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Passeio químico em Milão

[Aproveitando que estive em Milão no fim de semana de 10 de março, fiz algumas fotografias e realizei alguns reflexões para este passeio químico]  

Milão é conhecida como a capital da moda e, de facto, inúmeras montras e espaços são muito inovadores. Foram incontáveis os momentos em que fomos vendo e discutindo as soluções estéticas e técnicas das montras. Houve uma marca em particular que nos entusiasmou pela beleza do resultado. Usavam grandes quantidades de algodão nas cabeças dos manequins para estas parecerem nuvens. 

Noutra montra, espantou-nos o inesperado de "esculpir" pães como pantufas. Outra ainda ao colocar brilhantes em bananas. E muitas vezes procuravam efeitos provocadores, como um oculista que tinha na montra armações para supostos tipos humanos: intelectual, homossexual, etc. Tudo isto pode ser interessante, mas a parte técnica que está por detrás, em particular a Química, também é. Desde logo as montras podem ser atualmente de vidros enormes por hoje em dia ser possível fazer vidros planos muito grandes sem defeitos e muito mais seguros. 

Como já referi em várias ocasiões, ao solidificar o vidro em estanho líquido podemos obter superfícies muito planas de grande dimensão. Mas isso não chega: esse vidro é perigoso pois pode quebrar e fazer gumes enormes que em várias circunstâncias causaram vítimas. Aquecendo e arrefecendo o vidro de forma especial podemos obter vidro temperado que aos estar em tensão vai estilhaçar em pedaços pequenos com o impacto. Podemos “ver” esses vidros com as lentes dos óculos polarizadas, ou mesmo em determinadas condições luminosas. Nessas condições, o vidro apresenta-se como uma espécie de malha mais ou mesmos regular. Mas isso também não chega. Mesmo os estilhaços podem causar danos. O vidro pode ainda ser laminado ou duplo, ou todas as coisas ao mesmo tempo. No caso do vidro laminado, basicamente as superfícies de dois ou mais vidros são unidas por um polímero (noutro texto expliquei que polímero poderia ser). Isso faz com que se o vidro quebrar não se separe, ficando colado ao polímero. Os vidros podem ainda ter camadas do outros polímeros, ou terem rugosidade microscópicas, para se evitar os reflexos. Todas estas soluções encontram uso nos carros, nos vidros dos museus e em nossas casas.

Mas não são os apenas os vidros das montras que nos podem espantar. A forma como são realizadas as obras também. Na montra de uma marca bem conhecida, as bases onde assentava o calçado era de espuma de poliuretano (PU). A mesma espuma que é usada na construção para fazer "uniões sem pregos". Se usaram os tubos comercializados com esse polímero para fazer essas bases, usaram bastantes! E o que é o PU? É um polímero muito versátil em que os monómeros estão unidos por ligações uretano (sem usar mais termos técnicos, a ligação é feita por grupos -NHCOO-). Estes polímeros são extremamente versáteis, podendo ser usados nestas espumas, nas espumas dos colchões e em materias que “imitam” couro (na verdade são muito mais versáteis do que simplesmente "imitar"), entre muitas outras aplicações. É importante fazer duas considerações sobre estes últimos usos. Se as espumas do colchões tiverem poros muito pequenos, o ar tem dificuldade em entrar e sair, criando um efeito de “memória da forma” que é muito publicitado. E no caso dos polímeros que “imitam” couro há a considerar a sustentabilidade e a proteção da vida dos animais que este uso permite. 

Ainda nessa montra, podemos ver ao fundo roupas de ganga tingidas com índigo. Também já referi várias vezes que se trata de uma molécula natural muito estável, mas pouco solúvel. Para a usar no tingimento tem de passar para uma forma reduzida que tem mais dois átomos de hidrogénio, conhecida como leucoindigo que é verde-amarelado. Nestes processos é usada muita água e um tema de investigação e desenvolvimento é diminuir essa quantidade, assim como o desperdício do corante. A sua produção tem também aspetos químicos interessantes. 

O índigo natural é produzido por várias plantas além do índigo – em Portugal pelo pastel dos tintureiros. Mas a produção natural pode não ser a mais sustentável. Sendo que a planta produz uma pequena quantidade (cerca de 0.3%) do corante, precisaríamos de muito área arável com a planta para produzir as 50 a 60 toneladas usadas anualmente em todo o mundo. Uma estimativa grosseira aponta para toda a área arável de um país como Portugal. Estão a ver o resultado? Se todo o índigo fosse de origem natural, poderíamos ficar sem espaços para outras culturas. Isso aconteceu realmente com as plantações nas colonias americanas. E podemos imaginar a quantidade de água e pesticidas que seriam usados, etc. Em contrapartida, esta molécula pode ser produzida de forma muito mais sustentável por síntese em fábricas. Infelizmente, o uso excessivo, a moda, em particular o “fast-fashion”, anulam uma boa parte destes ganhos de sustentabilidade, mas voltaremos a este assunto.       

