Passeio químico em Milão

[Aproveitando que estive em Milão no fim de semana de 10 de março, fiz algumas fotografias e realizei alguns reflexões para este passeio químico]  

Milão é conhecida como a capital da moda e, de facto, inúmeras montras e espaços são muito inovadores. Foram incontáveis os momentos em que fomos vendo e discutindo as soluções estéticas e técnicas das montras. Houve uma marca em particular que nos entusiasmou pela beleza do resultado. Usavam grandes quantidades de algodão nas cabeças dos manequins para estas parecerem nuvens. 

Noutra montra, espantou-nos o inesperado de "esculpir" pães como pantufas. Outra ainda ao colocar brilhantes em bananas. E muitas vezes procuravam efeitos provocadores, como um oculista que tinha na montra armações para supostos tipos humanos: intelectual, homossexual, etc. Tudo isto pode ser interessante, mas a parte técnica que está por detrás, em particular a Química, também é. Desde logo as montras podem ser atualmente de vidros enormes por hoje em dia ser possível fazer vidros planos muito grandes sem defeitos e muito mais seguros. 

Como já referi em várias ocasiões, ao solidificar o vidro em estanho líquido podemos obter superfícies muito planas de grande dimensão. Mas isso não chega: esse vidro é perigoso pois pode quebrar e fazer gumes enormes que em várias circunstâncias causaram vítimas. Aquecendo e arrefecendo o vidro de forma especial podemos obter vidro temperado que aos estar em tensão vai estilhaçar em pedaços pequenos com o impacto. Podemos “ver” esses vidros com as lentes dos óculos polarizadas, ou mesmo em determinadas condições luminosas. Nessas condições, o vidro apresenta-se como uma espécie de malha mais ou mesmos regular. Mas isso também não chega. Mesmo os estilhaços podem causar danos. O vidro pode ainda ser laminado ou duplo, ou todas as coisas ao mesmo tempo. No caso do vidro laminado, basicamente as superfícies de dois ou mais vidros são unidas por um polímero (noutro texto expliquei que polímero poderia ser). Isso faz com que se o vidro quebrar não se separe, ficando colado ao polímero. Os vidros podem ainda ter camadas do outros polímeros, ou terem rugosidade microscópicas, para se evitar os reflexos. Todas estas soluções encontram uso nos carros, nos vidros dos museus e em nossas casas.

Mas não são os apenas os vidros das montras que nos podem espantar. A forma como são realizadas as obras também. Na montra de uma marca bem conhecida, as bases onde assentava o calçado era de espuma de poliuretano (PU). A mesma espuma que é usada na construção para fazer "uniões sem pregos". Se usaram os tubos comercializados com esse polímero para fazer essas bases, usaram bastantes! E o que é o PU? É um polímero muito versátil em que os monómeros estão unidos por ligações uretano (sem usar mais termos técnicos, a ligação é feita por grupos -NHCOO-). Estes polímeros são extremamente versáteis, podendo ser usados nestas espumas, nas espumas dos colchões e em materias que “imitam” couro (na verdade são muito mais versáteis do que simplesmente "imitar"), entre muitas outras aplicações. É importante fazer duas considerações sobre estes últimos usos. Se as espumas do colchões tiverem poros muito pequenos, o ar tem dificuldade em entrar e sair, criando um efeito de “memória da forma” que é muito publicitado. E no caso dos polímeros que “imitam” couro há a considerar a sustentabilidade e a proteção da vida dos animais que este uso permite. 

Ainda nessa montra, podemos ver ao fundo roupas de ganga tingidas com índigo. Também já referi várias vezes que se trata de uma molécula natural muito estável, mas pouco solúvel. Para a usar no tingimento tem de passar para uma forma reduzida que tem mais dois átomos de hidrogénio, conhecida como leucoindigo que é verde-amarelado. Nestes processos é usada muita água e um tema de investigação e desenvolvimento é diminuir essa quantidade, assim como o desperdício do corante. A sua produção tem também aspetos químicos interessantes. 

