Passeio químico em Valência [Chemical Walk in Valencia]

[Aproveitando que participei presencialmente num congresso em Valência tirei alguma fotos e procurei fazer um texto sobre o que tinha visto. Foi a primeira vez que estive em Valência. Voltei em 2024 e melhorei algumas coisas no texto, que estendi.] 

Estava muito calor em Valência. Alguns valencianos disseram-me que estavam habituados, mas não tão cedo. Seja lá como for, mesmo nos locais onde não havia ar condicionado (que aliás deveria ser evitado, pois o que arrefece é só uma parte do que aumenta de temperatura noutro lado), as sombras, as árvores e o vento nas ruas e os corredores bem desenhados melhoravam a situação. Em Valência foi mudado o curso do rio Turia do centro da cidade para o lado sul da cidade para um canal conhecido como “coletor sul.” No seu lugar fizeram parques e campos de desporto, onde logo bem cedo os valencianos se “matam”a correr e a pedalar. E há linhas de metro, e de metro de superfície, bem organizadas onde se pode chegar a todos os lados.
O meu primeiro interesse, depois da universidade, foi ver o passeio marítimo. Em Valência, as duas maiores universidades (Universidade de Valência e Universidade Politécnica de Valência) têm os cumpus na mesma rua, o que dá uma imagem de tamanho impressionante. A quantidade de edifícios bonitos, de jardins onde os estudantes estão  e obras de arte é enorme. Há muitas coisas para ver, mas chamou-me a atenção a corrosão numa escultura e uma antigo locomotiva. A corrosão é mais ou menos óbvia, mas a locomotiva leva-nos a outras reflexões. Era movida a vapor e os motores a vapor eram pouco eficientes, e o combustível usado, o carvão, era muito poluente. Eram verdadeiros infernos de nuvens pretas de carvão mal queimado e brancas de gotículas de água (impropriamente chamadas “vapor”) que agora nos causa alguma nostalgia, mas não queríamos voltar a ter isto.       

À saída da edifício do congresso e por todos os pisos exteriores do campus havia muitas pastilhas elásticas. Umas já escuras, outras ainda brancas. Já escrevi sobre estes materiais noutros passeios, mas aqui queria chamar a atenção para uma coisa particular. Referi as pastilhas elásticas a alguns colegas e estes nunca tinham reparado. Não vemos uma boa parte do mundo que nos rodeia!

Havia um outro senão, além do calor, o mau cheiro ocasional. Por vezes cheirava a esgoto, mas não consegui perceber se era mesmo dos esgotos ou do canal que conduz o rio para o mar e a rede de coletores pluviais (isso na altura pareceu-me mais provável). Na sequência de várias cheias, foi decidido pelo governo franquista fazer uma obra faraónica que desviava o rio. Essa obra começou nos anos 1960 mas só acabou nos anos 1970. No final, os valencianos deixaram de ter um rio e passaram a ter um jardim no seu lugar.  

Por acaso encontrei um “balneário” e a princípio cheirou-me a cloro, o que achei estranho. Mas faz sentido pois lá dentro teriam piscinas (sobre as quais acho que também já escrevi) e outros equipamentos que é necessário tratar com cloro. Porquê? Porque as áreas húmidas paradas são muita propícias a ter bactérias e o cloro é dos poucos materiais que mantém essa desinfeção ao longo do tempo na rede de água. 

Há uma região da cidade desenhada por Santiago Calatrava (natural de Valência) e Félix Candela, e a suas equipas, que é impressionante: a cidade das artes e das ciências. Fui ao Museu da Ciência e ao jardim das plantas, mas fica lá o oceanário e muitas outras coisas que não vi. Chamou-se a atenção no meio do jardim, uma escultura sobre a memória das vítimas de Covid-19.

Achei curiosa a associação ao alecrim, que desde tempos imemoriais está ligada à memória, Imagino que a escultora tenha considerado isso também. Os estudos que conheço parecem mostrar que esta correlação é efetiva, havendo na composição do alecrim moléculas que são benéficas para a memória. Esta planta estava em todos os canteiros interiores e nos canteiros exteriores. À primeira vista nem parecia alecrim, mas o cheiro era inconfundível. Outro cheiro que detetei era os da tílias que com o calor estavam cobertas de óleos priduzidos pela planta para minimizar a perda de água. 

Os edifícios de Santiago Calatrava e Félix Candela são prodígios de engenharia. Mas não basta desenhar, é preciso que haja engenheiros a tornar possível os edifícios. 

Nesta parte da cidade encontrei também um eucalipto que cheira a limão. Em Coimbra temos vários. Trata-se, como já escrevi, de uma molécula que é isómera do eucaliptol e é muito usada em detergentes da loiça.  

Na quinta-feira em que estive em Valência era o Corpo de Deus. Li que tinha sido uma das festas com tradição em Valência e que havia procissões e outras atividades. A verdade, é que nem sequer era feriado como em Portugal, e embora tenha passado por uma missa e reparado num andor, notei muito poucas poucas coisas.  [atualização: as festividades são realizadas no domingo seguinte].

Fui também ao museu do arroz. Está bem feito e é muito informativo, numa antiga fábrica de processamento de arroz. O arroz de Valência e a paelha, como se sabe, são famosos no mundo inteiro. Duas curiosidades: “paelha” em linguagem daqui significa frigideira e faz sentido. Em Portugal, “paelha”, é conhecida como “arroz à valenciana”. Outra curiosidade, relacionada com isto. Embora a paelha envolva alguns clichés e seja uma coisa muito variada, cuja imagem principal é a de arroz cozido com açafrão frito numa frigideira, não leva tradicionalmente mariscos.

