Passeios Químicos em Segóvia

Um dos guias que li frisava que Segóvia era a cidade com a localização mais espetacular de Espanha [1] (consultei também alguns dos guias editados pelo Município de Segóvia [2-6]). Rodeada pelos rios Eresma e Clemores era, segundo o guia, comparável a um navio com o Alcazár a servir de proa. Mas, Maria Zambrano (1904-1991), que viveu enquanto criança e jovem nesta cidade e dá nome ao campus universitário, polo da Universidade de Valadolid, refere que é a catedral que é o centro para onde tudo converge. Maria Zambrano, filósofa, discípula de Ortega y Gasset, exilou-se em 1939, na sequência de Guerra Civil de Espanha, e só voltou 45 anos depois.
Curiosamente, tinha lido recentemente a autobiografia [7] de uma outra exilada espanhola, Maria Casarès (1922-1985), que embora tenha voltado a Espanha, naturalizou-se francesa. A memória da Guerra Civil de Espanha é importante para o entendimento do passado e projeção do futuro. Muita literatura com base nesta é imortal: Por exemplo, “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, retrata o ataque falhado republicano a Segóvia em 1937, mas neste texto quero falar essencialmente de Química. E descobri muito mais desta Ciência do que esperava em Segóvia. 

O aqueduto de Segóvia foi construído pelos romanos no século I d.C. (obviamente pelo suor de muitas pessoas, em particular de escravos, não por um “diabinho,” nem pelos “romanos”) e foi usado para trazer água para a cidade até 1934 [8], mas isso tem que ser melhor explicado. Algumas fontes, nomeadamente a Wikipedia, indicavam o ano de 1973, o que me parecia muito recente, e o guia indicava ter sido usado até ao final do século XIX. No Centro Interpretativo do Aqueduto (na Casa da Moeda de que já falarei) fiz a pergunta diretamente e a resposta não é óbvia. O abastecimento de água à cidade foi regulado no século XIX, altura em que o aqueduto já perdia muita água (cerca de dois terços), mas continuou a ser usado, nomeadamente como “cano livre” para abastecer fontes e, de forma intermitente, foi usado até 1934, altura que em que foi definitivamente desativado para essa função. 
Há várias coisas que acabam por envolver Química no aqueduto. Uma delas são os filtros de areia que já eram usados no tempo dos romanos os quais eram uma das únicas formas de purificar a água antes de se generalizar o uso do cloro no século XIX. Depois o atrito, devido às energias intermoleculares de atração entre as  moléculas das pedras em contacto. Deve notar-se que não há qualquer argamassa entre as pedras (mas note-se que também a argamassa funciona devido a essa atração intermolecular), sendo a suas estabilização vertical devido a princípios físicos bem conhecidos, embora espetaculares, mas de facto, há também uma estabilização horizontal devido ao atrito. Finalmente, os materiais de que as pedras são feitas (o granito) veio da Serra de onde vem também a água. Esta teria de vir de um sítio mais elevado, claro.  

A catedral de Segóvia, datada de 1525 (mas demorou muito mais tempo a construir : o claustro gótico é de 1472), é a última catedral gótica de Espanha e foi construída para substituir a catedral antiga, parcialmente destruída em 1520, durante as revoltas que ocorreram por essa altura. Uma figura proeminente das revoltas nesta cidade foi Juan Bravo (a sua estátua está na Praça de San Martin) que foi decapitado junto com cerca de setenta revoltosos e ficou com o seu nome associado também a uma rua ali perto. Segundo Cees Nooteboom, no “Desvio a Santiago” [9], o catolicismo que esta catedral evoca já não é do Românico, nem em boa parte o do Gótico, mas uma religião castigadora e opressiva. (Este autor refere que a cidade tem a configuração de um punho e não de um barco, mas não vou discutir essa questão). 

Em Segóvia podemos encontra cerca de duas dezenas de igrejas românicas muito bonitas, mas vou continuar a referir a catedral, onde podemos visitar um conjunto de quadros notáveis e bem iluminados. Ficámos fascinados especialmente com uma virgem e menino muito brancos, quase a brilhar, atribuídos a Luis de Morales (c. 1510, c. 1586), conhecido como “El divino” [10]. A técnica deste pintor envolvia várias camadas que dão o aspeto diáfano caraterístico das suas pinturas, mas o que me fascinou foi o branco. No seu tempo, este era de carbonato de chumbo, o qual vai amarelecendo com o tempo. Parece óbvio que a pintura foi limpa e restaurada, mas o branco era muito intenso. Fiquei a meditar nisso e depois de algumas pesquisas fiquei a pensar que teria origem na base de madeira que era preparada com uma cobertura com carbonato, provavelmente de cálcio. 

Na elegante Praça de San Martin há vários edifícios interessantes. Uma igreja românica lindíssima por fora (Igreja de San Martin que não pudemos visitar por dentro por estar fechada), uma torre (Torreón de Lozola) e várias casas brasonadas. É aqui perto a antiga prisão real, agora transformada em biblioteca pública (que melhor uso haveria para este edifício?), tendo cá fora uma placa em ferro forjado a homenagear os  Segovianos que morreram a defender a liberdade. 

Mas o que me chamou mais à atenção foi uma fonte (que não deitava água, aliás não vimos nenhuma que deitasse, e julgo ter descoberto a razão): cujas figuras pareciam ser de chumbo e tenho quase a certeza de serem (será essa a razão para não deitarem água). Pode ver-se também nesta fonte um grampo metálico “chumbado”. Um pouco mais à frente (na direção do Alcazár), fica a casa do médico e Humanista Andrés Laguna (1499-1559) onde está instalado o Centro de Interpretação da Judiaria (fechado quando lá fomos – fechou às 14 horas!).   

Segóvia teve uma indústria têxtil pujante de que é ainda testemunha a Real Casa del Sello de Panos, atual sede de um organismo do governo de Segóvia, onde eram certificados os panos que eram fabricados nesta cidade. Em Portugal, os panos de Segóvia eram considerados de fraca qualidade e conhecidos pelo nome de Segóvia. Eram essencialmente de lã, segundo consegui perceber. 

