Passeio químico em São Miguel nos Açores

[Foi a primeira vez que fui aos Açores e só estive em São Miguel. Aproveitando que tinha um congresso nesta ilha, levantava-me cedo e aproveitava todos os momentos para ver tudo o que podia, sem faltar às sessões do Congresso SCiComPT 2022. Excelente! E ainda encontrei alguns amigos que já não via há algum tempo. Só agora consegui acabar o texto. Espero voltar com mais tempo.]

Em Ponta Delgada os passeios têm, em geral, mais pedras pretas do que brancas e os edifícios tradicionais e históricos têm aquele ar bem caraterístico devido ao uso das pedras escuras locais. São rochas vulcânicas que em todo lado se encontram. No núcleo de História Natural do Museu Carlos Machado e em muitas publicações podem encontrar-se explicações. Neste passeio, refiro apenas uma parte e aproveito para chamar a atenção para um equívoco.
O basalto é a rocha mais comum. É em geral negro e resulta do arrefecimento da lava proveniente de rochas com baixo teor em sílica. Estas designam-se por "rochas básicas", mas é preciso saber que em termos de pH, todas as rochas são básicas. Só que aquelas que têm pouca quantidade de sílica são mais básicas. Até aqui tudo bem, mas se um geólogo fala de "rochas ácidas" as pessoas têm que estar com cuidado pois não se trata de rochas com pH ácido, mas sim com maiores quantidades de sílica. Quanto às rochas em si,  há rochas com maiores quantidades de silicatos, em geral mais cinzentas; rochas que arrefeceram debaixo de água; rochas que foram projetadas durante as emissões vulcânicas; há rochas mais avermelhadas, imagino que devido aos óxidos de ferro; e rochas mais porosas. Tudo isto em conjunto com muita humidade, origina um ar caraterístico, onde os solos e os muros sáo negros ou cinzentos, por vezes com tons avermelhados, cobertos com uma luxuriante vegetação. Nos sítios mais estranhos, há vacas a pastar placidamente e quase sempre pode ver-se o mar. É lindíssimo. E isso também tem química!     

Na ilha de São Miguel, está marcado um percurso do chá, mas o mais emblemático e conhecido é o Gorreana, cuja fábrica é mais do que centenária. Neste local é possível encontrar maquinarias antigas, algumas em funcionamento quase desde 1883, imagino eu e as plantações de chá. Fomos lá como parte do programa social do congresso. Mas como era muito tarde, a visita não foi guiada. Entre as várias possibilidade de percursos, gostei da escolha. Era um dos lugares a que tinha planeado ir.

As folhas de chá têm teína, uma molécula que no café é conhecida como cafeína (sim, é a mesma molécula). Mas podemos encontrar no chá outras moléculas parecidas, tendo o mesmo grupo xantina, a teobromina e a teofilina, por exemplo. O dr. Rui Pato chamou-me a atenção para um composto usado como broncodilatador que salva milhares de vidas, a aminofilina, que é também uma xantina. Parece ser uma mistura 2:1 de teofilina e etilenodiamina, mas tenho de ver melhor pois aparece um muitos locais teofilinato de etilenodiamina parecendo assim um composto iónico.  Basicamente, todas estas moléculas partilham os mesmos dois anéis fundidos com nitrogénios. Do mesmo conjunto é o conhecido ácido úrico, que, no caso das aves (que só têm um orifício  excretor - a cloaca) serve para expelir restos do metabolismo (é o conhecido material branco dos dejetos das aves). As xantinas pertencem a um grupo ainda mais geral que é o das purinas. Gertrude Elion, com George Hitchings e James Black, em 1988, ganhou o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina pelo desenvolvimento racional de fármacos. Todos medicamentos que propôs tinham como base o mecanismo das purinas. Um dos mais conhecidos é o aciclovir (Zovirax). Já falei bastantes vezes sobre a Gertrude Elion, mas é uma história muito interessante.

Voltando ao chá. Se for simplesmente seco, este torma-se o conhecido “chá verde”. Para que fique “chá preto” é necessário secá-lo mais tempo até oxidar. Isto dá origem à caraterística cor escura. Durante muito tempo, acreditava-se que eram duas espécies diferentes e os chineses, detentores destes segredos, não o revelavam. Uma curiosidade foi que os ingleses não tinham o hábito de beber chá. Um rei inglês casou-se com uma princesa portuguesa e esta levou para lá o hábito. 

Eu estava instalado perto do Jardim Antero de Quental e da Biblioteca Municipal, mas não tive tempo de ir ver o banco onde este se suicidou, no Convento da Madalena. Por aqui perto, situavam-se vários jardins botânicos e a Universidade dos Açores. Chamaram-me a atenção várias espécies de plantas, mas aquelas que achei mais interessante acabaram por ser umas papoilas, numa rua que não lembro o nome, que a mim (e a uma bióloga que estava no congresso) pareceram ser papoilas do ópio! Seja lá como for, a natureza é exuberante aqui e tudo cresce e se desenvolve.   

A visita ao núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado permite ver talha dourada inacabada, pois entretanto os jesuítas foram expulsos pelo governo do Marquês de Pombal. É muito curioso ver isto assim, pois, em geral, nas igrejas do continente tal não acontece. Basicamente, a talha dourada consiste em recobrir a madeira com folha de ouro. Esta folha é tão fina que podemos ter quase com uma camada de átomos de ouro.
Dessa forma, mesmo o ouro sendo muito denso (cerca de 19.4 quilogramas por litro) alguns quilogramas de ouro podem ser usados para cobrir grandes áreas. E a forma como ficam ligados às lacas que cobrem a madeira é essencialmente devida às forças intermoleculares. Por outro lado, o ouro é muito pouco reativo, mas vemos muitas igrejas em que este parece baço. Porquê? Se não estou em erro, essencialmente devido a partículas de fumo, pó e gordura que se acumularam durante séculos. Se limparem essa camada, volta o brilho do ouro.  Outra coisa muito interessante neste museu são as esculturas feitas com marfim de baleia e elefante. Memórias de um tempo que felizmente já acabou. 

O chamado ciclo da laranja, onde a ilha de São Miguel teve um papel importante, chegou a envolver um grande número de pessoas, e criou agricultores ricos e cavalheiros, acabou com uma praga (que mais tarde ficou conhecida de “devorista das laranjas”) de uma cochonilha (Coccus hesperidum). Na altura tentaram vários tipos de intervenções que incluíram cordões sanitários e quarentenas. As propostas de cortes nunca foram bem aceites e os tratamentos que existiam não eram muito eficientes. E sabia-se muito pouco da biologia destas pragas. Atualmente, os cordões sanitários, quarentenas e os cortes poderiam continuar a ser propostos, mas há uma quantidade muito maior de possibilidade na luta contra estas praga. Neste caso particular, os óleos parafínicos e vários tipos de inseticidas, a escolha de predadores adequados, entre outras. 

No núcleo de Santa Bárbara do Museu Carlos Machado podemos ver pinturas de Domingos Rebêlo (1891-1975) e esculturas de Canto da Maya (1890-1981). Um dos quadros mais conhecidos de Rebêlo é “Os Emigrantes”, de 1926, o qual mostra várias temáticas regionais, nomeadamente o registo de Espírito Santo e a viola de 12 cordas. Chamou-me a atenção o cesto de vime com laranjas que evocaria o fim do ciclo da laranja. Foi o guia do museu (muito simpático) que me chamou a atenção para essa questão, a qual veio mesmo a calhar pois duas perplexidades me ocorreram. Estava, dizia eu, a olhar com atenção para o quadro na parte das frutas pois notavam-se muitos verdes, e um do frutos parecia-me uma maçã (tanto parece que em algumas reproduções cortaram a parte de baixo do quadro). O guia do museu asseverou que eram laranjas e já vi publicações onde diziam o mesmo. A minha questão principal é que Domingos Rebêlo está demasiado perto da questão (esta tinha-se passado há pouco menos de 60 anos e ele na infância e juventude deveria ter ouvido falar disso) e, além disso, fez neste quadro tudo com tanto detalhe que achei bastante estranho estar ali uma maçã! (Se houver algo para investigar, se não foi feito antes, deixo a questão para os historiadores de arte). No caso da cor das laranjas, que era aquilo que me motivava, tenho algumas coisas para dizer. Por coincidência, tinha estado no congresso a falar com um investigador jornalista que que falou que «nos EUA pintavam as laranjas para elas serem “laranja” em vez do usual verde». Isso fez-me muita espécie e fui investigar. A ciência também é feita desses ceticismos.

