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Passeios Químicos na Normandia e Bretanha

[Este agosto de 2026 fomos de férias a parte da Normandia e da Bretanha. Voámos para Beauvais e fizemos cerca de dois mil quilómetros. Esta crónica segue a viagem e dá conta dos aspetos mais químicos, mas não deixa de referir outros aspetos que achei interessantes.]


A Normandia é uma região de França que é, depois da Segunda Guerra Mundial, muito evocada pelo desembarque das tropas aliadas, em 1944, e pela destruição relacionada (cerca de 70% dos centros de Caen e Le Havre foram destruídas, por exemplo), mas tem muito mais para ver e conhecer. As paisagens e lugares, a história e as tradições, e, em termos químicos, os processos tradicionais e modernos, em particular os de produção de sidra e de aguardente de calvados. Para preparar esta crónica, consultei vários livros (Blazeau et al., 2025; Lonely Planet, 2025a, 2025b; Montron & Montron, 2012; Michelin, 1984), assim como várias páginas que irei referindo.  

No nosso plano estava rumar inicialmente a Giverny, onde se situa a casa, e jardins, de Claude Monet (1840-1926), um nome maior do movimento impressionista – e desvendando, em parte, o final da viagem, no MuMA (Museu de Arte Moderna André Malraux), em Le Havre, encontraremos uma exposição sobre Monet jovem, o qual, embora não tenha nascido na cidade, passou lá bastante tempo. 

Por acaso, seguimos um caminho rural que indicava ser a Rota de Vexin. Nós não sabíamos o que era, mas com alguma pesquisa vimos que se trata de um planalto que historicamente separava os reinos da Normandia e de França. É uma região verdejante com castelos, bosques e muitas culturas agrícolas. Chamaram-me a atenção a beterraba sacarina, os girassóis e vários campos que pareciam ter sido cultivados com trigo. 

Um artigo de uma produtora de máquinas agrícolas (Horsch, 2020), com uma entrevista a um agricultor da região, permitiu-me perceber bastantes aspetos da produção agrícola da zona. Para começar, trata-se de uma agricultura muito mecanizada que envolve pouca mão de obra. A semeadura e a colheita são realizadas de forma completamente mecânica. Depois, há muitas restrições ao uso de pesticidas, o que é uma oportunidade, como o que é referido no artigo, para a comercialização de mais máquinas. Finalmente, as rotações de culturas são muito longas, sendo a da beterraba sacarina de cerca de sete anos, havendo pelo meio as culturas de colza e milho, entre outras. 

As pressões sobre a agricultura francesa têm originado, como é bem conhecido, muitos protestos. Um dos que reparámos foi a colocação das placas das povoações ao contrário. A questão está muito polarizada, sendo muito complexa e potencialmente explosiva. Pelo outro lado, vimos em muitos lugares referências a “pesticidas zero.” Parece haver uma incompreensão mútua: por um lado os agricultores não percebem que a maioria da restante população (os agricultores são em geral 3% ou menos da população) não entenda que a produção dos alimentos que consomem envolve trabalhar a terra, mecanização e, por vezes, cada vez menos, serem usados de forma controlada, pesticidas. Os números não servem para convencer as pessoas, mas note-se que, se cada um dos 68 milhões de franceses, comesse um quilograma de alimentos por dia, precisariamos de ter, ou produzir, 68 mil toneladas de alimentos por dia, todos os dias. Trata-se de um valor elevado que para ter imagem, daria aproximadamente um cubo com 40 metro de lado. 

Por outro lado, a generalidade da população não percebe por que os agricultores não fazem uma agricultura menos intensiva e “amiga do ambiente.” Estou convencido de que os agricultores também gostariam, mas em geral não sabem como, nem parece saber-se como se pode fazer, mantendo o nível de produção necessário para alimentar toda a população. A médio e longo prazo, vão-se encontrando equilíbrios e soluções. No sentido da agricultura de precisão e regenerativa por um lado e aceitando-se que, em alguns casos, cada vez menos, felizmente, se recorra a pesticidas. 

O caso da agricultura regenerativa é interessante, pois facilmente pode cair em soluções não validadas cientificamente, como os “chifres” de animais enterrados com estrume da agricultura biodinâmica. O que deve ser óbvio, é que o cuidado que se coloca nas atividades, acaba por dar frutos, com ou sem “chifres” enterrados. Há uma história que é contada relativamente à Alquimia que é bastante paradigmática desse efeito: um pai diz aos filhos que há um tesouro enterrado na vinha. Estes cavaram toda a vinha e não encontraram tesouro nenhum, mas nesse anos as videiras produziram muito mais uvas: era esse o tesouro.