Na Via de Roma, que vai dar ao aqueduto, entrada natural para quem vem de Valladolid, antiga estrada de Boceguillas, agora uma zona habitacional, havia um conjunto de fábricas: de loiça, farinhas e outras de que ainda restam algumas chaminés [11]. Estas fábricas, nomeadamente os moinhos de farinha, usavam a proximidade da água do Rio Eresma. Aqui perto há também a antiga chaminé da fábrica que era conhecido por Real Fábrica da Borra [12], a qual fabricava papel a partir de trapos.

Mais à frente fica a Real Casa da Moeda que também usava a força das águas para as suas prensas. Com o fim da sua atividade, este edifício foi adaptado para uma fábrica de farinha. Mais tarde foi recuperada pelo município e tem lá um museu e o centro de interpretação do aqueduto. Pode também visitar-se o seu jardim, mas não tivemos tempo para ir lá. Todas estas atividades envolvem de alguma forma a Química, mas não vou entrar em muitos detalhes. Não posso no entanto deixar de referir que o papel feito de trapos tem também celulose mas é mais resistente e ideal para fazer notas. Por outro lado a loiça, envolve o aquecimento a alta temperatura do barro que perde água e forma ligações irreversíveis, ficando rígido.   

Noutra entrada da cidade, vindo da autoestrada de Salamanca, ergue-se um edifício vermelho, enorme e com ar abandonado (não fiz fotografias). Depois de alguma pesquisa, encontrei que era a antiga fábrica de enchidos “El Acueducto” desativada em 2009 e desenhada pelo arquiteto de Navarra Curro Inza. O vermelho penso que pode ser de tijolos de barro.

Mas o melhor e o pior acabou por ficar quase para o fim: a Casa da Química (era assim que era indicada no mapa). Esta foi dirigida durante vários anos por Joseph Proust (1754-1826), químico francês que fugiu da Revolução Francesa e foi introdutor da Lei das Proporções Definidas, pelas datas enquanto estava aqui. Grande Surpresa! Os trabalhos de química estavam associados à Academia de Artilharia de Segóvia, que é a mais antiga em funcionamento em Espanha. A Casa da Química é ao lado do conhecido Alcazár que inspirou filmes da Disney e agora serve apenas de sua bilheteira, tendo apenas os seguintes dizeres do lado de fora “Real Laboratorio de Chimia.” 

Na cafetaria, ao lado, há quadros com gravuras de químicos e outros cientistas, mas pareceram-me numa visão rápida aleatórios e não vislumbrei a de Proust (estavam nas paredes ao lado das mesas onde havia clientes que não quis incomodar). Lembro-me de ter visto a gravura de Benjamin Franklin, que não era assim tão óbvia. Parece-me que poderia ter mais alguma informação e até algum material, mas as coisas turísticas são muitas vezes assim: inventa-se por vezes o que não é e esquece-se muitas vezes o que foi.   

Perto, na Granja de San Ildefonso, pode visitar-se a “Real Fabrica de Cristales” onde há uma fábrica e um museu do vidro. Neste último podem ver-se como eram obtidos os vidros. É especialmente interessante e pedagógico a explicação da forma como se fazia o vidro plano com vidro soprado. 

Nas oficinas podemos ver fazerem objetos de vidro soprado, nomeadamente jarras. Há também vários modelos de outra forma de produzir vidro plano envolvendo um cilindro metálico, mas não fiquei convencido pois a base é de madeira. É muito interessante as maquinarias que eram usadas para produzir tijolos, isoladores e copos de vidro. Nas oficinas vimos também um funcionário a fazer desenhos usando o esmeril (material muito duro, penso que de de óxido de alumínio). O vidro é muito resistente, mas pode ser atacado por ácido fluorídrico. É também muito perigoso para os seres vivos, não por ser muito forte, mas por corroer debaixo da pele de uma forma quase invisível e irreversível. Na exposição está uma máquina antiga para fazer desenhos industriais usando este ácido.  

Segóvia teve ainda outras indústrias ligadas à Química de que se destacam a do pez e das cordas. Da primeira ainda há alguns vestígios nos arredores da cidade de fornos onde era destilada a resina e obtido o pez. Nesta zona havia (e ainda há, parece-me) bastantes pinheiros.

Quando voltámos ao carro reparámos no telhado do parque de estacionamento feito com painéis solares para alimentar os carregadores dos carros elétricos. Estamos a acompanhar um desenvolvimento exponencial de tecnologias cada vez mais sustentáveis. Temos ainda de desenvolver, no entanto, materiais que sejam ainda mais sustentáveis e que não alimentem conflitos. E devemos estar cada vez mais atentos aos custos escondidos e futuros.

Referências

[1] Nick Inman (Ed.) Guia de Viagem: Espanha. Dorling Kindesley, 2015.

[2] Turismo de Segovia. Segovia : Patrimonio de la Humanidade, 2020.   

[3] Turismo de Segovia. El Bairro Judio de Segovia, s.d.   

[4] Turismo de Segovia. Real Casa da Moeda de Segovia, 2017.  

[5] Turismo de Segovia. Palavras y Libros : Segovia Literaria, 2007.  

[6] Turismo de Segovia. Casa-Museo de Antonio Machado en Segovia, 2016.  

[7] Maria Casaes. Résident privilégiée. Fayard, 1980. 

[8] Santiago Martinez Caballero. El Acueducto de Segovia : de Trajano al Siglo XXI. Ayntuamento       de Segovia, 2016. 

[9] Cees Nooteboom. El desvío a Santiago. Ediciones Siruela, 2010.   

