Passeios Químicos em Madrid entre o Natal e o Ano Novo de 2025

[Fomos alguns dias a Madrid no Natal de 2025, essencialmente para a ver a exposição sobre Robert Capa no Círculo de Belas Artes e as exposições-diálogos entre Wahrol e Pollock (Warhol, Pollock and other American spaces) e Picasso e Klee (Picasso and Klee in the Heinz Berggruen Collection) no Museu Thyssen-Bornemisza]

Já não iamos a Madrid há alguns anos (ver aqui e aqui) e agora há uma muito maior precupação - e bem - com as emissões de gases dos carros. Na nossa casa temos um carro a gasóleo – e é o único que temos – cujo motor funciona pela queima de hidrocarbonetos, os quais podem ser aproximados (no caso do gasóleo) pela fórmula C12H26, produzindo-se assim 12 moléculas de dióxido de carbono por cada molécula de hidrocarboneto queimada.

Pelo menos 7% deste combustível tem de ter origem não fóssil e renovável (é o chamado biodiesel que é assinalado com um quadrado branco com um um sete nas bombas de gasolina), mas neste momento já há carros que usam gasóleo 100% renovável (HVO, hidrogeneated vegetal oil), o qual só está disponível, no entanto, para empresas. Este gasóleo é, por agora, tanto quanto percebi, mais caro e as perolíferas não divulgam publicamente o seu custo. Como se pode imaginar, estes combustíveis exigem uma grande quantidade de gorduras, o que origina periodicamente os óelos usados serem mais caros do que os virgens ou muita procura por óleo de palma cuja produção intensiva também não é boa para o ambiente. As reações químicas de produção de biodiesel são relativamente simples e chamadas pelos químicos de esterifiação correspendendo de forma simplificsada a R1COOH+R2OH→ R1COOR2+H2O

Por outro lado, estão a ser desenvolvidos métodos para o uso de outros tipos de desperdícios de gorduras que não apenas os dos óleos usados. O que ressalta disto é que vivemos num mundo muito complexo que envolve um número muito grande de relações também complexas. Claro que isso não nos deve, nem pode, impedir de agir, mas dever-nos-á alertar para o facto de não existirem quase nunca soluções simples e que as melhores soluções são muitas vezes inesperadas.  

Íamos ficar alojados na Zona de Baixas Emissões (ZBE) e pedimos autorização para entrar na cidade com o carro (deve pedir-se com antecedência de 20 dias). O nosso carro, embora seja de gasóleo, é Euro 5 (mais à frente comentarei os carros mais modernos Euro 6) e estava dentro das condições requeridas, mas mesmo assim havia zonas centrais da cidade onde só poderia passar para estacionar num parque. Basicamente, nas ZBE mais restritivas só podem circular carros elétricos que não emitem gases com efeito de estufa. Estes, para além de não emitirem gases, têm menos componentes o que torna a sua produção mais sustentável. Mas, obviamente, não são completamente isentos de problemas ambientais.
Desde logo, as baterias que são de lítio e cobalto. A obtenção destes elementos, tem obrigado à muito maior exploração destes recursos minerais. Já começam a existir baterias sem cobalto e baterias de ião sódio, mas ainda estamos longe de ter o problema resolvido pois o crescimento da produção de carros elétricos tem sido exponencial. Estão a ser estudados também outros tipos de baterias como as de metais e ar, mas também ainda estamos longe da sua produção em massa. Também a produção de eletricidade pode originar problemas ambientais, nomeadamente a que é obtida por queima de metano ou carvão.
No primeiro caso a sua produção em ciclos combinados é mais eficiente do que a queima de hidrocarbonetos nos carros, mas a sua eficiência ainda ronda os 60% (referi isso a propósito do Passeio Químico em Setúbal). Também as eólicas, as centrais fotovoltaicas e as barragens hidroelétricas não são isentas de questões ambientais. Desde logo o cimento e os espaço que tem de ser usado. Depois, se as primeiras usam grandes quantidades de terras raras, as segundas necessitam de silício de grande pureza, etc. Em qualquer dos casos, a análise completa dos processos envolvidos tem mostrado que são os carros elétricos mais vantajosos ambientalmente. Mas podemos ainda ir muito mais longe: produzir carros mais pequenos que usem menos recursos e emitam menos partículas dos seus pneus quando em circulação, ou andar mais a pé, de bicicleta e de transportes públicos.

No bairro de Arganzuela, junto ao rio Manzanares, situavam-se alguns dos equipamentos que faziam funcionar a cidade de Madrid no início do século XX, nomeadamente o matadouro e o gasómetro. O primeiro está agora transformado num centro cultural e de lazer (Centro de Créación Contemporânea) e do segundo resta o nome de uma rua e um parque com uma chaminé (onde não fui). O matadouro funcionou até 1996 e tem uma área bastante grande com pavilhões onde eram abatidos os diferentes animais (tem ainda as placas de cerâmica com as designações dos animais), um depósito de água e vários outros equipamentos. 

Chamou-me a atenção existir uma porta identificada com o nome de laboratório, onde seriam analisadas as carnes dos animais. Provavelmente não irão gostar do que escreverei a seguir por ser demasiado cru, por isso podem saltar para o parágrafo seguinte, mas, na minha opinião, estes números continuam a existir algures e deveremos ter consciência deles - o abate de animais para alimentação continua a ser feito, mas cada vez mais afastado das nossas vistas. Na região central de Madrid vivem cerca de 3.5 milhões de pessoas. Se essas pessoas consumirem cerca de 100 gramas de proteína, mesmo que metade das pessoas seja vegetariana o número de animais abatidos por dia será da ordem dos milhares (estimativa com um valor médio do peso de um bovino de 500 kg, ovelhas de 100 kg e galináceos de 5 kg). E os números de 1996 não serão muito diferentes pois a população era mais ou menos a mesma em quantidade de pessoas. 