O girassol e a colza servem para produzir óleo vegetal e a beterraba sacarina para obter açúcar. Vou começar por referir o último caso pois é central em termos históricos e químicos. A sacarose (conhecida vulgarmente como açúcar) é desde tempos imemoriais obtida da cana-de-açúcar por sussessivos processos de aquecimento, extração e cristalização. Entretanto, o consumo de açúcar aumentou muito e tornou-se muito dependente das colónias. Por exemplo, na Grã-Bretanha, o consumo de açúcar aumentou de dois para nove quilogramas por pessoa de 1650 para 1800 (Pomeranz, 2013), sendo atualmente de 30 kg por pessoa por ano (a média mundial é de 17 kg/pessoa/ano). Há historiadores que ligam o aumento dos consumos de luxo e a extração de bens das colónias (Pomeranz, 2013) à explosão no desenvolvimento do ocidente. Com os bloqueios relacionados com os conflitos tanto a França como a Alemanha se viraram para outras culturas que pudessem fornecer sacarose em climas mais frios, sendo escolhida esta variedade de beterraba. 

O caso dos óleos vegetais é também interessante. Até ao século XIX, não era fácil obter em quantidade outros óleos vegetais além do azeite, o qual é fácil de extrair do fruto da oliveira, a azeitona. Mas ao longo do século XIX e, em particular no século XX, a sua produção aumentou bastante. Segundo dados da FAO, passou de uma produção mundial de cerca de um milhar de milhões de toneladas no início do século XX até cerca de duzentos milhares de milhões de toneladas no final do século. Por outro lado, os óleos vegetais não eram muito usados na alimentação, mesmo na zona mediterânea (eram até vistos com desconfiança). O azeite era usado essencialmente para iluminação, mas tiveram um aumento de uso na alimentação no século XX.   

Giverny estava repleta de turistas e acabei por não ir à casa de Monet (o resto da minha família foi). Fui a um museu cujo nome achei intrigante: “da mecânica natural.” Era de mecânica, concerteza, mas não sei “natural” é a melhor palavra (ou talvez seja, pois o uso de ferramentas é “natural” no ser humano). Estavam em exposição um conjunto de motores, desde os de vapor de água, passando pelos de gás pobre até aos de diesel. O gás pobre é obtido da destilação do carvão e contém monóxido de carbono e hidrogénio, entre outros componentes. Os rendimento em termos energéticos destes motores é baixo, sendo por exemplo os dos motores a vapor 1-20%, os de gás pobre 30-40% e os de diesel 35-45%, ou seja, é perdida bastante energia sob a forma de calor. Para além disso, são poluentes, tanto pelo produção de fumos, como de dióxido de carbono, pois envolvem processos de combustão. 

Os modernos motores elétricos têm eficiências energéticas de 85-95%, mas só atualmente se tornaram relevantes dado os avanços nas baterias e nos carregamentos. Na exposição, havia antigos tratores agrícolas, máquinas de fazer tamancos, entre muitas outras coisas, numa desorganização de metais e óleos escuros. Nesse museu, as filas eram inexistentes e a visita era gratuita. O contraste com os jardins de Monet e as filas para visitar a sua casa é evidente e deve ser motivo de reflexão.      


Daqui fomos para a cidade de Rouen. Esta é conhecida pelas suas igrejas e catedrais, pelas casas tradicionais com estruturas de madeira que é preenchidas nos espaços com barro terra e palha, o que é conhecido em Portugal como taipa, pelo Grande Relógio e muitos outros temas de interesse. A pedra calcária é muito branca (em quase toda a Normandia é), quando limpa da sujidades. Foi entre a catedral e relógio que reparei num placa relativa a François-Antoine-Henri Descroizilles (1781-1825), químico a que se deve o desenvolvimento dos métodos da titulação entre outros aspetos científicos e industriais. 

Os arredores de Rouen têm ainda bastante indústria, mas dentro da cidade antiga, há também memória de indústrias antigas. Uma destas é a da tinturaria, mostrando-se um curso de água onde esta era feita, sendo lembradas três plantas usadas em tinturaria: o pastel-dos-tintureiros (Isatis tinctoria), do qual se obtinha indigo para tingir de azul, a garança (Rubia tinctorum), de onde se obtinha a alizarina para tingir de vermelho e o lírio-dos-tintureiros (Reseda luteola), que servia para tingir de amarelo.

Em Rouen, fomos ao Museu de Belas Artes, o qual além de ser gratuito, tem muitas obras interessantes, em particular de Claude Monet (Cimorelli, 2021). Foi lá que vi uma interessante exposição sobre o estilo Barroco e o que está associado, em particular, as decorações. Chamaram-me a atenção dois quadros. Um sobre o livro de Flauvert, “Madame Bovary”, em que se coloca Charles a chorar a morte da mulher, Emma. Deve notar-se que o livro se passa em boa parte nesta região, estando na entrada no museu uma engraçada placa que diz “Não foi nesta praça que Emma Bovary teve lições de piano.” 

Na minha opinião, o quadro é também interessante por representar uma vela e poder ver-se com pormenor os “truques” a que o pintor recorreu para a pintar. A eficiência luminosa das velas é bastante baixa (medida como o fluxo luminoso dividido pelo fluxo luminoso máximo): 99,95% é transformado em calor, ficando cerca de 0,05% para iluminação. A eficiência não melhorou muito com as lâmpadas incandescentes, que já foram banidas, mas, mesmo assim, é muito maior (cerca de 2% na mesma escala). 

