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Passeios Químicos em Soure

[No dia 24 de novembro de 2025 realizei um Passeio Químico com alunos e professores na Escola Básica e Secundária Martinho Árias de Soure e antes reuni informação para um passeio químico nesta vila que escrevo aqui]

A entrada principal de Soure é feita por uma ponte com três secções na confluência dos rios Anços e Arunca, tendo uma elegante roda de tirar água em funcionamento. O castelo fica ao lado, e foi saqueado e destruído várias vezes pelos mouros no século XII, tendo sido doado aos Templários, primeiro por D. Teresa e depois por D. Afonso Henriques.

A água corria abundantemente e estava turva e castanha devido às partículas em suspensão. Como sabe o senso comum, quanto mais pequenas são as partículas mais tempo ficam em suspensão, sendo que abaixo de determinadas dimensões a emulsão pode ser estável. Isso acontece quando a repulsão entre as partículas compensa as suas atrações e não há formação de partículas de maiores dimensões (maiores do que cerca de um micrometro) que precipitariam por ação da gravidade, a qual se sobreporia à ação do movimento Browniano que as mantém em suspensão. Aqui estas questões não se aplicam, pois a água em movimento induz fenomenos de caos que mantém a turvação da água. Foi nisto que pensei quando cheguei e olhei para os rios, mesmo antes de entrar na vila.  

A cultura do arroz tem ainda um papel relevante com uma cooperativa de produtores e julgo que fábricas de descasque. O arroz nasce em terrenos alagados e o seu cultivo envolve muita água. Não sei como foi em Soure, mas perto de Coimbra a cultura do arroz enfrentou alguma resistência das populações locais, pois a presença de água estimulava a presença de mosquitos que transmitiam a malária, a qual era conhecida por paludismo ou febres intermitentes. Essa doença desapareceu nas zonas temperadas com a eliminação dos mosquitos mas era comum até à Segunda Guerra Mundial em toda a Europa, inclusive em cidades como Berlim. O grão de arroz é constituído essencialmente de amido, que é um polímero de glicose (na verdade há dois tipos de polímeros de glicose no amido: a amilose e a amilopectina). Não tendo glúten, que é uma mistura de proteínas que existe no trigo e noutros cereais, para algumas pessoas, alérgicas ou intolerantes ao glúten, é melhor. O cozimento do arroz é realizado para amolecer o grão que absorve água e neste processo fica mole e comestível. 

Na parte de trás da Escola Fica uma grande quinta que tem vacas, a Quinta das Nogueiras, que tem na entrada uma elegante estátua de uma rede grossa de aço inoxidável, representando um touro e uma imagem estilizada de uma nogueira do que me pareceu de bronze (mas será provavelmente de aço cor-ten). Também dignos de nota são os vidros laminados usados na vedação. Exteriormente, a construção envolve uma grande riqueza de materiais e processos, mas acontece o mesmo com as que parecem mais modestas. No que concerne às vacas parecem estar ali para a produção de carne, mas vou discutir a produção de leite. É paradoxal que só com a evolução da ciência e técnica é que se pode dar estrutura objetiva à ideia de "pureza". 

De facto, o leite não tem nada adicionado e pode ser verificada rigorosamente a sua composição. Embora continue a ser perigoso cosumir leite cru (ou seja sem ser pasteurizado e sem ser tirada gordura) e não o recomende, pois podem sempre existir contaminações, podemos hoje em dia com muito mais segurança que nos tempos antigos utilizá-lo. A pasteurização surgiu por 1870, mas só apareceu comercialmente, primeiro na Alemanha, em 1882, e no resto do mundo no séculos XX.

A Ultra High Pasteurization (UHT) apareceu em 1958 e o leite sem lactose nos anos 2000. Com a pasteurização e o rigoroso controle de qualidade, o leite, que era um meio privilegiado para a transmissão de várias infeções como a tuberculose e a febre tifoide, tornou-se muito mais seguro. Um aspeto interessante é os dos três tipos gordura no leite: gordo, meio-gordo e magro (estes nomes são bastante enganadores e há várias propostas para os mudar). As designações correspondem a limites mínimos de gordura, respetivamente 3%, 1.5% e 1%. Ora no leite, as proteínas estão dentro das partículas de gordura e baixar a percentagem de gordura origina baixa das percentagens de proteína.         