 Várias outras montras que vimos usavam polímeros. Aliás essa era a norma, pois os polímeros além de serem facilmente obtidos e do baixo custo, permitem uma gama muito grande de utilizações. A montra de uma outra marca bem conhecida apresentava muitas cores, com objetos de grandes dimensões e revestimentos de, claro, polímeros (ou se quiserem usar o termo comum para alguns tipos de polímeros “plásticos”). E isso não é afinal mau como veremos e, sobretudo, deve ser compreendido.

Outra montra que nos chamou a atenção, foi a de uma marca cujo negócio era fazer sapatos de tenis recondicionados (essa valorização é conhecida no mundo da moda por upcycling). Na montra podíamos ver as máquinas de lavar, onde estes eram lavados, as máquinas de costura, onde estes eram reparados e onde lhes acrescentavam materiais e uma grande quantidade de tenis pendurados e, claro, os resultados. A ideia é interessante, e uma boa parte da modo é já assim: reutilização e reciclagem de objetos antigos. Mas o “fast-fashion” incentivado por os custos de produção e venda serem mais baixos, pode anular esses ganhos, como já referi. Os sapatos de tenis dessa marca, mesmo recondicionados, eram bastante caros. Uma das formas de minimizar o “fast-fashion” é aumentar os preços. Há várias marcas que fazem isso, e inclusive publicitam-no. E fazem-no porque essa estratégia comercial os favorece. Isto é extremamente complexo, mas os incentivos positivos e as tensões que se estabelecem, podem ajudar a que as coisas melhorem (talvez). Em todo o caso, dificilmente sairemos deste sistema que se vai metamorfoseando, renovando e absorvendo as inovações, muitas vezes de forma paradoxal.

Vou achar a atenção para duas coisas que vimos em Milão e que ilustram de forma clara o que referi no parágrafo anterior. A primeira é a estátua enorme com um manguito em frente a bolsa de valores, feita de mármore. Instalada de forma efémera, foi decidido mantê-la de forma permanente. Que imagem melhor para as contradições intrínsecas e às quais não podemos escapar do capitalismo? Outra é a nova tradição de oferecer às mulheres ramos de flores de acácia. Nós chegámos no Dia da Mulher e havia imensos vendedores com ramos dessas flores para venda. E num supermercado vimos que o preço poderia ser de dez euros! Como?
Depois de alguma investigação, cheguei a uma mulher política italiana que terá dito para oferecerem flores de acácia, que eram de graça, em vez de rosas. Podemos ver que logo o capitalismo se adaptou para obter dinheiro com algo que poderia ser de graça. São incontáveis os exemplos desse tipo. Se é possível ganhar dinheiro com algo, ou gastar menos dinheiro, logo alguém descobre uma forma engenhosa de o fazer.  Mas pode não ser a primeira nem a única pessoa que tenta. Muitos acabam por não conseguir, ou ganhando no princípio, a longo prazo perdem. Mas podemos acabar com esse sistema? A história tem-nos mostrado que as revoluções utópicas que pretendem  terminar com este estado de coisas acabam por ser absorvidas e, se forem mais violentas e impostas, não funcionam de todo a longo prazo, embora possam mostrar que existem novos caminhos, ou caminhos que não devemos seguir. Mas a verdade é que das várias convulsões e tensões que têm existido surgiram muitas melhorias.            

Tinham-nos dito que Milão se via num dia. Nunca acreditamos nisso, mas a verdade é que as coisas mais antigas e “turísticas” estão bastante perto umas das outras e, se se fizer um percurso puramente turistico, rapidamente se vê tudo o que os turistas procuram. Ora, Milão é muito mais do que isso. Para começar é uma cidade enorme. Tem mais de um milhão de habitantes no centro e estima-se a população à sua volta em mais de quatro milhões na zona. O seu comércio, serviços, indústrias e população geram riqueza para que a cidade seja considerada uma das maiores da Europa. Por isso a recolha de lixo, o abastecimento de água, o uso de eletricidade e a organização do tráfego e segurança das ruas são só por si enormes empreendimentos de engenharia.

 Há uma cidade que vive para além do turismo e das feiras de moda e arte. E há, na minha opinião, uma cidade que só se conhece indo ao local. Por exemplo, nós ficamos na “China Town”, de que nunca tínhamos ouvido falar, e que corresponde à ideia que temos dessas cidades, mas que à noite se enche de jovens para comer noodles e beber cerveja relativamente barata. Eu nunca teria imaginado se não tivesse estado lá. Depois a zona dos canais de Navigli, que também não conhecíamos dos guias, é muito interessante. Obviamente, as cidades florescentes surgiram onde havia muita água disponível, mas aqui foi mais do que isso. 