Com as lâmpadas incandescentes com halogéneo atingimos os 5%; as lâmpadas fluorescentes têm cerca de 10% e as lâmpadas LED têm um máximo teórico de 40%. Além disso, as velas têm um tempo de vida curto em funcionamento, enquanto que uma lâmpada LED pode durar 15 a 50 mil horas. Vemos aqui uma diferença apreciável de sustentabilidade. Para o mesmo tempo de iluminação precisaríamos de dois mil e quinhentas a mais de oito mil velas que pesariam entre cem e trezentos quarenta quilogramas. 

O outro quadro que me chamou a atenção era de uma paisagem industrial com chaminés e fumo. Pode parecer-nos hoje algo estranho, valorizar este tipo de paisagens, mas embora houvesse pessoas que abominavam o resultado – e não eram poucas -, muitas outras achavam que a indústria representava o progresso e a melhoria do mundo. Mais do que isso, era assim o mundo industrializado que rodeava as pessoas.

A caminho das Falésias de Etretant, passámos por Fecamp, onde decorre a ação de uma séria de televisão que passou recentemente em Portugal: “Sombras no Mar/Rivages.” Contrariamente, ao que as imagens da série parecem mostrar, não parecia uma povoação muito interessante, mas num monte bastante alto ao seu lado (e de cujas imagens é feito o genérico da série), onde ficava um antigo radar alemão, pode olhar-se para as falésias, a cidade e o porto, valendo bem a pena o desvio. (vi agora um guia sobre a cidade e talvez seja mais interessante, em paticular o seu museu marítimo, mas não posso dizer nada pois não fui lá). São também interessantes as eólicas no mar e em terra que se vêm de Fecamp. A fotografia que aqui mostro, tem eólicas dos dois tipos (as eolicas no mar é mais difícil de ver) e um campo de beterraba sacarina.

Contrariamente a Fecamp e a toda esta região que tem também falésias brancas a perder de vista, as Falésias de Etretant são um lugar muito turistico, com enormes parques de estacionamento cheios de carros, mas, mesmo assim vale a pena ir lá, pois permitem ir do nível do mar até a cimo das falésias rapidamente. A praia, sendo muito bonita, é de seixos e bastante ventosa, não convidando a tomar banho. Pelo caminho, há muitas explorações agrícolas, cheiram-se as vacarias, e há sempre muito maquinaria agrícola em circulação. Como referi atrás, a agricultura na Normandia é muito mecanizada e está envolvida em muitas tensões.
Curiosamente, na Noite dos Investigadores, em 25 de setembro de 2026, tive oportunidade de discutir a complexidade do tema com uma investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra (Centro de Ecologia Funcional, s.d.), tendo ficado com a ideia que se procuram hoje em dia encarar a problemática de forma muito mais geral e holística que há uns anos atrás. Aliás, fiquei com a mesma impressão ao me apresentarem, noutro local, as Reservas de Biosfera de Portugal (s.d.) De facto, tratam-se de probemas complexos, envolvendo ecologia, antropologia e economia que têm de ser tratados como um todo, de baixo para cima, ouvido as pessoas e não apenas impondo comportamentos de cima para baixo.

Fomos dormir a Honfleur, vila piscatória, também muito turística, mas não demasiado. Nota-se que tem vida para além disso. Numa loja onde entrámos, havia um cheiro intenso a especiarias, misturadas com um sal grosso que parecia cinzento. E na rua onde ficámos instalados, formou-se, no sábado de manhã, um mercado tradicional muito concorrido. O sal cinzento era algo estranho, para um português habituado ao sal branco e pesquisei um pouco para perceber. 

É afinal, sal da Bretanha, de Guérande, sendo recolhido num solo argiloso que lhe dá a cor. Não encontrei muito informação sobre isso, mas as imagens que vi parecem mostrar umas salinas tradicionais, onde vão ocorrendo as várias precipitações seletivas dos sais pelas ordens de solubilidade, ficando no final quase só cloreto de sódio, que, ao ser recolhido em tanques de fundo de lama cinzenta, adquire essa cor. As imagens que vi de “flor de sal”, que como em Portugal, é o sal que se forma à superfíce da água, mostra sais muito brancos. Já escrivi sobre tudo isto num passeio Químicos que fiz nas Salina da Figueira da Foz e pode encontrar-se mais coisas num Passeio Químico em Rio Maior.

Fomos, entretanto, vendo pelo caminho bastantes macieiras para fazer sidra. A produção de sidra envolve a lavagem e corte das maçãs que formam o mosto, o qual é fermentado e, depois de filtado, dá a origem à sidra. Um quilograma de maçãs dá origem a cerca de meio litro de sidra (Lonely Planet, 2025b), a qual, conforme tenha menos ou mais açucar e álcool, será “bruto”, “meio-doce” ou “doce”, como o espumante. O calvados é uma aguardente feita com a sidra, sendo nececessárias cerca de 14 litros desta para obter um litro de aguardente (Lonely Planet, 2025b). Foi nesta terra que provei um gin que era acompanhado com maçã liofilizada em vez de limão. Sabia a gin, mas também a maçã. Gostei.