Diz Nelson Correia Borges que a vila foi muito renovada na segunda metade do século XVIII, época da qual há ainda casas com fachadas bem ordenadas, sendo os Paços do Conselho feitos em estilo neo-manuelino com cantarias de João Machado. S. Rijo venera-se na capela de S. Mateus, sendo a paga dos favores feita com prendas insólitas e irreverentes: espigas de milho roubadas no caminho, pulgas aprisionadas num canudo, uma cambalhota no adro da capela e até, pasme-se, mostrar o traseiro ao santo! Já tenho o livro há algum tempo e sempre achei bastante piada a este trecho e vontade de ir à romaria, mas nunca se propiciou. Há com certeza alguma química na irreverência saudável!

Ainda segundo este autor, a atual igreja de Santiago foi mandada construir por D. Manuel I, ainda antes de ser rei. Estava fechada quando lá fui e não entrei. Mas notei a bonita fonte em frente, onde se podem ver os efeitos dos sais presentes na água e os grampos usados para segurar as pedras (olhando melhor para a fotografia, podem não ser bem vísiveis). 

Na rua que conduz aos Paços do Conselho há um elegante monumento aos mortos da Primeira Guerra Mundial. Esta guerra que originou cerca de oito milhões de vítimas, foi a primeira em que se usaram gases químicos modernos os quais logo em seguida foram banidos. Estima-se que que tenha causado cerca de 180 mil vítimas, mas ficou no imaginário das pessoas como uma coisa muito bárbara, como se matar com bombas, balas e baionetas e de fome e doença não o fosse também. 

O que quero dizer com isto, é que as guerras são sempre más começando com a ideia de que o inimigo é fácil de vencer e culpado de tudo e mais alguma coisa e vai evoluindo até se aceitarem as coisas mais inaceitáveis. No final, resta um monte de escombros, uma grande extensão de terras inabitáveis e uma quantidade impressionante de vítimas. Ainda há terras que não podem ser cultivadas em França onde ficavam a maior parte das trincheiras da Primeira Guerra Mundial e ainda há lugares com bombas enterradas não rebentadas, com ossos humanos de vítimas das guerras, assim como minas em muitos lugares. Que é que a Química tem a ver com isto? Quase nada, mas tendo contribuído para a tecnologia militar muitas parece ser a culpada em vez dos verdadeiros culpados que são os serem humanos que comandaram isto.   

A antiga Fábrica de Fiação de Tecidos do Paleão, que macerava, fiava e tecia linho, agora fechada, era possuidora de uma das mais antigas e imponentes máquinas a vapor portuguesas. Esta é agora propriedade da Fundação Belmiro de Azevedo e pode ser vista no Norte Shopping. No início do seu uso, cada fábrica tinha em geral só uma máquina que através de correias de transmissão servia toda a fábrica para as operações necessárias. As máquinas a vapor, como o próprio nome indica, funcionavam com a pressão originada pelo vapor, o qual era aquecido com um combustível que poderia ser carvão ou lenha. Estas máquinas eram muito pouco eficientes e poluentes, sendo que a sua maior eficiência era obtida conseguindo aquecer o vapor a temperaturas mais altas, o que se poderia obter com maiores pressões, o que por seu lado causava outros problemas. A máquina a vapor foi desenvolvida por James Watt que terá ficado chocado com a menor eficiência das máquinas anteriores. 