Percebi que, em alguns casos, as laranjas ficavam com a casca “verde”, mesmo estando maduras, mas tal não era sistemático. É, antes de mais, preciso perceber que a laranja, assim como outros citrinos, é um fruto “inventado” a partir de cruzamentos e clonagem desde tempos imemoriais. Associamos o “laranja” à laranja mas nem sempre foi assim. Por exemplo, esse fruto designava-se “Portugal” em muitos dos locais dos descobrimentos. Seja lá como for, um produtor que tiver algumas laranjas “verdes” ficaria desesperado e pode fazer várias coisas: amadurecê-las nas cascas para ficarem com esse aspeto laranja ou, sim, usar um corante para as “pintar”. Imagino que o uso de corante seja muito raro, mas dos EUA espera-se tudo, supostamente! Mas, mas como disse, da ciência espera-se que seja cética e investigue.  

Também interessante, e provavelmente visualmente mais forte, é o quadro “Viático”, de 1919, também de Domingos Rebêlo, exposto na entrada do núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado. A minha opinião, mas não verifiquei, é que as pessoas em segundo plano parecem estar numa outra perspetiva, como se o olhar mudasse de direção, o que não seria possível com uma única fotografia. Norman Rockwell tem algo parecido na “Montra do barbeiro” que tem vários pontos de interesse o que seria impossível também numa única fotografia, em particular para se obter o efeito de mostrar o que se passa numa sala do fundo. O que é que isto tem a ver com ciência? Nem sempre o que parece óbvio o é. Além disso, a observação é uma atividade que se treina tanto em arte como em ciência. Mas mais do que isso, é importante estar preparado para aceitar o erro e a crítica.     

Ao ciclo da laranja, que originou emigração em massa, seguiu-se o da beterraba sacarina. Embora existissem várias fábricas de produção de açúcar e álcool a partir de beterraba sacarina, esta atividade nunca foi muito lucrativa. Em Lagoa, funcionou até há pouco tempo uma fábrica de álcool bem visível no centro da cidade. Neste povoação encontrei, também, no parque, exemplares de Erythrina Crista-Galli, planta de onde se extrai o conhecido curare, usado pelos nativos da América do Sul nas suas setas envenenadas e que mais tarde foi usado como paralisante em cirurgias. 

Uma coisa que já referi é a exuberância da vegetação. Na Universidade dos Açores, por exemplo, vi uma estrelícia que parecia uma bananeira. A ilha é um local com muita humidade. Por isso, a água passa em muito locais. Fiz uma parte do percurso da “Rota das quatro fábricas da luz” e fotografei canos antigos além de uma das pequenas hidroelétricas que aí funcionavam. Os canos que tinham sido cobertos com alcatrão como forma de os proteger da corrosão (eliminando o contacto com o ar) estão agora com muita ferrugem. Deve notar-se que o ferro é muito sensível à humidade e estando perto do mar há mais iões cloreto que facilitam este processo.      

O ananás é um ex-libris dos Açores. Esta planta, diga-se, é igual ao chamado abacaxi da América Latina, mas devido às condições climatéricas é aqui mais doce e penso que maior. Cru esta fruta tem uma enzima que quebra as ligações das proteínas, uma protease. Por isso, muitos pratos de carne levam ananás por se pensar que este facilita a digestão. Os açorianos são incansáveis de novas ideias. Nos supermercados e localmente vê-se muito mais bananas e bananeiras dos Açores.

Mas a parte que queria ver no local eram as estruturas que restavam da baleagem.  Há vários locais de vigia e logo que era avistada uma baleia era lançado um foguete. A caça e o processamento da baleia eram atividades bastante comum em São Miguel. Na povoação das Capelas há vários monumentos alusivos (só fotografei um deles, com o meu cachalote modelo de plástico, que foi, como eu, pela primeira vez aos Açores) e foi preservado um guincho de puxar baleias, perto de uma fábrica da qual resta apenas a chaminé (que tem a data de 1941, vi num livro). Por toda a ilha há observatórios de baleias, que agora são admiradas em vez de caçadas.  

Porque se caçavam baleias? Primeiro pelo óleo, pois eram como que reservatórios deste material, mas aproveita-se tudo, nomeadamente os ossos e, em alguns cachalotes, encontrava-se o âmbar cinzento que, depois de seco, era usado em perfumes mais finos e caros. Este material é produzido pelo sistema digestivo dos cachalotes como reação à sua dieta rica em lulas e polvos gigantes. E, sim, sai pelo ânus nos cachalotes vivos. No "Moby Dick" há uma personagem que refere que se se algumas mulheres soubessem de onde vêm alguns dos seus perfumes mais caros pensariam duas vezes antes de os usar. Mas há mais perfumes assim e não é essa origem que faz as pessoas mudar de ideias. Os óleos são muito particulares na sua composição e uma baleia poderia originar muitas toneladas deles. Entretanto, estes foram substituídos por óleos vegetais renováveis, nomeadamente de jojoba. Também, o uso de parte dos ossos para cabos de ferramentas foi substituído por plástico, muito mais versátil. As “barbas” das bocas das baleias (não dos chachalotes) que eram usadas em corpetes deixaram de ser usadas pois os corpetes passaram de moda e foram substituídos por roupa interior mais confortável. Finalmente, para o âmbar cinzento, também há substitutos semi-sintéticos. Partindo de uma sálvia pode obter-se o ambróxido que é a molécula mais emblemática deste material. Modernamente, este é também obtido de bactérias modificadas geneticamente por engenharia biológica. Não há qualquer necessidade de caçar baleias pois os seus usos foram substituídos. Mas antes que mude de assunto tenho de dizer que isso só foi possível devido a engenharia biológica e outros avanços científicos e tecnológicos. 

No livro de Wulf Koheler, que trata da baleagem em São Miguel, são referidos ainda outros usos. Além dos óleos e dos perfumes, a pele era usada como isco de pesca, a carne, não comestível por humanos, era processada e usada em rações animais, e os ossos, moídos, eram usados como adubos ou em rações. Este autor refere o recrudescimento da procura dos óleos nos anos vinte do século vinte devido à descoberta de novos usos. Sim, estes começaram a ser usados em margarinas e tiveram um aumento de procura como matéria-prima da indústria cosmética e farmacêutica. Nos anos 1986 foi banida a caça à baleia.

Koheler, que há décadas tinha estado no porto de pesca das Capelas, e agora, depois de aposentado, vive em São Miguel, fala também da construção das canoas. Havia uma canoa em exposição no Centro Comercial Atlântico, mas eu não sabia ainda nem fui lá. Trata-se de uma embarcação que varia ligeiramente de ilha para ilha. Em São Miguel, as tábuas usadas eram de meia polegada e unidas em vez de sobrepostas, como as canoas americanas que usavam tábuas de três quartos de polegadas. As canoas tinham tabuado duplo, sendo o interior em diagonal com o exterior. O exterior era feito da madeira muito dura de metrosidéro (uma árvore originária da Nova Zelândia e bem adaptada aos locais perto do mar – reparei que em Ponta Delgada há muitas na marginal; são as árvores que apresentam flores vermelhas).

O porto das Capelas é uma beleza em si mesma. Fiquei  impressionado com  a imagem. Ainda não eram oito da manhã e a beleza da paisegem era espantosa. As formações geológicas em estratos são muito interessantes e não encontrei nada sobre isso. Parece que ao longo tempo houve deposição de materiais escuros, provavelmente cinzas, que ficaram mais ou menos compactos e com o vento e chuva foram revelando os mais duros. Tudo, isto estava coberto em parte com que parece (nas fotografias) cimento, mas não vi no local bem.  De qualquer forma, estava ali para ver e fotografar o porto de onde saiam as canoas para a caça à baleia. As pequenas canoas matriculadas com PD (Ponta Delgada), um número e um B (de baleia) saiam para o mar quando era avistada uma baleia.   

A literatura tem muitas referências à baleagem, sendo o livro mais conhecido o “Moby Dick”, de Herman Melville, que já referi, mas em português poderemos encontrar o tema e muitas das suas vertentes em, por exemplo, “Mau tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio” e “A pesca da baleia e outras narrativas” de Raul Brandão. Gosto especialmente de um conto de Antonio Tabucci onde se dá voz às baleias que observam os humanos que as caçam: "tristes e com medo da água, têm as cabeças separadas do corpo e não trazem consigo as mulheres." Devo ao dr. Rui Pato a lembrança do escritor Cristovão de Aguiar. Ainda não li, mas já vi que na "Raiz comovida" há várias referências a Capelas e a materiais feitos de osso de baleia: um cabo de navalha, um castão de uma bengala e até piões. Tenho de ler! 