Em Honfleur fica uma das mais antigas igrejas de madeira de França, mas acabei por não ir ao seu interior. Notei, no entanto, os vidros antigos coloridos em losangos em caixilhos de chumbo das suas janelas. Chamou-me a atenção o nome Pierre Berthelot (1600-1638) que pensei ser parente do químico Marcellin Berthelot (1827-1907). Afinal não pareceu ser parente deste, mas é também interessante a sua história. Foi monge Carmelita Descalço, assumiu a nome Dionísio da Natividade, tendo sido marinheiro, piloto e cartógrafo ao serviço da Coroa de Portugal, antes de ingressar na Ordem. Acabou por ser martirizado, tendo sido beatificado pelo Papa Leão XIII em 1900.

Douville e Troville, que são duas povoações ao lado uma da outra, separadas pelo Rio Touques. Fomos à praia em Douville, onde era maré baixa e o areal era muito plano. Ao fundo via-se Le Havre, cujo porto parecia muito industrializado e onde se viam muitos tanques (mais à frente veremos mais de perto). A água era muito baixa e mal dava para molhar os pés, mas mesmo assim apareceu um carro na prais que avisou com megafone que não se podia tomar banho pois a água estava poluída. 

Pareceu-me plausível uma vez que ficava perto do porto de Le Havre, mas tive curiosidade em saber qual seriam os poluentes. Ao ler as notíciais notei que não era nenhum em concreto, mas uma possibilidade: como tinha chovido - e esperava-se que voltasse a chover - as águas poderiam ficar poluídas. Há vários sites da Internet com a qualidade das águas e as razões para a interdição do banho nas praias. Embora não seja bom, claro, as praias poderem estar poluídas, é de certa forma reconfortante saber que as águas são cuidadosamente analisadas e que os limites são bastante estreitos. Mais à frente iremos encontrar uma praia que era encantadora, mas cujo “bonito” verde que se via na maré baixa tinha a ver, provavelmente, com nitratos nas águas devidos à agricultura intensiva.    

Passámos por Cabourg, que serviu de inspiração a Marcel Proust para a Balbec e o seu Grande Hotel de “A Busca do Tempo Perdido.” Apanhámos, por acaso, em Cabourb, um festival aéreo. Se não gostámos das acrobacias nervosas sobre nós dos aviões biplanos, achámos bastante piada às acrobacias lentas, mas elegantes, como baleias nos ares, dos Airbus de transporte militar. Não há dúvida que se tratam de aparelhos mais pesados do que o ar, sendo a explicação para o voo dos aviões mais complexa do que em geral se considera (Regis, 2020). 

Embora possa parecer um assunto puramente de Física, tem algumas nuances relacionadas com os materiais e composição do ar que evocam a Química. É também interessante ser referido aqui pois continua a ser tema de debate, sendo portanto um assunto relvante para entendermos a forma como funciona a ciência: com debates e discussões. Não há dúvida de que o voo dos aviões envolve quatro forças: peso, sustentação, arrasto e impulso. Mas isso é só uma ilusão de explicação. 

Se sobre o peso não há questões, nem provavelemente sobre o impulso e o arrasto, a sustentação envolve explicações que não sendo incompatíveis, são completamente diferentes: uma com base na equação de Bernoulli, segundo a qual se forma uma baixa pressão na parte superior das asas que puxa o avião para cima e outra com base nas leis de Newton que apresenta a questão como um balanço de forças. Ora, as simulações têm mostrado que as duas explicações são relevantes e que o problema é muito mais complexo do que as explicações simples e os dogmatismos podem fazer crer (Regis, 2020). Aqui entra a Química, lembrando que a composição e temperatura do ar, podem ser importante (lembremo-nos dos aviões ao passarem nas nuvens), que podem ser relevantes a composição e granularidade das tintas e dos revestimentos (em particular dos anti-congelantes) e muitos outros aspetos que os estudos detalhados têm realçado.       

A tapeçaria de Bayeux é um interessante objetos histórico com cerca de mil anos. Narra, em cerca de setenta metros, usando desenhos bordados, a conquista de Inglaterra por Gilherme o Conquistador. Não estava em Bayeux, quando lá fomos, estando o museu onde se encontrava, em obras. Passou com todo o cuidado o Canal da Mancha, pela primeira vez em centenas de anos, estando até 2027, em Londres, no Museu Britânico.  

Em termos químicos, trata-se também de um objeto interessante devido às questões da conservação e restauro. A base é de linho e foram usados fios de lã tingidos com os pigmentos da época, os quais eram basicamente os referidos acima. Ao longo das centenas de anos foi alvo de várias intervenções e restauros, sendo que uma das mais interessantes em termos químicos foi a realizada em meados do século XIX em que foram usando fios com os primeiros pigmentos artificiais, os quais agora se estão a revelar aqueles mais apagados (Brazil, 2026). A sua proveniência está também envolta em algum mistério, mas a análise genética da lã, mostrou que terá sido provalmente feita em Canterbury na Grã-Bretanha (Brazil, 2026).