Houve alguns contributos portugueses para as melhorias destas máquinas, nomeadamente de Bento de Moura Portugal (1706-1760) que foi preso no Forte da Junqueira a mando do Marquês de Pombal onde viria a morrer passados seis anos. Não foi preso devido aos desenvolvimentos propostos, mas antes pelas suas ideias religiosas e políticas, mas por aqui se vê como se tinha apreço pela liberdade de pensamento. Muitos outros fizeram propostas (estou-me a lembrar do visconde de Vilarinho de S. Romão), mas as contribuições portuguesas são praticamente insignificantes, penso eu, também por essa "mania" nacional de perseguir quem faz coisas diferentes.   

Mas embora tenha sido um revés importante o fecho da fábrica anterior, na zona Industrial de Soure podemos encontrar várias empresas relevantes, inclusive ligadas à química. A multinacional Exlabesa, líder mundial no fabrico de componentes industriais de alumínio, a Omya o maior produtor mundial de minerais essenciais e um distribuidor internacional de produtos especializados, e ainda a Reciclocentro, empresa de reciclagem de vários materiais.

Indústrias relevantes do concelho de Soure são também a exploração de minas de gesso e as pedreiras, mais para o lado do Rabaçal. A análise dos calcários de Tapeus referida por Carlos Lobato indica em geral mais de 95% de carbonato de cálcio, tendo uma amostra 97% e outra 99%.  

Na escola as grelhas de saneamento parecem ter (não vi) a conhecida frase “o mar começa aqui”, mas devemos meditar nisto de várias maneiras. Primeiro, que num sistema de saneamento bem planeado a circulação das águas pluviais não se mistura com as águas dos esgotos domésticos que podem ser em muito menos quantidade e têm de ser tratados. Segundo, isso faz com que essas águas tenham acesso muito mais fácil aos rios e mar e portanto devem ser usados de forma conveniente.    

Há também na escola, uma estrutura em forma de cegonha onde se podem colocar plásticos para reciclar. Como já referi noutros passeios, os plásticos permitem em geral maior sustentabilidade e a expansão das possibilidades, mas têm de ser usados com parcimonia e sensatez. A redução dos usos desnecessários e a reciclagem são fundamentais. 

Estas são algumas notas que posso ir atualizando, mas, por agora, parecem-me estar completas.

Bibliografia

Nelson Correia Borges. Coimbra e Região. Editorial Presença, 1987

Jorge Custódio. A máquina a vapor de Soure. Fundação Belmiro de Azevedo, 1998.

Fernando Macedo, Miguel Helfrich. Vila de Soure : um passeio. Edição de Autor, 2009.

Carlos Pires Lobato. Calcários de Tapeus – Soure : elementos técnicos para diagnóstico da cozedura em fornos de cal. Separata do Boletim de minas, 18(2), 1981. 

Isabel Morgado. Soure : uma mui antiga terra da Estremadura. Câmara Municipal de Soure, 1996.

Vera Lúcia Rodrigues. Retratos de Soure. Edições Colibri, 2025.

Russell W. Currier, John A. Widness. A Brief History of Milk Hygiene and Its Impact on Infant Mortality from 1875 to 1925 and Implications for Today: A Review. Journal of Food Protection, 81(10), 2018, 1713–1722. doi:10.4315/0362-028X.JFP-18-186

Passeio químico em Milão

[Aproveitando que estive em Milão no fim de semana de 10 de março, fiz algumas fotografias e realizei alguns reflexões para este passeio químico]  

Milão é conhecida como a capital da moda e, de facto, inúmeras montras e espaços são muito inovadores. Foram incontáveis os momentos em que fomos vendo e discutindo as soluções estéticas e técnicas das montras. Houve uma marca em particular que nos entusiasmou pela beleza do resultado. Usavam grandes quantidades de algodão nas cabeças dos manequins para estas parecerem nuvens. 

Noutra montra, espantou-nos o inesperado de "esculpir" pães como pantufas. Outra ainda ao colocar brilhantes em bananas. E muitas vezes procuravam efeitos provocadores, como um oculista que tinha na montra armações para supostos tipos humanos: intelectual, homossexual, etc. Tudo isto pode ser interessante, mas a parte técnica que está por detrás, em particular a Química, também é. Desde logo as montras podem ser atualmente de vidros enormes por hoje em dia ser possível fazer vidros planos muito grandes sem defeitos e muito mais seguros. 