A “paelha valenciana” tradicional tem uma receita sujeita a denominação de origem. Não inclui mariscos e é feita com arroz, galinha, coelho e umas espécies de feijão verde conhecidas como ferraura, garrafón e tavella. Leva além disso tomate, azeite, paprika moída, fios de açafrão, alecrim e claro, água. É curioso o uso do alecrim, mas já vimos que é muito comum por estas paragens. Um aspeto sobre o arroz que é interessante referir, acho eu. Trata-se essencialmente de amido que, com o aquecimento, absorve água e aumenta de volume, ficando mole. Não tem proteínas que desnaturam com o aquecimento e não tem glúten (uma proteína caraterística do trigo). Tem também falta de vitaminas, em particular de algumas do complexo B. Há algum tempo foi proposto um arroz transgénico que tinha essas vitaminas mais houve uma resistência irracional à sua produção.   

Ao lado era o museu das festividades da Semana Santa de Valência. É impressionante o que há de confrarias, andores e roupas. Vem a propósito referir esta espécie de loucura espanhola com as grades metálicas. Por todo o lado se vêm grades dos mais variados materiais, mas em particular de ferro. Faz sentido, para que o vento passe de um lado para o outro ter portas que são grades, mas algumas parecem verdadeiras prisões. Li algures que os espanhóis "são o único povo que prende os próprios santos." Isto levava-nos muito longe, mas o objetivo é outro. 

Outra coisa que achei muito interessante foi a aparente relação com a Carlsberg e a Dinamarca. Não era só o anúncio da cerveja “de um país feliz” (que fotografei); era mais do que isso: uma chaminé. A chaminé torcida de uma antiga fábrica de papel, datada de 1905, e muito parecida com a chaminé torcida de uma antiga fábrica desta cerveja em Copenhaga que um dono da altura associou à “beleza da ciência.”    

No museu da seda podemos acompanhar o desenvolvimento de uma atividade que teve muita importância em Valência. De destacar que as proteínas constituintes da seda são muito parecidas com as da lã, mas o tecido é muito diferente. Numa parte do museu, são apresentados os corantes naturais que eram usados para tingir a seda. Cochonilha para o carmim, curcuma ou açafrão para o amarelo, índigo para o azul e as galhas de carvalho e as cascas de noz, para o negro; para o púrpura era usado um liquén, a orchilla de Lanzarote /Roccella canariensis) ou um caracol marinho. 

Em muitas ruas da cidade podemos encontrar amoreiras. Os bichos da seda só gostam das suas folhas. Sabemos que é uma molécula presente nas folhas que faz as lagartas dirigirem-se para elas. Uma boa memória do negócio da seda.

Há muitas coisas, em particular relacionadas com química, que vi em Valência. Disse em 2022 que tinha de lá voltar. Voltei em 2024 e escrevi o texto que se segue.

Não tive muito tempo para ver a cidade, mas pude ir aos seus arredores. Quando cheguei a Valência, fui à reserva natural de Albufera. Passei pelo canal sul, para onde foi desviado o curso do Rio Turia, que não era nada do que esperava. Era um canal bastante largo, estava seco e cheio de plantas. Por todo o lado se sentia o mesmo cheiro que notei em 2022, mas vejo agora que pode ser de outras coisas. Havia muitas plantações de laranjeiras e vi varias pessoas a aplicar-lhe tratamentos fitoquímicos, além de ter visto muitos campos de arroz. Fotografei uma ave num campo de arroz, atrás da qual estava um agricultor e atrás de tudo estavam os guindastes de um porto.

A Sophia de Mello Breyner Adresson tem um poema, O Rei de Ítaca, em que diz que o mundo está muito errado por a mão estar desligada do pensamento e já não saber construir e guiar um arado. Ora, já não seria mau se as pessoas soubessem de onde vem a sua comida, nomeadamente o arroz e as laranjas. Muitas veem a ave, mas não os campos de arroz, as laranjeiras, o agricultor e os guindastes do porto.

No ultimo dia fui para norte, a Sagunto. Tinha como objetivo principal ver o "alto forno número dois", uma instalação industrial musealizada, mas acabei por ver mais coisas, nomeadamente a grande fábrica de vidro plano da AGC. Segundo vi na sua página, esta empresa tem cem instalações, trabalhando nestas 13 mil pessoas, produzindo uma grande variedade de vidros para construção e para automóveis. Mais uma vez, quantos de nós apreciam as camadas múltiplas dos vidros planos e laminados dos automóveis? 

Os altos fornos permitem obter ferro gusa (em inglês “pig iron” devido às suas impurezas que contém). O ferro gusa é obtidos dos minérios de ferro pela reação com carvão segundo as reações, Fe2O3 + 3C → 2Fe + 3CO e Fe2O3+3CO→ 2Fe+3CO2, sendo que é libertado para a atmosfera cerca de metade de cada um dos gases. O processo é muito mais complexo pois durante a sua ocorrência o  metal incorpora carbono e devido às impurezas há muitas outras reações. Posteriormente, o ferro gusa é convertido em aço por diversos processos. O primeiro e que permitiu obter aço em grande quantidade foi o processo de Bessemer em que era usado ar para oxidar o carbono e as impurezas. Depois, o processo de Siemens-Martin veio complementar o processo de Bessemer. Eventualmente, ambos se tornaram obsoletos, sendo agora a maioria do aço obtido pelo processo básico de oxigenação. Neste é bombeado oxigénio no ferro líquido como nos anteriores, mas isto é acompanhado de um fluxo óxido de cálcio e rochas calcárias as quais são naturalmente básicas. Este tipo de indústrias pesadas tem deixado de ser rentável na Europa e de envolver a grande quantidade de trabalhadores que tinha no início.

A China é o maior produtor de aço, com mais de mil milhões de toneladas, seguido da Índia com pouco mais de cem milhões de toneladas (World of Steel, 2024). Espanha produz pouco mais de dez milhões de toneladas e Portugal dois milhões de toneladas (World of Steel, 2024).