São incontáveis as obras que tratam do desembarque dos Aliados na Normandia. Antes de de ir, tinha consultado o livro de um viajante português (Monteiro, 2025) e, quando lá estivemos, visitámos o Memorial de Caen (Fable, 2025), o Cemitério Americano e algumas das praias envolvidas no desembarque das tropas aliadas. O espaço do Memorial de Caen está muito bem feito, assim como as exposições, quer as permanente quer as temporárias. Na exposição permanente, chamou-me a atenção os efeitos sobre as populações, o seu dia-a-dia, as criancas e as mulheres, a ocupação, as origens da conflito, assim como o que se seguiu e outros aspetos muitas vezes pouco realçados. 

O essencial sobre o memorial é um livro muito interessante que permite relembrar a exposição (Fable, 2025). Embora tivesse dado conta de estar na exposição alguns dos medicamentos que eram transportados pelos soldados alemães, não vi referências à penicilina, a qual foi desenvolvida em segredo pelos Aliados durante a guerra e estava pronta para usar no desembarque das tropas. Outros aspetos, menos conhecidos das relações entre a Química e a Guerra podem ser encontrados em Rodrigues (2020).

Como uma das pessoas da minha família estava com mobilidade reduzida, acabámos por não poder visitar mais praias e estruturas costeiras. É impressionante o número de vidas que se perderam, lembradas nos vários cemitérios, tanto dos aliados como dos alemães e como foram destruídas várias das povoações envolvidas. Há bastantes estruturas de betão armado e memórias dos bombardeamentos e desembarque, mas poderia haver mais interpretação nos espaços públicos.  

Nas guerras modernas o número de vítimas em cada dia de batalha é relativamente reduzido, mas a batalhas prolongam-se por meses e anos, estando as tropas quase sempre sob bombardeamentos (Dyer, 2023). No final de meses e anos, as vítimas somam-se em milhares e milhões e fica tudo destruído, mas isso não é evidente se nos centrarmos em cada batalha.  

Caen ainda tem algumas marcas de ter sido em boa parte arrasada na Segunda Guerra Mundial e as reconstruções que se seguiram, passados cerca de oitenta anos, são ainda razoavelemente visíveis. Os seus monumentos são muito brancos e por vezes amarelados, sendo muito interessante as cores. Guilherme o Conquistador fez nesta cidade o seu enorme castelo o qual pode ser visitado (nós não o fizemos). Ficámos perto de um canal com várias eclusas, do século XIX, que servia para transporte.

Deve notar-se que o transporte de mercadorias atráves de água  sempre foi, e continua a ser actualmente muito relevante. A pedra para construi a Torre de Londres, na altura de Guilherme o Conquestador, vei desta região, e foi transportada por barco. Chegámos tarde e saimos muito cedo e assim estivemos muito pouco tempo na cidade. Por isso não posso dizer mais nada.

La Hague e toda a península de Cotentin, na Normandia, é lindíssimo. O nascer do sol atrás dos fortes no mar é incrível – tem de se ir lá para ver. Fomos a esta região por acaso, por haver um mal-entendido em relação a Cherbourg, mas valeu a pena. Cherbourg fica no seu limite e não parece ser muito bonita, mas tem vários atrativos, nomeadamente o enorme edifício de arte nova da “Cite de la mer” (não fui lá) que parece ser agora um grande centro do tipo “Ciência Viva”, com aquários e exposições, e que foi um antigo terminal transatlântico.

Muito povoações de La Hague referem o pintor Jean-François Millet (1814-1875) que nasceu aqui e cujo quadro “Angelus” de reduzidas dimensões (60 x 56 cm) é muito conhecido (eu, por mim, tive uma das minha primeiras “experiência estética” ao vê-lo no Museu d’Orsay há várias décadas). Não fui o único. Soube depois que Salvador Dali e van Gogh tiverem também especial predileção por este quadro. Posto isto, urge referir o que sabe hoje em dia sobre as “experiências estéticas.” Não é muito claro. Há vários autores que referem que tem de haver um conhecimento prévio da obra ou do autor, para que se desencadei a catadupa de neurotransmissores que geram as sensações. Eu por mim, não conhecia a obra nem o autor, mas esta disse-me “qualquer coisa.” 

Mas mais do que isso, o papel da memória é importante e pode amplificar e reorganizar a lembrança do episódio. Para além disso, o que chamo agora “experiência estética” não tinha ainda nome quando a senti. Quando voltei ao Museu d’Orsay procurei o quadro e não o encontrei, mas até fiquei contente, pois achava que no fundo iria estragar essa memória. Na mesma altura fiquei impressionado, no Louvre, com o quadro de Gustave Courbet (1819-1877), “O Interior do meu Atelier”, mas nesse caso sabia perfeitamente a razão: as aulas de História de Arte que frequentei e a centralidade para a arte moderna que o professsor atribuía a este quadro.     

Uma coisa que pode chocar em La Hague, e provalmente poderá limitar o seu desenvolvimento turistico, é a enorme central de tratamento e reciclagem de resíduos nucleares que ocupa 300 hectares (Orano, s.d.). Não por ser feia – que não é -, mas pelo que pode significar. Circulámos ao seu lado durante bastante tempo e pudemos ver o grande número de carros lá dentro, indiciando haver muitas pessoas a trabalhar (4000, segundo o site), assim como os vários níveis de arame farpado e muros de segurança. França continua a apostar na produção de energia usando a fissão nuclear. Embora esta tenha o potencial de diminuir muito a produção de dióxido de carbono, apresenta imensos problemas com resíduos e segurança no longo prazo. Por outro, o desenvolvimento de métodos que usem a fusão nuclear para obter energia continua a ser uma promessa que, se for atingida, elimina vários desses problemas, em particular o dos resíduos.    