No livro de Koheler, recolhi muitas outras informações interessantes. Por exemplo, sobre a origem do arpão. Em 1848, Lewis Temple, um afro-americano, ferreiro de que há um monumento em New Bedford, criou um arpão melhorado de cabeça pivotante, que segundo alguns autores foi a mais importante inovação na caça à baleia. Infelizmente, não patenteou o arpão e este começou a ser copiado por outros ferreiros. Para completar a sua desgraça, Temple caiu num buraco de construção. Um tribunal estabeleceu-lhe uma indemnização, mas morreu entretanto, e nem ele nem a família receberam qualquer quantia. Koheler, refere que uma pessoa a quem New Bedford tanto deve só muito mais tarde foi reconhecida. 

Koheler refere também a dureza e o horror do trabalho envolvido. A fábrica das Capelas tinha muros altos para evitar que vissem e ouvissem o espetáculo sanguinário de desmanche de uma baleia. Segundo ele, os locais têm alguma culpa e vergonha desse passado e não querem falar dele. Nestas ilhas esta atividade sempre foi artesanal e ocasional. Não usaram aqui os arpões explosivos que mais tarde foram usadas pelas frotas industriais modernas, por exemplo.  

As Furnas eram um antigo vulcão. Aliás, todas as ilhas dos Açores são de origem vulcânica, embora haja algumas ilhas com mais sedimentos que se pensou antigamente serem de outra origem. Nas Furnas, as águas são quentes e férreas. E há um espaço, perto da lagoa, onde enterram os cozidos e estes cozinham nos vapores. Estes contêm compostos de enxofre como é fácil cheirar. Estive lá pouco tempo e não vi desenterrarem os cozidos. Um fato curioso é que em São Miguel se consome inhame. Foi lá que o comi pela primeira vez (não fiquei muito entusiasmado) e nas Furnas fotografei uma plantação de inhame bastante extensa. 

Também não tive tempo de ir às piscinas naturais quentes e férreas, nem a muitas das lagoas e miradouros emblemáticos. Nem fazer caminhadas. Afinal poder-se-á perguntar o que vi dos Açores? Muito, como se pode ler. Vi o que queria ver e mais algumas coisas, mas há ainda muito mais para ver. 

Vi em 2025, um documentário sobre Lagoa que era de 2022, ano em que escrevi este texto. Eu tinha referido a fábrica de álcool, mas são também interessantes a cerâmica e as culturas antigas, nomeadamente do pastel (dos tintureiros) que era usado para obter indigo, e os vários Centros de Ciência, em particular o de vulcanologia, e outros locais que não tive tempo de visitar. Tenho mesmo de voltar!

Bibliografia específica consultada

Ana Isabel Queiroz, Daniel Alves. Praga e poder: história do “devorista das laranjeiras” (Açores, Portugal, 1840-1860) Análise Social, 231, 226-254, 2019.

Wulf H. Koehler, Da Caça à Observação de Baleias, Edição do Autor, 2018

Sérgio Ávila. Lagoa. Entre o Verde e o Azul, 2022. https://www.rtp.pt/programa/tv/p42512 (acesso em 29 de agosto de 2025) 

Passeio químico em Rio Maior

[Vou fazer uma palestra online dia 5 de abril de 2022 para a Escola Augusto César Silva Ferreira em Rio Maior e aproveito para partilhar os passeios químicos que fiz nesta cidade há uns anos] 

A cidade de Rio Maior tem vários pontos de interesse, mas há alguns que são quase únicos.  As salinas, a fábrica de briquetes de carvão e o poeta Ruy Belo.

As salinas resultam do afloramento da água salgada que tem permitido obter sal de cozinha desde o século XII. As técnicas e química das salinas são muito semelhantes às das marinas de mar, com a exceção de que, estando no interior, há coisas que não existem como a areia do mar e as plantas marítimas. Fora algumas especificidades que têm sido exploradas ao longo do tempo é bastante semelhante. A água salgada, ou salmoura, vai sofrendo evaporação (os meses de exploração são em geral de maio a setembro) e ficando cada vez mais concentrada nos seus sais, os quais vão precipitando ao longo dos vários tanques. Primeiro precipitam os sais de ferro, nomeadamente os hidróxidos, depois os carbonatos e os sulfatos. No final ficam os cloretos e, em muito menores quantidades, os brometos, os iodetos e outros iões negativos, por um lado, e o sódio e o potássio e outros iões positivos, por outros. Quando se atinge cerca de 37% em massa de cloreto de sódio este começa a precipitar, formando o chamado chamado sal de cozinha. Mas é preciso lembrar que o "sal" não é só cloreto de sódio e que o sistema é eletricamente neutro, ou seja a soma dos  números de iões (multiplicada pelas suas cargas) tem de ser zero.

Acontece que os cloretos formam iões e complexos muito solúveis com todos os metais, e em particular com o ferro, sendo muito reativos. Portanto, nas salinas o problema da corrosão é muito grande, sendo tradição usar objetos de madeira em vez de ferro. Desde rodos e ancinhos a fechaduras, tudo é de madeira. Este efeito é especialmente espetacular nas reações entre sulfato de cobre (muito lentas) e folhas de alumínio e cloreto de cobre (muito rápidas) com folhas de alumínio. E mostra claramente que os iões que não participam diretamente nestas reações não são simples “espetadores”.

Ao longo dos tempos os salineiros foram aperfeiçoando as suas técnicas e formas de organização. Hoje o espaço é também turístico com os seus restaurantes e pratos característicos.

Há uma chaminé de betão muito alta, que se vê de quase toda a cidade, de uma fábrica de briquetes de carvão que laborou até quase até ao início dos anos 1970. Em 2019, a Assembleia da República recomendou ao Governo classificar esse espaço e uma associação de Rio Maior propôs usar esse espaço como centro interpretativo das minas de carvão do Espadanal. Esta funcionaram de 1916 a 1969 e o que se fazia na fábrica era produzir briquetes do carvão obtido nessas minas.

Em termos abstratos a ideia até seria razoavelmente boa na altura. Aproveitar as potencialidades do carvão, um combustível bastante sujo e pouco eficiente. Acontece que, para piorar as coisas, o carvão português não é muito bom, estando em geral muito contaminado, em particular com sulfuretos. Para além disso, os motores a carvão eram pouco eficientes, embora tenham ao longo dos tempos melhorado muito. Mas o principal problema atual é que a queima de carvão, além de poluente, origina dióxido de carbono. Se na altura o empreendimento poderia ser já problemático, hoje não seria aceitável. Mas a ideia de um centro interpretativo das minas é muito interessante.

Já o escrevi noutro lado, é bem conhecido e dito por especialistas, que a riqueza mineral de um país não significa automaticamente riqueza deste e dos seus habitantes. Antes pelo contrário, em geral. Para gerar riqueza é preciso muito mais do que exportar. É preciso um política concertada de uso e de enriquecimento científico e cultural. Um exemplo dramático e paradigmático é a Suécia, um país com muitas minas de ferro e de outros minerais, onde se desenvolveu muito o estudo da química e a ciência em geral. Mas era pobre quase até meados do século XX, com fomes periódicas e emigrações massivas para a América que foram bem descritas nas entrelinhas de um livro que ate tinha alguns objetivos turísticos de Selma Lagerlof, “A viagem maravilhosa de Nils”. O que o tornou esse país rico? Congregar esses recursos ao serviço das pessoas e fazer uma grande aposta na segurança social e continuar a desenvolver o conhecimento e muitas outras atividades alternativas. Por exemplo, em Portugal havendo tanto cloreto de sódio podiam ainda ser exploradas mais essas vias.

Finalmente, de Rio Maior é também originário o poeta Ruy Belo. É muito interessante a forma como a cidade se lembra dele. Este tem muitos poemas ligados ao vento e ao ar. Tinha asma e aparentemente acabou por morrer de uma insuficiência cardíaca devida isso. Mas era também um nadador incansável e muitos dos seus poemas são sobre o mar. Vale a pena lê-los. Não precisam de ser diretamente científicos,  mas podem ajudar a perceber e apreciar o mundo que nos rodeia.  