[10] Há muitas páginas sobre este autor, assim como trabalhos escritos. Chamou-me a atenção esta ligação a Portugal: Manuela Goucha Soares. O que há de comum entre Isabel de Portugal e a Virgem Cigana? Expresso, 26 de setembro de 2016. https://expresso.pt/cultura/2016-12-26-O-que-ha-de-comum-entre-Isabel-de-Portugal-e-a-Virgem-Cigana- (acedido 1 de janeiro de 2024)

[11] Carlos Álvaro. Historia de una avenida. El Norte de Castilla, 1 de abril de 2013. https://www.elnortedecastilla.es/20130401/local/segovia/historia-avenida-201304011113.html (acedido 1 de Janeiro de 2024)

[12] La Fabrica da Borra. https://segoguiados.eu/la-fabrica-de-borra/ (acedido 1 de Janeiro de 2024)


Passeio Químico pela Casa de Egas Moniz e suas imediações

[Estive numas provas de doutoramento onde me chamaram a atenção para que, em 2024, faz 150 anos de que António Egas Moniz (1874-1955) nasceu e 75 anos de que recebeu o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina. Visitei, em Avanca, Estarreja, a Casa-Museu com o seu nome, nos fins da pandemia de Covid-19, e tirei várias fotografias. Como se pode ver ainda se usava máscara nos espaços públicos. Voltei lá em 23 de novembro de 2024 e pude rever alguns aspetos e posso agora mudar algumas fotografias]

Trata-se de uma casa bonita e muito elegante, com um grande jardim, dois andares e torreões. A "Casa do "Marinheiro", como foi chamada, era inicialmente relativamente modesta, mas adquiriu aquele aspecto imponente com o desenho do arquiteto Ernest Korrodi,  refere João Lobo Antunes, na biografia de Egas Moniz. A quinta é muito grande, e, citando de novo João Lobo Antunes, Moniz, com três sócios, criou nesta uma vacaria modelo. Na cozinha, por onde entramos (na visita que fiz em novembro de 2024 foi o local de saída), encontramos uma interessante imagem do que era uma casa burguesa rica tradicional. Estas não poderiam funcionar na ausência de vários empregados que faziam múltiplas atividades: ir às compras, cozinhar, limpar e que organizavam as coisas, em geral antecipando-se aos patrões, os quais apenas davam ordens muito gerais. Na biografia que escreveu João Lobo Antunes, são referidos um feitor, três criados, uma cozinheira e um criado de mesa (e estes tomavam conta da casa nos onze meses que o casal estava em Lisboa). Era um tempo em que todos os alimentos eram confecionados em casa, as conservas eram caseiras e os compostos conservantes eram comprados nas farmácias ou nas drogarias. 

O frigorífico, o microondas, ou a “Bimby” não existiam, claro. O aço inoxidável não era usado, por ser muito caro o seu fabrico, sendo os talheres e as panelas de outros materiais. O lume era feito a lenha. Fogão a gás só se tornou comum na segunda metade do século XX. Também eram raros - apareceram no século XX, mas só se generalizaram nos anos 1960 - os utensílios de plástico, e, só nas ultimas décadas do século XX se tornou comum o uso de utensílios de silicone. Muito se poderia falar das evoluções químicas relacionadas com a cozinha que podemos notar “brilharem pela ausência” numa cozinha tradicional, mas eu não entrei na Casa-Museu de Egas Moniz para falar muito disso.

Ainda no rés-do-chão, observamos vários dos documentos e condecorações relativos à vida de Egas Moniz. Depois, subindo um andar, encontramos muitas das obras de arte que este possuía. Os visitantes têm em geral gostos bastante diferentes, e uma Casa-Museu acaba por satisfazer vários desses gostos. A mim, as obras de arte interessam-me bastante, mas as mobílias e as loiças parecem-me muito menos apelativas. Mas aqui, na Casa Museu, o que queria mais ver, estava relacionado com a psicocirurgia pela qual Egas Moniz recebeu o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina, em 1949. Há uma sala sobre esta cirurgia e passei algum tempo a ver com atenção o que estava lá. (Mais pormenores sobre a a casa podem ser lidos na biografia escrita por João Lobo Antunes e nas outras referências da bibliografia).

Por vezes ouve-se, e lê-se, que deveriam tirar o Prémio Nobel a Egas Moniz - havia até um movimento nesse sentido -,  pois a leucotomia é uma “prática bárbara.” Mas, se pensarmos bem, não faz sentido. Primeiro, devemos olhar para as coisas à luz do seu tempo e das suas circunstâncias, embora isso não nos ilibe das responsabilidades atuais, claro. Segundo, há que distinguir a leucotomia pré-frontal (praticada por Egas Moniz) da lobotomia. São duas práticas médicas com resultados aparentemente similares, mas bastante diferentes. A primeira, envolvia um procedimento médico elaborado, em termos cirúrgicos, e a segunda foi popularizada por Walter J. Freeman (1895-1972),  o qual chegou a fazê-la, quase sem preparação, através do globo ocular. 

Numas pesquisas que fiz há uns anos (e repeti de novo em novembro de 2024), na base dados Web of Science (WoS), verifiquei que na literatura científica são relativamente poucos os artigos científicos que referem as duas palavras em conjunto (menos de 5%), sendo uns sobre a leucotomia e os outros sobre a lobotomia. Terceiro, e muito importante, nos anos 1930 não havia tratamentos medicamentosos eficazes para as doenças mentais. Isso só virá a surgir nos anos 1950 com a clorpromazina. A leucotomia parecia, às pessoas daquele tempo, uma opção boa para resolver problemas mentais que não tinham solução ( está hoje em dia a ser revitalizada também devido a isso). Duas pessoas relevantes leucotomizadas foram, a mulher de Marcelo Caetano, Maria Teresa Caetano, já este era primeiro ministro, e Raul Proença, editor do Guia de Portugal e autor de muitos textos. Se em relação à primeira, vi poucas notícias, em relação ao segundo, li que Proença, (que pensava ser amigo de Moniz, mas soube depois, por um comunicação de Manuel Correia, não ser), não achou melhorias com o procedimento. Por outro lado, Freeman tinha uma fé inabalável na técnica da lobotomia, mas outros médicos eram céticos, como Sobral Cid (1877-1941).

Egas Moniz foi também um autor pioneiro da técnica de angiografia cerebral, que permitia a marcação dos vasos sanguíneos do cérebro. Há teorias de que faria mais sentido ter-lhe sido dado o Prémio Nobel por isso, e de facto foi proposto várias vezes para o prémio por essa técnica (uma delas, um ano depois do Nobel). Talvez fizesse sentido, mas as primeiras angiografias também “eram bárbaras.” Um dos agentes de contraste usados no seu início, depois do brometo de estrôncio usado no começo) era o torotraste, óxido de tório, ThO2, bastante tempo usado como agente de contraste em vários tipos de radiografias. Ora, o metal tório é radioativo, e não sabemos quantos casos de cancro a mais acabou por causar. Mas, só para percebermos como as coisas eram diferentes, basta recordar que a primazia do torotraste foi contestada por alguns médicos (que diziam ter usado primeiro).  