O índigo natural é produzido por várias plantas além do índigo – em Portugal pelo pastel dos tintureiros. Mas a produção natural pode não ser a mais sustentável. Sendo que a planta produz uma pequena quantidade (cerca de 0.3%) do corante, precisaríamos de muito área arável com a planta para produzir as 50 a 60 toneladas usadas anualmente em todo o mundo. Uma estimativa grosseira aponta para toda a área arável de um país como Portugal. Estão a ver o resultado? Se todo o índigo fosse de origem natural, poderíamos ficar sem espaços para outras culturas. Isso aconteceu realmente com as plantações nas colonias americanas. E podemos imaginar a quantidade de água e pesticidas que seriam usados, etc. Em contrapartida, esta molécula pode ser produzida de forma muito mais sustentável por síntese em fábricas. Infelizmente, o uso excessivo, a moda, em particular o “fast-fashion”, anulam uma boa parte destes ganhos de sustentabilidade, mas voltaremos a este assunto.       

 Várias outras montras que vimos usavam polímeros. Aliás essa era a norma, pois os polímeros além de serem facilmente obtidos e do baixo custo, permitem uma gama muito grande de utilizações. A montra de uma outra marca bem conhecida apresentava muitas cores, com objetos de grandes dimensões e revestimentos de, claro, polímeros (ou se quiserem usar o termo comum para alguns tipos de polímeros “plásticos”). E isso não é afinal mau como veremos e, sobretudo, deve ser compreendido.

Outra montra que nos chamou a atenção, foi a de uma marca cujo negócio era fazer sapatos de tenis recondicionados (essa valorização é conhecida no mundo da moda por upcycling). Na montra podíamos ver as máquinas de lavar, onde estes eram lavados, as máquinas de costura, onde estes eram reparados e onde lhes acrescentavam materiais e uma grande quantidade de tenis pendurados e, claro, os resultados. A ideia é interessante, e uma boa parte da modo é já assim: reutilização e reciclagem de objetos antigos. Mas o “fast-fashion” incentivado por os custos de produção e venda serem mais baixos, pode anular esses ganhos, como já referi. Os sapatos de tenis dessa marca, mesmo recondicionados, eram bastante caros. Uma das formas de minimizar o “fast-fashion” é aumentar os preços. Há várias marcas que fazem isso, e inclusive publicitam-no. E fazem-no porque essa estratégia comercial os favorece. Isto é extremamente complexo, mas os incentivos positivos e as tensões que se estabelecem, podem ajudar a que as coisas melhorem (talvez). Em todo o caso, dificilmente sairemos deste sistema que se vai metamorfoseando, renovando e absorvendo as inovações, muitas vezes de forma paradoxal.

Vou achar a atenção para duas coisas que vimos em Milão e que ilustram de forma clara o que referi no parágrafo anterior. A primeira é a estátua enorme com um manguito em frente a bolsa de valores, feita de mármore. Instalada de forma efémera, foi decidido mantê-la de forma permanente. Que imagem melhor para as contradições intrínsecas e às quais não podemos escapar do capitalismo? Outra é a nova tradição de oferecer às mulheres ramos de flores de acácia. Nós chegámos no Dia da Mulher e havia imensos vendedores com ramos dessas flores para venda. E num supermercado vimos que o preço poderia ser de dez euros! Como?
Depois de alguma investigação, cheguei a uma mulher política italiana que terá dito para oferecerem flores de acácia, que eram de graça, em vez de rosas. Podemos ver que logo o capitalismo se adaptou para obter dinheiro com algo que poderia ser de graça. São incontáveis os exemplos desse tipo. Se é possível ganhar dinheiro com algo, ou gastar menos dinheiro, logo alguém descobre uma forma engenhosa de o fazer.  Mas pode não ser a primeira nem a única pessoa que tenta. Muitos acabam por não conseguir, ou ganhando no princípio, a longo prazo perdem. Mas podemos acabar com esse sistema? A história tem-nos mostrado que as revoluções utópicas que pretendem  terminar com este estado de coisas acabam por ser absorvidas e, se forem mais violentas e impostas, não funcionam de todo a longo prazo, embora possam mostrar que existem novos caminhos, ou caminhos que não devemos seguir. Mas a verdade é que das várias convulsões e tensões que têm existido surgiram muitas melhorias.            

