobre (I). Não deixa de ser curioso que a ureia esteja a ser estudada para uso em células de combustível de carros. Uma coisa menos boa é que se forma dióxido de carbono nestas células (ânodo: NH2)2CO+6OH-→N2+ CO2+5H2O+6e-, cátodo: O2+2H2O+4e- →4OH-). 

Entretanto, nos automóveis classificados como Euro 6, é usada uma reação similar da ureia para eliminar os óxidos de nitrogénio (NOx) gerados combustão a altas temperaturas pela reação entre nitrogénio e oxigénio do ar, 6NO2 + 4 (NH2)2CO → 7 N2+ 4CO2 + 8H2O. Para isso é usada uma solução muito concentrada de ureia que atura sobre os gases de escape. Por exemplo, o AdBlue da Galp (s.d.) é uma solução aquosa de 32,5% de ureia. Assim, formos dos automóveis até arte e desta de novo para os automóveis, através da ureia! (A foto foi já tirada em Portugal, numa estação de serviço da Guarda) 

No Jardim Botânico de Madrid, como é inverno, muitas plantas estão adormecidas, mas se estivermos com atenção podem ainda ver muitas coisas interessantes. Quem me conhece, sabe que reparo sempre nos teixos (Taxus baccata). (Já referi a sua importância na produção de um medicamento para o cancro nos Passeios Químicos em Nova Iorque e Porto  entre outros locais) Há bastantes exemplares desta planta neste jardim que, além de estarem presentes em sebes, estão em exemplares de tupiária e bonsai e árvores. Também me chamou a atenção os metais nos tanques de água que parecem ser de zinco e os grampos de ferro chumbados com... chumbo. Mas disso eu já falei em vários passeios.

Encontro sempre alguma coisa nova, ou motivo de surpresa, nos Jardins Botânicos. Nas estufas, além do cafeeiro, que estava cheio de frutos (é a partir da semente, que depois de torrada, fazemos o café, estando nesta a cafeína), reparei numa pequena trepadeira que (estava assinalada) ser a pimenta (Piper nigrum). Eu nunca tinha visto (que me lembre) a planta e vi entretanto que é cultivada de outras formas. 

Havia também uma exposição muito bonita de fotografias de mulheres na ciência nas universidade bascas.

Entretanto regressámos, não antes de comermos vários salmorejos (os quais não eram muito diferentes do que faço) e provarmos novos e imaginativas pratos e renovadas formas de ver e agir sobre o mundo.   

Referências

Círculo de Bellas Artes (s.d.a) ¡Aquí hay petróleo! https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/aqui-hay-petroleo/ (acedido 8 de janeiro de 2026)

Círculo de Bellas Artes (s.d.b). Martín Chirino. Memoria del Círculo. https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/martin-chirino-memoria-del-circulo/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Círculo de Bellas Artes (s.d.c). Robert Capa. Icons https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/robert-capa-icons/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Galp (s.d.). Adblue: o que é e para que serve? https://www.galp.com/pt/pt/particulares/estrada/blog/detalhe/adblue-o-que-e-e-para-que-serve (acedido 9 de janeiro de 2026).

Pepo Paz Saz (2018). Un corto viage a Madrid. Anaya Touring.

Museo Nacional del Prado (2019). La Guía del Prado.  

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.a). Picasso y Klee en la colección de Heinz Berggruen. https://www.museothyssen.org/exposiciones/picasso-klee-coleccion-heinz-berggruen (acedido 8 de janeiro de 2026).

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.b). Warhol, Pollock and other American spaces. https://www.museothyssen.org/en/exhibitions/warhol-pollock  (acedido 8 de janeiro de 2026)

Museo Nacional Thyssen Bornemisza (s.d.c). Warhol, Pollock and other American spaces. Guía didático 42, 2025.

Ray Smith (2003). Guia do Artista. Dorling Kinderley.

The Warhol (s.d.). Oxidation Paintings. https://www.warhol.org/conservation/oxidation-paintings/ (acedido 9 de janeiro de 2026).

Turismo de Madrid (s.d). Estufa do Palácio de Cristal de Arganzuela. https://www.esmadrid.com/pt/informacao-turistica/invernadero-del-palacio-de-cristal-de-arganzuela (acedido 8 de janeiro de 2026).