Os canais serviam também para transporte como foi feito em muitas das grandes cidades. Eu que tinha ido a Milão a reler o livro de Alessando Manzoni, “Os noivos”, passado em Milão do século XVIII, ocupada pelos castelhanos, meditei em tudo isto, enquanto andava por ali a ver os livros usados. Este livro é o equivalente dos “Maias” de Eça de Queirós que todos os alunos leem na escola, e que é na minha opinião, um contraponto, do “Crime do Padre Amaro” onde todos os padres são bons exceto um, que não sendo propriamente mau, revela-se um covarde. É engraçado, mas não tanto como o crime do padre Amaro, nem como os Maias. Mas julgo que é um marco da unificação da língua italiana. Que é que isto tem a ver com Química? Na verdade, é bastante pouco, mas o suficiente para perceber que o mundo nao se desenvolvia sem química.      

Claro que vimos a catedral, as Galerias Vitorio Emanuele II, o Teatro La Scala e as famosas pinacotecas de Brera e Ambrosina, em particular tivemos muito tempo nesta última. Vimos a famosa biblioteca e uma exposição de desenhos de Leonardo da Vinci. Não fomos ver a sua última ceia de Leonardo que está a levantar problemas de conservação, mas fomos ao mosteiro de São Maurício que tem todas as paredes pintadas. Estivemos no Castelo de Sforza, vimos o Arco da Paz, fomos à Porta Nuova e aos triângulo da moda. Não fomos ver o estádio de San Siro, onde jogam duas equipas de futebol (o Inter e o A.C Milan). Quis o acaso que em Navigli estivesse uma quantidade enorme de adeptos de uma equipa checa que tinha jogado com uma das outras duas (não sei qual) e estavam a beber cerveja e entoar cânticos que pareciam ser em português, mas obviamente não eram. 

Na Pinacoteca Ambrosiana, vimos vários quadros de Ticiano e outros autores bem conhecidos. Uma pintura de Maria Madalena, lembrou-me que tinha lido um artigo sobre a identificação de hipotiroidismo num desses quadros numa modelo. O quadro que estava lá não parecia ter todas as características indicadas para o diagnóstico de hipotiroidismo como a cópia da Galleria Pamphilj em Roma, mas em qualquer dos casos, o pescoço parece ser compatível com a presença de bócio. Na altura, não havia qualquer ideia, obviamente, de que se tratava uma doença devida à falta de Iodo, que poderia ser provocada por deficiente produção de hormonas da toroide, ou por uma alimentação inadequada.      

Nesta pinacoteca, havia várias coisas que poderíamos considerar bizarras. Umas luvas que terão sido de Napoleão Bonaparte, estátuas colocadas em locais escuros, uma capa oferecida supostamente por indígenas há muito tempo, com penas de aves, objetos com escamas de peixe e corais que pareciam mal conservados. Mas o que me chamou mais a atenção foram uns caracóis de cabelo muito louros numa caixa atribuídos a Lucrezia Borgia. Eu achei muito estranho que fossem da famosa Lucrezia Borgia, mas podia comparar isso com umas madeixas de cabelo que estão no Museu Romântico no Porto de cabelos atribuídos a Inês de Castro. Acontece que estes cabelos foram descobertos numa carta que esta trocou no século XVI com o seu amante Pietro Bembo, entre 1502 e 1506, quando casou com o Duque de Ferrara, li num guia. 

Ao passarmos no grande jardim central, depois do Arco da Paz (este tinha sido vandalizado com tinta laranja, em novembro de 2023, por ativistas do clima e ainda lá estavam os efeitos), fomos um pouco por acaso ao espaço da Triennale onde havia um grande exposição de obras de Ron Mueck, além da exposição permanente sobre o design italiano. Para quem não sabe, Ron Mueck é um dos expoentes da arte hiper-realista, mas o que torna as suas obras únicas e facilmente identificáveis são as dimensões inusitadas. Estava lá a conhecida escultura da mulher na cama (In Bed, 2005) cuja cama tem seis metros e meio de comprimento por quase quatro metros de largura, assim com a mulher com um feixe de paus (Woman with Sticks, 2009), mas era surpreendente o "depósito" de caveiras gigantes (Mass, 2016-2017) e várias outras obras.
Obviamente tudo isto envolve muito trabalho, polímeros, vernizes e fibras, assim como novos métodos de fabricação. Em particular em Mass são cem caveiras gigantes com cerca de 40 a 45 quilogramas cada uma, feitas de fibra de vidro e resinas, acabadas à mão pelo artista. No caso de In Bed são usados vários materiais. Do que li, além do algodão dos lençóis e fronhas, a personagem humana envolve uma armação de ferro coberta com gesso e pasta de modelar coberta com polímero de silicone. Uma das obras ainda não estava ainda acabada (This little piggy), e e apresentada como uma maquete.