O Monte Saint Michel é dos lugares mais visitados de França. Divide a Normandia da Bretanha, aparecendo nos guias das duas regiões (Lonely Planet, 2025a, 2025b). Eu que tinha estado há uns anos num outro santuário de São Miguel, no sul de Itália, no Monte Santo Ângelo, não poderia deixar de reparar nas diferenças. O santuário do Monte Santo Ângelo é numa gruta para onde se desce, onde havia alguns peregrinos e quase nenhuns turistas. O Santuário do Monte Saint Michel fica no alto, tendo de se subir muitas escadas, e quase não parece ter peregrinos, mas tem muitos, mas mesmo muitos, turistas. 

No passado, havia muito mais ligação entre os dois santuários separados por cerca de três mil quilómetros. Continua a fazer-se bastante investigação sobre a sua evolução. Chamou-se a atenção o uso do carbono-14 para verificar que as suas paredes mais antigas não correspondem às supostamente originais (Cailloce, 2018). Pode aceder-se à sua biblioteca de manuscritos de forma virtual (Université de Caen et al., 2021). Estão também a ser feitos estudos sobre os compostos químicos das tintas e pigmentos usados pelos monges benititinos na escrita e iluminuras guardados na abadia.  Há também textos disponíveis sobre a geologia do local (MAT, 2023).

Saint-Malo é muito conhecida pela enorme amplitudes das suas marés, pela zona antiga fortificada associada a piratas, mais concretamente corsários, “piratas oficiais” ao serviço dos reis e icónicos troncos enterrados nas praias. Trata-se de uma povoação lindíssima com as suas muralhas entremuros onde ser passeiam as pessoas e os troncos nas praias que procuram acalamar a força das ondas. Quando procurei relações de Saint-Malo com a Química, estava longe de suspeitar o que iria encontrar. Comecei por ver notícias sobre contaminações com cádmio no porto (Agendaou.fr, 2026) e que isso estava relacionado com uma empresa multinacional do setor agroalimentar, a Timac Agro (s.d.), que faz parte do Grupo Roullier (s.d.), que tem cerca de 10 mil e quinhentos colaboradores em 110 instalações industriais (incluindo duas em Portugal) e que tem a sede em Saint-Malo desde 1959 (Timac Agro, s.d.). 

Inicialmente, não percebi a relação, mas depois dei conta de que estes fabricavam um adubo com fosfatos e que a matéria prima está em geral contaminado com sais de fosfato de cádmio. Depois encontrei artigos sobre a limitação do cádmio em fertilizantes (Gilbert, 2018), relatórios da União Europeia sobre o assunto, relatórios de inspeção da fábrica e a notícia de que a empresa já tinha sido condenada em tribunal por poluição do ar. E, finalmente, a notícia de que em julho de 2026 tinham feito testes ao solo do porto e que e a câmara municipal prometeu tornar esses dados públicos (até agora, que eu saiba, não o foram). Por outro lado, no site da empresa, refere-se os processos químicos, a investigação e os desenvolvimentos realizados, de como estes adubos são benéficos para as plantas e produção agrícola, a ética, a sustentabilidade, etc. (Timac, s.d.)

Em que é que ficamos? Primeiro, é com certeza inaceitável serem ultrapassados os limites legais para a poluição com cádmio, ou outro produto químico, claro. E esses limites são rigorosamente vigiados. Neste momento não são aceites legumes e frutas nos supermercados que ultrapassem os limites. De acordo com o Regulamento 2023/915 da Comissão de de 25 de abril de 2023 relativo aos teores máximos de contaminantes presentes nos géneros alimentícios, esse limite varia de 0.30 mg/kg para pinhões até 0.020 mg/kg para citrinos. Também por isso, a empresa não deverá ter interesse em ter comtaminações pois, se for o caso, não vendem os seus produtos.  

Não há dúvidas de que a matéria prima está contaminada com cádmio e que os limites não podem ser ultrapassados. As empresas têm de encontrar soluções para isso. No entanto, há uma cultura generalizadas das empresas para “esconderem” e “ignorarem” estes problemas ambientais, mesmo quando são menores ou já estão resolvidos. Por um lado, porque o reconhecimento da sua existência, ou outros tipos de ações que possam parecer “sinceras” e “abertas”, nunca são vistas assim pelo público, que em geral tem uma visão maquiavélica das empresas. Aliás, em geral, no passado, uma empresa em geral só reconhecia um problema, quando era obrigada. Por outro lado, qualquer reconhecimento de “fraqueza” ou “abertura” pode ser visto pelos concorrentes como uma oportunidade e pelos próprios como sendo um “convite” a usar essa oportunidade ou para conhecerem (e poderem copiar) os processos que a empresa usa.   