Em conclusão, há que analisar as coisas à luz do seu tempo. Hoje temos comissões de ética e consentimento informado, os investigadores estão muito mais alerta para as consequências dos seus atos, o público tem muito mais sensibilidade, etc., mas isso não existia, ou era considerado menos importante, no tempo de Egas Moniz. Em 1927, estávamos ainda longe do Código de Nuremberga, de 1947, e das Declarações de Génova, de 1948, e de Helsínquia, de 1964. Os testes clínicos controlados só serão regulamentados, primeiro nos EUA, em 1962, e mesmo a segurança médica só irá ser regulada pela FDA em 1938. Comissões de ética só irão aparecer mais tarde. Por exemplo, na Alemanha a primeira Comissão de Ética aparecerá em 1971 e, tanto, como eu consegui perceber, em 1974, nos EUA. Só existia o Juramento de Hipócrates e o bom senso (que é bastante falível). Mesmo assim, Moniz obtém o consentimento dos seus pacientes ou familiares e tem a intuição de que está a proceder de forma correta e a favor destes, procurando controlar, ainda que de forma incipiente, as suas experiências. É anacrónico ver o passado com os olhos de hoje, mas isso não nos iliba, como já referi, das responsabilidades atuais de reparação e mitigação, se for o caso. Egas Moniz morreu em 1955, no mesmo ano de Einstein, e, por exemplo, a estrutura do DNA tinha acabado de ser descoberta e publicada em 1953 por Watson e Crick e o Homem ainda não tinha ido à Lua.

E porque passei tanto tempo a falar de práticas médicas, quando disse que ia falar de Química? Se pensarmos um pouco, vemos como a Química é fundamental para o sucesso destas. A possibilidade de realizar operações cirúrgicas mais complexas envolve assepsia, anestesia, antibióticos e vários outros medicamentos desenvolvidos pela Química. E poderíamos continuar por este caminho que é bastante óbvio, embora nem sempre seja reconhecido.  

Egas Moniz sofria de gota desde muito novo (24 anos) e ficou com as mãos deformadas. Podemos reparar facilmente nas fotografias em que aparecem as suas mãos, mas também podemos ver que as suas orelhas têm deformações caraterísticas com os tofos com cristais de ácido úrico. E usava umas botas especiais para acomodar os tofos gotosos que tinha nas plantas dos pés. Deveria ter bastantes dores e estava, na prática, provavelmente, impossibilitado de realizar cirurgias minuciosas (para o efeito trabalhava em equipa com outros cirurgiões). Outra pessoa que ganhou o Prémio Nobel, neste caso da Química, e que também tinha as mãos deformadas foi Dorothy Crowfoot Hodgkin. Hoje em dia, há medicamentos para estas doenças que não havia no tempo de Moniz nem de Dorothy. Moniz, usava também um capachinho na cabeça, como também é visível nas fotos. Era, no entanto, muito resistente e sobreviveu ao atentado mortal a tiro realizado por um doente. Ele e a sua mulher, Elvira de Macedo Dias, não tiveram filhos. Os medicamentos que tomava para a doença podem ter causado esse resultado. Na altura usavam-se salicilatos e a colchicina, provocando ambos, em particular os primeiros, segundo li, diminuição da motilidade dos espermatozoides.   

Moniz era um escritor prolífero. Escreveu sobre coisas tão diversas como Arte e Literatura, em particular sobre José Malhoa e Júlio Dinís, e sobre a história das cartas de jogar. Faz eco de muitos preconceitos na sua obra “A vida sexual” que só se podia comprar (disseram-me) com receita médica! 

Muitas vezes, era demasiado confiante, como quando fez o diagnóstico de Mário de Sá Carneiro com base num poema que este publicou. Ou era demasiado "do seu tempo," quando vai ser um dos médicos que corrobora o diagnóstico infame de “loucura lúcida” a Maria Adelaide Cunha que “fugiu” com o seu motorista, abandonando o marido que a fez internar, com a conivência de Moniz, Sobral Cid e Júlio de Matos, e lhe ficou com o jornal “Diário de Notícias”.   

Perto da casa de Egas Museu, fica uma instalação da Nestlé, e, na rotunda perto desta, há uma homenagem à fábrica de processamento de leite. Trata-se de um conjunto de depósitos e tubos em aço inoxidável, característicos e facilmente reconhecíveis, das unidades de processamento de leite. Poucos sabem, mas foi através da iniciativa de Egas Moniz que chegaram a Portugal as papas lácteas. Moniz, com vários sócios, começou com uma fábrica de laticínios, que, mais tarde, foi vendida a esta marca.  Mais uma vez, podemos achar que as farinhas lácteas não foram uma evolução em relação à amamentação natural, mas temos de ver as coisas à luz do seu tempo. Nessa altura, a amamentação natural era vista, nos meios cultos, como uma “coisa bárbara.” Quem podia tinha amas de leite e o uso de leite de animais não era seguro nem adequado. Estas papas vão permitir obter materiais estéreis e com composições adequadas. Hoje em dia podemos, se o pudermos, passar sem elas, mas na altura foi um grande avanço.

Nunca é demais lembrar que, até perto dos anos 1960, era perigoso ser bebé, criança ou jovem (leia-se o livro de Annie Ernaux “Os anos”, por exemplo). A mortalidade infantil era muito alta, o que criou a falsa ideia de que a esperança de vida de todos era baixa. Não era assim: há nesta ideia uma falácia estatística. Para simplificar, pensemos que metade das crianças morria à nascença e as que não morriam chegavam aos 100 anos: a média da esperança de vida seria de 50 anos. O maior aumento da esperança de vida foi conseguido com a diminuição da mortalidade infantil. E muitas crianças morriam de diarreias e doenças relacionadas com a alimentação e a higiene. Claro que o aumento da esperança de vida é hoje conseguida à conta de coisas mais subtis, mas, mais do que o aumento da esperança de vida, hoje em dia podemos falar de aumento da qualidade de vida (pelo menos no mundo ocidental) para o qual muito contribuiu a Química. 