A emissão de dióxido de carbono e gases responsáveis pelo aumento do efeito de estuda, ronda os 11% do total das emissões humanas. Por isso, as grandes companhias procuram minimizar essas emissões investigando formas de aquecimento que evite a emissão destes gases e o uso como agente redutor do hidrogénio, que de forma simplificada penso que pode ser traduzido pela reação, Fe2O3 + 6H2 → 2Fe + 3H2O.

Não tive tempo para comer paella, mas provei orchata, uma bebida doce e não alcoólica feita a partir de uma planta local.  

[verified automatic translation]

[Taking advantage of the fact that I participated in person in a congress in Valencia, I took some photos and tried to write a text about what I had seen. It was the first time I was in Valencia. I went back in 2024 and improved a few things in the text, which I extended.]

It was very hot in Valencia. Some inhabitants of Valencia told me they were used to it, but not so soon. Anyway, even in places where there was no air conditioning (which, by the way, should be avoided, as what cools down is just a part of what increases in temperature elsewhere), shadows, trees, and wind in the well-designed streets and corridors improved the situation. In Valencia, the river course of Turia was changed from the city center to the south side of the city to a canal known as the “southern collector.” In their place, they built parks and sports fields, where  the inhabitants of Valencia run and cycle very early in the morning. And there are well-organized metro ,and surface metro, lines to go everywhere in the city.

My first interest, after the university, was to see the promenade near the sea. In Valencia, the two largest universities (Universidad de Valencia and Universidad Politécnica de Valencia) have their campus on the same street, which gives an image of impressive size. The number of beautiful buildings, and gardens where students are, and works of art are enormous. There are many things to see, but the corrosion on a sculpture and an old locomotive caught my attention. Corrosion is more or less obvious, but the locomotive leads us to other reflections. Steam power and steam engines are inefficient and the fuel used, coal, was very polluting. They were a true hell of black clouds of badly burned coal and white water droplets (improperly called “steam”) that now causes us some nostalgia but we didn't want to have it again.

In the exit from the congress building and all over the campus' exterior floors were lots of chewing gum. Some are already dark, others still white. I've written about these materials in other tours, but here I wanted to draw attention to one thing. I called the attention of some colleagues to the chewing gums and they never noticed. We don't see a good part of the world around us!

There was one other catch, besides the heat, the occasional stench. Sometimes it smelled like sewage, but I couldn't tell if it was really from the sewers or the channel that leads the river to the sea and the network of rainwater collectors (this seemed more likely to me at the time). Following several floods, it was decided by the Francoist government to carry out a pharaonic work that diverted the river. This work began in the 1960s but only ended in the 1970s. In the end, the Valencians stopped having a river and started having a garden instead.


By chance, I found a “balneario” and at first, I smelled chlorine which I found strange. But it makes sense because inside there would be swimming pools and other equipment that needs to be treated with chlorine. Reason? Because stagnant wet areas are very prone to bacteria.

There is a region of the city designed by Santiago Calatrava (born in Valencia) and Félix Candela, and their teams, which is impressive: the city of arts and sciences. I went to the Science Museum and the plant garden, but the oceanarium and many other things are there. Attention was drawn to the middle of the garden, a sculpture on the memory of the victims of Covid-19. I found the association with rosemary to be very curious, which has been linked to memory since time immemorial, I imagine that the sculptor considered this as well. The studies that I know of seem to show that this correlation is effective, with molecules in its composition that are beneficial for memory. This plant was in all the indoor and outdoor beds. At first glance, it didn't even look like rosemary, but the smell was unmistakable. Another smell I detected was that of linden.

The buildings by Santiago Calatrava and Félix Candela are engineering marvels. But it is not enough to design, there must be engineers to make buildings possible.

In this part of town, I found a eucalyptus tree that smells like lemons. In Coimbra we have several. It is, as I have already written, a molecule that is isomeric to eucalyptol and is widely used in dishwashing detergents.

It was Corpus Christi. I read that it had been a traditional festival in Valencia and that there were processions and other activities. The truth is that it wasn't even a public holiday, like in Portugal, and although I went through a mass and saw a religious float, I noticed very few things. [update: festivities are held the following Sunday; also I corrected a stupid and annoying mistake created somehow by the automatic translation that I didn't noticed].

I went to the rice museum. It is well made and very informative, in an old rice processing factory. Valencia rice and paella, as we know, are famous all over the world. Two curiosities: “paella” in the local language means frying pan and it makes sense. In Portugal, “paella” is known as “Valencian rice”. Another curiosity related to this. Although paella has some clichés and one is a very varied thing, whose main image is that of rice cooked with saffron fried in a frying pan, it does not traditionally have seafood. The traditional “Valencian paella” has a recipe subject to the designation of origin. It does not include shellfish and is made with rice, chicken, rabbit, and some species of green beans known as "ferraura," garrafón, and "tavella." It also takes tomato, olive oil, ground paprika, saffron threads, rosemary, and of course, water. The use of rosemary is curious, but we have already seen that it is very common in these parts. It is essentially starch which, upon heating, absorbs water and increases in volume, becoming soft. It has no proteins that denature with heating and is gluten free (a characteristic protein of wheat). It also lacks vitamins, in particular some of the B complex. Some time ago, a transgenic rice that had these vitamins was proposed, but there was an irrational resistance to its production.

Next door was the museum of the Holy Week festivities in Valencia. It is impressive that there are confraternities, litter, and clothes. It is apropos to mention this kind of Spanish madness with the bars. Everywhere you can see railings made of the most varied materials but in particular iron. It makes sense for the wind to pass from one side to the other to have doors that are bars, but some look like real prisons. I read somewhere that the Spaniards are the only people who arrest their saints. This took us a long way, but the objective is different.

Another thing I found very interesting was the apparent relationship between Carlsberg and Denmark. It wasn't just the ad for beer “from a happy country” (which I photographed); it was more than that: a chimney. The twisted chimney of an old paper mill, dating from 1905, is very similar to the twisted chimney of an old factory of this beer that a previous owner associated with the “beauty of science.”