Entretanto, estes milhões de pessoas têm de ser alimentados. Além da proteína vegetal, modificada  (ou não) geneticamente, ou produzida (ou não) por biotecnologia, há experiências interessantes com o que é designado como “agricultura celular” ou por “carne cultivada” nas quais são produzidos carne a partir de células de animais vivos, sem que este tenham de ser abatidos. Os problemas de aspeto e sabor já estão em boa parte resolvidos, mas o principal problema continua a ser o custo. Esta proteína é ainda muito cara e por isso não é competitiva economicamente num mundo em a carne dos animais abatidos é muito mais barata. Outra possibilidade é o uso da proteína proveniente de insetos, mas também em relação a isto há alguma resistência na sociedade. O ser humano é bastante incoerente: não gosta de ver matar animais, mas pode ao mesmo tempo salivar por um bife ou costeleta se não souber de onde estes vieram.  

No matadouro visitámos uma exposição de Cristina Mejías (“Lengua em coro, cuenta”) que consistia numa instalação numa zona escura, iluminada com luzes cenográficas, onde circulava água, tendo como canos e recipentes diferentes materiais (madeira, bambu, vários tipos de metais, vidro, fibra de vidro e plástico – foram os em que repare). Eram bastante bonitas as imagens, os reflexos nos vidro e água e a oxidação de alguns metais. Curiosamente, reside aqui uma das grandes possibilidades da arte moderna. Uma instalação parecida, embora menos complexa e com menos partes inúteis, mas potencialmente igualmente bela poderia ser feita por um agricultor imaginativo, para regar as suas plantas. Entretanto, ouve-se cada vez menos a triste expressão: “eu também poderia fazer isto”. Mas, paradoxalmente, faz sentido. Não no sentido de desvalorizar a arte moderna, mas mas para reafirmar que todos somos artistas em potência, embora alguns muito melhores do que os outros, claro, e que poderemos encontrar beleza e motivos para refletir sobre qual é a nossa posição no mundo, em tudo o que nos rodeia. O exemplo clássico é Pablo Picasso e até será interessante citá-lo pois irei mais à frente referir uma exposição com quadros dele. Toda a gente "sabe" que este sabia desenhar, mas foi ao longo tempo trabalhando as suas imagens para obter os efeitos que agora nos fascinam. E poderemos ainda ir mais atrás: os pintores considerados clássicos e os melhores pintores académicos queriam-nos dizer alguma coisa que quase numa era a simples reprodução acrítica da realidade. 

Eu também visitei nesses dias o Museu do Prado (valeu a pena ficar nas filas) e quem já viu com atenção as Meninas de Diego Velázquez, as Majas de Francisco de Goya e muitos outros trabalhos, sabe a que me refiro. As sensações estéticas (e não me refiro à emoção básica de estar ao lado de obras famosas) são devidas a coisas muito para além da reprodução formal da realidade (pense-se noutros artistas presentes no Prado, por exemplo, El Greco, José de Ribera, Caravaggio, Tintoretto ou Tiziano). Uma quase magia das telas e da pintura a óleo é que parecem, especialmente se bem iluminadas e restauradas (retirando o pó e os vernizes que as recobriam e escureciam) que acabaram de ser pintadas. Isso acontece, penso eu, por os pigmentos usados serem muito coloridos e brilhantes, já que os óleos secam em poucos dias. 

Alguns pintores, como El Greco, usavam pó de vidro para misturar com os pigmentos para maximizar esse efeito (referi isso, assim como a química dos pigmentos usados no Passeio Químico em Toledo). Referi ainda nesse passeio, o uso de resina de pinheiro, mas isso acarreta alguns problemas de conservação a longo prazo, segundo li agora: escurecimento e formação de rachadelas. Na exposição-diálogo Wharol e Pollock há um efeito brilhante numa tela negra na qual Wharol usou pó de diamante. Diz-se que "os diamantes são eternos" mas os químicos sabem que são um estado metaestável do carbono, sendo a grafite mais estável. Há também uma frase que gosto muito de Michael Faraday: "a vela é mais brilhante do que um diamante, pois tem luz própria".

O matadero e o gasómetro ficavam na parte Sul de Madrid junto ao rio Manzanares no bairro de Arganzuela, sendo agora esta parte da cidade chamada Madrid-Rio. Estava frio e a chover e acabámos por não explorar a zona, mas há pelo menos duas pontes que parecem valer a pena visitar. Também não fomos ao Palacio do Cristal de Arganzuela construído pelo arquiteto Luis Bellido e González entre os anos 1908 e 1928 e reabilitado em 1992. O acesso a um site com mais informações não parece ser fácil de assnalar (o link está sempre a mudar) mas pode chegar-se lá pelo site do Turismo, mas uma vez acedido temos acesso a a um conjunto de informação muito interessante sobre as espécies disponíveis na estufa, o mapa do Palácio de Cristal e também sobre as pontes sobre o rio e a qualidade da sua águas do Manzanares.
Segundo li, uma parte estava encanada (eu nem sabia que Madrid tinha um rio) e debaixo de autoestradas de acesso a Madrid, mas agora há um movimento de renaturalização e depuração das suas águas. Já referi em vários passeios os esqueletos dos gasómetros onde o gás era armazenado e distribuído pela cidade, que a qui em Madrid já não parecem existir. A produção de gás era feita por aqucimento de carvão a cerca de 1000ºC. Um pouco por acaso, fui dar à famosa feira do Rastro. À primeira vista não é muito diferente das nossas feiras atuais mas é interessante pela mistura de produtos que oferece e pela riqueza e contacto humanos. 