Temos, entretanto, hoje em dia, muitos outros desafios, como o aquecimento global, mas não devemos esquecer que muitos problemas têm sido resolvidos com mais Ciência e que foi aumentada a sustentabilidade de muitas coisas que nos rodeiam.

E Egas Moniz? A evolução do seu pensamento, atualização dos seus conhecimentos, gestão que fez da sua carreira e a sua curiosidade são notáveis. Quando jovem, parece que deu muita importância à vida estudantil, havendo uma placa que assinala a sua vida numa República Estudantil, na Rua de Tomar, em Coimbra. Bateu-se em duelo, gostava de jogar cartas e apreciava iguarias. Há ainda muita coisa para estudar e divulgar. Manuel Correia, no colóquio referido acima, falou dos diários que, não sendo inéditos, não estão ainda publicados, nos quais tem palavras violentas, mas justas, para com a ditadura e Oliveira Salazar. Escreveu o famoso livro sobre a vida sexual, onde distingue muito os papéis do homem e da mulher, mas muda bastante de ideias ao longo da vida.
Numa das últimas entrevistas que deu, ao lhe perguntarem sobre a "inferioridade" da mulher, responde que, se existisse, era devida à educação (estamos em 1955). Moniz pode ser um modelo para os jovens. Não precisa ser apresentado apenas como aquele senhor idoso de capachinho e polainas. Pode ser mostrado também como o jovem corajoso e garboso, como o homem das "duas culturas", que cultivava as relações humanas e gostava da vida, e claro, como o cientista inovador, incansável e pedagógico (a esse nível, as Confidências de um Investigador Científico, são notáveis). Muitas das suas ações e ideias estão hoje ultrapassadas, mas abriram caminhos e reflexões que nos permitem ter visões, esperanças e ações mais realistas e informadas.      

[A primeira versão foi escrita em 19 de dezembro de 2023, corrigi algumas gralhas em 29 de junho de 2024 e fiz pequenas alterações e acrescentos em 4 de outubro de 2024 e 22, 25 e 29 de novembro de 2024] 

Bibliografia

Ana Leonor Pereira, João Rui Pita (Eds). Egas Moniz em livre exame. Minerva, 2000.

João Lobo Antunes. Egas Moniz: uma biografia. Gradiva, 2010.

Manuel Correia. "Raul Proença". In Luzes e Sombras do Alienismo Português, 201-214. Porto, Portugal: Centro Hospitalar Conde de Ferreira, 2012.

Manuel Correia. Egas Moniz no seu labirinto. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

Sérgio P. J. Rodrigues. Química e Saúde Pública. Revista Multidisciplinar, 4(2):57-74 (2022). https://doi.org/10.23882/rmd.22087

Passeios químicos em Toledo

[Em dezembro de 2022 estive uns dias em Toledo, em Espanha. Escrevi na altura algumas notas, mas só agora estou a acabar o texto]

Toledo foi a capital do império espanhol até 1561, altura em que Filipe II mudou a sua corte para Madrid. Rodeada pelo rio Tejo tem muitas histórias para contar. Uma delas é que foi nesta cidade que morreu Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), o inventor da passarola, que fugiu in extremis da Inquisição portuguesa. Vou aqui concentrar-me essencialmente nas narrativas com ligação à química.

Atualmente, o principal artesanato de Toledo é a produção de espadas e um tipo de arte manual conhecida como damascaria. Trata-se, neste último caso, de incrustação de materiais, como pedras preciosas e outros metais, em ouro. Este, embora seja um metal muito denso (um litro de ouro pesa mais de dezanove quilogramas) é muito maleável e, por isso, facilmente trabalhado. Uma localidade perto de Toledo, Oropesa, provavelmente ficou com este nome, como o próprio nome indica, devido a ser um local onde pesavam o ouro. Por outro lado, no caso das espadas, a incorporação de carbono no ferro e os tratamentos térmicos, dão origem a gumes muito resistentes e cortantes. 

Há um pequeno “museu” do queijo manchego na cidade, mas rapidamente notamos que é mais uma loja do que um museu. Em qualquer dos casos, visitei as suas salas e deu para perceber melhor o processo de produção deste queijo. Este é feito de leite de ovelhas de raça manchega com coalho e sujeito a um conjunto de regras bastantes estritas assim como a rotulagens diversas. O coalho é extraído dos estômagos dos cordeiros, onde há enzimas que agem sobre o leite, sendo também usado em muitos queijos em Portugal. Importantes para o resultado, é, na minha opinião, o corte da coalhada em pedaços muito pequenos e a prensagem para retirar o soro que dá ao queijo um aspeto homogéneo e compacto. 

Os moldes devem ter textura em zig-zag para imitar o antigo cincho de esparto (pode ver-se numa das fotografias) que ainda é usado nas produções mais artesanais. Tanto quanto sei, não há nenhum queijo em Portugal que tenha usado estes cinchos. O leite inteiro pode ter teores de gordura da ordem dos 3%, mas o queijo vai ter teores de mais de 50%. Curiosamente, vai assim ter muito maior teor de proteína pois estas estão associadas à gordura (esta envolve as proteínas). Então e a manteiga? Neste caso não se coalha o leite e portanto não são precipitadas as proteínas que estão envolvidas pelas gorduras, mas vai-se extraindo as gorduras que estão à superfície (as gorduras têm menor densidade), sem que nesse processo sejam arrastadas as proteínas. O leite usado pode ser cru ou pasteurizado. Se for leite cru, ou seja não pasteurizado, pode ser usada a designação de “artesanal”. E o que é pasteurizar? É aquecer a leite a cerca de 70ºC durante vários minutos, o que provoca, desta forma, a morte de uma boa parte das bactérias patogénicas (se estas estiverem presentes, o que  em geral não acontece, devido aos processos e higiene modernos).  