Observando os velhos e novos materiais de cortiça

Há uns dias tive de ir à baixa de Coimbra e, quase por acaso, passei na Loja dos Telhados. Não era o meu objetivo, mas como estava à espera que eles me fizessem uma obra, e porque achei a montra convidativa, entrei. Desde logo achei muito interessante a decoração e as várias coisas que estavam expostas: antigas e novas técnicas, assim como materiais, essencialmente produtos naturais e sustentáveis. E achei muito relevante o entusiasmo posto nas soluções. Explicaram-me o que estava exposto, falaram-me de outros materiais que estavam a ser avaliados, mostraram-me a sala de conferências da cave e deram-me alguns dos objetos que fotografei agora. Eu estava com pouca bateria no telemóvel e só tirei um fotografia. A outra fotografia é de alguns dos objetos que me foram dados e de outras coisas que me enviaram por e-mail ao final do dia.

Muitas das soluções desta loja são baseadas na cortiça, um material do qual Portugal é o principal produtor. Achei muito interessante a forma como eram agregados os restos de cortiça para fazer placas de isolamento e revestimento. A suberina, que é um polímero complexo presente em todas as plantas, mas de que é feito, em boa parte, a cortiça, com aquecimento, em água a mais de 300ºC e a 4 atm, parece ficar mais maleável e acaba por servir de “cola” à união de todos aqueles pedaços das placas. Consultados vários trabalhos, ainda estou na dúvida se a união é feita por os pedaços ficarem juntos e unirem-se por ligações intermoleculares ou se há mesmo uma ligação química entre as fibras dos vários pedaços. Inclino-me mais para o anterior.

No caso das rolhas de aglomerado é usado um ligante externo apropriado para alimentos (isso significa em termos gerais que passou por muitos testes, seguramente muito restritivos). Em 1909, Charles McManus começou a usar colas naturais para ligar grânulos de cortiça. Foi usada a dextrina, a caseína e a gelatina, e, depois de 1968, vai ser usado o polímero poliuretano (não sei se são usados outros). Este aproveitamento dos restos da cortiça é muito importante pois desperdiça-se cerca de 75% deste material a fazer rolhas maciças naturais. Curiosamente, para se obterem estas rolhas ainda se usam produtos químicos. São residuais é claro, mas é interessante, quais são e quais são as razões para a sua utilização. Por cada milhão de rolhas, usa-se cerca de cem litros de peróxido de hidrogénio concentrado para fazer a desinfeção e esterilização. Penso que ninguém quer sofrer as consequências se isso não for bem feito. Usa-se também cerca de 0.1% de parafina e silicone na parte exterior para tornar as rolhas mais estanques e duráveis (imagino que seja para isso).    

Outro material que achei muito interessante e que me mostraram ali é a mistura de argamassas e cortiça. Do que percebi, as várias possibilidades estão a ser estudadas num grande centro de investigação na Universidade de Coimbra. Também me mostraram (e enviaram-me um catálogo depois) as placas antifogo de óxido de magnésio. É preciso notar que o magnésio é um metal que não é assim tão raro. Por exemplo, nas rochas dolomíticas (alguns calcários mais amarelos) de cidades como Coimbra há carbonatos de cálcio e magnésio. 

As pessoas muitas vezes não têm consciência de como há uma miríada de novos materiais, muitos deles baseados em produtos naturais, ou juntando o melhor dos dois mundos (natural e sintético), mais sustentáveis e duráveis que estão à sua disposição. De que há uma intensa investigação e desenvolvimento sobre isso, muitas vezes otimizando e estudando soluções ancestrais, outras desenvolvendo novos materiais. E que, sendo Portugal, um país com muita tradição no uso da cortiça faz todo o sentido que se use e desenvolva esse material nobre. Que sejam aproveitados todos os restos e desperdícios deste, que sejam reciclados todos os materiais relacionados com o seu uso. Que a sustentabilidade e a economia circular podem não ser “chavões” e que todos estes desenvolvimentos podem, além de gerar riqueza, contribuir para um mundo melhor. 

[Versão preliminar de 28 de fevereiro de 2022, com pequenas atualizações de 4 de maio de 2022]

Passeio químico nas minas da Urgeiriça

Há anos que queria parar na Urgeiriça e visitar as minas de urânio, mas não tenho podido por uma razão ou outra. Este verão consegui, finalmente, parar e tirei algumas fotografias.
Neste momento a mina está desativada, mas as minas de urânio (todas as minas, claro, mas as de materiais radioactivos ainda mais) devem ter cuidados especiais após o seu fecho, estando uma boa parte desta mina em processos de recuperação ambiental.
Desde o final do século XVIII que os sais de urânio foram usados para colorir vidro. O urânio no UO22+ emite luminescência e é fluorescente em verde com luz ultravioleta. Como há sempre alguma radiação ultravioleta natural do sol, este vidro é um pouco fluorescente, mesmo com radiação usual. Um vidro de urânio tem normalmente 2% deste metal, mas há exemplares com 25%. Assim, por segurança pode usar-se um contador Geiger para saber se está “quente”. Mas é importante lembrar que no mineral, a maior parte do urânio não é radioativo (o U-238 tem 99.3% enquanto o U-235 tem cerca de 0,7%). Os maiores perigos são devidos ao urânio enriquecido, e, que o urânio é um elemento retativamente abundante. No mineral há 40 vezes mais do que prata e 500 vezes mais do que ouro. O mineral UO2 é conhecido como picheblenda por ser negro, mas há também U2O8 (número de oxidação +6) e  UO3. Com a descoberta do elemento rádio, este metal passou a ser uma escória. Entretanto, com a descoberta de que o urânio podia ser usado para fins militares, e depois para fins civis, voltou a ser procurado. Até aos anos sessenta a exploração deste elemento era controlada pelos estados, mas depois tornou-se aberta a gestão da exploração por privados. 
Embora o urânio continue a ser procurado, atualmente apenas as minas com custos de operação muito baixos continuam a funcionar. Há essencialmente três tipos de minas de urânio: as de céu aberto, as subterrâneas e as de lixiviação local. Segundo percebi, a mina da Urgeiriça era subterrânea, pois começou a ser explorada mais cedo, mas quando começaram a extrair urânio usaram o o processo de lixiviação. Este pode ser ácido ou básico, tendo na Urgeiriça sido usado o processo ácido. Inicialmente foram às escombreiras (locais dos materiais rejeitados das minas) e derem conta de que o urânio tinha sido arrastado pela água (lixiviado) das chuvas. Isso deu origem a um processo de lixiviação a céu aberto que mais tarde foi substituído pelo processo de lixiviação local. Num local são injetados as soluções e no outro são recolhidos os produtos. Isso implica um controlo muito grande pois tem de se conhecer bem os caminhos seguidos pelos líquidos, os quais podem dar origem a contaminações como é óbvio. Quando a mina é desativada tem de se monitorizar os aquíferos entre outras estruturas geológicas. O ião uranilo dissolve-se muito bem em ácidos formando o sais respetivos. Por exemplo, em ácido sulfúrico, forma-se sulfato de uranilo

UO22+ + SO42- → UO2 SO4

Na lixiviação ácida ocorrem alguns dos seguintes processos, 

UO3(s) + H2SO4 → UO2SO4 +  H2O (dissolução)

UO2(s) + 1/2O2 + H2SO4 → UO2SO4 +  H2O (oxidação)

UO2(s) + 2H2SO4 → U(SO4)2 +  2H2O (dissolução)

As minas da Urgeiriça foram concessionadas primeiro aos britânicos e, depois de caducado o acordo, foram exploradas pelo governo português. Até 1944 a exploração foi dedicada exclusivamente ao elemento rádio. De 1951 até 2000 realizou-se a produção de concentrados de óxido de urânio. 
Hoje em dia, nas minas de urânio, os cuidados ambientais são muito grandes e vigora, por princípio, o ALARA (As Low As Reasonably Achiable). Infelizmente, quando a mina na Urgeiriça começou a laborar, e também fruto de ignorância, não se tomava cuidado. Como referi, os minerais de urânio não são muito radioativos, mas nas galerias havia muito radão, por exemplo. 
A questão do urânio e outros minerais que foram (e alguns deles ainda são) explorados em Portugal leva naturalmente à questão do lítio. Portugal é rico nesse mineral, mas em fontes secundárias, mais custosas que as fontes primárias. Eu não sou contra o lítio, mas sou contra a estupidez e a precipitação. Portugal é também riquíssimo noutro metal, o sódio, obtido das suas salinas. O cloro, do cloreto de sódio, principal sal obtido do mar e das salinas,  tem imensas aplicações tanto em polímeros, como no tratamento de águas. Faz muito sentido haver mais investigação no sódio, também para baterias. Haver mais investigação sobre a exploração económica do mar e das salinas em vez de se abandonar isso e dizer “agora é que vamos ficar ricos, pois temos lítio”. Não ficámos ricos com o rádio nem com o urânio nem com nenhum dos recursos minerais. A história da ciência mostra-nos que só constumamos ficar mais ricos com mais conhecimento e capacidade de gerir os recursos. 