Tinham-nos dito que Milão se via num dia. Nunca acreditamos nisso, mas a verdade é que as coisas mais antigas e “turísticas” estão bastante perto umas das outras e, se se fizer um percurso puramente turistico, rapidamente se vê tudo o que os turistas procuram. Ora, Milão é muito mais do que isso. Para começar é uma cidade enorme. Tem mais de um milhão de habitantes no centro e estima-se a população à sua volta em mais de quatro milhões na zona. O seu comércio, serviços, indústrias e população geram riqueza para que a cidade seja considerada uma das maiores da Europa. Por isso a recolha de lixo, o abastecimento de água, o uso de eletricidade e a organização do tráfego e segurança das ruas são só por si enormes empreendimentos de engenharia.

 Há uma cidade que vive para além do turismo e das feiras de moda e arte. E há, na minha opinião, uma cidade que só se conhece indo ao local. Por exemplo, nós ficamos na “China Town”, de que nunca tínhamos ouvido falar, e que corresponde à ideia que temos dessas cidades, mas que à noite se enche de jovens para comer noodles e beber cerveja relativamente barata. Eu nunca teria imaginado se não tivesse estado lá. Depois a zona dos canais de Navigli, que também não conhecíamos dos guias, é muito interessante. Obviamente, as cidades florescentes surgiram onde havia muita água disponível, mas aqui foi mais do que isso. 

Os canais serviam também para transporte como foi feito em muitas das grandes cidades. Eu que tinha ido a Milão a reler o livro de Alessando Manzoni, “Os noivos”, passado em Milão do século XVIII, ocupada pelos castelhanos, meditei em tudo isto, enquanto andava por ali a ver os livros usados. Este livro é o equivalente dos “Maias” de Eça de Queirós que todos os alunos leem na escola, e que é na minha opinião, um contraponto, do “Crime do Padre Amaro” onde todos os padres são bons exceto um, que não sendo propriamente mau, revela-se um covarde. É engraçado, mas não tanto como o crime do padre Amaro, nem como os Maias. Mas julgo que é um marco da unificação da língua italiana. Que é que isto tem a ver com Química? Na verdade, é bastante pouco, mas o suficiente para perceber que o mundo nao se desenvolvia sem química.      

Claro que vimos a catedral, as Galerias Vitorio Emanuele II, o Teatro La Scala e as famosas pinacotecas de Brera e Ambrosina, em particular tivemos muito tempo nesta última. Vimos a famosa biblioteca e uma exposição de desenhos de Leonardo da Vinci. Não fomos ver a sua última ceia de Leonardo que está a levantar problemas de conservação, mas fomos ao mosteiro de São Maurício que tem todas as paredes pintadas. Estivemos no Castelo de Sforza, vimos o Arco da Paz, fomos à Porta Nuova e aos triângulo da moda. Não fomos ver o estádio de San Siro, onde jogam duas equipas de futebol (o Inter e o A.C Milan). Quis o acaso que em Navigli estivesse uma quantidade enorme de adeptos de uma equipa checa que tinha jogado com uma das outras duas (não sei qual) e estavam a beber cerveja e entoar cânticos que pareciam ser em português, mas obviamente não eram. 

Na Pinacoteca Ambrosiana, vimos vários quadros de Ticiano e outros autores bem conhecidos. Uma pintura de Maria Madalena, lembrou-me que tinha lido um artigo sobre a identificação de hipotiroidismo num desses quadros numa modelo. O quadro que estava lá não parecia ter todas as características indicadas para o diagnóstico de hipotiroidismo como a cópia da Galleria Pamphilj em Roma, mas em qualquer dos casos, o pescoço parece ser compatível com a presença de bócio. Na altura, não havia qualquer ideia, obviamente, de que se tratava uma doença devida à falta de Iodo, que poderia ser provocada por deficiente produção de hormonas da toroide, ou por uma alimentação inadequada.      