No Círculo de Belas Artes fomos ver a exposição sobre Robert Capa (1913-1954), autor de fotografias emblemáticas da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, da primeira Guerra Israel-Árabe e da Guerra da Indochina (onde morreu com 40 anos ao pisar uma mina terrestre). Achei especialmente interessante, estarem lá muitas das fotografias originais que foram usadas para as publicações, assim como cartas e outros objetos pessoais. Curiosamente, várias fotografias icónicas estão ligeiramente desfocadas ou tremidas, mas é precisamente isso que as torna muito mais interessantes, pois foram tiradas em situações perigosas ou difíceis e criam uma dinâmica que consideramos hoje genial. Robert Capa costumava dizer que "se a fotografia não é interessante não tinha sido tirada suficientemente perto”. 

No Círculo de Belas Artes havia também a exposição “¡Aquí hay petróleo!”, que toma o nome de uma comédia de 1955, que aborda, segundo os seus curadores, “as relações entre os combustíveis fósseis, as forma contemporâneas de poder e os imaginários do desejo” em particular durante o franquismo até ao presente. Achei interessante a exposição, por um lado parecer apresentar uma tensão (que já tinha notado em Valência) entre o olhar olhar atual em Espanha e o passado e o que resta do franquismo, e, por outro lado, por explorar uma estética irónica que a relaciona com o “machismo tóxico”, usando expressões com “petromasculinidade e fascismo fóssil”. Ironia à parte, trata-se de um assunto muito sério, pois o franquismo abraçou abertamente a modernidade e a industrialização, em particular química, ao mesmo tempo que era repressivo para as pessoas e ambientalmente desplicente. Infelizmente, o preço dessa modernidade, mesmo quando as alternativas eram ainda piores, foi (e ainda é) demasido alto. Foi também apropriado pois ainda estava a refletir sobre as ZBE.

Ainda no Círculo de Belas Artes fui uma a exposição com obras de Martín Chirino (1925-2019) o qual foi responsável pela rearticulação do Círculo de Bela Artes de 1983 a 1992, segundo é dito na apresentação dos seus trabalhos. As suas esculturas metálicas têm valor artístico em si, mas o que me chamou mais a atenção foi o uso de diferentes metais e ligas metálicas o qual origina cores e superfícies diferentes, onde impera a figura gemétrica da espiral. O Círculo de Belas Artes foi fundado em 1880 e é um edifício (na página dizem ser arquitetura neo-clássica) na Rua de Alcalá, perto da Gran Via, interessante em si mesmo, com uma explanada no sétimo andar que se paga para aceder (seis euros só o acesso ou um euro a somar aos valores dos bilhetes das exposições) onde há uma grande estátua de Minerva e se tem uma vista privilegiada da cidade.
As salas onde estavam as exposições eram da cave ao primeiro andar, mas continuando a subir passa-se por um salão de baile, uma sala de jogos e uma biblioteca (para associados, mas podem ser alugados as salas de baile e de jogos) e por muitas outras salas que podem ser alugadas, em particular duas que tinham os nomes de Maria Zambrano (falei dela a propósito de um Passeio Químico em Segóvia) e Ramón Goméz de la Serna. A entrada faz-se por uma rua lateral pois na rua principal tem uma cafetaria. O Círculo tem também uma sala de espetáculos, um cinema, uma rádio e uma revista (denominada “Minerva”).   

No Museu Thyssen-Bornemisza fomos ver as exposições-diálogos de Klee e Picasso e Pollock e Warhol. Para a primeira não havia hora marcada e fomos visitar de imediato. Não tivemos grandes surpresas, nem o diálogo nos pareceu, inicialmente, muito frutifero (à primeira vista parecia um diálogo de surdos). No site dizia que “Picasso e Klee não podiam ser mais diferentes” mas partilharam, no entanto, temas e atitudes, uma “estratégia redutora e deformadora análoga” e uma forma “similar de utilizarem a arte como arma de transgressão”. Curiosamente, foi nesta ida a Madrid que reparei que as espadas dos toureiros matadores eram muito pequenas e um quadro Picasso reproduz bem isso. 

Esta exposição estava integrada na visita ao museu e acabei por ver todos os quadros. Com objetivos pedagógicos, havia modelos de quadros em relevo para cegos e de um dos quadros podia ser visto a análise das suas imagens obtidas em Infravermelho e de de outras formas. Não sei se a fotografia que fiz dá uma boa ideia do efeito, mas achei interrssante. Na minha opinião, ainda não atingiram a eficácia  e a extensão dos museus da Grã-Bretanha que visitei e referi a propósito dos Passeios Químicos em Londres e Escócia mas, mesmo assim, achei muito bem feito. 