Bibliografia 

Carlos Jorge Mota Veiga, A vida dos trabalhadores do urânio “trabalho ruim”, Associação dos ex-trabalhadores das minas de urânio, 2014.

National Uranium Tailing Program, Canadian Uranium Mill Waste Disposal Technology, 1987. 

Tom Zoellner, Uranium: war, energy, and the rock that shaped the world. Viking, 2009. 

[versão preliminar de 1 de Fevereiro de 2022]

Passeio químico no Parque Botânico do Monteiro-Mor

O Parque Botânico do Monteiro-Mor fica perto do centro da cidade de Lisboa, no Lumiar, no palácio onde está o Museu do Traje, na mesma quinta onde podemos visitar o Museu do Teatro. Foi começado pelo terceiro Marquês de Angeja, tendo depois o palácio sido comprado pelo segundo duque de Palmela e tem um interessante jardim botânico contemporâneo dos da Universidade de Coimbra e da Ajuda. Este foi projetado também com o apoio do italiano Domenico Vandelli (1730-1816), contratado pelo Marquês de Pombal para dar aulas no Colégio do Nobres,e que, mais tarde, vai ser o professor de História Natural e Química da Universidade de Coimbra. Entre as muitas coisas que se podem ver, está lá a primeira araucária-de-Norfolk (Araucaria heterophylla) plantada em Portugal, em 1842. É um passeio muito agradável, sendo uma boa parte do jardim de inspiração romântica e havendo muitos pontos que vale bem a pena ver. É interessante além do jardim, a mata, o prado, a horta e vários jardins temáticos, como os das rosas e o das esculturas. Também muito interessante é a forma como estão organizados os tanques e as caleiras para distribuir a água.

Fui lá no verão e aproveitei e visitei também o museu do traje. Neste pequeno museu podemos ver a evolução das modas, mas também das técnicas e tecidos. Estava, na altura, especialmente interessando nos materiais usados nas roupas interiores. Até aos anos 1930, não havia fios elásticos para tecer e as roupas, tanto interiores como exteriores, eram bastante rígidas. Os polímeros sintéticos, em e particular os plásticos, vieram revolucionar isto, dando origem a roupas interiores (e exteriores) mais leves e funcionais. Hoje em dia, graças a várias evoluções científicas já começa a ser possível ter roupas interiores confortáveis baseadas em polímeros naturais, mas os polímeros sintéticos continuam, e continuarão, a ser fundamentais. O que é preciso é, comprar menos, usar mais tempo, reciclar e reinventar cada vez mais as fibras usadas. É preciso que se perceba que, hoje em dia, as roupas que temos são muito mais sustentáveis e confortáveis que as antigas, devido a essa revolução. E que seria insustentável vestir as pessoas do mundo apenas com tecidos naturais. Não haveria terras de cultivo nem água suficientes para isso. Quando muito, as melhores coisas podem coexistir.   

Embora a natureza seja muito extensa e imaginativa, as plantas não estão preocupadas com as nossas doenças. Abundam nestas os antioxidantes, mas não é por nós gostarmos deles, é por as plantas terem de se proteger do sol. Há também medicamentos e inseticidas naturais, entre outros compostos, mas não será por as plantas nos querem dá-los. É por elas se querem proteger das doenças e insetos. Poderíamos dar muito mais exemplos, mas algo diferente disto seria pensamento religioso. Legítimo e relevante, mas não uma explicação cientifica.  

Pode acontecer, claro, que encontremos plantas com compostos que nos servem para um determinado cancro, por exemplo, tanto usando conhecimentos de etnobotânica e etnofarmácia, como por estudos sistemáticos (foi dessa forma que foi descoberto o taxol (paclitaxel) numa variedade de teixo nos anos 1970), mas se virmos as composições típicas das plantas, estas são muito semelhantes.  E também pode acontecer que se encontre a molécula para resolver o nosso problema no outro lado do mundo, mas também pode ser que ela esteja no nosso jardim.

Num estudo recente, que procurava evidenciar as plantas como fonte de novos medicamentos, só cerca de 50% vieram de plantas (de 1652 novos compostos desenvolvidos de 1981 a 2014).  E, atualmente, a percentagem pode ser muito menor. Mas então de onde vêm estes compostos? De onde vêm os novos medicamentos? De estudos sistemáticos, tanto experimentais como teóricos (que não precisam de ser bioinspirados), de análises computacionais, tanto procurando em bases de dados de moléculas as características do fármaco, como fazendo o acoplamento das moléculas candidatas a moléculas ou estruturas ligadas à doença (proteínas, membranas, etc).

Além disso, há também a questão da produção em grande quantidade e da forma de entrega do fármaco. Um exemplo clássico é o do taxol (de novo). O composto foi encontrado na casca de uma espécie em perigo e para obter um grama tinham de se cortar centenas de troncos. A solução encontrada foi através de um composto parecido e renovável, obtido das folhas do teixo comum, e modificar esse composto para obter o composto ativo. Por outro lado, muitas vezes são precisas grandes quantidades e é mais sustentável obter a moléculas no laboratório em vez de ir à natureza ou às culturas obter a planta. E, finalmente, a forma de administração. A molécula natural pode ser promissora, mas ser pouco solúvel, por exemplo. Então, nesse caso, introduzem-se modificações  para esta ser mais facilmente absorvida. Tudo, isto implica que todas moléculas candidatas são muito estudadas. Estima-se que para uma molécula típica  passem quase dez anos a chegada o mercado, e mesmo uma aprovação mais rápida e de emergência é feita em vários anos.

Das muitas plantas, presentes no jardim, chamou-nos a atenção uma pitolaca (Phytolacca dioica). Trata-se de uma invasora que já está entre nós há muitos anos. Podemos encontrar aqui também um dragoeiro (Vandelli gostava muito deles), ginkgos, jacaradás, árvores-do-fogo, pinheiros, sobreiros, ciprestes, e, claro, a araucária, entre muitas outras plantas. Quando sentirmos a beleza da natureza, não pensemos que ela é bela por poder ser útil, mas também por nós e  próprios e as nossas ações fazerem parte dela.

Bibliografia
Clara Vaz Pinto (coord.) Guia do Parque Botânico do Monteiro-Mor. Museu Nacional do traje. By the Book, 2018.

[versão preliminar de 15 de janeiro de 2022, com correções de 3 de setembro de 2025] 

Passeio químico em Faro

Vamos fazer um curto passeio químico em Faro. Estive lá pouco tempo e anoiteceu rapidamente, mas apanhei a maré baixa na Ria Formosa (todo aquele verde que se vê nas fotografias são as plantas que estão submersas) e o magnífico pôr-do-sol.
 
Na rua Filipe Alistão, na parede da casa onde fica um take-away, há um conjunto de desenhos relacionados com DNA (ácido desoxirribonucleico) e o RNA (ácido ribonucleico), que chama a atenção para várias coisas, em particular para a evolução durante 4 biliões anos e meio, para chegarmos às células que temos hoje, e, que tem, num canto, um desenho do vírus da Covid-19.

Será difícil fazer um resumo da biologia molecular num artigo de divulgação, mas vou tentar.  Antes, talvez faça sentido referir algumas coisas. Um livro, “a química da vida”, foi determinante para a minhas escolhas futuras. Mas, quando o comprei, e, mais tarde, quando entrei na faculdade já estava desatualizado. Os livros de bioquímica por onde estudei, entre o início e o fim do curso de química ficaram desatualizados. O livro de bioquímica que consulto agora, provavelmente já está também desatualizado. É assim a ciência, pula e avança, mas muitas vezes só o futuro e que nos mostra isso. Há, no entanto, um conjunto de ideias que se mantém e eu vou tentar referir apenas essas.

O “dogma central” da biologia molecular é que o fluxo genético é do DNA para o RNA e deste para as proteínas. A vida é controlada por proteínas, que são espécies de máquinas moleculares feitas por sequência bem definidas de aminoácidos, moléculas que, por sua vez, são ao mesmo tempo ácidos e aminas. Existem cerca de vinte aminoácidos comuns, a partir dos quais são feitas as proteínas, ligando-se os ácidos com as aminas em sequências e números bem definidos. Essas sequências são a estrutura primária das proteínas e, conforme a sequência dos aminoácidos, localmente, as proteínas tomam formas particulares, de que as mais comuns são as espirais e as folhas. Tal é conhecido como estrutura secundária. Como estas sequências são muito grandes, quando as estruturas locais voltam a encontrar a molécula mais à frente, isso vai causar novas alterações da estrutura que é conhecida como estrutura terciária. Finalmente, uma proteína pode ser constituída por várias sequências de aminoácidos, das mistura das quais de novo se modifica a estrutura, o que que é conhecida como a estrutura quaternária.