Como já referi em várias ocasiões, ao solidificar o vidro em estanho líquido podemos obter superfícies muito planas de grande dimensão. Mas isso não chega: esse vidro é perigoso pois pode quebrar e fazer gumes enormes que em várias circunstâncias causaram vítimas. Aquecendo e arrefecendo o vidro de forma especial podemos obter vidro temperado que aos estar em tensão vai estilhaçar em pedaços pequenos com o impacto. Podemos “ver” esses vidros com as lentes dos óculos polarizadas, ou mesmo em determinadas condições luminosas. Nessas condições, o vidro apresenta-se como uma espécie de malha mais ou mesmos regular. Mas isso também não chega. Mesmo os estilhaços podem causar danos. O vidro pode ainda ser laminado ou duplo, ou todas as coisas ao mesmo tempo. No caso do vidro laminado, basicamente as superfícies de dois ou mais vidros são unidas por um polímero (noutro texto expliquei que polímero poderia ser). Isso faz com que se o vidro quebrar não se separe, ficando colado ao polímero. Os vidros podem ainda ter camadas do outros polímeros, ou terem rugosidade microscópicas, para se evitar os reflexos. Todas estas soluções encontram uso nos carros, nos vidros dos museus e em nossas casas.

Mas não são os apenas os vidros das montras que nos podem espantar. A forma como são realizadas as obras também. Na montra de uma marca bem conhecida, as bases onde assentava o calçado era de espuma de poliuretano (PU). A mesma espuma que é usada na construção para fazer "uniões sem pregos". Se usaram os tubos comercializados com esse polímero para fazer essas bases, usaram bastantes! E o que é o PU? É um polímero muito versátil em que os monómeros estão unidos por ligações uretano (sem usar mais termos técnicos, a ligação é feita por grupos -NHCOO-). Estes polímeros são extremamente versáteis, podendo ser usados nestas espumas, nas espumas dos colchões e em materias que “imitam” couro (na verdade são muito mais versáteis do que simplesmente "imitar"), entre muitas outras aplicações. É importante fazer duas considerações sobre estes últimos usos. Se as espumas do colchões tiverem poros muito pequenos, o ar tem dificuldade em entrar e sair, criando um efeito de “memória da forma” que é muito publicitado. E no caso dos polímeros que “imitam” couro há a considerar a sustentabilidade e a proteção da vida dos animais que este uso permite. 

Ainda nessa montra, podemos ver ao fundo roupas de ganga tingidas com índigo. Também já referi várias vezes que se trata de uma molécula natural muito estável, mas pouco solúvel. Para a usar no tingimento tem de passar para uma forma reduzida que tem mais dois átomos de hidrogénio, conhecida como leucoindigo que é verde-amarelado. Nestes processos é usada muita água e um tema de investigação e desenvolvimento é diminuir essa quantidade, assim como o desperdício do corante. A sua produção tem também aspetos químicos interessantes. 

O índigo natural é produzido por várias plantas além do índigo – em Portugal pelo pastel dos tintureiros. Mas a produção natural pode não ser a mais sustentável. Sendo que a planta produz uma pequena quantidade (cerca de 0.3%) do corante, precisaríamos de muito área arável com a planta para produzir as 50 a 60 toneladas usadas anualmente em todo o mundo. Uma estimativa grosseira aponta para toda a área arável de um país como Portugal. Estão a ver o resultado? Se todo o índigo fosse de origem natural, poderíamos ficar sem espaços para outras culturas. Isso aconteceu realmente com as plantações nas colonias americanas. E podemos imaginar a quantidade de água e pesticidas que seriam usados, etc. Em contrapartida, esta molécula pode ser produzida de forma muito mais sustentável por síntese em fábricas. Infelizmente, o uso excessivo, a moda, em particular o “fast-fashion”, anulam uma boa parte destes ganhos de sustentabilidade, mas voltaremos a este assunto.       