Na exposição permanente do design estavam muitos ícones do século XX. Chamou-me a atenção o primeiro computador pessoal de Olivetti e muitos objetos que usavam o novo material que eram os plásticos, ou de forma geral os polímeros. Ao olhar para tudo aquilo não podemos ver o plástico como um “sucedâneo” como é referido num famoso texto de Roland Barthes, mas como um coisa nova, nobre e única. 

Os plásticos não imitam apenas. Vieram acrescentar aos cinco materiais tradicionais que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais (os metais, a pedra, os animais, nomeadamente o couro, os vegetais, de que são exemplo os tecidos e a cortiça, e os cerâmicos), um conjunto muito grande de outras possibilidades. O primeiro computador não militar desenvolvido e vendido por Olivetti a partir de 1959 é o ELEA. Tanto a Química como as outras ciências começaram a usar computadores mal estes ficaram disponíveis. 

Mais à frente na exposição podem ver-se propostas para instrumentos laboratoriais de Química. E achei muito interessante ter propostas relativas ao desenho de formar de purificar água com a radiação solar, assim como a "anatomia" de uma torneira. Estas duas entradas são na minha opinião muito interessantes pois permitem ver para dentro desta. Olhando com atenção vemos a combinação de materiais: o cromado exterior e o latão ou cobre interior. O cromado, como o nome indica, envolve a deposição de uma canada de cromo na superfície, e o latão é uma liga de cobre e zinco. Já devem ter visto torneiras antigas com camadas verdes que começam a aparecer. Isso é devido à oxidação do cobre. Do que li, as camadas de cromo decorativo variam de espessura entre cerca de 0,1 e 0,2 micrómetros. 

É preciso ser um geólogo experimentado e que conheça bem o local para conseguir identificar com alguma segurança as rochas usadas na construção e estatuária. Mas como eu costumo dizer também:  é preciso olhar com atenção. A mim chamou-me a atenção a utilização em Milão de rochas que tinham muitas conchas, o que me parecia estranho dado que não há mar perto e geralmente as rochas usadas na construção não vêm de muito longe. 

Depois de alguma pesquisa pareceram-me ser calcários detríticos do Vale de Ceresio, a cerca de 70 quilómetros de Milão. Olhando com mais atenção para a fotografia, há um conjunto de rochas diferentes que não consigo “ler”. Algumas parecem ser granito, outras calcárias, mas não me atrevo a propor hipóteses. O que é certo é que as rochas usadas na construção não poderiam vir de muito longe. Do que li têm sido usados, além dos calcários detríticos de Ceresio,  granitos, mármore e gneiss do vale de Ossola, que fica a cerca de 40 quilómetros, dolomias do Lago Maggiore, que fica a cerca de 100 quilómetros, arenitos de Brianza, que fica a cerca de 40 quilómetros, conglomerados e arenitos da bacia do Rio Adda, a cerca de 50 quilómetros, e pedra calcária negra e mármore do Lago Como, também a cerca de 50 quilómetros. 

O Museu da Ciência de Milão é enorme. Além das exposições típicas de um museu deste tipo, tem um submarino, um foguete, aviões, locomotivas, carruagens, barcos e muitas outras coisas. A parte da Física das partículas é muito desenvolvida, com partes de aceleradores e outros objetos. Também o Espaço, com fatos espaciais e réplicas (penso que o sejam) de satélites, além de ter bastantes coisas interativas. Chamou-me a atenção o elevado número de oficinas para crianças em corredores envidraçados. Além de muitas outras, tinha uma grande exposição permanente sobre a indústria metalúrgica e sobre todos os aspetos da produção, reciclagem e uso de alumínio. 

Nunca mais encontrava aquilo que mais procurava: a bancada de Giulio Natta. Este cientista trabalhou em Milão e foi Prémio Nobel em 1963 pela descoberta de nova vias sintéticas para a produção de polímeros, em  particular polipropileno. É preciso notar que este, assim como os cientistas da altura, não descobriram apenas novas formas de fabricação de plásticos. Encontram novas formas de os produzir com baixo custo e menos desperdício de materiais e energia, aumentando a sua potencial sustentabilidade, e controlar as suas propriedades, abrindo acima a porta a fazer reações que tiveram (e ainda têm) impacto no desenvolvimento de fármacos e novos materiais. Ou seja, este Premio Nobel não deve ser valorizado “apenas” pela produção de plásticos, mas pelos muitos desenvolvimentos que proporcionou, em particular em algo que é hoje muito valorizado: a catálise assimétrica.  