Para além de toda a história do local, há dois momentos que quero referir: as visitas de Marie Curie. Esta visitou pela primeira vez Toledo em 1919, na sequência do primeiro Congresso Nacional de Medicina Nuclear que se realizou em Madrid, tendo visitado a fábrica de armas de Toledo que esteve envolvida no esforço da Primeira Guerra Mundial e voltou depois, em 1931 e 1933, destas duas últimas vezes com a intervenção do médico, cientista e humanista Gregorio Marañón, Doutor Honoris de Causa pela Universidade de Coimbra. Numa foto que vi do primeiro congresso de medicina nucleal, esta está ao lado de Alexander Fleming, o que não deixa de ser curioso, dado a paixão dos espanhóis pelo médico e cientista, como já referi noutros passeios. E claro, em Toledo há também uma rua com o nome de Fleming. 

Outro momento que quero referir, este mais triste, foi o da Guerra Civil de Espanha. A cidade foi muito relevante durante esta guerra, sendo a nível simbólico muito importante para os nacionalistas de Francisco Franco. Talvez não seja assim por acaso que se situe aqui um dos maiores museus militares do país, situado no palácio, conhecido como Alcazar, que foi quase destruído durante a guerra e que domina toda a cidade. Quando lá estive, estava fechado. Havia no Alcazar uma exposição sobre os Lusíadas, mas não cheguei a ir lá.    

Outro aspeto muito interessante daqui é o facto de El Greco (1541-1614), nome pelo qual que ficou conhecido Domenikos Thetokopulos, ter vivido e trabalhado nesta cidade, tendo feito quadros que a representam, assim como realizado retratos de pessoas da época. Pode visitar-se um museu, que embora não tenha sido a sua casa - pensa-se que esta seria perto – reúne várias das suas obras (Ministerio de Educacion, Cultura y Deporte, 2014). As obras de El Greco são facilmente identificáveis pelas formas esguias e distorcidas das pessoas e pelas cores intensas. Há uma procura de explicação com base no seu suposto astigmatismo, o que é conhecido em certos meios pela “falácia de El Greco”. De facto,  segundo esta corrente, mesmo que este tivesse um defeito de visão este repercutir-se-ia nas telas e molduras e, portanto, embora El Greco visse distorcido pintaria “corretamente”. Há também outras propostas de explicação que têm sido publicadas. Seja como for, El Greco é atualmente considerado percursor em muitos aspetos da arte moderna. 

Um aspeto que me chamou atenção nas pinturas de El Greco, foram as cores e os rostos. Muitos dos santos parecem ter todos a mesma cara! E é também curiosa a forma como El Greco usa as cores: para os motivos divinos usa cores brilhantes e intensas, mas para os motivos terrenos cores escuras. As suas cores são muito diversas como vou referir, mas há duas cores que são especialmente significativas: os vermelhos e os azuis. Tratam-se, segundo percebi, do uso de dois pigmentos naturais. Para o vermelho, a cochonilha, obtida de um inseto, e para o azul, o índigo, obtido de uma planta, que aqui na península era o pastel dos tintureiros. 

Muitos dos seus quadros foram sendo espalhados por vários locais. Chamou-me a atenção a enorme “Assunção da Virgem” que foi retirada do altar onde se encontrava cerca de 1830 e acabou por ir parar a Chicago, nos Estados Unidos. Agora podemos “apreciar” nesse altar uma cópia. Os restauros têm mostrado que as cores antigas (não só de El Greco) eram muito intensas, mas ao longo dos anos os vernizes foram amarelecendo e o pó e o fumo foram escurecendo os quadros. Operações de restauro e limpeza que retirem esses materiais devolvem uma riqueza de cores que muitas vezes nem suspeitávamos. Bastante impressionante é o “Enterro do Conde de Orgaz” que parecia ter sido pintado há muito pouco tempo. Vi depois que tinha sido restaurado. 

Num artigo que li que analisa o quadro “Batismo de Cristo” (Daniilia, 2008) nota-se desde logo o escurecimento dos brancos, mas todas as outras cores parecem quase inalteradas. A paleta do pintor tinha também pigmentos minerais, além dos orgânicos naturais já referidos. Tinha também alguns pigmentos sintéticos, mas de origem inorgânica. Os pigmentos usavam como base o vidro moído que lhes dava bastante brilho ou a resina. El Greco usava uma camada branca conhecida como imprimatura com várias combinações de vidro moído e branco de chumbo com gesso e um ligante (não percebi se era ovo ou óleo) que ajudava a fixar as cores e lhe dava profundidade e aumentava a saturação e a luminosidade. O branco de chumbo é um sal deste metal (2PbCO3.Pb(OH)2) que escurece por este formar sais negros de enxofre, originados pela presença de dióxido de enxofre na atmosfera. Os azuis são de índigo e lapis lazuli, os pretos de negro de carvão, os verdes de uma mistura de indígo, resinato de cobre (Cu(OH)2 com resina), e branco de chumbo, o vermelho é de cochonilha e o amarelo de chumbo-estanho (PbSn(1-x)SixO3). Há também umbra (Fe2O3 e MnO2), ocre amarelo (FeOOH) e realgar (As4S4 e As2S3). Independentemente de todos os aspetos técnicos, que acrescentam profundidade à análise, são muito belos os quadros.

Toledo é uma cidade muito antiga, em que as várias civilizações foram convivendo, nem sempre de forma harmoniosa. Podemos ver mesquitas e sinagogas que foram transformadas em igrejas, igrejas tão antigas que vão passando pelas várias civilizações que se fixaram aqui, ruas e edifícios muito antigos, ruas com numeração e nomes inusitados, etc. Chamou-me a atenção esta espécie de mania dos espanhóis em “prender” os seus santos, com grades que se fecham ou estão fechadas.

Com toda esta riqueza cultural, os pratos típicos da cidade são também muito complexos, mas é especialmente conhecido o maçapão (do castelhano marzipan). Este doce de origem árabe tem como principais componentes a farinha de amêndoa, o açúcar e as claras de ovo que dão origem a uma pasta que pode ser moldada e permite fazer esculturas bastante detalhadas.

Referências

S. Daniilia, K. S. Andrikopoulos, S. Sotiropoulou, I. Karapanagiotis, Analytical study into El Greco’s baptism of Christ: clues to the genius of his palette. Appl. Phys. A 90, 565–575 (2008)

Ministerio de Educacion, Cultura y Deporte. Museo de Greco, 2014.