Em resumo, trata-se de um problema complexo e multifacetado que, na minha opinião, poderá ser minorado com mais transparência por parte da empresa e mais confiança (sem se deixar de verificar, claro) por parte dos críticos. Pois, se por um lado não podemos passar sem alimentos, por outro são bem conhecidos e vigiados os limites das contaminação e ninguém tem interesse em que sejam ultrapassados. Podemos é não ter disponíveis os processos científicos e técnicos que os garantam, mas não há dívida de que deveremos trabalhar através da investigação, do desenvolvimento e da legislação para que isso seja possível.  

Aprende-se bastante com os livros e materiais para crianças e jovens, pois estes acabam por indicar muitos detalhes que outros materiais não têm. Aconteceu isso com o livro de Stéphanie e Huges Bioret, Julie Godfroy (2025). Aconteceu isso em particular com a Central Maremotriz do Rance. Trata-se de um excelente aproveitamento da amplitude das marés invulgarmente altas nesta região. Esta central está ativa desde 1966 e tem 24 turbinas para produção de energia. Como funciona?

Com a subida da maré, há entrada de água que passa pelas turbinas. Depois, com a água no máximo na albufeira há passagem pelas turbinas de novo na maré baixa. Produz eletricidade para abastecer num ano uma cidade como Rennes. Em termos químicos é muito desafiante pois existem toneladas de metal debaixo de água que é preciso de proteger da corrosão. 

Binic e uma bonita praia e porto que esteve ligado à pesca de bacalhau no século XIX. Há um percurso interpretativo sobre isso, mas não o fizemos. Os franceses têm duas palavras para bacalhau: “cabillaud” quando fresco e “morue” quando salgado. O bacalhau é um peixe de águas frias, muito voraz, e com uma percentagem invulgarmente baixa de gordura (menos de 0.5%), que o torna ideal para ser seco ou salgado, pois isso diminui muito a possibilidade de ficar “rançoso”. Salgar, ou secar, são processos que fazem diminuir muito as quantidades de água e assim criarem ambientes pouco convidativos ao desenvolvimento de microrganismos. No bacalhau salgado em Portugal o teor máximo de água permitido é de 47%, sendo que depois de demolhado e cozido fica com cerca de 70% de água. Por outro lado, o salmão é um peixe invulgarmente gordo, tendo mais de 20% de gordura tanto em cru, como cozido ou grelhado. 

Em seguida, fomos à Costa do Granito Rosa, cuja cor caraterística é devida provavelmente a óxidos de ferro. Começámos com o Cabo Fréhel onde fica o elegante farol construído de 1946 a 1950 com 1000 watts de potência e alcance de 29 milhas (Montron & Montron, 2012). Ainda não se notava muito o granito rosa, mas este era tão abundante que era usado no piso dos caminhos pedonais. No parque de estacionamento deste local há uma “retrete seca”. Já tinha visto algo parecido na Islândia. Poupar água, mas o cheiro não é simpático e talvez com mais investigação e desenvolvimento possa ser resolvido esta questão. Mais adiante vistámos praias que eram inconfundivelmente “cor-de-rosa” devido ao granito o que é bastante bonito.

Nesta costa do Atlântico e Canal da Mancha situa-se um número muito grande de faróis (Montron & Montron, 2012). Augustin Fresnel (1788-1827) era natural da Normandia, estudou em Caen, e inventou o sistema de lentes (as conhecidas lentes de Fresnel) usadas nos faróis a partir de 1823. Mas está envolvido em vários outros trabalhos científicos, nomeamente achei muito curioso a sua possível antecipação do processo Solvay (Reilley, 1951).


Lannion é uma cidade que se apresenta como a porta de entrada da Costa do Granito Rosa, mas acaba por ser interessante por outra razão: ser um polo tecnológico importante, em particular as telecomunicações, uma espécie de “Silicon Valley” da Bretanha (Ekinops, 2022). Que é que isto tem a ver com Química? Há várias empresas que desenvolvem Lasers e fibras ópticas, por exemplo, para as quais a Química dos Materiais é importante. Quando chegámos para aí ficar instalados, notámos na sua periferia ruas com nomes de cientistas, vários tipos de instalações que pareciam de fábricas tecnológicas e um aeroporto. 

O trigo-sarraceno (Fagopyrum esculentum) é uma cultura típica da Bretanha, sendo empregue num prato tradicinal que é uma espécie de crepe que também chamado é “crepe” no sul da Bretanha e galette no Norte (Bioret et al., 2025). Foi trazido pelos cruzados do oriente, mas tem hoje em dia uma razoável expansão. A Bretanha é origem geográfica protegida deste pseudo-cereal desde 2010, havendo uma associação que junta os produtores (Blé Noir, s.d.). 

Dinan tem um encontador porto de rio e as tradicionais casas. A zona do porto é bonita vista de cima, de uma ponte muito alta que liga as duas margens do rio, mas também localmente. Embora seja das zonas mais turisticas da Bretenha não se notava muito o efeito dos turistas. Chegámos tarde e quase não havia locais onde comer (em Saint Malo sentimos o mesmo – quase não há sítios para comer fora de horas). Isso acabou por ser uma oportunicade, pois o único sítio aberto era “Licorne” que fita situado numa casa de madeira muito antiga, onde comemos os tradicionais mexilhões acompanhados de batatas fritas, que estavam bastante bons. 