At the silk museum, we can follow the development of an activity that was very important in Valencia. It should be noted that silk is very similar to wool, in terms of proteins, and constituents, but the fabric is very different. In one part of the museum, the natural dyes that were used are displayed. Cochineal for carmine, turmeric or saffron for yellow, indigo for blue and oak galls, and walnut shells for black; for the purple one was used a lichen, the orchilla of Lanzarote /Roccella canariensis) or a marine snail.

In many streets we can find mulberry trees. Silkworms only like their leaves. We know that it is a molecule present in these leaves that makes the caterpillars go to them. A good memory of the silk business.

There are many things, particularly related to chemistry, that I saw in Valencia. I said in 2022 that I had to go back. I went back in 2024 and wrote the following text.

I didn't have much time to see the city, but I was able to visit its surroundings. When I arrived in Valencia, I went to the Albufera nature reserve. I passed through the southern canal, where the course of the River Turia has been diverted, which was not at all what I expected. It was quite a wide channel, dry and full of plants. Everywhere you could smell the same smell I noticed in 2022, but I can see now that it might be something else. There were lots of orange groves and I saw several people applying phytochemical treatments to them, as well as lots of rice fields. I photographed a bird in a rice field, behind which was a farmer and behind everything were the cranes of a port.

Sophia de Mello Breyner Adresson has a poem, O Rei de Ítaca, in which she says that the world is very wrong because the hand is disconnected from thought and no longer knows how to build and guide a plow. Well, it wouldn't be so bad if people knew where their food came from, especially rice and oranges. Many see the bird, but not the rice fields, the orange trees, the farmer, and the cranes at the port.

On the last day I went north to Sagunto. My main objective was to see "blast furnace number two", a museum-like industrial facility, but I ended up seeing more, namely the large AGC flat glass factory. According to what I saw on their website, this company has a hundred facilities, 13,000 people work there, producing a wide variety of glass for construction and automobiles.Once again, how many of us appreciate the multiple layers of flat and laminated car glass? 

Blast furnaces make it possible to obtain pig iron because of the impurities it contains.Pig iron is obtained from iron ores by reacting with coal according to the reactions Fe2O3 + 3C → 2Fe + 3CO and Fe2O3+3CO→ 2Fe+3CO2, with around half of each gas being released into the atmosphere.The process is much more complex as the metal incorporates carbon during the process and there are many other reactions due to impurities.Later, pig iron is converted into steel through various processes. The first process to produce large quantities of steel was the Bessemer process, in which air was used to oxidize the carbon and impurities.Later, the Siemens-Martin process complemented the Bessemer process.Eventually, both became obsolete and most steel is now obtained by the basic oxygenation process. In this one, oxygen is pumped into the liquid iron as in the previous ones, but this is accompanied by a flow of calcium oxide and limestone, which is naturally basic. This type of heavy industry has ceased to be profitable in Europe and no longer involves the large number of workers it did at the beginning.

China is the largest steel producer, with over a billion tons, followed by India with just over a hundred million tons (World of Steel, 2024).Spain produces just over ten million tons and Portugal two million tons (World of Steel, 2024).

The emission of carbon dioxide and gases responsible for increasing the greenhouse effect is around 11% of total human emissions.For this reason, large companies are trying to minimize these emissions by investigating ways of heating to avoid the emission of these gases and using hydrogen as a reducing agent, which in simplified form I think can be translated into the reaction, Fe2O3 + 6H2 → 2Fe + 3H2O.

I didn't have time to eat paella, but I did try orchata, a sweet, non-alcoholic drink made from a local plant.  

[Last version Translated with DeepL.com (free version) and verified]

Passeio químico em São Miguel nos Açores

[Foi a primeira vez que fui aos Açores e só estive em São Miguel. Aproveitando que tinha um congresso nesta ilha, levantava-me cedo e aproveitava todos os momentos para ver tudo o que podia, sem faltar às sessões do Congresso SCiComPT 2022. Excelente! E ainda encontrei alguns amigos que já não via há algum tempo. Só agora consegui acabar o texto. Espero voltar com mais tempo.]

Em Ponta Delgada os passeios têm, em geral, mais pedras pretas do que brancas e os edifícios tradicionais e históricos têm aquele ar bem caraterístico devido ao uso das pedras escuras locais. São rochas vulcânicas que em todo lado se encontram. No núcleo de História Natural do Museu Carlos Machado e em muitas publicações podem encontrar-se explicações. Neste passeio, refiro apenas uma parte e aproveito para chamar a atenção para um equívoco.
O basalto é a rocha mais comum. É em geral negro e resulta do arrefecimento da lava proveniente de rochas com baixo teor em sílica. Estas designam-se por "rochas básicas", mas é preciso saber que em termos de pH, todas as rochas são básicas. Só que aquelas que têm pouca quantidade de sílica são mais básicas. Até aqui tudo bem, mas se um geólogo fala de "rochas ácidas" as pessoas têm que estar com cuidado pois não se trata de rochas com pH ácido, mas sim com maiores quantidades de sílica. Quanto às rochas em si,  há rochas com maiores quantidades de silicatos, em geral mais cinzentas; rochas que arrefeceram debaixo de água; rochas que foram projetadas durante as emissões vulcânicas; há rochas mais avermelhadas, imagino que devido aos óxidos de ferro; e rochas mais porosas. Tudo isto em conjunto com muita humidade, origina um ar caraterístico, onde os solos e os muros sáo negros ou cinzentos, por vezes com tons avermelhados, cobertos com uma luxuriante vegetação. Nos sítios mais estranhos, há vacas a pastar placidamente e quase sempre pode ver-se o mar. É lindíssimo. E isso também tem química!     