Passeio Químico em Canas de Senhorim

[Fui em abril dar uma palestra na Escola de Canas de Senhorim e aproveitei para tirar algumas fotografias e refletir sobre esta povoação interessante, cheia de história e potencialidades, com alunos e professores muito motivados e algo abandonada pelos poderes nacionais e locais. Na altura comi num restaurante muito bom chamado “Zé Pataco”. Entretanto já lá voltei. O ficheiro, no entanto, ficou adormecido e só agora acordou.]

Canas de Senhorim é uma Vila muito antiga, onde estiveram instaladas muitas empresas, mas nunca lá tinha parado. Mas já antes tinha escrito sobre as minas da Urgeiriça que é em Canas de Senhorim (mas não o escrevi) e tinha reparada nas ruínas da Companhia Portuguesa de Fornos Elétricos (CPFE) que se veem da estrada. Tinha-me chamado a atenção em particular um edifício que tinha a palavra “azoto”, mas nunca tive tempo de parar. Em Canas de Senhorim há uma homenagem aos mineiros perto da escola. Trata-se de uma coluna com um relevo em bronze interessante mas de certa forma esquecido num jardim. Como toda a gente já reparou, o cobre (de que o bronze é o principal constituinte) das estátuas, relevos e coberturas começa por ser castanho mas adquire um aspeto verde devido aos óxidos deste metal. Pode também reparar-se noutros lugares, em que nada, quando os materiais são novos, indicia haver cobre, mas lentamente lá vão aparecendo as escorrências e coberturas verdes. Já me perguntei porque algumas coberturas e  estátuas não parece acontecer isso, mas suspeito que tem a ver com serem demasiado novas ou estarem cobertas de verniz. Ou podem ser de aço corten que se cobre com uma camada de óxido avermelhada que de longe pode parecer cobre.

Mas não nos percamos. Virei para a esquerda da estrada onde passo por vezes a caminho da Serra da Estrela. Logo na entrada da vila dei conta de uma fábrica abandonada (infelizmente em Canas há algumas fábricas assim) e reparei nuns dizeres apagados: “Quimigal”. Mais à frente encontrei letreiros novos da ADP (Adubos de Portugal). Para quem não sabe, a ADP é agora do grupo Fertiberia S. A., que está centrado em Espanha. Mas podemos ir ainda mais longe para tentar perceber esta trama. A origem é a CUF (Companhia União Fabril), que depois de nacionalizada ficou com o nome de Quimigal. Entretanto, o Grupo Mello, herdeiro da CUF, voltou a adquiri-la e separou os seus negócios químicos, a que deu o nome de Bondalti, dos negócios da saúde, onde usou o nome CUF, que agora toda a gente associa a hospitais. Entretanto a Bondalti trocou com o grupo espanhol várias fábricas. As de adubos ficaram para o grupo espanhol e as de hipoclorito e cloro para o grupo português. Julgo que estou a simplificar, mas também não tenho toda informação como é óbvio.

Na CPFE produziu-se, entre outras coisas, carbureto de cálcio que era usado nos gasómetros. Com a junção de água forma-se etileno que depois pode ser queimado, originando a iluminação característica. A reação química é a seguinte

CaC2+H2O → C2H2+CaO

Penso que nesta fábrica também se produziam equipamentos que precisavam de vidro (foi retirada uma grande quantidade deste material da antiga fábrica) e quartzo. Aliás o Museu do Quartzo não é longe, ficando perto de uma lagoa muito bonita que agora está no local onde era extraído o quartzo.  

Todas estas memórias de um tempo que já passou não precisam de ser feias ou estar mal cuidadas.  Podemos ter memórias industriais bem enquadradas e aproveitadas. Na Urgeiriça foi feito um hotel e ficam perto de Canas de Senhorim as termas das Caldas da Felgueira, que remontam ao início do século XIX. Não fui lá, mas lendo o seu sítio na Internet reparei em duas coisas: que a água emerge a 35ºC e que tem algum enxofre. Pode não ser a solução milagrosa para todos os achaques e para rejuvenescer, mas é com certeza benéfica para o corpo e para a mente. E a mente, em particular a memória, é fundamental.

Passeio químico em Sagres

[Em setembro, fiz parte de um congresso na Universidade de Algarve, em Faro, que organizou uma visita que nos levou até Sagres. Com base nas notas que tomei e nas fotografias que fiz, elaborei estas notas para um passeio químico. O texto ficou quase pronto na altura, mas só agora, lhe fiz uma revisão e o o torno público. Já tinha vários Passeios Químicos aqui no Algarve: Lagos, Portimão e Faro.]

O cabo de Sagres fica mais a sul em Portugal continental. Estava um pouco de nevoeiro, quando lá estivemos. O que é o nevoeiro? Gotas de água que estão juntas e fazem nuvens. Como o cabo é razoavelmente alto, a água evapora e condensa criando este nevoeiro. Ao mesmo tempo, estamos perto do mar e há muitos aerossóis com iões cloreto, que junto com a humidade, provoca a corrosão acelerada dos metais. Podemos observar as tampas de saneamento, os sinais de trânsito e muito outras coisas corroídas. Nestes locais, o zinco que protege o ferro, é oxidado rapidamente e desaparece, ficando o ferro oxidado. 

No caminho passámos por uma empresa uma cimenteira. A produção de cimento e a a construção são atividades que envolvem muita energia e a produção de dióxido de carbono (estima-se que 25% da produção mundial deste gás provenha destas atividades). No caso do cimento, a pedra é moída e aquecida a altas temperaturas ficando desidratada. Já referi o cimento várias vezes, em particular aquiO pó resultante da rocha, na presença de água volta a endurecer, mas há um aspeto único e que poderemos considerar fantástico. O endurecimento, “a presa”, acontece mesmo na presença de água. Por isso, podem ser feitas pontes e barragens com mais facilidade. Mas a longo prazo aparecem os problemas. 