Nesta pinacoteca, havia várias coisas que poderíamos considerar bizarras. Umas luvas que terão sido de Napoleão Bonaparte, estátuas colocadas em locais escuros, uma capa oferecida supostamente por indígenas há muito tempo, com penas de aves, objetos com escamas de peixe e corais que pareciam mal conservados. Mas o que me chamou mais a atenção foram uns caracóis de cabelo muito louros numa caixa atribuídos a Lucrezia Borgia. Eu achei muito estranho que fossem da famosa Lucrezia Borgia, mas podia comparar isso com umas madeixas de cabelo que estão no Museu Romântico no Porto de cabelos atribuídos a Inês de Castro. Acontece que estes cabelos foram descobertos numa carta que esta trocou no século XVI com o seu amante Pietro Bembo, entre 1502 e 1506, quando casou com o Duque de Ferrara, li num guia. 

Ao passarmos no grande jardim central, depois do Arco da Paz (este tinha sido vandalizado com tinta laranja, em novembro de 2023, por ativistas do clima e ainda lá estavam os efeitos), fomos um pouco por acaso ao espaço da Triennale onde havia um grande exposição de obras de Ron Mueck, além da exposição permanente sobre o design italiano. Para quem não sabe, Ron Mueck é um dos expoentes da arte hiper-realista, mas o que torna as suas obras únicas e facilmente identificáveis são as dimensões inusitadas. Estava lá a conhecida escultura da mulher na cama (In Bed, 2005) cuja cama tem seis metros e meio de comprimento por quase quatro metros de largura, assim com a mulher com um feixe de paus (Woman with Sticks, 2009), mas era surpreendente o "depósito" de caveiras gigantes (Mass, 2016-2017) e várias outras obras.
Obviamente tudo isto envolve muito trabalho, polímeros, vernizes e fibras, assim como novos métodos de fabricação. Em particular em Mass são cem caveiras gigantes com cerca de 40 a 45 quilogramas cada uma, feitas de fibra de vidro e resinas, acabadas à mão pelo artista. No caso de In Bed são usados vários materiais. Do que li, além do algodão dos lençóis e fronhas, a personagem humana envolve uma armação de ferro coberta com gesso e pasta de modelar coberta com polímero de silicone. Uma das obras ainda não estava ainda acabada (This little piggy), e e apresentada como uma maquete.

Na exposição permanente do design estavam muitos ícones do século XX. Chamou-me a atenção o primeiro computador pessoal de Olivetti e muitos objetos que usavam o novo material que eram os plásticos, ou de forma geral os polímeros. Ao olhar para tudo aquilo não podemos ver o plástico como um “sucedâneo” como é referido num famoso texto de Roland Barthes, mas como um coisa nova, nobre e única. 

Os plásticos não imitam apenas. Vieram acrescentar aos cinco materiais tradicionais que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais (os metais, a pedra, os animais, nomeadamente o couro, os vegetais, de que são exemplo os tecidos e a cortiça, e os cerâmicos), um conjunto muito grande de outras possibilidades. O primeiro computador não militar desenvolvido e vendido por Olivetti a partir de 1959 é o ELEA. Tanto a Química como as outras ciências começaram a usar computadores mal estes ficaram disponíveis. 

Mais à frente na exposição podem ver-se propostas para instrumentos laboratoriais de Química. E achei muito interessante ter propostas relativas ao desenho de formar de purificar água com a radiação solar, assim como a "anatomia" de uma torneira. Estas duas entradas são na minha opinião muito interessantes pois permitem ver para dentro desta. Olhando com atenção vemos a combinação de materiais: o cromado exterior e o latão ou cobre interior. O cromado, como o nome indica, envolve a deposição de uma canada de cromo na superfície, e o latão é uma liga de cobre e zinco. Já devem ter visto torneiras antigas com camadas verdes que começam a aparecer. Isso é devido à oxidação do cobre. Do que li, as camadas de cromo decorativo variam de espessura entre cerca de 0,1 e 0,2 micrómetros. 