Depois de algumas conversas com guias e monitores acabei por descobrir onde estava. Mas estava fechada, numa ala dedicada à indústria química. Na altura pareceu-me uma coincidência, mas, poderia não ser. Entrava em dissonância com outras grandes exposições que o museu também tinha sobre os plásticos nos oceanos, e, como era fim de semana e o museu estava cheio de famílias, talvez não quisessem originar polémica. 

Ora, na minha opinião, não deveremos escamotear estas questões (devendo os museus ser espaços de debate e liberdade), pois o plástico é, e ainda é, uma grande, invenção que permite muito mais sustentabilidade e versatilidade. Sem este material não teríamos telemóveis e computadores e devido a este podemos ter óculos e muitos outros instrumentos mais práticos e sustentáveis. E continua a haver investigação e a aparecerem novas aplicações. Se nos espaços públicos continuarem a insistir nestas ideias maniqueístas, corremos o risco de não salvar o bebé, mas de o deitar fora com a água do banho. Não tenho pena dos fabricantes que hão-se em média sempre encontrar formar de ganhar dinheiro, mas de toda a sociedade que perde acesso a um debate complexo, a um drama denso, cheio de contradições, e não apenas a contos de fadas ou histórias de terror que os infantilizam. Quando visitei o museu, nessa exposição dos plásticos, estava um visita de estudo com deficientes mentais pouco profundos e podia-se ver as caras de raiva destes perante os horrores que eram os plásticos nos mares.   

Fomos no último dia ao cemitério monumental de Milão rapidamente. Estava a chover torrencialmente, mas valeu a pena, dada a qualidade das esculturas e das inovações na arquitetura mortuária. A logo prazo todos morrem, claro, mas podemos aumentar a esperança e qualidade de vida.

Passeio Químico em Florença [Chemical trail in Florence]

[Aproveitando que fui a um congresso em Florença, e era a primeira vez que ali estava, procurei, nas horas vagas, muitas vezes muito cedo, o que até era bom, pois estava muito calor, andar pela cidade e tomar notas para um percurso químico] 

Algo que não me ocorreu logo, foi a perfumaria tradicinal. Na rua de S. Nicolò (onde estava instalado) encontrei duas lojas de mestres de perfumes e há também um museu (ao qual não fui). Nessa rua, fica também um pequeno museu da joalharia, que vi aberto uma vez, mostrando complexos mecanismos de relógios e outras coisas. Esta rua fica muito perto da emblemática Ponte Vecchia, na qual, no filme “O perfume”, um mestre perfumeiro tem a sua loja. 

A ideia básica da química dos perfumes é bastante simples e envolve moléculas que causam sensações nos recetores olfativos, mas os detalhes de todo esse processo são muito complexos. Há um conjunto de moléculas mais voláteis que dão as notas de topo do perfume. São os álcoois, aldeídos e cetonas dos aromas florais e de frutas, entre outros.  Algumas moléculas mais pesadas e menos voláteis dão as notas centrais. Finalmente, moléculas mais pesadas e ainda menos voláteis dão as notas ditas “de baixo” que demoram mais tempo a extinguir-se. Nestas, está, por exemplo, as moléculas do âmbar cinzento, que era obtido dos intestinos do cachalote, ou o odor da glândula anal da civeta. É referido no “Moby Dick” que “se as senhoras soubessem de onde vêm os seus perfumes mais caros!” Hoje em dia, esses materiais têm equivalentes sintéticos por razões éticas e de sustentabilidade, entre outros. Mas, até ao desenvolvimento das moléculas sintéticas, tudo era obtido da Natureza “clássica”, quer de plantas quer de animais. O desenvolvimento de moléculas sintéticas veio permitir a criação de novos aromas (moléculas desconhecidas na Natureza “clássica”) e permitir aos mestres perfumeiros criar perfumes únicos que podiam usar moléculas patenteadas (as quais não podiam ser usados por outros em perfumes sem pagar direitos). 

Agora, na Ponte Vecchia, há lojas de ouro e joalharias. Em tempos, por debaixo, no rio fazia-se o tratamento de couros, o qual, como se pode imaginar, causava cheiros nauseabundos. Mudaram para outros locais e o tratamento dos couros já não é visível pelo público. Mas, hoje em dia, ainda há muitas lojas de artigos em couro em Florença. E é visitável também uma escola da catedral. Estava a pensar numa coisa diferente e encontrei lá mais um conjunto de lojas. Esse é um dos problemas do turismo de massas. Há muitas lojas e restaurantes e muita pressão sobre os espaços. Que me lembre, foi a única vez em que não entrei numa biblioteca (por não serem permitidas visitas). Estive na Biblioteca Pública de Nova Iorque ou na antiga biblioteca pública de Copenhaga, no Diamante Negro, mas em Florença, não. Um amigo meu italiano disse-me que deveria ser como em Veneza. Haver um número limitado de turistas que podem entrar. Talvez. É que em Florença, com tanta gente, nem dava para sentir o clássico sindroma de Stendhal ao ver a beleza rodeada de tantos turistas.   