Passeios Químicos na Escócia

[O que se segue são as impressões que que ficaram, em termos químicos, de uma viagem de férias em família em agosto de 2024. Edimburgo e Glasgow e mereciam por si só entradas particulares, mas decidi escrever desta forma que parecia fazer mais sentido.]

 
A paisagem natural da Escócia é muito bonita, mas também são muito interessantes a maioria das cidades e povoações. Não raramente, ficámos deslumbrados por locais e coisas que não estavam nas guias e listas de locais a visitar.

O guia da Lonely Planet (1) dizia que, embora o campo parecesse natural, não era. Que a maior parte da floresta original tinha sido limpa para criar ovelhas (eu acrescentaria também para ser usada como combustível). Mas que a Escócia, mesmo assim, era muito bela. Sim, confirmo. Em particular porque a paisagem alterada pelo homem pode ter muito encantos.

Há vários cientistas relacionados com a Química que viveram na Escócia e que estão imortalizadas em estátuas, placas azuis e edifícios. Chamaram-me a atenção Joseph Black (1728-1799) e Thomas Graham (1805-1869) em Glasgow. O primeiro pode ser relacionado com muitas descobertas, mas é especialmente conhecido pelas do calor latente e do dióxido de carbono, tendo placas e edifícios com o seu nome (que não vi) em Edimburgo e Glasgow. O segundo, está relacionado com a descoberta das leis de difusão dos gases e está imortalizado em Glasgow com uma estátua, uma placa azul e um edifício e seu nome.   

Em Glasgow chamam-me a atenção os arenitos de várias cores, em particular os vermelhos escuros, usados na construção. Há cerca de 270 milhões de anos na Escócia havia um vasto deserto com dunas e condições áridas, semelhantes às do Saara atual, que originaram estes arenitos ricos em sais de ferro (1). Num livro que comprei em Edimburgo e que recomendo chamado "Material World" de Ed Conway é referida uma mina, que era uma antiga praia com areia muito branca, praticamente só de sílica, a qual é a base para o obter silício que é a base para a revolução digital.

Curiosamente, em muitas partes da Escócia podem observar-se águas bastante amarelas, provavelmente devido a isso. Num ancoradouro de Loch Ness, por exemplo, podem observar-se manchas que parecem adequar-se a essa descrição. Talvez esteja a exagerar o seu efeito, mas reparei que as cascas brancas de algumas bétulas estavam mais escuras. Obviamente esse efeito não aparecia nas águas de consumo humano, pois caso estas tivesse ferro a mais esse sal seria precipitado.

Perto da Universidade de Glasgow, fotografei uma chaminé que não consegui identificar. Mas a pesquisa mostrou-me que a cidade teve, entre 1859 (altura em que foi construída) e 1928 (altura em que foi demolida), a maior chaminé do mundo (mais de 138 metros). O funcionamento das chaminés é muito curioso e foi alvo de uma das demonstrações de Michael Faraday na "História Química de uma Vela." Basta a existência de um tubo em altura para que a diferença de pressão entre a base o topo aspire os gases, em particular os envolvidos numa chama. Usando um tubo em forma de bengala, em que a curva estava no lado de baixo, Faraday mostrou que as chamas poderiam orientar-se para o lado e que a forma e posição da chama tinha muito que ver com a gravidades. 

A cidade de Stirling antiga é muito elegante e bonita. Passámos pelas ruas rapidamente e vimos o cemitério antigo. Não vi, mas estava num folheto, que tem uma lápide em que se referem os ladrões de tumbas, num tempo em que a dissecação de cadáveres era proibida (diz o folheto que “um cadáver em bom estado podia custar até 4 guinéus”). Já agora, pode ser interessante procurar saber o que  um “guinéu”. Segundo li, é simplesmente um libra de ouro que foi usada há alguns séculos, que, com a valorização do ouro, se tornou equivalente a uma libra e um xelim (cinco cêntimos de libra) e começou a ser designado como “dinheiro de cavalheiros”, correspondendo a uma libra e um xelim.