 Várias outras montras que vimos usavam polímeros. Aliás essa era a norma, pois os polímeros além de serem facilmente obtidos e do baixo custo, permitem uma gama muito grande de utilizações. A montra de uma outra marca bem conhecida apresentava muitas cores, com objetos de grandes dimensões e revestimentos de, claro, polímeros (ou se quiserem usar o termo comum para alguns tipos de polímeros “plásticos”). E isso não é afinal mau como veremos e, sobretudo, deve ser compreendido.

Outra montra que nos chamou a atenção, foi a de uma marca cujo negócio era fazer sapatos de tenis recondicionados (essa valorização é conhecida no mundo da moda por upcycling). Na montra podíamos ver as máquinas de lavar, onde estes eram lavados, as máquinas de costura, onde estes eram reparados e onde lhes acrescentavam materiais e uma grande quantidade de tenis pendurados e, claro, os resultados. A ideia é interessante, e uma boa parte da modo é já assim: reutilização e reciclagem de objetos antigos. Mas o “fast-fashion” incentivado por os custos de produção e venda serem mais baixos, pode anular esses ganhos, como já referi. Os sapatos de tenis dessa marca, mesmo recondicionados, eram bastante caros. Uma das formas de minimizar o “fast-fashion” é aumentar os preços. Há várias marcas que fazem isso, e inclusive publicitam-no. E fazem-no porque essa estratégia comercial os favorece. Isto é extremamente complexo, mas os incentivos positivos e as tensões que se estabelecem, podem ajudar a que as coisas melhorem (talvez). Em todo o caso, dificilmente sairemos deste sistema que se vai metamorfoseando, renovando e absorvendo as inovações, muitas vezes de forma paradoxal.

Vou achar a atenção para duas coisas que vimos em Milão e que ilustram de forma clara o que referi no parágrafo anterior. A primeira é a estátua enorme com um manguito em frente a bolsa de valores, feita de mármore. Instalada de forma efémera, foi decidido mantê-la de forma permanente. Que imagem melhor para as contradições intrínsecas e às quais não podemos escapar do capitalismo? Outra é a nova tradição de oferecer às mulheres ramos de flores de acácia. Nós chegámos no Dia da Mulher e havia imensos vendedores com ramos dessas flores para venda. E num supermercado vimos que o preço poderia ser de dez euros! Como?
Depois de alguma investigação, cheguei a uma mulher política italiana que terá dito para oferecerem flores de acácia, que eram de graça, em vez de rosas. Podemos ver que logo o capitalismo se adaptou para obter dinheiro com algo que poderia ser de graça. São incontáveis os exemplos desse tipo. Se é possível ganhar dinheiro com algo, ou gastar menos dinheiro, logo alguém descobre uma forma engenhosa de o fazer.  Mas pode não ser a primeira nem a única pessoa que tenta. Muitos acabam por não conseguir, ou ganhando no princípio, a longo prazo perdem. Mas podemos acabar com esse sistema? A história tem-nos mostrado que as revoluções utópicas que pretendem  terminar com este estado de coisas acabam por ser absorvidas e, se forem mais violentas e impostas, não funcionam de todo a longo prazo, embora possam mostrar que existem novos caminhos, ou caminhos que não devemos seguir. Mas a verdade é que das várias convulsões e tensões que têm existido surgiram muitas melhorias.            

Tinham-nos dito que Milão se via num dia. Nunca acreditamos nisso, mas a verdade é que as coisas mais antigas e “turísticas” estão bastante perto umas das outras e, se se fizer um percurso puramente turistico, rapidamente se vê tudo o que os turistas procuram. Ora, Milão é muito mais do que isso. Para começar é uma cidade enorme. Tem mais de um milhão de habitantes no centro e estima-se a população à sua volta em mais de quatro milhões na zona. O seu comércio, serviços, indústrias e população geram riqueza para que a cidade seja considerada uma das maiores da Europa. Por isso a recolha de lixo, o abastecimento de água, o uso de eletricidade e a organização do tráfego e segurança das ruas são só por si enormes empreendimentos de engenharia.