Voltando aos couros. O cheiro do couro tratado é agradável e muito diferente dos cheiros envolvidos na sua produção. Nós humanos habituámo-nos a achar esse cheio agradável. E aqui está uma coisa em que a natureza “clássica” pode ser melhor do que as nossas imitações artificiais. Um couro bem tratado dura anos, mesmo usado intensamente, enquanto isso, não inventámos ainda, que eu saiba, polímeros que tenham essa performance. Chamou-me a atenção a imensa paleta de cores. Hoje em dia com corantes sintéticos é muito mais fácil. Mas no tempo dos Medici todos os corantes existentes eram de origem natural. 

A parte mais importante e complexa do curtimento das peles é a estabilização da estrutura das fibras de colagénio com taninos vegetais, iões de crómio ou outros agentes químicos. Portugal foi em tempos um exportador importante de uma planta muito usada, o sumagre. Mas antes disso, há que extrair os pêlos e outros materiais biológicos e fazer vários tratamentos que fazem com que as fibras de colagénio se modifiquem e encolham, criando uma estrutura mais aberta. E isso é muito mal cheiroso! Essa maior abertura das fibras permite a passagem de gases que popularmente se designa por “o couro respirar”. Aditamento: vi depois que em todo a região da Toscânia, o curtimento de peles é ainda uma arte tradicional importante. Misturam peles de vitela com os pigmentos e colocam um tanino vegetal (que muitas vezes é segredo) e gordura, obtendo-se as belas peles coloridas que vemos em  Florença.  

Florença era, na altura da maior glória dos Medici, um sítio muito rico e atrativo, para onde os artistas e artesãos ocorriam em grande quantidade. Toda a gente sabe que aqui podemos encontrar obras de Giotto, Leonardo da Vinci, Miguelangelo, entre outros Foi também, nesta cidade, que viveu Dante e Galileu, por exemplo.

Em Florença há muitos museus, claro. O museu Galileu ficava perto de onde estava instalado e visitei-o. Quase toda a gente conhece a história de Galileu Galilei, mas Bertold Brech nas várias versões da peça, especialmente na última, publicada após a sua morte, conseguiu evidenciar muito bem as várias facetas envolvidas. O museu é baseado essencialmente em duas coleções de instrumentos. A coleção de instrumentos de química do século XVIII é impressionante, mas sofre da clássica falta de alguns instrumentos de vidro. É fácil de perceber pois estes eram muito frágeis e ao longo do tempo desapareceram ou foram adaptados. Tem uma coleção de termómetros muito boa. O visitante pode dar-se conta de que a medição da temperatura era muito mais complexa do que é hoje. Podemos também ver uma banca de perfumeiro, com todos os seus frasquinhos.

As rochas são também muito interessantes nesta cidade. Florença é um paraíso geológico, diria! Podemos ver estátuas que aproveitam variações de materiais para dar efeitos das roupas e dos cabelos, por exemplo. Há muitas estátuas de mármore muito branco. O chão, em muitas partes, é coberto por uma pedra que é impropriamente chamada mármore rosa. As igrejas têm aquele ar característico devido a terem riscas de uma rocha verde, uma serpentina. Há calcários cinzentos, castanhos e de outras cores. Muitas ruas são também pavimentadas com esse calcário cinzento bastante irregular o que de certa forma diminui a velocidade dos carros e dos motociclos (em Florença há muitos).  

Na Piazza Della Signoria, onde fica também a Galleria Degli Uffizi, uma cópia do David de Michelangelo troça, de certa forma, do Neptuno, que é conhecido por “il Biancone.” Muitas estátuas de mármore da ruas estão algo cinzentas devido, imagino, às partículas de carbono no ar e ao pó. Nalgumas estátuas a acumulação desses materiais, por exemplo, no nariz, dava efeitos algo cómicos. 

As serpentinas são rochas que têm na sua composição química (aproximada) três iões de magnésio para um silicato e quatro iões de hidróxido, Mg3SiO3(OH)4. O seu nome deriva de terem aspeto de pele de serpente. Têm três formas principais: lizardite, de cor verde, antigorite, de cor azulada, e crisólito, de cor amarelada. Nas serpentinas verdes, alguns átomos de magnésio são substituídos por átomos de ferro. O crisólito é muito “famoso” por dar origem ao amianto, mas não é essa a rocha usada em Florença.

O vermelho é um calcário de grão muito fino conhecido entre os geólogos por Rosso Ammonitico dada a grande quantidade de amonites fósseis que contem. O branco é mais conhecido por mármore de Carrara e é muitas vezes calcite quase pura, uma forma de carbonato de cálcio, CaCO3.