Aproveito, para fazer algumas reflexões sobre os museus que visitei na Escócia. Em Glasgow, na Kelvingrove Art Gallery, os aspetos pedagógicos estão muito bem conseguidos, mas todos os museus que visitei na Grã-Bretanha têm também esses aspetos (já o tinha referido a propósito do Passeio Químico em Londres). Além disso, as entrada são gratuitas. É como se os museus regressassem ao seu fim inicial: educar os visitantes, sendo que todos têm acesso. 

As legendas são chamativas e, em geral, surpreendentes. É referido que todos os quadros contam histórias, sendo que um estava encerrado numa estrutura onde são apresentados balões de fala com ecrãs e onde os textos que são escritos pelos visitantes vão aparecendo (o que digo é baseado essencialmente na Kelvingrove Art Gallery de Glasgow). Noutro local do museu, uma impressão de alta resolução da cópia de um quadro com alterações, é usada para mostrar com seria se este fosse limpo. São feitas explicações das análises que se podem fazer aos quadros para revelar os aspetos invisíveis e químicos, sendo usadas imagens das telas que estão ao lado. Também a explicação dos testes que foram feitos aos quadros de Rembrandt para confirmar a sua autenticidade são mostradas ao lado destes.

As disposições das obras de arte são realizadas para criar continuidade de ideias. Por exemplo, abaixo de um quadro em que está uma pessoa com uma pistola antiga, há uma pistola real igual. Vários quadros de pintores franceses impressionistas (Courbet, Renoir, Cezanne, Matisse e outros)  estão juntos e têm como tema naturezas mortas. Acima de um quadro que representa a pesca do bacalhau é apresentado um modelo de um bacalhau. É feita a apresentação da evolução da formas de fazer café com base em recipientes históricos. Podemos ver muitos outros exemplos.

Havia um mostruário com arte feita por doentes mentais, sendo discutido o seu efeito para a recuperação destes. Há um texto com imagens e filme sobre a compra de um quadro de Salvador Dali que está em destaque. Ao lado de um quadro, é feita a explicação de como este foi salvo durante a guerra por um militar. Estão disponíveis cadeiras articuladas que se podem levar para sentar em frente aos quadros ou para pintar (isso já é feito em Portugal). Num tigre empalhado é mostrado como é feito o interior, mostrando-se na metade posterior a estrutura (sem pele).
Tanto neste, como noutros museus escoceses são misturadas coisas, criando efeitos estimulantes. No museu Nacional da Escócia, em Edimburgo, pode ver-se empalhada a ovelha Dolly que foi usada para a primeira experiência de clonagem de um mamífero ao lado de objetos artísticos e de desenvolvimento tecnológico. 

Na Galeria Nacional, em Edimburgo, muitas legendas são duplas, sendo que está lá a usual e a que foi feita por um aluno de uma escola primária do país. Já referi isso a propósito dos museus e Londres, mas, em todos os museus que visitei há quadros inacabados, em particular de artistas famosos, que são expostos para mostrar os seus processos de produção. Em suma, os museu não têm apenas um conjunto de obras de arte ou objetos organizados, mas providenciam experiências muito ricas e interativas em termos pedagógicos.   


Claro que, sendo os museus gratuitos, há uma procura muito grande por donativos, havendo sempre em locais estratégicos caixas de acrílico para estes donativos, sendo recomendados valores específicos, em geral cinco ou dez libras. Os museus são gratuitos, mas as exposições temporárias são pagas, ficando em geral rapidamente esgotados os bilhetes.

Andámos por muitos sítios na Escócia, mas não vi instalações de aquicultura, embora o guia referisse que desde 1980 muitos “glens” foram desfiguradas devido a elas. A aquicultura é um aspeto muito importante da economia da Escócia. Existe um mapa interativo com as instalações (4), mas embora tivesse estado perto de algumas não as vi, em particular em Granton, uma zona marítima perto de Edimburgo. É importante aqui lembrar que na última década, a aquicultura ultrapassou a pesca em termos de volume de produção para consumo humano (5). Isto, podendo ser bom para o mar, acarreta problemas acrescidos em termos de sustentabilidade e saúde animal.  