Na ilha de São Miguel, está marcado um percurso do chá, mas o mais emblemático e conhecido é o Gorreana, cuja fábrica é mais do que centenária. Neste local é possível encontrar maquinarias antigas, algumas em funcionamento quase desde 1883, imagino eu e as plantações de chá. Fomos lá como parte do programa social do congresso. Mas como era muito tarde, a visita não foi guiada. Entre as várias possibilidade de percursos, gostei da escolha. Era um dos lugares a que tinha planeado ir.

As folhas de chá têm teína, uma molécula que no café é conhecida como cafeína (sim, é a mesma molécula). Mas podemos encontrar no chá outras moléculas parecidas, tendo o mesmo grupo xantina, a teobromina e a teofilina, por exemplo. O dr. Rui Pato chamou-me a atenção para um composto usado como broncodilatador que salva milhares de vidas, a aminofilina, que é também uma xantina. Parece ser uma mistura 2:1 de teofilina e etilenodiamina, mas tenho de ver melhor pois aparece um muitos locais teofilinato de etilenodiamina parecendo assim um composto iónico.  Basicamente, todas estas moléculas partilham os mesmos dois anéis fundidos com nitrogénios. Do mesmo conjunto é o conhecido ácido úrico, que, no caso das aves (que só têm um orifício  excretor - a cloaca) serve para expelir restos do metabolismo (é o conhecido material branco dos dejetos das aves). As xantinas pertencem a um grupo ainda mais geral que é o das purinas. Gertrude Elion, com George Hitchings e James Black, em 1988, ganhou o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina pelo desenvolvimento racional de fármacos. Todos medicamentos que propôs tinham como base o mecanismo das purinas. Um dos mais conhecidos é o aciclovir (Zovirax). Já falei bastantes vezes sobre a Gertrude Elion, mas é uma história muito interessante.

Voltando ao chá. Se for simplesmente seco, este torma-se o conhecido “chá verde”. Para que fique “chá preto” é necessário secá-lo mais tempo até oxidar. Isto dá origem à caraterística cor escura. Durante muito tempo, acreditava-se que eram duas espécies diferentes e os chineses, detentores destes segredos, não o revelavam. Uma curiosidade foi que os ingleses não tinham o hábito de beber chá. Um rei inglês casou-se com uma princesa portuguesa e esta levou para lá o hábito. 

Eu estava instalado perto do Jardim Antero de Quental e da Biblioteca Municipal, mas não tive tempo de ir ver o banco onde este se suicidou, no Convento da Madalena. Por aqui perto, situavam-se vários jardins botânicos e a Universidade dos Açores. Chamaram-me a atenção várias espécies de plantas, mas aquelas que achei mais interessante acabaram por ser umas papoilas, numa rua que não lembro o nome, que a mim (e a uma bióloga que estava no congresso) pareceram ser papoilas do ópio! Seja lá como for, a natureza é exuberante aqui e tudo cresce e se desenvolve.   

A visita ao núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado permite ver talha dourada inacabada, pois entretanto os jesuítas foram expulsos pelo governo do Marquês de Pombal. É muito curioso ver isto assim, pois, em geral, nas igrejas do continente tal não acontece. Basicamente, a talha dourada consiste em recobrir a madeira com folha de ouro. Esta folha é tão fina que podemos ter quase com uma camada de átomos de ouro.
Dessa forma, mesmo o ouro sendo muito denso (cerca de 19.4 quilogramas por litro) alguns quilogramas de ouro podem ser usados para cobrir grandes áreas. E a forma como ficam ligados às lacas que cobrem a madeira é essencialmente devida às forças intermoleculares. Por outro lado, o ouro é muito pouco reativo, mas vemos muitas igrejas em que este parece baço. Porquê? Se não estou em erro, essencialmente devido a partículas de fumo, pó e gordura que se acumularam durante séculos. Se limparem essa camada, volta o brilho do ouro.  Outra coisa muito interessante neste museu são as esculturas feitas com marfim de baleia e elefante. Memórias de um tempo que felizmente já acabou. 

O chamado ciclo da laranja, onde a ilha de São Miguel teve um papel importante, chegou a envolver um grande número de pessoas, e criou agricultores ricos e cavalheiros, acabou com uma praga (que mais tarde ficou conhecida de “devorista das laranjas”) de uma cochonilha (Coccus hesperidum). Na altura tentaram vários tipos de intervenções que incluíram cordões sanitários e quarentenas. As propostas de cortes nunca foram bem aceites e os tratamentos que existiam não eram muito eficientes. E sabia-se muito pouco da biologia destas pragas. Atualmente, os cordões sanitários, quarentenas e os cortes poderiam continuar a ser propostos, mas há uma quantidade muito maior de possibilidade na luta contra estas praga. Neste caso particular, os óleos parafínicos e vários tipos de inseticidas, a escolha de predadores adequados, entre outras. 

No núcleo de Santa Bárbara do Museu Carlos Machado podemos ver pinturas de Domingos Rebêlo (1891-1975) e esculturas de Canto da Maya (1890-1981). Um dos quadros mais conhecidos de Rebêlo é “Os Emigrantes”, de 1926, o qual mostra várias temáticas regionais, nomeadamente o registo de Espírito Santo e a viola de 12 cordas. Chamou-me a atenção o cesto de vime com laranjas que evocaria o fim do ciclo da laranja. Foi o guia do museu (muito simpático) que me chamou a atenção para essa questão, a qual veio mesmo a calhar pois duas perplexidades me ocorreram. Estava, dizia eu, a olhar com atenção para o quadro na parte das frutas pois notavam-se muitos verdes, e um do frutos parecia-me uma maçã (tanto parece que em algumas reproduções cortaram a parte de baixo do quadro). O guia do museu asseverou que eram laranjas e já vi publicações onde diziam o mesmo. A minha questão principal é que Domingos Rebêlo está demasiado perto da questão (esta tinha-se passado há pouco menos de 60 anos e ele na infância e juventude deveria ter ouvido falar disso) e, além disso, fez neste quadro tudo com tanto detalhe que achei bastante estranho estar ali uma maçã! (Se houver algo para investigar, se não foi feito antes, deixo a questão para os historiadores de arte). No caso da cor das laranjas, que era aquilo que me motivava, tenho algumas coisas para dizer. Por coincidência, tinha estado no congresso a falar com um investigador jornalista que que falou que «nos EUA pintavam as laranjas para elas serem “laranja” em vez do usual verde». Isso fez-me muita espécie e fui investigar. A ciência também é feita desses ceticismos.