Há ainda mais algumas pedras calcárias que chamam a atenção em Florença. O castanho usado em muitas construções conhecido por “Pietraforte” e um calcário cinzento mais usado em detalhes e decorações, a “Pietra Serena”. Segundo um artigo que li estas pedras estão bem conservadas pois os artesãos escolheram as melhores, mas encontrei em vários sítios rochas menos bem conservadas, em particular as cinzentas. Finalmente, há uma forma de calcário com desenhos e cores variadas, a “Paesina”. Essa capacidade de usar as cores é muito útil. Fui ao Museu da Pedra Dura, onde com muita paciência e trabalho conseguem reproduzir ou produzir quadros complexos juntando pequenos pedaços de rochas com as cores adequadas. 

Visitei vários parques e havia alguma vegetação e árvores nas ruas junto ao rio. O acesso ao rio Arno estava fechado pelo menos nos sítios que vi, exceto numa pequena praia fluvial onde não havia ninguém. O rio parecia baixo e com vegetação infestante (aliás vi um sinal a avisar dessas plantas num parque). As pessoas usavam canoas e os poucos barcos que vi movimentavam-se usando varas como os gondoleiros de Veneza. Havia muitos  ailantos (aliás como aqui em Portugal) a infestar tudo. Não fiquei muito impressionado com a vegetação, mas Florença não é conhecida por causa dela. Havia muitas tílias nas ruas e as sebes eram de louro-cerejo, que é venenoso por ter amigdalina. Num sítio encontrei, além das sebes de louro-cerejo, alecrim e cevadilhas.    

Tenho de voltar a Florença!

[verified semi-automatic translation]

[Taking advantage of the fact that I went to a congress in Florence, and it was the first time that I was there, I tried, in free hours, many times very early in the morning, which is good, because it was very hot, walking through the city and take some notes to a chemical trail]

Something that didn't occur to me, is that exists still in Florence, traditional perfumery artisans. On the street of S. Nicolò (where I was installed), I found two shops of masters of perfumes and there is also a museum (to which I did not go to). This street also has a small jewelry museum, which I saw open once, showing complex clock mechanisms and other things. This street is very close to the emblematic Ponte Vecchia, in which in the film “Perfume: The Story of a Murderer", a perfume master had his shop.

The basic idea of ​​the chemistry of perfumes is quite simple. It involves molecules that cause sensations in the olfactory receptors, but the details of this whole process are very complex. It is the set of more volatile molecules that give the "top" notes of the perfume. These are alcohols, aldehydes, and ketones of floral and fruit aromas, among others. Some heavier and less volatile molecules give the "central" notes. Finally, much heavier molecules, even less volatile, give the notes “from below” that are extinguished in longer time. In this group, there are the molecules of amber, which were obtained from the intestines of sperm whales, or the odor of the anal gland of the civet. As referred on “Moby Dick”: “if the ladies know the origin of their most expensive perfumes!” Nowadays, these materials have synthetic equivalents due to ethical and sustainability reasons, and others. But, due to the development of synthetic molecules, Other things are possible. One is no longer be obliged to obtain perfumes from “classical” nature, both from plants and from animals. The development of synthetic molecules allowed also the creation of new aromas (unknown in “classic” nature) and allowed master perfumers to create unique perfumes that could also have patented molecules (which could not be used by other perfurmers without paying fees).

Now, in Ponte Vecchia, there are gold shops and jewelries. Times ago, bellow this bridge, in the river, it was made the treatment of leather, which as we can imagine, can cause fools smells. This work moved to other locations and is not visible to the public. But, nowadays, there are still many stores of leather articles in the heart of Florença. And we may also visit the cathedral school about leather. I thought of a different thing, like a museum, and found also stores. This is one of the problems of mass tourism. There are many shops and restaurants and a lot of pressure on the spaces. It was the first time, that I did not entered in a library (because visits are not allowed).  Am Italian friend told me that it should be like Veneza. One has a limited number of tourists that can enter in the city. Perhaps. In Florence, in summer, there are so many people, that is not possible to feel the classic Stendhal syndrome.

Returning to leather. The smell of finished leather is significantly different from the smells involved in its production. Also, humans are accustomed to the smell of finished leather as agreeable. And this is a thing where "classical" nature can do better than our artificial imitations. We have not yet invented polymers that have this performance, I think. It called my attention also the immense palette of colors. Today, with synthetic colors, it is much easier to obtain it. At the Medici time, all were of natural origin.

