[Foi a primeira vez que fui aos Açores e só estive em São Miguel. Aproveitando que tinha um congresso nesta ilha, levantava-me cedo e aproveitava todos os momentos para ver tudo o que podia, sem faltar às sessões do Congresso SCiComPT 2022. Excelente! E ainda encontrei alguns amigos que já não via há algum tempo. Só agora consegui acabar o texto. Espero voltar com mais tempo.]
Em Ponta Delgada os passeios têm, em geral, mais pedras pretas do que brancas e os edifícios tradicionais e históricos têm aquele ar bem caraterístico devido ao uso das pedras escuras locais. São rochas vulcânicas que em todo lado se encontram. No núcleo de História Natural do Museu Carlos Machado e em muitas publicações podem encontrar-se explicações. Neste passeio, refiro apenas uma parte e aproveito para chamar a atenção para um equívoco. O basalto é a rocha mais comum. É em geral negro e resulta do arrefecimento da lava proveniente de rochas com baixo teor em sílica. Estas designam-se por "rochas básicas", mas é preciso saber que em termos de pH, todas as rochas são básicas. Só que aquelas que têm pouca quantidade de sílica são mais básicas. Até aqui tudo bem, mas se um geólogo fala de "rochas ácidas" as pessoas têm que estar com cuidado pois não se trata de rochas com pH ácido, mas sim com maiores quantidades de sílica. Quanto às rochas em si, há rochas com maiores quantidades de silicatos, em geral mais cinzentas; rochas que arrefeceram debaixo de água; rochas que foram projetadas durante as emissões vulcânicas; há rochas mais avermelhadas, imagino que devido aos óxidos de ferro; e rochas mais porosas. Tudo isto em conjunto com muita humidade, origina um ar caraterístico, onde os solos e os muros sáo negros ou cinzentos, por vezes com tons avermelhados, cobertos com uma luxuriante vegetação. Nos sítios mais estranhos, há vacas a pastar placidamente e quase sempre pode ver-se o mar. É lindíssimo. E isso também tem química!Percebi que, em alguns casos, as laranjas ficavam com a casca “verde”, mesmo estando maduras, mas tal não era sistemático. É, antes de mais, preciso perceber que a laranja, assim como outros citrinos, é um fruto “inventado” a partir de cruzamentos e clonagem desde tempos imemoriais. Associamos o “laranja” à laranja mas nem sempre foi assim. Por exemplo, esse fruto designava-se “Portugal” em muitos dos locais dos descobrimentos. Seja lá como for, um produtor que tiver algumas laranjas “verdes” ficaria desesperado e pode fazer várias coisas: amadurecê-las nas cascas para ficarem com esse aspeto laranja ou, sim, usar um corante para as “pintar”. Imagino que o uso de corante seja muito raro, mas dos EUA espera-se tudo, supostamente! Mas, mas como disse, da ciência espera-se que seja cética e investigue.
Também interessante, e provavelmente visualmente mais forte, é o quadro “Viático”, de 1919, também de Domingos Rebêlo, exposto na entrada do núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado. A minha opinião, mas não verifiquei, é que as pessoas em segundo plano parecem estar numa outra perspetiva, como se o olhar mudasse de direção, o que não seria possível com uma única fotografia. Norman Rockwell tem algo parecido na “Montra do barbeiro” que tem vários pontos de interesse o que seria impossível também numa única fotografia, em particular para se obter o efeito de mostrar o que se passa numa sala do fundo. O que é que isto tem a ver com ciência? Nem sempre o que parece óbvio o é. Além disso, a observação é uma atividade que se treina tanto em arte como em ciência. Mas mais do que isso, é importante estar preparado para aceitar o erro e a crítica. Ao ciclo da laranja, que originou emigração em massa, seguiu-se o da beterraba sacarina. Embora existissem várias fábricas de produção de açúcar e álcool a partir de beterraba sacarina, esta atividade nunca foi muito lucrativa. Em Lagoa, funcionou até há pouco tempo uma fábrica de álcool bem visível no centro da cidade. Neste povoação encontrei, também, no parque, exemplares de Erythrina Crista-Galli, planta de onde se extrai o conhecido curare, usado pelos nativos da América do Sul nas suas setas envenenadas e que mais tarde foi usado como paralisante em cirurgias. Uma coisa que já referi é a exuberância da vegetação. Na Universidade dos Açores, por exemplo, vi uma estrelícia que parecia uma bananeira. A ilha é um local com muita humidade. Por