Na exposição-diálogo entre Warhol e Pollock estavam os quadros ditos da “oxidação” e da “urina” de Andy Warhol, que eu não conhecia. Ambos os conjuntos de quadros foram “regados” com a urina de Warhol ou dos seus amigos, mas no primeiro conjunto as telas foram primeiro pintadas com uma tinta metálica de cobre ou de outras ligas e no segundo foram “regadas” as telas de pano cru. No primeiro caso, se as tintas metálicas forem de cobre, a urina promove a oxidação do metal, originando manchas verdes de sais de cobre (II). Mas a questão é muito mais complexa pois dependia da alimentação e fisiologia dos “executantes”. Notam-se também manchas mais escuras que podem ser de sais de cobre (I), os quais são castanhos avermelhados, ou de outros materiais.
Nas telas de pano cru, a urina originou manchas mais escuras que tanto podem ser devidas à oxidação do algodão da tela como a reação com outros materiais. Sabe-se, no entanto, que o estúdio cheirava bastante mal nos anos 1970 e que havia uma grande fixação na toma de vitaminas. Os estudos disponíveis não são muito claros sobre as composições, mas parece certo que é a ureia da urina que promove a oxidação. Esta moléculas está presente na urina (cerca de 20 g por litro ou 2%) e é em boa parte responsável pelos efeitos coloridos da formação de sais verdes de cobre (II) e (em muito menor quantidade), avermelhados de cobre (I). Não deixa de ser curioso que a ureia esteja a ser estudada para uso em células de combustível de carros. Uma coisa menos boa é que se forma dióxido de carbono nestas células (ânodo: NH2)2CO+6OH-→N2+ CO2+5H2O+6e-, cátodo: O2+2H2O+4e- →4OH-). 

Entretanto, nos automóveis classificados como Euro 6, é usada uma reação similar da ureia para eliminar os óxidos de nitrogénio (NOx) gerados combustão a altas temperaturas pela reação entre N2 e O2: 6NO2 + 4 NH2)2CO → 7 N2+ 4CO2 + 8H2O. Para isso é usada uma solução muito concentrada de ureia que atura sobre os gases de escape. Por exemplo, o AdBlue da Galp (apresentada numa fotografia que fiz já em Portugal) é uma solução aquosa de 32,5% de ureia. Assim, formos dos automóveis até arte e desta de novo para os automóveis, através da ureia! (A foto foi já tirada em Portugal, numa estação de serviço da Guarda) 

No Jardim Botânico de Madrid, como é inverno, muitas plantas estão adormecidas, mas se estivermos com atenção podem ainda ver muitas coisas interessantes. Quem me conhece, sabe que reparo sempre nos teixos (Taxus baccata). (Já referi a sua importância na produção de um medicamento para o cancro nos Passeios Químicos em Nova Iorque e Porto  entre outros locais) Há bastantes exemplares desta planta neste jardim que, além de estarem presentes em sebes, estão em exemplares de tupiária e bonsai e árvores. Também me chamou a atenção os metais nos tanques de água que parecem ser de zinco e os grampos de ferro chumbados com... chumbo. Mas disso eu já falei em vários passeios.

Enconto sempre alguma coisa nova ou motivo de surpresa nos Jardins Botânicos. Nas estufas, além do cafeeiro, que estava cheio de frutos (é a partir da semente, que depois de torrada, fazemos o café, estando nesta a cafeína), reparei numa pequena trepadeira que (estava assinalada) ser a pimenta (Piper nigrum). Eu nunca tinha visto (que me lembre) a planta e vi entretanto que é cultivada de outras formas. 

Havia também uma exposição muito bonita de fotografias de mulheres na ciência nas universidade bascas.

Entretanto regressámos, não antes de comermos vários salmorejos (os quais não eram muito diferentes do que faço) e provarmos novos e imaginativas pratos e renovadas formas de ver e agir sobre o mundo.   

Referências

Círculo de Belas Artes ¡Aquí hay petróleo! https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/aqui-hay-petroleo/ (acedido 8 de janeiro de 2026)

Círculo de Belas Artes. Martín Chirino. Memoria del Círculo. https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/martin-chirino-memoria-del-circulo/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Círculo de Belas Artes. Robert Capa. Icons https://www.circulobellasartes.com/exposiciones/robert-capa-icons/ (acedido 8 de janeiro de 2026).

Galp. Adblue: o que é e para que serve? https://www.galp.com/pt/pt/particulares/estrada/blog/detalhe/adblue-o-que-e-e-para-que-serve (acedido 9 de janeiro de 2026).

Pepo Paz Saz. Un corto viage a Madrid. Anaya Touring, 2018.

Museo Nacional del Prado. La Guía del Prado. 2019.  

Museo Nacional Thyssen Bornemisza. Picasso y Klee en la colección de Heinz Berggruen. https://www.museothyssen.org/exposiciones/picasso-klee-coleccion-heinz-berggruen (acedido 8 de janeiro de 2026).

Museo Nacional Thyssen Bornemisza. Warhol, Pollock and other American spaces. https://www.museothyssen.org/en/exhibitions/warhol-pollock  (acedido 8 de janeiro de 2026)

Museo Nacional Thyssen Bornemisza. Warhol, Pollock and other American spaces. Guía didático 42, 2025.

Ray Smith. Guia do Artista. Dorling Kinderley, 2003.

The Warhol. Oxidation Paintings. https://www.warhol.org/conservation/oxidation-paintings/ (acedido 9 de janeiro de 2026).

Turismo de Madrid. Estufa do Palácio de Cristal de Arganzuela. https://www.esmadrid.com/pt/informacao-turistica/invernadero-del-palacio-de-cristal-de-arganzuela (acedido 8 de janeiro de 2026).


Passeios químicos em Ovar


[Estive várias vezes em Ovar. A última, foi nas II Jornadas Dinisinas, para cujo convite pela Câmara Municipal de Ovar foi central uma visita que fiz ao Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense organizada pela Liga dos Amigos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.]

Ovar é uma cidade cheia de atrativos e curiosidades, de que referirei aqui alguns, nos quais reparei e que têm a ver com a Química. Há com certeza outros a descobrir.  