O betão (cimento armado com pedras e estruturas de ferro no interior) começa a degradar-se e o ar e a água conseguem chegar ao ferro, oxidando-o. Por isso, neste momento pensa-se que as grandes estruturas de betão têm tempos de vida muito mais curtos do que se pensava. Por outro lado, a cal apagada (hidróxido de cálcio) embora demore muito tempo a endurecer e não o faça na presença de água, lentamente vai reagindo com o dióxido de carbono do ar e tornando-se carbonato de cálcio, a base das rochas calcárias. Para além disso, a cal permite a passagem de vapor de água e gases nas paredes, algo que o cimento não permite, e por isso é muito mais adequado para revestimentos de casas antigas. Em suma, a evolução do conhecimento tem permitido obter melhores materiais, otimizar e recuperar o uso de materiais antigos e perceber melhor as alterações de todos.

No meio do nevoeiro, vê-se a torre do farol de São Vicente que fica no antigo convento, o qual estava fechado quando lá fomos. Não é o farol que fica mais a sul de Portugal continental, cabendo ao farol da Ponta de Sagres, essa distinção, mas é, parece-me, o mais visível. Antigamente, as lâmpadas dos faróis eram muito pesadas e estes tinham de estar assentes em materiais que pudessem rodar facilmente. Usava-se mercúrio metálico que por ser líquido e mais denso do que o ferro facilitava essa rotação. Com as lâmpadas modernas mais leves e os motores, deixou de ser necessário o mercúrio, mas era uma parte integrante dos faróis no século XIX e início do século XX. Também hoje em dia, com os sistemas de geo-localização os faróis são menos importantes, mas continuam a ser relevantes. Não tem muito a ver com a química, mas é interessante saber como os faróis eram e são identificados. Cada um tem a sua “característica” que no caso deste farol é um relâmpago branco a cada cinco segundos. E este em particular tem um alcance de mais ou menos 59 quilómetros, o que faz deste farol um dos que em Portugal podem ser avistados a maior distância.  

Além dos metais das placas e vedações e metais que possam ter existido nos faróis, podemos encontrar muito metais nos bolsos das pessoas (nas moedas e nos telemóveis por exemplo): ouro, prata, cobre, tântalo, e muitos outros. Vim aqui, a um sítio tão belo, e falo dos bolsos das pessoas! Isso também é de maravilhar e tem pequenas surpresas. Por exemplo, as moedas de um a cinco cêntimos parecem de cobre, mas têm comportamento magnético. Porquê? Por que são de ferro recoberto com cobre. Se fossem todas de cobre, o valor facial, pelo menos as de um cêntimo, era inferior ao valor do metal e isso poderia fazer com as moedas fossem fundidas pelo cobre. E além dos bolsos, podemos reparar nas roupas. Quase todas têm algum tratamento químico, mesmo as de tecidos naturais. São os corantes, os detergentes, os branqueadores e muitas outras coisas. E os óculos, que são agora de plástico, os sapatos com solas sintéticas. É um nunca mais acabar de coisas que têm a ver com Química. 

As rochas é a vegetação são muito caraterísticas. É preciso cuidado onde se colocam os pés. As rochas calcárias estão todas rendilhadas devido à ação do dióxido de carbono ao longo dos anos, penso eu. Consultei várias páginas da Internet discutindo a flora presente no Cabo de Sagres, com muitas espécies (à primeira vista parece muito pobre em termos vegetais, mas não é). Não reparei em nenhuma que fosse mais relevante em termos químicos. De certeza que deve haver, mas eu não encontrei.

Ainda na zona do cabo de Sagres, fomos a um café que tinha uma espécie de museu com animais empalhados. O kitsh era muito evidente, mas não vou falar disso. Vou falar dos animais empalhados em si. Basicamente, estes são mesmo “empalhados,” pois as vísceras e a maioria do esqueleto é retirado ficando só a pele que é tratada, para se conservar, sendo o interior enchido em geral com… palha. No caso das cabeças, mandíbulas e outras partes mais complexas e detalhadas é mantido o esqueleto e para os olhos há muito tempo que se usa vidro pintado. Parecerem vivos e só uma ilusão, claro, e como os micro-organismos atacam as suas peles têm grandes quantidades de pesticidas, em particular arsénico, os mais antigos, sendo portanto desaconselhado tocar-lhes. E qual era o seu papel? Antes da generalização da fotografia a cores e dos filmes com altas resoluções, serviam para concentrar nos museus espécies que poderiam ser observados e estudadas. Hoje, isso já não é necessário. Estes animais empalhados são a memórias de um tempo em que eram fundamentais para o ensino e a investigação. Devido a essa memória devem ser preservados e até ter novas funções, mas não precisamos de ter novos. Como não faz sentido termos novas esculturas de marfim dos dentes e ossos de baleia, mas faz sentido manter a memória do tempo em que foram usadas para isso, mesmo criando polémica sobre esse uso ancestral.    

Gostei imenso de bolos e outras receitas usando alfarroba (Ceratonia siliqua). No Algarve, em alguns sítios chamam-lhe “ouro negro”. Gosto desse nome que deriva do facto de a farinha ter muitas aplicações e ser escura, e assim os bolos e todos os produtos de panificação que a usam ficarem escuros. Muitas das receitas envolvendo chocolate ficam muito bem com farinha de alfarroba. Esta tem além disso um uso mais generalizado na indústria alimentar onde dá origem ao espessante E410, mas é muito mais do que isso. Na Wikipedia é referido que a “dieta” de gafanhotos e mel de João Batista seria afinal de vagens de alfarroba e mel, mas as referências são algo frágeis, por isso continuo com dúvidas. Embora, como é uma planta bastante resistente à seca faça sentido.  

A guia turística tinha bastante sensibilidade e levou vagens de alfarrobeira e casca de sobreiro (cortiça não tratada), além de que referiu plantas e rochas comuns. Como falei com ela, e era esta a sua ideia, tem de haver uma oferta turística diferenciada para as pessoas interessadas em ciência e tecnologia. Mais ainda, essa oferta tem de ser criada, sem que seja procurada, pois as pessoas só procuram o que conhecem. Referiu-me as saídas de campo que organizam envolvendo a observação de pássaros ou as exploração das zonas entre-marés.  Pois, também poderá ser muito interessante, observar a química que pode ver nas ruas. Tenho aqui exemplos suficientes, acho eu, mas podemos sempre encontrar novos.