Os mexilhões ao filtrarem (para se alimentarem) microalgas que tenham toxinas podem ficar contaminados com estas, sendo por vezes interdita a sua apanha, pois são analisados continamente através de rigorosos controlos sanitários. É assim, muito seguro o consumo de mexilhões certificados em zonas analisadas. Fritar batatas também tem ciência. As variedades de batata com mais amido são as melhores para fritar, ficando as outras mais moles. Alguns cozinheiro sugerem mesmo polvilhar as batatas com amido (em geral de milho) para ficarem mais crocantes (não experimentei ainda). Perto de Dinan, há uma eclusa visitável. Também perto, havia um mosteiro que transmitia um silêncio e paz bastante agradáveis.  O porto de rio servia antigamente para escoar especiarias, sal e porcelenas, entre outros materiais.

Fougéres é atualmente essencialmente turistica (mas já foi um importante porto de rio como Dinan), mas “é imperdível”, como referia o guia (Lonely Plantet, 2025a). A fortaleza medieval é a maior da Europa que está preservada, segundo o guia (Lonely Plantet, 2025a), e foi muito importante até à perda da independência da Bretanha em 1488. É interessante que a Bretanha tenha mantido ao longos dos séculos um conjunto de tradições, como a língua e a música, que continuam hoje ao ser muito valorizadas. Há por vezes uma bandeira branca e negra, alguns carros têm o símbolo BHZ, abreviatura de Breizh, nome do pais em bretão, valoriza-se o Triskell, simbolo celta, etc. (Bioret et al., 2015). O mesmo não acontece na Normandia, penso que por ter sido ao longo dos séculos o povo dominador e não o povo dominando.  

Le Havre foi cerca de 70% arrasada durante a Segunda Guerra Mundial, tendo o seu centro sido completamente destruído. Foi depois reconstruída em betão, sendo atualmente Património da Humanidade. O arquiteto Auguste Perret (1874-1954), grande adepto do betão, liderou esse reconstrução. No centro da cidade quase todos os edifícios são desse tempo da reconstrução no pś Segunda Guerra Mundial, datando desse utopia em betão armado dos anos 1950. No centro fica o seu Centro Cultural e Biblioteca desenhado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, conhecida como o vulcão (é evidente a imagem). A sua catedral, igreja de S. José, está desenhada como um farol e de noite está iluminada.   

A escritora Maylis de Kerangal, traduzida em Portugal, tem vários livros passados nesta cidade. Um deles, “Cuidar dos Vivos”, trata de um jovem de Le Havre que tem um acidente de automóvel e fica em morte cerebral, viajando em seguida os seus orgãos por toda a França para serem transplantados. A química envolvida nos transplantes é muita: a assépcia que permite operação curírgica, a anestesia que adormece os pacientes e permite aos corpos estarem imóveis, os materiais usados na conservação dos orgãos, os fármacos imunossupressores, os medidamentos analgésicos que evitam a dor e antibióticos que evitam a infeção.

Le Havre é o segundo maior porto de França (o maior é o de Marselha), sendo a zona muito industrial. Mas não é uma zona desqualificada, sendo até bonita e organizada. Entrámos pelo porto e vimos as refinarias e os muitos tanques de combustível. Nos anos 1980, a bacia do rio Havre era conhecida, com um certo orgulho, como a bacia do rio do petróleo (Michelin, 1984). Como as coisas mudaram em cerca de 40 anos! Mesmo assim, as várias refinarias envolvem tanques com a capacidade de 5.7 milhões de metros cúbicos de combustível. Isso é cerca de 10% do combustível que os 38 milhões de automóveis franceses usa por ano. O “rio do petróleo” pode ter perdido o nome, mas continua a ter muito caudal, infelizmente... Por outro lado, passámos perto de fábricas de enormes pás provavelmente para eólicas off-shore.

A dominar a cidade duas chaminés de uma antiga central de produção enérgética da EdF que se espera serem desmanteladas em 2027. No seu centro um arco colorido que ao nos aproximarmos vemos ser de contentores coloridos.   

Há ainda a memória de Le Havre antigo. No Museu de Arte Moderna André Malraux (MuMA ) fomos ver uma grande exposição sobre Claude Monet que quando jovem que passava os verões aqui e foi a partir daqui que se tornou o grande pintor admirado e ligado à origem do Impressionismo (Blazeau et al, 2025; Lefébre, 2026). Uma nota relevante é que este era um exímio caricaturista do mundo que o rodeava, tendo evoluido para o desenvolvimento da liguagem própria que hoje tanto admiramos. 

No molhe em frente ao museu, havia pedras cobertas com folha de ouro. O efeito é muito bonito como se pode ver nas fotografias. Curiosamente, não havia nenhum nome associado, estando relacionado com um programa chamado “Verão no Havre.” Como já referi várias vezes, estas folhas são muito finas (cerca de 0.1 mm) e a quantidade de ouro é diminuta. 

Referências

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