Júlio Dinis (1839-1871) é o pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, formado em Medicina e professor na Escola Médico-Cirúrgica. Não exerceu a profissão de médico, devido, em parte, à tuberculose de que sofria, mas segundo o professor Levi Guerra, ainda chegou a ter um consultório. O escritor esteve na casa, que é agora o Museu Júlio Dinis, a qual era de sua tia, cerca de quatro meses a repousar e a procurar melhorar da tuberculose, tendo escrito uma parte do seus romances "As Pupilas do Senhor Reitor" e “A Morgadinha dos Canaviais”, assim como outros trabalhos de que se destaca “O Canto da Sereia”. 

Eu escrevi um artigo para a Revista Dunas deste ano sobre Júlio Dinis e a Ciência do seu tempo, sendo que esta revista será apresentada em 8 de dezembro de 2025. Embora não seja só de Júlio Dinis de que quero falar, não posso deixar de referir o que escrevi no artigo: “num país essencialmente analfabeto, Júlio Dinis procurou educar a população, de uma forma bastante avançada para a época, através dos seus livros. De facto, ao longo de todo o século XIX, e mais tarde, iremos encontrar pessoas genuinamente preocupadas com a Educação em Portugal, mas não consideraram a atitude popular e pragmática que Júlio Dinis desenvolveu” e mais adiante “Júlio Dinis procurou estimular a Educação e o Desenvolvimento num país atrasado e não glorificar a vida campestre, como por vezes se pensa.”

Uma das coisas que me chamou a atenção na Casa-Museu foram os talheres que pareciam entre prateado e acobreado (aliás eram muito semelhantes aos que estão em exposição na cozinha da Casa-Museu Egas Moniz). Poderão ser de um material denominado “prata alemã.” Ora o que é essa prata alemã? Uma coisa é certa não tem na sua composição o metal prata. É cobre recoberto de zinco e níquel. Provavelmente ao longo o tempo, o zinco e o níquel foram-se misturando com o cobre ou oxidando (o zinco pois o níquel já tem uma camada de óxido estável na sua superfície), ou sendo removidos pelo uso, ficando os talheres mais amarelos. É preciso notar que século XIX e primeira metade do século XX, o aço inoxidável não existia. Na Casa-Museu Egas Moniz, há talheres de prata que deveriam ser usados na refeições dos patrões, mas nos dez ou onze meses em que os criados estavam sozinhos, deveriam usar os outros. 

Nesta casa da tia de Júlio Dinis cozinhava-se provavelmente usando panelas de ferro fundido de três pés na lareira e na casa de Egas Moniz há um fogão a lenha. O gás só se tornou preponderante depois da Segunda Guerra Mundial. Antes eram mais comuns o uso da lenha, diretamente ou em fogões, ou os fogões de petróleo. Nos jornais dos anos 1940 são costume os anúncios a estes fogões a petróleo nos quais a combustão é feita com o vapor combustível do composto e se aumenta a pressão com um pistão parecido com os bombas de ar das bicicletas. Hoje é comum o gás de botija que, embora seja designado "butano", tem cerca de um terço de propano, o gás natural que é essencialmente gás metano, e os discos elétricos e de indução eletromagnética.
Nos dois últimos casos o fogão funciona com eletricidade, sendo no primeiro uma resistência que aquece com a passagem de corrente elétrica e no segundo com a indução obtida com a passagem de uma corrente elétrica numa bobine abaixo do vidro de cobertura do fogão e uma panela de material ferromagnético, em geral aço. Deve notar-se que nem todo o aço é feromagnético e as composições usuais com 18% de crómio e 10% de níquel (corrijo) podem ou não ser (poderá testar-se com um íman). Depende da quantidade de ferrita que temos nos 72% de ferro. Uma das formas de aumentar a eficiência deste tipo de fogão é ter panelas mais magnéticas, mas mesmo assim a eficiência desta forma de aquecimento é relativamente alta, sendo de 80-90% comparada com os 60-70% do aquecimento elétrico normal e 40% do gás. Pode pensar-se que o gás é menos eficiente mas deve ter-se em conta como é obtida a energia elétrica (se for em turbinas de co-geração a gás natural, esta é de cerca de 60%). Poderia parecer também que nada disto tem a ver com Química, mas pense-se nas composições das panelas e dos bobines, a composição do gás e a sua combustão, entre muitas outras coisas.       

Ainda no Museu Júlio Dinis, podemos reparar nos vidros antigos das janelas. Como já referi várias vezes, ate cerca de 1950 os processos de produção de vidros planos faziam com que os vidros ficassem com imperfeições que são são bem visíveis. Depois desta data, os vidros planos comecaram a ser fabricados num processo que envolve estes solidificarem (o que acontece no intervalo entre 700 e 900ºC, dependente do tipo de vidro) em estanho líquido (ponto de fusão 232ºC) e assim ficarem com a superfície muito lisa e plana. 

Na casa pode também reparar-se que não havia água canalizada, sendo que a água tinha de se ir buscar a uma fonte. Mas, mais do que a comodidade, existiam outros problemas. De facto, nesta altura a água não era tratada nem analisada em relação a contaminações microbianas ou outras. Embora fossem usados alguns processos de filtração com areia e as águas correntes fossem melhor oxigenadas, havia uma elevada probabilidade de contaminações. Não esqueçamos que a água não tratada matou um rei português (D. Pedro V) e na primeira metade do século XX ainda eram comuns as epidemias de febre tifóide, cólera e outras. 

Até à segunda metade do século XIX, ainda não eram bem conhecidos os processos de contaminação biológica. A teoria dos germens desenvolvida por Pasteur estava a dar os seus primeiros passos no final da vida de Júlio Dinis. E no início do século XX ainda não tinham sido bem optimizadas as redes de abastecimento de água. 