Como se pode imaginar, o problema da forma das proteínas é muito complexo, mas, nos seres vivo isto é feito de maneira muito rápida e as proteínas têm sempre a mesma forma, a qual corresponde a um mínimo de energia enorme comparado com todas as outras possibilidades. Não tinha ainda sido resolvido satisfatoriamente este problema, até que em 2021 publicaram um artigo que indicava ter resolvido esse problema usando inteligência artificial (IA). Basicamente, o algoritmo “aprendeu” a obter a forma correta de proteínas, usando uma base de dados muito grande (são milhares de milhões) de estruturas conhecidas destas moléculas. Há um senão (que não é pequeno), para além de não se se saber o que o algoritmo aprendeu: essas estruturas são de raios X e são portanto de cristais, e as proteínas podem não ser assim rígidas nos sistemas vivos. Uma indicação dessa fragilidade é que o algoritmo IA reproduzia pior as formas em sistemas líquidos em muito menor número obtidas por  ressonância magnética nuclear (RMN). De qualquer forma, é um feito notável e mostra novos caminhos para o conhecimento químico. Os algoritmos IA podem aprender sem que as regras sejam bem conhecidas, algo que nós também fazemos rotineiramente na nossa vida.        

As proteínas são destruídas e refeitas a velocidades muito grandes. Nas nossas células, para fazer novas proteínas, o DNA que tem origem a partir dos genes presentes no núcleo, é transcrito para o RNA, chamado mensageiro pois vai do núcleo até aos ribossomas, onde cada três bases (um codon) é “lido” originando um aminoácido particular. Entretanto, o RNA transferência, junta esses aminoácidos na sequência particular da proteína codificada. Este processo repete-se até o RNA mensageiro encontrar um codon que não codifica nenhum aminoácido. Este processo é muito mais complicado, mas tentei apresentar os fatos essenciais.

Tanto o DNA como o RNA são também costruídos por proteínas, que são também enzimas, denominadas polimerases, as quais por sua vez são também feitas da mesma forma. E tudo isto acontece ao mesmo tempo e a velocidades enormes. Ocorrem erros, chamados mutações, nessas transcrições, mas a muito grande maioria é corrigido. Se não for, podemos ter um cancro ou incorporar a mutação para as gerações futuras.  

Olhemos agora com mais detalhe para o processo. O DNA tem um esqueleto de açúcares e fosfatos onde estão, em sequência, as bases azotadas adenina (A), citosina(C), guanina (G) e timina (T). Estas estão aos pares unindo-se por ligações de hidrogénio à sequência da outra tira: a citosina com a a guanina (C-G) e a adenina com a tirosina (A-T). Tudo isto é em geral representado de forma esquemática e colorida, para se perceber melhor, mas cada moléculas tem os seus hidrogénio, carbono e outros átomos. E cada um desses átomos tem as suas densidades eletrónicas e as ligações entre eles têm a sua polaridade. Facilmente se nota que há 4x4x4=64 possibilidades. Três delas são de paragem, dois aminoácidos só têm uma possibilidade, mas a maior parte pode ser codificado de várias maneiras (é preciso notar que há 64 possibilidades mas são só usados cerca de 20 aminoácidos).   

Com a química que se aprende no secundário pode-se perceber muitas coisas. É relevante referir que alguns aminoácidos são mais sensíveis à luz visível e podem ser detetados pela interação destes com esta luz. Para além disso, alguns aminoácidos têm átomos de enxofre que, quando a molécula se decompõe, formam outras moléculas que cheiram a “ovos podres”. Isto é um nunca mais acabar de informações! Mas não se consegue perceber bem a biologia molecular sem perceber a química.
 
Entretanto, o RNA, feito a partir do DNA, tem as mesmas três bases deste (A, C e G) e uma nova base, o uracilo (U). Uma timina do DNA dá origem a uma adenina do RNA, mas uma adenina do DNA dá origem a um uracilo do RNA. Uma citosina do DNA dá origem a uma guanina do RNA e vice versa, ou seja temos T-A, A-U, C-G, G-C.

Nas bactérias e vírus é algo diferente (e há uma grande diversidade), podendo, por exemplo, os vírus entrar nas células e “escravizá-las” colocando o seu RNA a produzir novas proteínas e vírus. As proteínas das bactérias, sendo diferentes das que nós temos, podem ser impedidas de ser feitas, ou feitas de forma defeituosa, por moléculas conhecidas como antibióticos. O número de possibilidades é muito grande e, claro, tudo isto vai evoluindo, aparecendo novas mutações e possibilidades.

Até à invenção, em 1984, por Kary Mulis (1944-2019), do processo de que toda a gente já ouviu falar, o PCR (Polimerase Chain Reaction), os processos de identificação das sequências do DNA eram muito lentos, podendo demorar meses. Mullis, que ganhou o prémio Nobel em 1993, encontrou um método rápido e fácil de gerar um número virtualmente infinito de cópias do DNA, podendo identificar-se a presença de uma molécula de DNA apenas (mas há um problema que são as contaminações). O PCR desenvolve-se por ciclos, em que em cada um dos quais ocorrem cópias das duas tiras do DNA. Podemos imaginar que quantos mais ciclos tivermos mais cópias teremos, facilitando a identificação. Isto permite obter a sequência do DNA nalgumas horas. E como cada molécula de DNA é característica de um dado indivíduo, estirpe ou espécie, podemos com enorme precisão identificar a presença do vírus e das suas diferentes estirpes. Com esta ferramenta, podemos facilmente fazer testes de paternidade, identificar criminosos e sequenciar genomas (toda a informação hereditária de um organismo que está codificada em seu DNA), o que já era feito antes do PCR ser usado para testar a presença de vírus. O genoma humano, de muitos organismos e o do vírus da Covid-19, assim como das suas estirpes, são conhecidos.

Entretanto, é preciso refrear algum do entusiasmo que existe com a genética. Sequenciar um genoma, por exemplo, não nos leva diretamente ao indivíduo, nem poder encontrar um gene de uma doença, garante que essa doença se desenvolva. Muitas coisas são ambientais e muitas outras ainda não são bem conhecidas. Mas a possibilidade de correção de defeitos e muitas outras, como por exemplo a da medicina personalizada, são imensas. As possibilidade da ficção também. Por exemplo no “Parque Jurássico” de Michael Crichton (1942-2008), são feitos dinossauros a partir do DNA encontrado em fósseis. Tudo no livro é bastante razoável e verosímil, mas esta fantasia é ainda impossível.

Tenho também umas coisas a dizer sobre a história da descoberta DNA. Há bastante tempo que havia a ideia que havia transmissão de caracteres de para para filhos, não se sabia era como. Tudo se alterou com a descoberta do DNA. A estrutura do DNA foi publicada por James Watson (n. 1926) e Francis Crick (1916-2004) em 1953 a partir de um grande conjunto de dados de que os mais conhecidos são os de Rosalind Franklin (1920-1958) e de Linus Pauling (1901-1994). Entretanto, o prémio Nobel foi atribuído a Watson, Crick e Wilkinson, parecendo que foi esquecida Rosalind Franklin. Não é verdade. Quando o prémio Nobel foi atribuído em 1962 esta tinha já morrido de cancro dos ovários, sendo Maurice Wilkinson (1916-2004) o seu orientador da altura. Parece ser mais ou menos certo que Watson e Crick eram “ratoneiros” que usavam toda a informação que encontravam, mas de alguma forma é assim a ciência. Parte-se de informação que já existe para obter informação nova. Parece que a peça que faltava era um espectro de raios X de Franklin e que Pauling achava que era um tripla hélice baseado num espectro imperfeito. Há outra pessoa que é preciso recordar: Frederick Sanger (1918-2013). Este foi a única pessoa a ganhar dois prémios Nobel da Química, um pela sequência das proteínas e outro pela sequência das bases no DNA.