Em Edimburgo estava a decorrer o Festival Fringe. Edimburgo está sempre em festivais no verão. Este estava sobreposto com o festival das artes e começaria em breve o festival literário. Isto é bom em termos de visitantes, mas provoca muita pressão na gestão da cidade, em particular na gestão do seu lixo, água para consumo humano e outros e serviços básicos. 

Naturalmente, procurei ver se no programa havia espetáculos científicos. Identifiquei alguns, essencialmente espetaculares e explosivos, mas também alguns mais reflexivos, como a palestra Professor Pankaj Pankaj, da Escola de Engenharia de Edimburgo, denominada “Physical Experiments Are So Passé” que já referi a propósito do Passeio Químico em Londres. De facto, entre o espetacular e a simulação, há espaço para várias possibilidades, como referi. Havia muitas pessoas nas ruas, e as coisas, em particular, o alojamento, eram caríssimas. 

Acabámos por ficar perto de Granton, uma zona marítima nos arredores de Edimburgo, como já referi, a cerca de cinco milhas do centro da cidade, mas os transportes públicos eram muito bons. A meio do caminho ficava o Jardim Botânico, de que falarei mais adiante, e mesmo ao lado encontrava-se o esqueleto de um gasómetro que estava a ser restaurado. Uma nota sobre isso: li que era muito discutido, pois durante mais de um século, esta estrutura esteve no horizonte da cidade. Da Arthur’s Seat, um monte bastante alto, pode ver-se bem Edimburgo e esta construção, em particular por estar rodeada de andaimes tapados.

Como já referi várias vezes, os gasómetros são memórias de século XIX, altura em que nas grandes cidades a iluminação pública era feita usando gás, o qual era também canalizado para as casas das pessoas mais abastadas. A partir de meados do século XIX, surgiu o uso do petróleo que passou a ser empregue nalgumas aplicações da iluminação, mas a partir do final do século XIX, a eletricidade, que era produzida com vapor, obtido queimando carvão ou petróleo. ou em barragens, substituiu tudo isso. Como era obtido este gás? Aquecendo o carvão a alta temperatura, libertava-se um gás que era armazenado à pressão atmosférica nos gasómetros, os quais eram cilíndricos.

A praia de Granton não é muito convidativa, mas é bonita, apesar de tudo. Mais longe fica a Praia de Portobello, muito mais conhecida, onde não fui, mas entre as duas há uma zona da baía que as forças locais querem revitalizar e usar para acesso balnear, li nas pequisas que fiz. Como já referi, era aqui que existiam, de acordo com o mapa (4), algumas instalações de aquicultura, mas não as vi. 

Junto a esta praia fica o Farol antigo de Granton, que li nunca ter servido como farol mesmo, mas era antes uma escola de faroleiros. Trata-se de um farol clássico, agora num edifício fechado. No Museu Nacional da Escócia há pelo menos duas estruturas de lentes de faróis em tamanho real, onde se pode apreciar como funcionavam.

Não notei por onde andei plantas venenosas, para além de dedaleira (Digitalis purpurea, numa variedade mais clara do que as que temos aqui em Portugal), mas também no pesquisa que fiz verifiquei que há na Escócia plantas venenosas que são raras ou desconhecidas em Portugal e posso assim não as ter visto. 

Cerca 1919, uma criança de sete anos comeu bagas venenosas de beladona (Atropa belladona) no Jardim Botânico de Glasgow e morreu. A sentença, datada de 1922 (6), foi que o Jardim Botânico deveria ter sido mais cuidadoso e foi considerado culpado. Em Portugal, um rapaz da madeira morreu em 2006 por comer as bagas de uma planta semelhante (7).   

Os jardim botânicos de Edimburgo e Glasgow, que visitei, são excelentes. No de Edimburgo notei que, no bar, as mesas eram de plástico reciclado que parecia madeira. Se pensarmos bem, podemos usar esse material para postes, tábuas e outras coisas sem que seja necessário cortar árvores. Noutros locais vimos também plástico a imitar madeira. 

O “mulching” é uma prática agrícola, em que reparei no comboio de Londres para Edimburgo, e que consiste em revestir as culturas com plásticos (que parecem meios brancos e transparentes). Isso serve para reter a água e evitar danos causados pelo gelo e geada. Esta prática tem sido muito discutida devido aos resíduos, havendo vários aspetos relacionados com a reciclagem e uso de plásticos biodegradáveis. Este último aspeto é muito relevante, pois a ideia de “biodegradável” tem muitas nuances. A norma Europeia EN13432 implica que os materiais são de origem biológica e que a sua degradação acontece de forma biológica, mas não especifica o tempo em que isso acontece. 