Percebi que, em alguns casos, as laranjas ficavam com a casca “verde”, mesmo estando maduras, mas tal não era sistemático. É, antes de mais, preciso perceber que a laranja, assim como outros citrinos, é um fruto “inventado” a partir de cruzamentos e clonagem desde tempos imemoriais. Associamos o “laranja” à laranja mas nem sempre foi assim. Por exemplo, esse fruto designava-se “Portugal” em muitos dos locais dos descobrimentos. Seja lá como for, um produtor que tiver algumas laranjas “verdes” ficaria desesperado e pode fazer várias coisas: amadurecê-las nas cascas para ficarem com esse aspeto laranja ou, sim, usar um corante para as “pintar”. Imagino que o uso de corante seja muito raro, mas dos EUA espera-se tudo, supostamente! Mas, mas como disse, da ciência espera-se que seja cética e investigue.  

Também interessante, e provavelmente visualmente mais forte, é o quadro “Viático”, de 1919, também de Domingos Rebêlo, exposto na entrada do núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado. A minha opinião, mas não verifiquei, é que as pessoas em segundo plano parecem estar numa outra perspetiva, como se o olhar mudasse de direção, o que não seria possível com uma única fotografia. Norman Rockwell tem algo parecido na “Montra do barbeiro” que tem vários pontos de interesse o que seria impossível também numa única fotografia, em particular para se obter o efeito de mostrar o que se passa numa sala do fundo. O que é que isto tem a ver com ciência? Nem sempre o que parece óbvio o é. Além disso, a observação é uma atividade que se treina tanto em arte como em ciência. Mas mais do que isso, é importante estar preparado para aceitar o erro e a crítica.     

Ao ciclo da laranja, que originou emigração em massa, seguiu-se o da beterraba sacarina. Embora existissem várias fábricas de produção de açúcar e álcool a partir de beterraba sacarina, esta atividade nunca foi muito lucrativa. Em Lagoa, funcionou até há pouco tempo uma fábrica de álcool bem visível no centro da cidade. Neste povoação encontrei, também, no parque, exemplares de Erythrina Crista-Galli, planta de onde se extrai o conhecido curare, usado pelos nativos da América do Sul nas suas setas envenenadas e que mais tarde foi usado como paralisante em cirurgias. 

Uma coisa que já referi é a exuberância da vegetação. Na Universidade dos Açores, por exemplo, vi uma estrelícia que parecia uma bananeira. A ilha é um local com muita humidade. Por isso, a água passa em muito locais. Fiz uma parte do percurso da “Rota das quatro fábricas da luz” e fotografei canos antigos além de uma das pequenas hidroelétricas que aí funcionavam. Os canos que tinham sido cobertos com alcatrão como forma de os proteger da corrosão (eliminando o contacto com o ar) estão agora com muita ferrugem. Deve notar-se que o ferro é muito sensível à humidade e estando perto do mar há mais iões cloreto que facilitam este processo.      

O ananás é um ex-libris dos Açores. Esta planta, diga-se, é igual ao chamado abacaxi da América Latina, mas devido às condições climatéricas é aqui mais doce e penso que maior. Cru esta fruta tem uma enzima que quebra as ligações das proteínas, uma protease. Por isso, muitos pratos de carne levam ananás por se pensar que este facilita a digestão. Os açorianos são incansáveis de novas ideias. Nos supermercados e localmente vê-se muito mais bananas e bananeiras dos Açores.

Mas a parte que queria ver no local eram as estruturas que restavam da baleagem.  Há vários locais de vigia e logo que era avistada uma baleia era lançado um foguete. A caça e o processamento da baleia eram atividades bastante comum em São Miguel. Na povoação das Capelas há vários monumentos alusivos (só fotografei um deles, com o meu cachalote modelo de plástico, que foi, como eu, pela primeira vez aos Açores) e foi preservado um guincho de puxar baleias, perto de uma fábrica da qual resta apenas a chaminé (que tem a data de 1941, vi num livro). Por toda a ilha há observatórios de baleias, que agora são admiradas em vez de caçadas.  

Porque se caçavam baleias? Primeiro pelo óleo, pois eram como que reservatórios deste material, mas aproveita-se tudo, nomeadamente os ossos e, em alguns cachalotes, encontrava-se o âmbar cinzento que, depois de seco, era usado em perfumes mais finos e caros. Este material é produzido pelo sistema digestivo dos cachalotes como reação à sua dieta rica em lulas e polvos gigantes. E, sim, sai pelo ânus nos cachalotes vivos. No "Moby Dick" há uma personagem que refere que se se algumas mulheres soubessem de onde vêm alguns dos seus perfumes mais caros pensariam duas vezes antes de os usar. Mas há mais perfumes assim e não é essa origem que faz as pessoas mudar de ideias. Os óleos são muito particulares na sua composição e uma baleia poderia originar muitas toneladas deles. Entretanto, estes foram substituídos por óleos vegetais renováveis, nomeadamente de jojoba. Também, o uso de parte dos ossos para cabos de ferramentas foi substituído por plástico, muito mais versátil. As “barbas” das bocas das baleias (não dos chachalotes) que eram usadas em corpetes deixaram de ser usadas pois os corpetes passaram de moda e foram substituídos por roupa interior mais confortável. Finalmente, para o âmbar cinzento, também há substitutos semi-sintéticos. Partindo de uma sálvia pode obter-se o ambróxido que é a molécula mais emblemática deste material. Modernamente, este é também obtido de bactérias modificadas geneticamente por engenharia biológica. Não há qualquer necessidade de caçar baleias pois os seus usos foram substituídos. Mas antes que mude de assunto tenho de dizer que isso só foi possível devido a engenharia biológica e outros avanços científicos e tecnológicos. 