The most important and complex part of leather tanning is the stabilization of the collagen fiber structure with vegetable tannins, chrome oxides, or other chemical agents. Portugal was once an important exporter of a widely used plant for this, the sumac. In the beginning of leather treatment, it is necessary to extract the hairs and other biological materials and carry out various treatments that cause the collagen fibers to be modified and shrink, creating a more open structure. This larger opening of the fibers allows the passage of gases that is popularly known as the "respiration of leather." Addendum: I later learned that throughout the Tuscany region, tanning remains an important traditional art. They mix calf skins with pigments and add a vegetable tannin (which is often a secret) and fat, resulting in the beautiful colored hides we see in Florence.

Florence, at the time of Medicis greatest glory, was a very rich and attractive place, where artists and craftsmen came in great quantity. Everyone knows that here we can find works by Giotto, Leonardo da Vinci, and Michelangelo, among others. It was also in this city that lived Dante and Galileu, for example.

In Florence, there are many museums, of course. The Galileo museum was close to where I was installed, and I visited it. Almost everyone knows the story of Galileo Galilei, but Bertold Brech, in the various versions of the play, especially in the last one, published after his death, managed to highlight the various facets involved. The museum is essentially based on two instrument collections, it has an impressive collection of chemical instruments from the XVIII century, but also suffers from the classical lack of some. It is easy to understand, as these were very fragile and over time they disappeared or were modified. It has an impressive collection of thermometers. The visitor may from it realize that temperature measurement was much more complex than it is today. We can also see a perfume stand, with all the little bottles. The museum has much more things related to maps, physics instruments, etc. 

The  rocks are also very interesting in this city. Florence is a geological paradise, I would say! We can see statues that take advantage of variations in materials to give effects to clothes and hair, for example. There are many very white marble statues. The floor, in many parts, is covered with a stone that is improperly called pink marble. The churches have those characteristic looks because they have stripes of green rock, a serpentine. There are grey, brown, and other colored limestones. Many streets are also paved with a rather irregular gray limestone, which in a way slows down cars and motorcycles (there are many in Florence).

In Piazza Della Signoria, where the Galleria Degli Uffizi is also located, a copy of Michelangelo's David somehow "makes fun" of Neptune, which is known as “il Bianconi.” Many marble statues on the streets are somewhat gray due, I imagine, to carbon particles in the air and dust. In some statues, the accumulation of these materials, for example, on the nose, gave somewhat comical effects. 

Serpentines are rocks having in their approximate chemical composition three magnesium ions, a silicate, and four hydroxide ions, Mg3SiO3(OH)4. Their name derives from their appearance of snakeskin. They have three main forms: lizardite, which is green in color, antigorite, which is bluish, and chrysolite, which is yellowish. For the green streamers, magnesium atoms are replaced by iron atoms. Chrysolite is also very “famous” for giving rise to asbestos, but this was not the rock used in Florence.

Red comes from a very fine-grained limestone known among geologists as Rosso Ammonitic given the large number of fossil ammonites it contains. White is best known as Carrara marble and is often pure calcite, a form of calcium carbonate, CaCO3.

There are even a few more limestones that catch the eye in Florence. The brown is used in many constructions known as “Pietraforte” and gray limestone is more used in details and decorations, the “Pietra Serena”. According to an article I read, these stones are well preserved because the artisans chose the best ones, but I found, in some places, less well-preserved rocks, in particular the gray ones. Finally, there is a form of limestone with different designs and colors, the “Paesina”. This ability to use the color of rocks is very good. I went to the Pedra dura museum, where with a lot of patience and work they can reproduce complex paintings by joining small pieces of rocks with the appropriate colors.

I visited several parks and there was some vegetation and trees in the streets by the river. The access to the Arno River was closed at least in the places I saw, except for a small river beach where there was no one. The river seemed low and have infesting vegetation (in fact, I saw a sign warning on infesting plants in a park). People used canoes and the few boats I saw moved using poles like the gondoliers of Venice. There were a lot of ailanthuses (as well as here in Portugal) infesting everything. I wasn't too impressed with the greenery, but Florence isn't known for it. There were lots of linden trees in the streets and the hedges were cherry laurel, which is poisonous because it has amygdalin. In one place I found, in addition to the cherry laurel hedges, rosemary, and oleander trees.

I have to go back to Florence!

(PQ-UC) Parede do Botânico: rochas e líquenes

Os líquenes são muitas vezes referidos como indicadores de poluição pois não se desenvolvem em condições ácidas. É por isso que preferem as superfícies que neutralizam a acidez: as rochas calcárias (como pode ser visto na fotografia) e o cimento [1]. Em condições de muito pouca acidez poderemos encontrá-los também em tijolos e no granito. É interessante notar que os lodões do outro lado da rua e as tílias junto ao edifício das Químicas têm muitos líquenes nos troncos.

[1]Peter Borrows, Education in Chemistry, January 1995, p6.

[Versão de Julho de 2009. Última alteração 19 de Abril de 2010]