 Há uma cidade que vive para além do turismo e das feiras de moda e arte. E há, na minha opinião, uma cidade que só se conhece indo ao local. Por exemplo, nós ficamos na “China Town”, de que nunca tínhamos ouvido falar, e que corresponde à ideia que temos dessas cidades, mas que à noite se enche de jovens para comer noodles e beber cerveja relativamente barata. Eu nunca teria imaginado se não tivesse estado lá. Depois a zona dos canais de Navigli, que também não conhecíamos dos guias, é muito interessante. Obviamente, as cidades florescentes surgiram onde havia muita água disponível, mas aqui foi mais do que isso. 

Os canais serviam também para transporte como foi feito em muitas das grandes cidades. Eu que tinha ido a Milão a reler o livro de Alessando Manzoni, “Os noivos”, passado em Milão do século XVIII, ocupada pelos castelhanos, meditei em tudo isto, enquanto andava por ali a ver os livros usados. Este livro é o equivalente dos “Maias” de Eça de Queirós que todos os alunos leem na escola, e que é na minha opinião, um contraponto, do “Crime do Padre Amaro” onde todos os padres são bons exceto um, que não sendo propriamente mau, revela-se um covarde. É engraçado, mas não tanto como o crime do padre Amaro, nem como os Maias. Mas julgo que é um marco da unificação da língua italiana. Que é que isto tem a ver com Química? Na verdade, é bastante pouco, mas o suficiente para perceber que o mundo nao se desenvolvia sem química.      

Claro que vimos a catedral, as Galerias Vitorio Emanuele II, o Teatro La Scala e as famosas pinacotecas de Brera e Ambrosina, em particular tivemos muito tempo nesta última. Vimos a famosa biblioteca e uma exposição de desenhos de Leonardo da Vinci. Não fomos ver a sua última ceia de Leonardo que está a levantar problemas de conservação, mas fomos ao mosteiro de São Maurício que tem todas as paredes pintadas. Estivemos no Castelo de Sforza, vimos o Arco da Paz, fomos à Porta Nuova e aos triângulo da moda. Não fomos ver o estádio de San Siro, onde jogam duas equipas de futebol (o Inter e o A.C Milan). Quis o acaso que em Navigli estivesse uma quantidade enorme de adeptos de uma equipa checa que tinha jogado com uma das outras duas (não sei qual) e estavam a beber cerveja e entoar cânticos que pareciam ser em português, mas obviamente não eram. 

Na Pinacoteca Ambrosiana, vimos vários quadros de Ticiano e outros autores bem conhecidos. Uma pintura de Maria Madalena, lembrou-me que tinha lido um artigo sobre a identificação de hipotiroidismo num desses quadros numa modelo. O quadro que estava lá não parecia ter todas as características indicadas para o diagnóstico de hipotiroidismo como a cópia da Galleria Pamphilj em Roma, mas em qualquer dos casos, o pescoço parece ser compatível com a presença de bócio. Na altura, não havia qualquer ideia, obviamente, de que se tratava uma doença devida à falta de Iodo, que poderia ser provocada por deficiente produção de hormonas da toroide, ou por uma alimentação inadequada.      

Nesta pinacoteca, havia várias coisas que poderíamos considerar bizarras. Umas luvas que terão sido de Napoleão Bonaparte, estátuas colocadas em locais escuros, uma capa oferecida supostamente por indígenas há muito tempo, com penas de aves, objetos com escamas de peixe e corais que pareciam mal conservados. Mas o que me chamou mais a atenção foram uns caracóis de cabelo muito louros numa caixa atribuídos a Lucrezia Borgia. Eu achei muito estranho que fossem da famosa Lucrezia Borgia, mas podia comparar isso com umas madeixas de cabelo que estão no Museu Romântico no Porto de cabelos atribuídos a Inês de Castro. Acontece que estes cabelos foram descobertos numa carta que esta trocou no século XVI com o seu amante Pietro Bembo, entre 1502 e 1506, quando casou com o Duque de Ferrara, li num guia. 