É preciso ser um geólogo experimentado e que conheça bem o local para conseguir identificar com alguma segurança as rochas usadas na construção e estatuária. Mas como eu costumo dizer também:  é preciso olhar com atenção. A mim chamou-me a atenção a utilização em Milão de rochas que tinham muitas conchas, o que me parecia estranho dado que não há mar perto e geralmente as rochas usadas na construção não vêm de muito longe. 

Depois de alguma pesquisa pareceram-me ser calcários detríticos do Vale de Ceresio, a cerca de 70 quilómetros de Milão. Olhando com mais atenção para a fotografia, há um conjunto de rochas diferentes que não consigo “ler”. Algumas parecem ser granito, outras calcárias, mas não me atrevo a propor hipóteses. O que é certo é que as rochas usadas na construção não poderiam vir de muito longe. Do que li têm sido usados, além dos calcários detríticos de Ceresio,  granitos, mármore e gneiss do vale de Ossola, que fica a cerca de 40 quilómetros, dolomias do Lago Maggiore, que fica a cerca de 100 quilómetros, arenitos de Brianza, que fica a cerca de 40 quilómetros, conglomerados e arenitos da bacia do Rio Adda, a cerca de 50 quilómetros, e pedra calcária negra e mármore do Lago Como, também a cerca de 50 quilómetros. 

O Museu da Ciência de Milão é enorme. Além das exposições típicas de um museu deste tipo, tem um submarino, um foguete, aviões, locomotivas, carruagens, barcos e muitas outras coisas. A parte da Física das partículas é muito desenvolvida, com partes de aceleradores e outros objetos. Também o Espaço, com fatos espaciais e réplicas (penso que o sejam) de satélites, além de ter bastantes coisas interativas. Chamou-me a atenção o elevado número de oficinas para crianças em corredores envidraçados. Além de muitas outras, tinha uma grande exposição permanente sobre a indústria metalúrgica e sobre todos os aspetos da produção, reciclagem e uso de alumínio. 

Nunca mais encontrava aquilo que mais procurava: a bancada de Giulio Natta. Este cientista trabalhou em Milão e foi Prémio Nobel em 1963 pela descoberta de nova vias sintéticas para a produção de polímeros, em  particular polipropileno. É preciso notar que este, assim como os cientistas da altura, não descobriram apenas novas formas de fabricação de plásticos. Encontram novas formas de os produzir com baixo custo e menos desperdício de materiais e energia, aumentando a sua potencial sustentabilidade, e controlar as suas propriedades, abrindo acima a porta a fazer reações que tiveram (e ainda têm) impacto no desenvolvimento de fármacos e novos materiais. Ou seja, este Premio Nobel não deve ser valorizado “apenas” pela produção de plásticos, mas pelos muitos desenvolvimentos que proporcionou, em particular em algo que é hoje muito valorizado: a catálise assimétrica.  

Depois de algumas conversas com guias e monitores acabei por descobrir onde estava. Mas estava fechada, numa ala dedicada à indústria química. Na altura pareceu-me uma coincidência, mas, poderia não ser. Entrava em dissonância com outras grandes exposições que o museu também tinha sobre os plásticos nos oceanos, e, como era fim de semana e o museu estava cheio de famílias, talvez não quisessem originar polémica. 

Ora, na minha opinião, não deveremos escamotear estas questões (devendo os museus ser espaços de debate e liberdade), pois o plástico é, e ainda é, uma grande, invenção que permite muito mais sustentabilidade e versatilidade. Sem este material não teríamos telemóveis e computadores e devido a este podemos ter óculos e muitos outros instrumentos mais práticos e sustentáveis. E continua a haver investigação e a aparecerem novas aplicações. Se nos espaços públicos continuarem a insistir nestas ideias maniqueístas, corremos o risco de não salvar o bebé, mas de o deitar fora com a água do banho. Não tenho pena dos fabricantes que hão-se em média sempre encontrar formar de ganhar dinheiro, mas de toda a sociedade que perde acesso a um debate complexo, a um drama denso, cheio de contradições, e não apenas a contos de fadas ou histórias de terror que os infantilizam. Quando visitei o museu, nessa exposição dos plásticos, estava um visita de estudo com deficientes mentais pouco profundos e podia-se ver as caras de raiva destes perante os horrores que eram os plásticos nos mares.   