isso, a água passa em muito locais. Fiz uma parte do percurso da “Rota das quatro fábricas da luz” e fotografei canos antigos além de uma das pequenas hidroelétricas que aí funcionavam. Os canos que tinham sido cobertos com alcatrão como forma de os proteger da corrosão (eliminando o contacto com o ar) estão agora com muita ferrugem. Deve notar-se que o ferro é muito sensível à humidade e estando perto do mar há mais iões cloreto que facilitam este processo. O ananás é um ex-libris dos Açores. Esta planta, diga-se, é igual ao chamado abacaxi da América Latina, mas devido às condições climatéricas é aqui mais doce e penso que maior. Cru esta fruta tem uma enzima que quebra as ligações das proteínas, uma protease. Por isso, muitos pratos de carne levam ananás por se pensar que este facilita a digestão. Os açorianos são incansáveis de novas ideias. Nos supermercados e localmente vê-se muito mais bananas e bananeiras dos Açores.Mas a parte que queria ver no local eram as estruturas que restavam da baleagem. Há vários locais de vigia e logo que era avistada uma baleia era lançado um foguete. A caça e o processamento da baleia eram atividades bastante comum em São Miguel. Na povoação das Capelas há vários monumentos alusivos (só fotografei um deles, com o meu cachalote modelo de plástico, que foi, como eu, pela primeira vez aos Açores) e foi preservado um guincho de puxar baleias, perto de uma fábrica da qual resta apenas a chaminé (que tem a data de 1941, vi num livro). Por toda a ilha há observatórios de baleias, que agora são admiradas em vez de caçadas. Porque se caçavam baleias? Primeiro pelo óleo, pois eram como que reservatórios deste material, mas aproveita-se tudo, nomeadamente os ossos e, em alguns cachalotes, encontrava-se o âmbar cinzento que, depois de seco, era usado em perfumes mais finos e caros. Este material é produzido pelo sistema digestivo dos cachalotes como reação à sua dieta rica em lulas e polvos gigantes. E, sim, sai pelo ânus nos cachalotes vivos. No "Moby Dick" há uma personagem que refere que se se algumas mulheres soubessem de onde vêm alguns dos seus perfumes mais caros pensariam duas vezes antes de os usar. Mas há mais perfumes assim e não é essa origem que faz as pessoas mudar de ideias. Os óleos são muito particulares na sua composição e uma baleia poderia originar muitas toneladas deles. Entretanto, estes foram substituídos por óleos vegetais renováveis, nomeadamente de jojoba. Também, o uso de parte dos ossos para cabos de ferramentas foi substituído por plástico, muito mais versátil. As “barbas” das bocas das baleias (não dos chachalotes) que eram usadas em corpetes deixaram de ser usadas pois os corpetes passaram de moda e foram substituídos por roupa interior mais confortável. Finalmente, para o âmbar cinzento, também há substitutos semi-sintéticos. Partindo de uma sálvia pode obter-se o ambróxido que é a molécula mais emblemática deste material. Modernamente, este é também obtido de bactérias modificadas geneticamente por engenharia biológica. Não há qualquer necessidade de caçar baleias pois os seus usos foram substituídos. Mas antes que mude de assunto tenho de dizer que isso só foi possível devido a engenharia biológica e outros avanços científicos e tecnológicos.Também não tive tempo de ir às piscinas naturais quentes e férreas, nem a muitas das lagoas e miradouros emblemáticos. Nem fazer caminhadas. Afinal poder-se-á perguntar o que vi dos Açores? Muito, como se pode ler. Vi o que queria ver e mais algumas coisas, mas há ainda muito mais para ver.
Vi em 2025, um documentário sobre Lagoa que era de 2022, ano em que escrevi este texto. Eu tinha referido a fábrica de álcool, mas são também interessantes a cerâmica e as culturas antigas, nomeadamente do pastel (dos tintureiros) que era usado para obter indigo, e os vários Centros de Ciência, em particular o de vulcanologia, e outros locais que não tive tempo de visitar. Tenho mesmo de voltar!
Bibliografia específica consultada
Ana Isabel Queiroz, Daniel Alves. Praga e poder: história do “devorista das laranjeiras” (Açores, Portugal, 1840-1860) Análise Social, 231, 226-254, 2019.
Wulf H. Koehler, Da Caça à Observação de Baleias, Edição do Autor, 2018
Sérgio Ávila. Lagoa. Entre o Verde e o Azul, 2022. https://www.rtp.pt/programa/tv/p42512 (acesso em 29 de agosto de 2025)

