Ao passarmos no grande jardim central, depois do Arco da Paz (este tinha sido vandalizado com tinta laranja, em novembro de 2023, por ativistas do clima e ainda lá estavam os efeitos), fomos um pouco por acaso ao espaço da Triennale onde havia um grande exposição de obras de Ron Mueck, além da exposição permanente sobre o design italiano. Para quem não sabe, Ron Mueck é um dos expoentes da arte hiper-realista, mas o que torna as suas obras únicas e facilmente identificáveis são as dimensões inusitadas. Estava lá a conhecida escultura da mulher na cama (In Bed, 2005) cuja cama tem seis metros e meio de comprimento por quase quatro metros de largura, assim com a mulher com um feixe de paus (Woman with Sticks, 2009), mas era surpreendente o "depósito" de caveiras gigantes (Mass, 2016-2017) e várias outras obras.
Obviamente tudo isto envolve muito trabalho, polímeros, vernizes e fibras, assim como novos métodos de fabricação. Em particular em Mass são cem caveiras gigantes com cerca de 40 a 45 quilogramas cada uma, feitas de fibra de vidro e resinas, acabadas à mão pelo artista. No caso de In Bed são usados vários materiais. Do que li, além do algodão dos lençóis e fronhas, a personagem humana envolve uma armação de ferro coberta com gesso e pasta de modelar coberta com polímero de silicone. Uma das obras ainda não estava ainda acabada (This little piggy), e e apresentada como uma maquete.

Na exposição permanente do design estavam muitos ícones do século XX. Chamou-me a atenção o primeiro computador pessoal de Olivetti e muitos objetos que usavam o novo material que eram os plásticos, ou de forma geral os polímeros. Ao olhar para tudo aquilo não podemos ver o plástico como um “sucedâneo” como é referido num famoso texto de Roland Barthes, mas como um coisa nova, nobre e única. 

Os plásticos não imitam apenas. Vieram acrescentar aos cinco materiais tradicionais que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais (os metais, a pedra, os animais, nomeadamente o couro, os vegetais, de que são exemplo os tecidos e a cortiça, e os cerâmicos), um conjunto muito grande de outras possibilidades. O primeiro computador não militar desenvolvido e vendido por Olivetti a partir de 1959 é o ELEA. Tanto a Química como as outras ciências começaram a usar computadores mal estes ficaram disponíveis. 

Mais à frente na exposição podem ver-se propostas para instrumentos laboratoriais de Química. E achei muito interessante ter propostas relativas ao desenho de formar de purificar água com a radiação solar, assim como a "anatomia" de uma torneira. Estas duas entradas são na minha opinião muito interessantes pois permitem ver para dentro desta. Olhando com atenção vemos a combinação de materiais: o cromado exterior e o latão ou cobre interior. O cromado, como o nome indica, envolve a deposição de uma canada de cromo na superfície, e o latão é uma liga de cobre e zinco. Já devem ter visto torneiras antigas com camadas verdes que começam a aparecer. Isso é devido à oxidação do cobre. Do que li, as camadas de cromo decorativo variam de espessura entre cerca de 0,1 e 0,2 micrómetros. 

É preciso ser um geólogo experimentado e que conheça bem o local para conseguir identificar com alguma segurança as rochas usadas na construção e estatuária. Mas como eu costumo dizer também:  é preciso olhar com atenção. A mim chamou-me a atenção a utilização em Milão de rochas que tinham muitas conchas, o que me parecia estranho dado que não há mar perto e geralmente as rochas usadas na construção não vêm de muito longe. 