No castelo, situa-se a antiga fábrica de cerveja, que começou a ser construída em 1935, pela Sociedade Portuguesa de Malte e pela Lusitânia, mas que nunca chegou a funcionar. É uma antiga fábrica de cerveja que nunca produziu nenhuma! Este passeio já vai longo e em vários outros falei da cerveja e tenciono falar mais quando escrever o passeio em Maastricht. Por algo só queria lembrar o que é o malte. Cevada que começa a germinar e que vai de seguida ao forno para secar. A partir do seu amido fermentado é feita a ceveja.

Toda a região do Algarve é muito rica em fósseis. No guia de geologia e paleontologia urbana de  Faro são indicados vários percursos. Nem de propósito (pois só li esse guia depois) fotografei uma rua onde a calçada têm as quatro formas de calcário referidas: branco, preto, cinzento e rosa. O calcário é essencialmente carbonato de cálcio, mas adquire diferentes cores conforme os contaminantes. O calcário negro e cinzento será provavelmente devido a diferentes quantidades de matérias de carbono e o calcário rosa a sais de ferro.

Também em toda a cidade, há “ilhas ecológicas” com locais para reciclar papéis, plásticos, metais e óleos usados, e ainda para colocar lixo indiferenciado. Sobre isso já falei anteriormente. Não tenho a certeza, mas as árvores que se veem na fotografia são grevílias, árvore sobre a qual tinha também já escrito. Há uma publicação sobre as árvores de Faro, ou não fosse esta cidade a do botânico José Maria Brandeiro que tem uma rua com o seu nome. Perto da rua com o seu nome fica o elegante palácio de Belmarço, sobre o qual não direi nada – basta olhar. Mas vou referir as mezinhas populares do livro “Para grandes males grandes remédios”. A maior parte são fruto da ignorância e miséria, mas há coisas interessantes como mastigar cravinho para as dores de dentes (é um remédio milenar que envolve a molécula eugenol que ainda hoje é usada nos dentistas – aquele cheiro a cravinho não vos era familiar? - em massas provisórias ) e a “alva de cão” que são as fezes secas de cão que adquirem tonalidade branca. Acontece que essa tonalidade tem a ver com a alimentação, que envolvendo roer ossos, se reflete na cor, acho eu, e não por serem de cão.

A caminho de Faro, pela via do Infante, passámos por uma cimenteira que que no Google Maps parece ter um lago artificial, entre várias outras coisas que não percebemos bem. Depois, ao sairmos da auto-estrada, fizemos os últimos quilómetros da estrada mais famosa de Portugal, a N2, que vinda de Bragança, acaba em Faro, ao final de 738 quilómetros. Há coisas que não vi, como teatro Lethes e a adaptação do antigo matadouro municipal a biblioteca municipal. Sobre esse útimo aspecto - o dos antigos matadoutos municipais - há bastantes coisas que me interessam, em particular pela sua história, envolvendo o declínio destas estruturas e a suas adapções para usos culturais. Temos de voltar!  

Bibliografia
Jeremy M. Berg, John L. Tymoczko, Lubert Stryer. Biochemistry, 5th Edition. New York: Freeman, 2002.
Luís Azevedo Rodrigues, Margarida Agostinho. Guia de geologia e paleontologia urbana: Faro. Ciência Viva de Lagos, 2012.
Museu Municipal de Faro. Para Grandes Males Grandes Remédios. Faro, 2012. 

União das Freguesias de Faro. Breve história da cultura de Faro. Faro, 2018. 

União das Freguesias de Faro. Guia das árvores de Faro. Faro, 2020.

[versão preliminar de 12 de Janeiro de 2022, com acrescentos de 13 de Janeiro de 2022]

Passeio químico na Arrábida

Na região da Arrábida é preciso planear bem a ida à praia nos fins de semana de Verão. O acesso à maioria das praias é condicionado e há muitos carros e pessoas, mas vale bem a pena. A beleza das paisagens é impressionante. Do lado onde estive vê-se a península de Tróia e as suas praias. Sempre achei curioso esse nome que evocava o lugar mítico dos poemas de Homero. Ninguém sabe onde era a mítica Tróia. Podia bem ser aqui. Efabular e imaginar também tem muita química.

No Cabo Espichel, lugar de grande beleza e silêncio (muito cedo), há imensos carrascos (Quercus coccifera) também conhecidos como carvalhos-quermes. É pouco conhecido, e extinguiu-se há bastante tempo, mas nestas paragens, foi um negócio antigo o do corante carmim. Da fêmea de um parasita do carrasco, a cochonilha, também conhecida como quermes (ou grã, em textos mais antigos, notavelmente de Domenico Vandelli, primeiro professor de História Natural e Química na Universidade de Coimbra, após a reforma pombalina), extraía-se um vermelho que ainda hoje se usa (este vermelho está também classificado como E120), mas é agora obtido, ainda do mesmo parasita, mas atualmente de um cacto da América do Sul. 

Neste cabo, fica também um santuário, em vias de recuperação (dizia em 2022 a câmara municipal de Sesimbra numa sua publicação), que tem um terreiro impressionante. Neste, há um conjunto de casas, onde pernoitavam os “círios” dos peregrinos que vinham de vários locais do país, havendo casas correspondentes a cada um desses “círios”. Pelo caminho, passamos por uma estrada para Santa Maria de Azóia, onde há ainda (mas não fui lá) indústrias de extração e refinação de óleos alimentares. Por acaso tinha ideia de marcas diferentes, mas as que lá estão são também muito conhecidas. 

Fomos em seguida a Sesimbra, lugar antigo de pescadores, onde há imensos pontos de interesse, químicos também. As gaiolas para apanhar polvos, por exemplo, agora incorporam redes de plástico. Aparentemente, fazia-se também por aqui criação de bichos da seda para obter o fio que origina este tecido, mas se tal houve, quase não há memória, e essa indústria perdeu-se no tempo. Integrado no museu fica o Parque Marinho Luis Saldanha, o professor que nos deixou imensas e bonitas imagens submarinas.

Antes de chegar à Praia do Creiro, há um sítio arqueológico romano visitável e bem assinalado. Além dos locais para tomar banho, tem os tanques de salga do peixe e armazenamento de ânforas (que não estão lá, claro). O sal absorve a água e impede os micro-organismos de ter acesso aos materiais comestíveis. O molho que escorria do peixe salgado era o famoso “garum”, usado como tempero. Diz lá que os tanques eram revestidos de opus signinum (materiais cêramicos reduzidos a pequenos pedaços ou a pó e misturados com cal) para impermeabilizar, os quais tinham arestas arredondadas (isso nota-se bem) por razões de higiene. Nesta praia encontram-se alguns seixos avermelhados que me fizeram lembrar jaspe (na Arrábida há uma pedreira, Pedreira do Jaspe, denominada assim que foi encerrada nos anos 1970), mas julgo que não são. O que sabemos é que há uma rocha sedimentar única e muito conhecida chamada brecha da Arábida.

Desta praia, avista-se o Museu Oceanográfico, no Portinho da Arrábida, situado na  Fortaleza de Santa Maria da Arrábida, que não pudemos visitar por estar fechado. Entretanto, uma monografia de Sesimbra que consultei referia que na Fortaleza de Santiago, onde se situa o Museu Marítimo (que também não visitei, por ainda não estar aberto), assim como o turismo de Sesimbra, se alojavam os “meninos de Palhavã” durante o verão. É curioso haver dois museus idênticos tão perto um do outro. Acontece que o primeiro pertence ao concelho de Setúbal e o outro ao concelho de Sesimbra.

Na Arrábida fica também o conhecido convento dos capuchos que pertence à fundação do Oriente. Não o pudemos visitar quando escrevemos a versão inicial do passeio químico, mas nas atividades do III Encontro da Associação de Professores de Física e Química a realizar em Setúbal 5 e 6 de setembro de 2025, iremos ao seu interior. O que escrevi a seguir neste parágrafo foi baseado nas minhas memórias, mas irei acrescentar um anexo logo que possa. As instalações e celas do convento são impressionantes e podem ver-se várias lugares da serra onde se movimentavam os monges. Numa sua parede, a estátua de um monge capucho com a boca cosida, ouvidos e olhos tapados, pregado na cruz, sobre o mundo e com o coração destacado, sempre me impressionou. Este convento foi o cenário de um filme de Manuel de Oliveira, de 1995, com Catherine Deneuve, John Malkovich, Luís Miguel Cintra e Leonor Silveira, “O convento”. Ainda a Arrábida evoca o poeta Sebastião da Gama, o “poeta da Arrábida” que morreu novo de tuberculose, mas o “Diário” tem tido um impacto muito interessante no ensino. É um bom exemplo de um professor entusiasta e pró-activo, num país que ainda sobrevivem, por vezes, algumas ideias castigadoras do tempo da inquisição.        