Uma fonte do centro da cidade, e que era usada para abastecimento de água, é a Fonte de Neptuno. Nesta elegante fonte podem observar-se os canos de saída de água. Uma fonte mais moderna em que reparei estava situada junto ao Museu Júlio Dinis. Ao longo de toda a cidade à fontes que são agora essencialmente decorativas, mas no tempo de Júlio Dinis era nestas que a população se abastecia de água. Quando estive em Ovar a última vez, estava a chover muito e as fontes que se situavam abaixo do nível do solo estavam inundadas. 

Em Ovar há muita água quando chove. Pude observar, quando lá estive, o parque da cidade onde passa o Rio Cáster parcialmente inundado. Mas esse efeito foi previsto no desenho do parque para absorver a água do rio e não causar inundações na cidade. Muitas vezes não percebemos essas coisas, mas isso foi-me muito bem explicado pelo diretor do Museu Júlio Dinis, dr. António França.   

Ali perto, no Parque Cáster, estão as engraçadas e conhecidas estátuas alusivas ao Carnaval de Ovar da autoria de José Guimarães, em bronze e aço inoxidável. O bronze como já referi várias vezes é uma liga com cerca de 70% de cobre e 30% de estanho que é muito usado nestas estruturas públicas devido à sua resistência e bom envelhecimento durante o qual se forma na superfície uma camada cabonato básico de cobre que é verde escuro. O uso de aco inoxidável é interessante pois dá um aspeto espelhado, onde nos podemos ver. 
O Carnaval de Ovar é considerado o mais típico e o maior do país com milhares de foliões e participantes. Curiosamente, as cerimónias da posterior Semana Santa são também muito importantes, havendo na cidade várias capelas para isso. O Presidente da Câmara, dr. Domingos Silva, disse-me que a cidade fazia parte de uma rede ibérica de comemorações da semana santa. Não sendo um assunto de Química diretamente, vê-se facilmente que os dois aspetos estão relacionados entre si e com a religiosidade e extroversão das populações, assim com as suas relações antigas com o mar.  

Voltando ao Museu Júlio Dinis, outro aspeto a considerar é a iluminação. Esta era feita na casa essencialmente através de velas e candeeiros. Nas grandes cidades, como o Porto, já existiam estruturas de abastecimento de gás para iluminação na rua e nas casas ricas, mas não em cidades pequenas como Ovar. As velas poderiam ser de sebo que era de gordura animal, ou de estearina que implicava serem feitas retirando os componentes da gordura que são líquidos ficando a estearina. Eram velas mais claras e não tinham cheiro, mas mesmo assim eram muito pouco eficientes.
Uma vela típica tem uma potência total de cerca de 50 watts, o que seria razoável, mas o problema é que quase toda a potência e usada para aquecimento. Temos cerca de 0.05% de eficiência luminosa, sendo os restantes 99.95% perdidos como calor. Ao longo do século XX melhorou a eficiência luminosa, sendo que uma lâmpara incandescente têm cerca de 2%, uma lâmpada fluorescente cerca de 15% e uma lâmpada LED tem um máximo teórico de eficiência de 40%. Vê-se assim que ainda há espaço para melhorar a eficiência. Também em termos de sustentabilidade, há muito para dizer. Uma lâmpada LED pode durar 50 mil horas e uma vela típica cerca de seis horas. Assim, precisariamos de cerca de 8 mil velas ou cerca de 350 quilogramas de velas para ter o mesmo resultado que uma lâmpada LED, sendo que a luz gerada por uma vela será cerca de mil vezes inferior. No tempo de Júlio Dinis, o uso de petróleo  (querosene) em candeeiros estava a popularizar-se mas nos seus livros este só refere candeeiros de azeite que provavemente eram menos cheirosos e fumarentos.

Finalmente, gostaria de referir os esgotos. Não existiam em geral. Os dejetos juntavam-se provavelmente com os dos animais e eram curtidos (processo em que o estrume é fermentado com palha ou outros restos vegetais dando-se o seu aquecimento o que  leva à morte de muitos microorganismos). As pessoas tinham nos quartos uma “peniqueira” e um penico onde faziam as suas necessidades (agradeço a um participante do colóquio referir isso a partir de uma fotografia que apresentei). Esse costume (de ter penicos nos quartos) continuou mesmo muito depois de se generalizarem os esgotos e casas de banho, mas hoje é só uma memória. Antes do advento dos plásticos, esses penicos eram de faiança, porcelana ou esmaltados.  

Uma antiga fábrica de papel junto ao rio Cáster depois de ser requalificado o edifício é agora a Escola de Artes e Ofícios. O fabrico artesanal de papel é bastante antigo, mas na Europa tornou-se significativo quando foram trazidas da China o conhecimento do uso de fibras vegetais para fazer papel. Logo na entrada da Escola ainda se pode ver o moinho onde eram trituradas as fibras vegetais e obtida a pasta de celulose através de um moinho de galgas (com uma espécie de mós rotativas e fixas no meio, segundo percebi e se pode intuir pela fotografia que fiz). 

Junto à escola reparei num grampo de ferro segurando duas pedras que é chumbado, ou seja tem chumbo à sua volta no encaixe do ferro com a pedra. Como já referi várias vezes, o chumbo tem um ponto de fusão relativamente baixo (327.5ºC) e é muito maleável, sendo por isso ideial para esta função antiga.  

Na Escola de Artes e Ofícios foram feitas várias esposições sobre as artes tradicionais do concelho. A primeira foi sobre a cordoaria e abarcou desde os tempos antigos e a utilização de materiais naturais (o sisal, e o cânhamo) até à atualidade com a utilização de materiais artificiais (polipropileno, polietileno, poliéster e a poliamida mais conhecida – o nylon). Em relação à atualidade há que realçar que a maior empresa portuguesa de produção de cordas, a Cordex, está localizada no concelho.  