Depois de alguma pesquisa pareceram-me ser calcários detríticos do Vale de Ceresio, a cerca de 70 quilómetros de Milão. Olhando com mais atenção para a fotografia, há um conjunto de rochas diferentes que não consigo “ler”. Algumas parecem ser granito, outras calcárias, mas não me atrevo a propor hipóteses. O que é certo é que as rochas usadas na construção não poderiam vir de muito longe. Do que li têm sido usados, além dos calcários detríticos de Ceresio,  granitos, mármore e gneiss do vale de Ossola, que fica a cerca de 40 quilómetros, dolomias do Lago Maggiore, que fica a cerca de 100 quilómetros, arenitos de Brianza, que fica a cerca de 40 quilómetros, conglomerados e arenitos da bacia do Rio Adda, a cerca de 50 quilómetros, e pedra calcária negra e mármore do Lago Como, também a cerca de 50 quilómetros. 

O Museu da Ciência de Milão é enorme. Além das exposições típicas de um museu deste tipo, tem um submarino, um foguete, aviões, locomotivas, carruagens, barcos e muitas outras coisas. A parte da Física das partículas é muito desenvolvida, com partes de aceleradores e outros objetos. Também o Espaço, com fatos espaciais e réplicas (penso que o sejam) de satélites, além de ter bastantes coisas interativas. Chamou-me a atenção o elevado número de oficinas para crianças em corredores envidraçados. Além de muitas outras, tinha uma grande exposição permanente sobre a indústria metalúrgica e sobre todos os aspetos da produção, reciclagem e uso de alumínio. 

Nunca mais encontrava aquilo que mais procurava: a bancada de Giulio Natta. Este cientista trabalhou em Milão e foi Prémio Nobel em 1963 pela descoberta de nova vias sintéticas para a produção de polímeros, em  particular polipropileno. É preciso notar que este, assim como os cientistas da altura, não descobriram apenas novas formas de fabricação de plásticos. Encontram novas formas de os produzir com baixo custo e menos desperdício de materiais e energia, aumentando a sua potencial sustentabilidade, e controlar as suas propriedades, abrindo acima a porta a fazer reações que tiveram (e ainda têm) impacto no desenvolvimento de fármacos e novos materiais. Ou seja, este Premio Nobel não deve ser valorizado “apenas” pela produção de plásticos, mas pelos muitos desenvolvimentos que proporcionou, em particular em algo que é hoje muito valorizado: a catálise assimétrica.  

Depois de algumas conversas com guias e monitores acabei por descobrir onde estava. Mas estava fechada, numa ala dedicada à indústria química. Na altura pareceu-me uma coincidência, mas, poderia não ser. Entrava em dissonância com outras grandes exposições que o museu também tinha sobre os plásticos nos oceanos, e, como era fim de semana e o museu estava cheio de famílias, talvez não quisessem originar polémica. 

Ora, na minha opinião, não deveremos escamotear estas questões (devendo os museus ser espaços de debate e liberdade), pois o plástico é, e ainda é, uma grande, invenção que permite muito mais sustentabilidade e versatilidade. Sem este material não teríamos telemóveis e computadores e devido a este podemos ter óculos e muitos outros instrumentos mais práticos e sustentáveis. E continua a haver investigação e a aparecerem novas aplicações. Se nos espaços públicos continuarem a insistir nestas ideias maniqueístas, corremos o risco de não salvar o bebé, mas de o deitar fora com a água do banho. Não tenho pena dos fabricantes que hão-se em média sempre encontrar formar de ganhar dinheiro, mas de toda a sociedade que perde acesso a um debate complexo, a um drama denso, cheio de contradições, e não apenas a contos de fadas ou histórias de terror que os infantilizam. Quando visitei o museu, nessa exposição dos plásticos, estava um visita de estudo com deficientes mentais pouco profundos e podia-se ver as caras de raiva destes perante os horrores que eram os plásticos nos mares.   

Fomos no último dia ao cemitério monumental de Milão rapidamente. Estava a chover torrencialmente, mas valeu a pena, dada a qualidade das esculturas e das inovações na arquitetura mortuária. A logo prazo todos morrem, claro, mas podemos aumentar a esperança e qualidade de vida.