Fica também na Arrábida a cimenteira do Outão, Não é um espetáculo interessante, infelizmente. Há demasiadas coisas sujas e materiais enferrujadas. E as propostas de viveiros e cimento zero-emissões acabam por não ser muito convincentes. Mas talvez o sejam, apesar de tudo. Muito do que nos rodeia, vive da imagem, mas ver não chega. É preciso confirmar os números e verificar os dados. Em Portugal, fruto de tempos em que nos enganavam de muitas maneiras, somos muitos desconfiados. Ora, ser demasiado desconfiado não é bom, pois procura-se relaxar a tensão com os nos prometem o queremos ouvir e, de novo, somos facilmente enganados.A neuroquímica, embora tenha as costas largas e seja evocada muitas vezes indevidamente, pode bem explicar este fenómeno. 

Fomos em seguida a Azeitão, junção de várias freguesias, que sempre se quis separar de Sesimbra. Conseguiu-o por pouco tempo, mas quando perdeu autonomia de novo juntou-se a Setúbal. Já acima referi as rivalidades. Nem sempre são más, muitas geram cultura, alternativas e competição saudável. Azeitão é uma terra bastante pitoresca onde podem ser visitadas as caves da José Maria da Fonseca (JMS) e da Quinta da Bacalhôa. É muito forte o negócio da vinho aqui, mas há muitos outros pontos de interesse, nomeadamente os seus doces. Achei muito interessante encontrar um bar num antigo lavadoiro público e a forma como o chafariz tinha as torneiras (água potável e não potável). Hoje em dia já não se lava água na rua, nem se vai buscar água ao chafariz, mas estes lugares podem manter a sua magia, perdendo a sua função.    

Bibliografia

António Reis Marques, Coisas de Sesimbra, CMS, 2015.

[versão preliminar de 9 de janeiro de 2022; pequenas atualizações em 13 de março de 2025]

Passeio químico em Portimão

Em Portimão havia muitas fábricas de conservas e uma delas foi transformada no museu da cidade. Estas indústrias foram iniciadas por estrangeiros, no final do século XIX, as de sardinhas por franceses, na sequência de diminuição  da quantidade de sardinha na Bretanha, e as de atum por italianos. 

Chegaram a existir muitas fábricas de conservas em Portimão, as quais tiveram grande procura na primeira guerra mundial. Mas durante a segunda guerra mundial, o embargo à importação da folha-de-flandres de França e Inglaterra, a qual era usada para fazer as latas de conserva causou alguns constrangimentos. A  folha-de-flandres é basicamente uma chapa fina de ferro coberto com uma camada de estanho e era usada para fazer conservas. Numa primeira fase, estas latas tinham de ser feitas e soldadas por trabalhadores especializados. Penso que essa solda não deveria ter chumbo, ou que tivesse muito pouco, tendo apenas estanho, para evitar o envenenamento com este metal, mas não tenho a certeza. A chamada "solda" é uma mistura de 30% de chumbo com 70% de estanho (valores que baixam o  ponto de fusão da liga) e era usada para regadores, bacias, etc. Atualmente, nas fábricas que ainda restam, as latas  começaram a ser de alumínio, mas voltaram ao ferro (podemos ver isso com um íman - dos cinco tipos de lata de conserva que tinha em casa, só um era de ferro), mas têm agora outros revestimentos, nomeadamente vernizes, e já não se usa solda, sendo a abertura fácil feita criando uma zona que se quebra facilmente. No museu de Portimão podemos acompanhar os processos que eram utilizados para fazer conservas.

O lugar onde foi instalado o centro comercial Aqua, era uma antiga fábrica de conservas da qual se conservam as chaminés num jardim próximo. Não verifiquei se foram preservados os baixo relevos a entrada fábrica, como era referido no relatório de conformidade ambiental, mas imagino que sim.

Numa rua, perto do centro comercial, encontrei um curioso anúncio à utilização de lasers de picosegundo para tatuagens. Antes de mais o que é um picosegundo? É um sobre um milhão de milhões de segundos. Nesse tempo curtíssimo ocorrem alguma vibrações moleculares e podem-se estudar moléculas e radicais que existam durante tempos muito curtos. É muito usado em investigação, nomeadamente fotoquímica. Se quisermos usar tempos ainda mais curtos, temos de ter equipamentos mais complexos, mas já se consegue chegar ao fentosegundo (mil vezes mais rápido que o anterior) e apanhar as moléculas numa vibração e podemos ir a tempos ainda mais curtos, ao nível do attosegundo (mil vezes mais rápido que o anterior, ou um mihão de vezes mais rápido do que o laser de picosegundo), em casos muito particulares.    

E o que é um laser? Se há abreviatura mais conhecida é esta. Laser é a abreviatura de light amplification by stimulated emission of radiation. Neste, a luz tem um comprimento de onda bem definido (é normal haver lasers vermelhos ou verdes), mas essa luz, além de ter um comprimento de onda bem definido, está em fase (todos as ondas se somam em vez de se perturbarem) e é colimada (todos os raios de luz são paralelos). Isso faz com que o lasers sejam bastante perigosos pois a radiação tem grande intensidade e enorme focagem. Curiosamente, a ideia do laser começou por parecer não ser possível por, aparentemente, poder violar o princípio da indeterminação. Mas afinal era possível e não violava de maneira nenhuma esse princípio. Os lasers são muito usados em química. Alguns exemplos são o fornecimento de energia às moléculas de forma muito precisa ou a deteção da energia e tempos de vida que têm com grande precisão (que já referi), entre muitos outros. Como isto se obtém é razoavelmente complexo, mas a ideia é mais ou menos simples. Levados a estados de maior energia os fotões (as partículas de luz) voltam ao estado fundamental, mas neste caso há um contínuo forçar a ir para estados excitados e na volta aos estado fundamental os fotões  estimulam outros fotões a irem também para o estado fundamental, resultando na amplificação estimulada que o nome indica.    

Num caminho para a Praia dos Três Irmãos encontrei sumagre. Aqui, há alguns séculos, reduziam as flores deste arbusto a pó e exportavam o produto. Este, era usado para curtir as peles pois tem muito tanino. Atualmente, há outros processos, mas Portugal já foi um grande exportador deste produto obtido desta planta que existe do Algarve até Trás-os-Montes.

Até ao século XVII era também colhido coral na costa, mas devido à pirataria e outros problemas que não identifiquei, esta atividade caiu em desuso. Os corais são animais que parecem plantas, muito coloridos, sendo os seus esqueletos de carbonato de cálcio como seria de esperar, mas as cores vivas vêm de caroteno e outras moléculas. Se forem apanhados ainda novos é possível preservar essas cores. Por exemplo, do tesouro da Rainha Santa, consta uma joia de cor muito vermelha que ainda hoje é impressionante.

Havia também muitas salinas e moinhos de maré em Portimão, que são hoje essencialmente memória. Nos anos 1960 com a explosão do turismo de massas as Praia da Rocha, que já se chamou de Santa Catarina, e que era das mais belas (ainda é) teve muitas procura. Os elegantes chalés nas falésias deram lugar a uma grande pressão urbana para alimentar um turismo de massas que se desenvolve até aos dias de hoje. Atualmente, há muito mais atrações. O Algarve não é só praias. Nos percursos naturais, bem marcados, é possível observar muitas plantas e formações geológicas. Em destaque os algares, fossos verticias que resultam da ação das águas mais ácidas com a formação de buracos nos arenitos moles. São formações muito belas, nos quais as cores dos arenitos amareloss e castanhos quase vermelhos são devidos a sais de ferro.

São também interessantes as memórias dos fumeiros, armazéns onde se secavam os figos e frutos secos. Manuel Teixeira Gomes, que dá nome a uma escola, natural de Portimão, foi o último presidente da república, antes do estado novo. Poeta, escritor e viajante, durante poucos meses tratava dos negócios e o resto do tempo viajava e escrevia. Todos esses frutos secos deram origem a doces regionais bem conhecidos como os Dom Rodrigos, os morgados e os queijos de figo, por exemplo.

No Alvor, na Estada do Vale da Lama, estão instaladas aquiculturas e produções de ostras. Na verdade, a produção de ostras e outros bivalves sempre foi uma tradição nesta região, segundo li.

 

Bibligrafia

Maria da Graça Mateus Ventura, Maria da Graça Maia Marques, Portimão, Editorial Presença, 1993.

Fernando Santos Graça, Alvor com História, Junta de Freguesia de Alvor, 2020.


[versão preliminar de 8 de janeiro de 2022]