No que concerne à roupas tradicionais, no século XIX e inicio do século XX, como se pode constatar num catálogo editado pela Câmara Municipal de Ovar, não existiam polímeros artificiais como o poliéster e as poliamidas, tendo os tecidos basicamente duas origens: vegetal ou animal. No caso das origens vegetais eram comuns o algodão e o linho, cujo material básico é a celulose, e no caso de origem animal, a seda e a lâ, cujos materiais básicos são proteínias, em particular queratina na última.   

A cerâmica de consumo tem uma tradição antiga em Ovar, como se pode verificar no muito bom catálogo da exposição relativa à olaria no concelho. E no século vinte, teve algum impacto nacional o fabrico de vasos, na fábrica Regalado e de telhas noutras fábricas. Tanto os vasos como as telhas são objetos de barro vermelho cozido, mas há também referências ao fabrico de loiça negra, as quais são cozidas como as de barro vermelho, mas em condições de pouco oxigénio para que ocorra essa incorporação de matéria negra carbonácea. Já referi várias vezes nestes passeios químicos, mas a produção de loiça de barro (aliás como as de grés e de porcelana) envolve um processo irreversível de cozedura, no qual se liberta água e se formam ligações química que asseguram a rigidez do material. Este, finamente moído, pode ser reciclado e incorporado nas pastas de cozedura, mas não volta a ser o barro que foi. Também interessante é a porosidade, tanto dos vasos e bilhas, como telhas, que acaba por ser útil de várias formas. No caso das bilhas para guardar água, essa porosidade é muito útil pois permite a lenta evaporação da água, o que, sendo um processo endotérmico (com libertação de energia), faz com que baixe a temperatura e assim mantendo a aǵua “sempre fresca”.      

O azulejo tem também bastante tradição em Ovar, que foi classificada como Cidade-Museu do Azulejo, existindo uma publicação pela Câmara Municipal de um guia com um percurso recomendado. A Câmara de Ovar assume de tal forma essa classificação que usa no seu símbolo um motivo típico de azulejos locais. Tratam-se de azulejos semi-industriais datados do século XIX e início do século XX usando três técnicas essencialmente: estampilhagem, estampagem e relevo. Na primeira aplicava-se a estampilha já depois do vidrado, na segunda antes do vidrado transparente e a última pode ser obtida usando moldes de madeira. As três técnicas envolvem cm certeza mais problemas específicos, mas consigo pensar em dois bastante óbvios: na primeira técnica tinham de ser usadas tintas que aderissem bem ao vidrado e resistissem ao tempo e no segundo caso as tintas teriam de resistir ao aquecimento, tendo se ser de compostos inorgânicos, sendo o mais comum os sais de cobalto que originam os coloridos azuis dos azulejos. Eu não tive oportunidade de visitar a capela da Válega, mas do que vi em fotos são fascinantes os seus azulejos com muitas cores que tiveram origem na Fábrica Aleluia.

Outra arte tradicinal de Ovar, era (e ainda é, mas com outros sentidos de utilidade) a tanoaria. Nesta, que chegou a ser muito mais importante que a cordoaria, como me referiu o diretor do Museu Júlio Dinis, eram produzidas barricas que serviam inicialmente para guardar peixe salgado e só depois encontraram caminho para guardar vinho. Não vou falar muito tempo desta arte, mas há muito ciência nas escolhas das madeiras, no fabrico das aduaelas e depois no uso dos barris. É o líquido interior que ajuda a impermeabilizar o conjunto e no caso do vinho e aguardentes, há uma parte que se perde absorvida e evaporando-se pelas madeiras que ao mesmo tempo transmitem sabores complexos ao líquidos. Também seria assim, penso eu, no armazenamento do peixe salgado, em que a madeira acabava por poder contribuir para os compostos que davam o sabor. 

O pão-de-ló de Ovar é muito famoso e há pouco tempo foi considerado, merecidamente, o melhor bolo do mundo. A descrição que dele é feita no livro de Luiz Dias é a seguinte: feito de ovos (especialmente gemas), açúcar e farinha, a sua estrutura é gradualmente composta, no seu todo, por uma massa muito fofa e leve, tendo na parte superior uma finíssima côdea, húmida e de cor levemente acastanhada, circundada por uma orla de massa cremosa de tom amarelo-ovo, toda ela com um magnífico e exótico aroma. Tanto os ovos, como a farinha são misturas muito complexas de materiais, mas curiosamente o açúcar, é essencialmente sacarose.
Lendo esta descrição que parece não ter nada a ver com Química, podemos facilmente referir os materiais, cores e estrururas (sacarose, côdeas, amarelo, misturas, e outras) e os processos. Quando as pessoas dizem (quase sem pensar) que "não tem químicos" referem-se às ideias de que "não tem químicos artificiais" ou "não tem químicos adicionados", mas mesmo nesses caso há ambiguidades, pois, por exemplo, o acúcar, sendo de origem natural, é obtido de "forma artificial" se consideramos o processamento. Na verdade, não há pão-de-ló sem processamento (os ovos têm de se misturar com a farinha e o açucar e têm de se levar ao forno, por exemplo). Mas que processamento bom! Tem "boa química", diriamos! 