No livro de Wulf Koheler, que trata da baleagem em São Miguel, são referidos ainda outros usos. Além dos óleos e dos perfumes, a pele era usada como isco de pesca, a carne, não comestível por humanos, era processada e usada em rações animais, e os ossos, moídos, eram usados como adubos ou em rações. Este autor refere o recrudescimento da procura dos óleos nos anos vinte do século vinte devido à descoberta de novos usos. Sim, estes começaram a ser usados em margarinas e tiveram um aumento de procura como matéria-prima da indústria cosmética e farmacêutica. Nos anos 1986 foi banida a caça à baleia.

Koheler, que há décadas tinha estado no porto de pesca das Capelas, e agora, depois de aposentado, vive em São Miguel, fala também da construção das canoas. Havia uma canoa em exposição no Centro Comercial Atlântico, mas eu não sabia ainda nem fui lá. Trata-se de uma embarcação que varia ligeiramente de ilha para ilha. Em São Miguel, as tábuas usadas eram de meia polegada e unidas em vez de sobrepostas, como as canoas americanas que usavam tábuas de três quartos de polegadas. As canoas tinham tabuado duplo, sendo o interior em diagonal com o exterior. O exterior era feito da madeira muito dura de metrosidéro (uma árvore originária da Nova Zelândia e bem adaptada aos locais perto do mar – reparei que em Ponta Delgada há muitas na marginal; são as árvores que apresentam flores vermelhas).

O porto das Capelas é uma beleza em si mesma. Fiquei  impressionado com  a imagem. Ainda não eram oito da manhã e a beleza da paisegem era espantosa. As formações geológicas em estratos são muito interessantes e não encontrei nada sobre isso. Parece que ao longo tempo houve deposição de materiais escuros, provavelmente cinzas, que ficaram mais ou menos compactos e com o vento e chuva foram revelando os mais duros. Tudo, isto estava coberto em parte com que parece (nas fotografias) cimento, mas não vi no local bem.  De qualquer forma, estava ali para ver e fotografar o porto de onde saiam as canoas para a caça à baleia. As pequenas canoas matriculadas com PD (Ponta Delgada), um número e um B (de baleia) saiam para o mar quando era avistada uma baleia.   

A literatura tem muitas referências à baleagem, sendo o livro mais conhecido o “Moby Dick”, de Herman Melville, que já referi, mas em português poderemos encontrar o tema e muitas das suas vertentes em, por exemplo, “Mau tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio” e “A pesca da baleia e outras narrativas” de Raul Brandão. Gosto especialmente de um conto de Antonio Tabucci onde se dá voz às baleias que observam os humanos que as caçam: "tristes e com medo da água, têm as cabeças separadas do corpo e não trazem consigo as mulheres." Devo ao dr. Rui Pato a lembrança do escritor Cristovão de Aguiar. Ainda não li, mas já vi que na "Raiz comovida" há várias referências a Capelas e a materiais feitos de osso de baleia: um cabo de navalha, um castão de uma bengala e até piões. Tenho de ler! 

No livro de Koheler, recolhi muitas outras informações interessantes. Por exemplo, sobre a origem do arpão. Em 1848, Lewis Temple, um afro-americano, ferreiro de que há um monumento em New Bedford, criou um arpão melhorado de cabeça pivotante, que segundo alguns autores foi a mais importante inovação na caça à baleia. Infelizmente, não patenteou o arpão e este começou a ser copiado por outros ferreiros. Para completar a sua desgraça, Temple caiu num buraco de construção. Um tribunal estabeleceu-lhe uma indemnização, mas morreu entretanto, e nem ele nem a família receberam qualquer quantia. Koheler, refere que uma pessoa a quem New Bedford tanto deve só muito mais tarde foi reconhecida. 

Koheler refere também a dureza e o horror do trabalho envolvido. A fábrica das Capelas tinha muros altos para evitar que vissem e ouvissem o espetáculo sanguinário de desmanche de uma baleia. Segundo ele, os locais têm alguma culpa e vergonha desse passado e não querem falar dele. Nestas ilhas esta atividade sempre foi artesanal e ocasional. Não usaram aqui os arpões explosivos que mais tarde foram usadas pelas frotas industriais modernas, por exemplo.  

As Furnas eram um antigo vulcão. Aliás, todas as ilhas dos Açores são de origem vulcânica, embora haja algumas ilhas com mais sedimentos que se pensou antigamente serem de outra origem. Nas Furnas, as águas são quentes e férreas. E há um espaço, perto da lagoa, onde enterram os cozidos e estes cozinham nos vapores. Estes contêm compostos de enxofre como é fácil cheirar. Estive lá pouco tempo e não vi desenterrarem os cozidos. Um fato curioso é que em São Miguel se consome inhame. Foi lá que o comi pela primeira vez (não fiquei muito entusiasmado) e nas Furnas fotografei uma plantação de inhame bastante extensa. 

Também não tive tempo de ir às piscinas naturais quentes e férreas, nem a muitas das lagoas e miradouros emblemáticos. Nem fazer caminhadas. Afinal poder-se-á perguntar o que vi dos Açores? Muito, como se pode ler. Vi o que queria ver e mais algumas coisas, mas há ainda muito mais para ver. 