O nosso guia respondia (com alguma piada) à pergunta de qual seria o melhor local para comprar uísque como sendo um supermercado fora da Escócia, pois que os impostos faziam com que a Escócia fosse um dos piores locais para comprar a sua bebida tradicional. Julgo que não seja bem assim, em particular porque em muitas destilarias se podem comprar produtos únicos que não estão no comércio internacional. Não fizemos nenhuma visita guiada a destilarias, mas bebemos uísque em destilarias e vimos por fora os canos e instalações e, sobretudo, sentimos o cheiro, claro.

O uísque é feito pela fermentação da cevada maltada (ou seja humedecida para começar a fermentar) mas há uísque de outros cereais e de cevada não maltada. Depois de se promover a fermentação dos cereais para produzir etanol, destila-se a mistura para concentrar o etanol e compostos voláteis e separá-los das impurezas sólidas. Faz-se ainda uma nova destilação do líquido obtido, o qual fica a repousar em barris durante pelo menos três anos. Se for feito a partir de uma única porção de cevada maltada é designado como “single malt”, se for uma mistura de diferentes lote e mesmo anos é um “blend”.

Há uma grande combinação destas possibilidades, sendo atualmente o “single malt” o mais considerado, mas podemos imaginar que um “blend” que usa os melhores lotes e anos tem muito mais possibilidades.

A questão do cubo de gelo ou água no uísque tem sido muito debatida, mas lembro-me de ter visto um artigo científico que mostrava por simulação molecular que a presença de água em pequena quantidade melhorava a experiência sensorial. 

Há caixas (agora de plástico) com saibro e sal (grit and salt) ao longo das estadas das terras altas. O sal ao ser misturado com o gelo (ou a neve) baixa o ponto de fusão da mistura, melhorando as possibilidades de circulação rodoviária. 

Há muita água na Escócia e demos conta quase por acaso, a caminho de Glasgow, de uma central hidroelétrica bastante interessante que aproveita o desnível do Loch Sloy para o Loch Dosmond, percorrendo a água três quilometros de túneis até às turbinas. 

Antes, tinha visto uma barragem, Dalwhinnie Dam, que me pareceu muito baixa. Como se sabe, são as diferenças na altura que fazem com que a água possa ser usada para acionar turbinas. Vi depois, com alguma pesquisa, que esta fazia parte de um sistema de barragens e centrais hidroelétricas cuja água desaguava no Rio Tummel e servia para se obter eletricidade no Norte da Escócia. 

Reparei também em vários locais, no que pareciam ser pequenas Estações de Tratamento de Águas (ETA). De facto, dado as distâncias entre localidades e as pequena densidade populacional nas Terras Altas, faz todo o sentido ter estas pequenas estações.    

O viaduto de Glenfinnan é bonito por si próprio, mas tornou-se uma grande atração depois dos filmes de Harry Potter (se quiser ver isso planeie bem a ida, chegue com antecedência e prepare-se para ter um dia de nevoeiro ou chuva em que quase não se vê nada, além de ter de andar bastante pois os sítios para estacionar podem ser longe).

A famosa imagem do comboio a vapor, deitando fumo branco (vista de cima), não é a mesma que se tem no local onde se pára (vista de baixo). Desaconselho de todo – é melhor ficar com a ideia. E os comboio a vapor? A imagem é romântica, mas há várias coisas que originaram o seu desaparecimento. Eram muito ineficientes e poluentes. O fumo branco é do vapor de água, mas faz esquecer o fumo negro da queima do carvão que era usado para aquecer a água que para maior eficiência poderia ser levada a uma temperatura acima da ebulição (isso implicava ter maior pressão) e o vapor era usado para fazer funcionar o aparelho.    