O artista Emereciano, natural de Ovar, desenvolveu um estilo único e facilmente identificável. Queria referir dois aspetos em que a sua técnica e percurso se relacionam com a Química. Um mais direto que tem que ver com a tinta acrílica e outro, muito mais indireto e longínquo, mas que teve impacto, segundo o que este refere no catálogo, relevante na sua vida: a guerra de áfrica. Este texto já vai longo e não vou referir a química das tintas acrílicas nem a "má química" da guerra. Neste último caso, é bastante óbvio referir que são as más ações das pessoas e dos governantes que são responsáveis pela "maldade" e não os materiais ou os processos. 

Quando visitei a Museu Júlio Dinis com a Liga dos Amigos da Biblioteca Geral, estava lá uma exposição de Rosa Bela Cruz que usa uma técnica mista, mas tendo uma referência importante à pintura a óleo clássica. Também não vou referir a química envolvida na pintura a óleo, mas podemos ter a certeza que tem muita. Vou apenas referir que se a Ciência ajuda a explicar e criar a Arte, a Arte ajuda a gostar de Ciência, sendo ambas importantes para a nossa vida material e espiritual, dando a união harmoniosa das duas, a Cultura e a Alegria de Viver. 

Já depois de publicar a crónica acima, fiz alguma pesquisa sobre empresas relacionadas com a Química em Ovar. Temos bastante tendência para não pensar nas empresas que estão à nossa volta, também por estas não serem atualmente fumegantes, ruidosas e mal-cheirosas, e por cada vez mais usarem a linguagem das soluções em vez da linguagem dos produtos ou das matérias-primas, mas na verdade são estas empresas que desenvolvem muitos dos utensílios que usamos e que geram os empregos que as pessoas têm. 

Eu e uma das minhas cunhadas, Engenheira Química, numa fábrica perto de Ovar, por vezes filosofamos sobre a beleza quase escondida das instalações industriais que é infelizmente pouco conhecida. Eu tinha referido a Cordex acima, mas faz sentido referir, por exemplo, a Multicol que faz cordas finas usando polipropileno, assim como outras. Muitas das empresas desta região (mas de outras também) organizam-se em sistemas ecológicos que em vez de competirem, colaboram e diversificam. 
Não deixa de ser interessante que as empresas ligadas a produtos semelhantes ou complementares estejam muitas vezes localizadas perto. E, como referi acima, quase todas usarem a linguagem das soluções em vez da linguagem dos produtos. A Flex2000, por exemplo fabrica colções usando espumas de poliuretano, mas o que oferece são soluções de conforto, a Flexpur fabrica poliuretano, mas oferece conhecimento e soluções, EAB, fabrica espumas e solas de sapatos de látex, mas o que oferece é, mais uma vez, conforto, a Trimteck oferece soluções de fibras muito finas para o conforto e durabilidade na puericultura e na medicina e poderiamos referir outros exemplos. Estas empresas fabricas e usam poliureatano, polipropileno, polietileno, poliestireno, mas embora isso apareça na conversa o mais importante são as soluções e serviços que oferecem. As empresas ligadas ao papel, desde a pasta à embalagem, parecem também complentares e localizadas perto. Em Cortegaça encontramos a DS Smith, a PPS, Palm Packaging, entre outras. E mais uma vez o que oferecem são soluções. Na minha opinião, isto não é hipocrisia ou calculismo, mas uma verdadeira mudança de paradigma. A vantagem é óbvia, as desvantagens são a cada vez maior distância entre os consumidores e os produtores o que pode fazer com que se perca a noção das origens, dificuldades, necessidade e processos. Como eu já anteriormente referi a propósito do famoso poema de Sophia, O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que, 
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

O “erro” da civilização não é tanto Ulisses já não saber fazer ou usar um arado, mas já não ter nenhuma ideia de onde vem, para que serve e como é feito um arado.

Referências

António Manuel França de Jesus. Ovar: memórias industriais de uma urbe. Tese de Mestrado, Universidade do Minho, 2011.

Atelier d’arquitetura J. A. Lopes da Costa. Casa-Museu Júlio Dinis. Caleidoscópio, 2015.

Câmara Municipal de Ovar. 1.7 Cordoaria de Ovar – Catálogo da Exposição, 2016.

Câmara Municipal de Ovar. 3.7 Olaria de Ovar – Catálogo da Exposição, 2018.

Câmara Municipal de Ovar. Vai Passear. Ovar, cidade-museu do azulejo. s.d.

Câmara Municipal de Ovar. O trajo popular no concelho de Ovar 1850-1910, 2024.

Emerenciano Rodrigues. Querer dizer: Emerenciano, 50 anos entre a pintura e a escrita – Catálogo da Exposição. Câmara Municipal de Ovar, 2024.

Fernando Andrezo, Pedro Brás Marques, João Carlos Pinto, Luis Rodrigues, José Santa Clara. Na Fábrica. Edição de Autor, 2019.

Júlio Dinis. O Canto da Sereia (ilustração de Pedro Podre e estudo de Ana Soares Ferreira). Caleidoscópio, 2021.

Luiz Duarte de Oliveira Dias. Pão de ló de Ovar: o mais antigo e acreditado. Edição de Autor, 2010.

Maria Isabel Moura Ferreira. Azulejos tradicionais de fachada em Ovar. Câmara Municipal de Ovar, 2018.

Região de Aveiro. Barco Moliceiro – uma herança da Ria de Aveiro (2ª edição), 2025.

Revista Dunas, anos 2018-2024

Rosa Bela Cruz. Um rosto nunca é apenas um rosto – Catálogo da Exposição. Câmara Municipal de Ovar, 2025.

Sérgio P. J. Rodrigues. Química e Saúde Pública: Elementos da História de uma relação fundamental. Revista Multidisciplinar 4(2), 57-74, (2022), https://doi.org/10.23882/rmd.22087