Vi em 2025, um documentário sobre Lagoa que era de 2022, ano em que escrevi este texto. Eu tinha referido a fábrica de álcool, mas são também interessantes a cerâmica e as culturas antigas, nomeadamente do pastel (dos tintureiros) que era usado para obter indigo, e os vários Centros de Ciência, em particular o de vulcanologia, e outros locais que não tive tempo de visitar. Tenho mesmo de voltar!

Bibliografia específica consultada

Ana Isabel Queiroz, Daniel Alves. Praga e poder: história do “devorista das laranjeiras” (Açores, Portugal, 1840-1860) Análise Social, 231, 226-254, 2019.

Wulf H. Koehler, Da Caça à Observação de Baleias, Edição do Autor, 2018

Sérgio Ávila. Lagoa. Entre o Verde e o Azul, 2022. https://www.rtp.pt/programa/tv/p42512 (acesso em 29 de agosto de 2025) 

Passeio químico em Rio Maior

[Vou fazer uma palestra online dia 5 de abril de 2022 para a Escola Augusto César Silva Ferreira em Rio Maior e aproveito para partilhar os passeios químicos que fiz nesta cidade há uns anos] 

A cidade de Rio Maior tem vários pontos de interesse, mas há alguns que são quase únicos.  As salinas, a fábrica de briquetes de carvão e o poeta Ruy Belo.

As salinas resultam do afloramento da água salgada que tem permitido obter sal de cozinha desde o século XII. As técnicas e química das salinas são muito semelhantes às das marinas de mar, com a exceção de que, estando no interior, há coisas que não existem como a areia do mar e as plantas marítimas. Fora algumas especificidades que têm sido exploradas ao longo do tempo é bastante semelhante. A água salgada, ou salmoura, vai sofrendo evaporação (os meses de exploração são em geral de maio a setembro) e ficando cada vez mais concentrada nos seus sais, os quais vão precipitando ao longo dos vários tanques. Primeiro precipitam os sais de ferro, nomeadamente os hidróxidos, depois os carbonatos e os sulfatos. No final ficam os cloretos e, em muito menores quantidades, os brometos, os iodetos e outros iões negativos, por um lado, e o sódio e o potássio e outros iões positivos, por outros. Quando se atinge cerca de 37% em massa de cloreto de sódio este começa a precipitar, formando o chamado chamado sal de cozinha. Mas é preciso lembrar que o "sal" não é só cloreto de sódio e que o sistema é eletricamente neutro, ou seja a soma dos  números de iões (multiplicada pelas suas cargas) tem de ser zero.

Acontece que os cloretos formam iões e complexos muito solúveis com todos os metais, e em particular com o ferro, sendo muito reativos. Portanto, nas salinas o problema da corrosão é muito grande, sendo tradição usar objetos de madeira em vez de ferro. Desde rodos e ancinhos a fechaduras, tudo é de madeira. Este efeito é especialmente espetacular nas reações entre sulfato de cobre (muito lentas) e folhas de alumínio e cloreto de cobre (muito rápidas) com folhas de alumínio. E mostra claramente que os iões que não participam diretamente nestas reações não são simples “espetadores”.

Ao longo dos tempos os salineiros foram aperfeiçoando as suas técnicas e formas de organização. Hoje o espaço é também turístico com os seus restaurantes e pratos característicos.

Há uma chaminé de betão muito alta, que se vê de quase toda a cidade, de uma fábrica de briquetes de carvão que laborou até quase até ao início dos anos 1970. Em 2019, a Assembleia da República recomendou ao Governo classificar esse espaço e uma associação de Rio Maior propôs usar esse espaço como centro interpretativo das minas de carvão do Espadanal. Esta funcionaram de 1916 a 1969 e o que se fazia na fábrica era produzir briquetes do carvão obtido nessas minas.

Em termos abstratos a ideia até seria razoavelmente boa na altura. Aproveitar as potencialidades do carvão, um combustível bastante sujo e pouco eficiente. Acontece que, para piorar as coisas, o carvão português não é muito bom, estando em geral muito contaminado, em particular com sulfuretos. Para além disso, os motores a carvão eram pouco eficientes, embora tenham ao longo dos tempos melhorado muito. Mas o principal problema atual é que a queima de carvão, além de poluente, origina dióxido de carbono. Se na altura o empreendimento poderia ser já problemático, hoje não seria aceitável. Mas a ideia de um centro interpretativo das minas é muito interessante.

Já o escrevi noutro lado, é bem conhecido e dito por especialistas, que a riqueza mineral de um país não significa automaticamente riqueza deste e dos seus habitantes. Antes pelo contrário, em geral. Para gerar riqueza é preciso muito mais do que exportar. É preciso um política concertada de uso e de enriquecimento científico e cultural. Um exemplo dramático e paradigmático é a Suécia, um país com muitas minas de ferro e de outros minerais, onde se desenvolveu muito o estudo da química e a ciência em geral. Mas era pobre quase até meados do século XX, com fomes periódicas e emigrações massivas para a América que foram bem descritas nas entrelinhas de um livro que ate tinha alguns objetivos turísticos de Selma Lagerlof, “A viagem maravilhosa de Nils”. O que o tornou esse país rico? Congregar esses recursos ao serviço das pessoas e fazer uma grande aposta na segurança social e continuar a desenvolver o conhecimento e muitas outras atividades alternativas. Por exemplo, em Portugal havendo tanto cloreto de sódio podiam ainda ser exploradas mais essas vias.

Finalmente, de Rio Maior é também originário o poeta Ruy Belo. É muito interessante a forma como a cidade se lembra dele. Este tem muitos poemas ligados ao vento e ao ar. Tinha asma e aparentemente acabou por morrer de uma insuficiência cardíaca devida isso. Mas era também um nadador incansável e muitos dos seus poemas são sobre o mar. Vale a pena lê-los. Não precisam de ser diretamente científicos,  mas podem ajudar a perceber e apreciar o mundo que nos rodeia.