Não visitei em Edimburgo, o Surgeons Hall, um museu de medicina para adultos. Mas o meu filho, que é estudante de medicina, foi e achou muito interessante. Não vi também a placa comemorativa de James Lind (1716-1794) na escola de medicina. Na ponte (que dizem os locais que está em obras há anos) há uma placa indicativa de uma velha farmácia onde foi obtido o clorofórmio para anestesia desenvolvida por Sir James Young Simpson (1827-1912), o qual descobriu as propriedades anestésicas deste composto. Além da anestesia, muitos procedimentos médicos de natureza química começaram com médicos cientistas escoceses. Além dos já referidos Lind e Simpson, podemos referir Joseph Lister (1827-1912), que desenvolveu a assépecia,e Sir Alexander Fleming (1881-1955) que descobriu a peniclina.

James Clerk Maxwell (1831-1879), muito conhecido pelas suas leis do eletromagnetismo, era natural da Escócia (nasceu em Edimburgo). Na cidade há um pequeno museu dedicado a ele a que não fui. Outros cientistas escoceses que ainda não foram referidos e que fizeram contribuições para a Química, podendo não ser Químicos, nas suas atividades principais. São eles, entre outros, William Thompson, Lord Kelvin (1824-1907),  Charles Macintosh (1706-1843) inventor da gabardina e materiais à prova de água, James Young (1811-1883), que realizou a primeira extração de petróleo e Sir William Ramsay (1852-1916).

Um prato nacional da Escócia são os haggis, nos quais, pedaços muito pequenos de vísceras de carneiro são ligados por farinha e colocados no buxo deste animal. Em Portugal temos algo parecido, mas não igual, que são os maranhos. Contrariamente à ideia popular, o sabor não e o cheiro não são assim tão fortes e as pessoas que são carnívoras e que comem os lombos e as costeletas podem também comer as vísceras pois assim é mais sustentável!  

Como já referi noutros passeios, tradicionalmente ligava-se o ferro à pedra usando chumbo pois este metal é facilmente fundido e maleável. Chama-se ao processo “chumbar”. Mas cada vez encontro menos esse processo tradicional, sendo agora substituído pela ligação usando argamassas. Por acaso reparei num que achei muito curioso para segurar uma espécie de picos para evitar que as pessoas se sentassem. 

A Ilha de Skye é muito bonita. Visitámos as Fairie Pools, onde reparei de novo que a água aqui é muitas vezes amarelada. Em Portree ninguém se lembrou de fotografar as casas coloridas que aparecem em todas as fotografias dos guias. Ao vivo é simultaneamente menos colorido, mas mais vivo (no sentido de real). Estava maré-baixa e obtive boas fotografias do outro lado do monte com as redes tradicionais (sintéticas em curso de transição para materiais mais sustentáveis) e enferrujamento caraterístico das zonas marítimas (acelerado pela presença dos iões cloreto).

Referências

(1) Wilson, Neil, Cornwallis, Graeme, Smallman, Tom. Scotland. Lonely Planet Publications, 2002.

(2) Strathclyde Geoconservation Group. Glasgow Rocks. What stones were used to build Glasgow? 2014. https://geologyglasgow.org.uk/docs/017_070__glasgowrocks_1466894586.pdf (acedido 1 de setembro de 2024).

(3) Glasgow Live. The incredible Glasgow mega-chimney that was the tallest in the world. https://www.glasgowlive.co.uk/news/history/incredible-glasgow-mega-chimney-tallest-23386331 (acedido 2 de setembro de 2024).

(4) Scotland’s Environment. Scotland’s Aquiculture. https://aquaculture.scotland.gov.uk/ (acedido 1 de setembro de 2024).

(5) Jornal Público. Aquacultura ultrapassa pesca e torna-se a principal fonte mundial de peixe, diz ONU. https://www.publico.pt/2024/06/07/azul/noticia/aquacultura-ultrapassa-pesca-tornase-principal-fonte-mundial-peixe-onu-2093372 (acedido 3 de setembro de 2024).

(6) LawTeacher. Glasgow Corporation v Taylor – 1922. https://www.lawteacher.net/cases/glasgow-corporation-v-taylor.php (acedido 1 de setembro de 2024).

(7) Jornal Público. Beladona mas perigosa. https://www.publico.pt/2006/08/18/jornal/beladona-mas-perigosa-93981 (acedido 1 de setembro de 2024).