Fomos no último dia ao cemitério monumental de Milão rapidamente. Estava a chover torrencialmente, mas valeu a pena, dada a qualidade das esculturas e das inovações na arquitetura mortuária. A logo prazo todos morrem, claro, mas podemos aumentar a esperança e qualidade de vida.

Passeio Químico em Vouzela

[Tinha estado em Vouzela em 2020, altura em que pensei neste projeto e fiz algumas fotografias. Calhou ter estado há pouco na Vila e nas horas vagas completei-o]

Vouzela e a envolvência transmitem beleza e calma. O centro da vila é muito elegante com as suas ruas com piso de pedra e as casas bem cuidadas, muitas delas antigas e brasonadas. As paisagens são muito bonitas e há locais arqueológicos de vários tempos e de todos os tipos. No início de 2024, estava quase concluído o Centro de Ciência Viva, com entrada pela rua por detrás do antigo Mercado Municipal que foi desenhado por Raul Lino e que também estava em obras quando lá fui. O Centro de Ciência Viva vai incluir um borboletário e terá como temas principais a ecologia e a alimentação, se não me engano.  

O loendro, como é referido no guia, é um arbusto muito comum aqui. Trata-se de um rododendro (Rododendron ponticum), não da planta venenosa que é comum em todo o país e que é por vezes confundida com esta, tendo em alguns locais o mesmo nome: o oleandro (Nerium oleander). São bastante diferentes e só alguma falta de atenção aos pormenores os pode confundir, na minha opinião. As moléculas emblemáticas das duas espécies são também muito diferentes, mas não vou falar mais deles pois não fui aos jardins de loendros que o meu guia indicava serem imperdíveis. 

Fui, no entanto, ao Museu Municipal. Este tem uma interessante exposição permanente sobre o ciclo do linho. Trata-se de uma fibra vegetal, usada desde tempos imemoriais, que se transforma no tecido por um conjunto de processos complexos e demorados, muitas vezes conhecidos como “tormentos do linho.” A fibra é essencialmente celulose (um arranjo insolúvel de moléculas de glicose ligadas umas às outras em fila), sendo esta retirada e separada das palhas dos caules das plantas secas, que são colhidas inteiras, por processos basicamente semelhantes em todo o mundo e bastante duros. As fibras são depois fiadas, lavadas repetidamente, sendo as meadas “coradas”. Esta última operação é usada para clarear os fios através da oxidação da matéria orgânica que lhe dá as cores mais escuras.
Para o efeito, era preparada uma solução com a cinza branca de madeira queimada (em geral de oliveira) e água, que dada a composição da cinza, é em termos químicos alcalina, tendo muitos sais de que se destaca o carbonato de potássio. As meadas eram cozidas no forno em panelas de ferro com cinza e sabão. O fio era seco, dobado, urdido e tecido. E, finalmente, a teia obtida era clareada com processos semelhantes aos anteriores com lavagens e solução de cinza. Todo o processo é demorado, envolve muitas pessoas, é muito duro e usa muita água e recursos. Nos anos 60-70 do século XX foi praticamente abandonado, mas volta agora como memória e atividade artesanal que é de novo valorizada.

Os pastéis de Vouzela são muito apreciados. Em termos de materiais são semelhantes aos de Tentúgal, mas não vou aqui tecer qualquer comentário sobre quais são melhores. Os de Vouzela são excelentes, basta dizer isso. Já escrevi longamente sobre a obtenção de massa finíssima de trigo antes e sobre o recheio de ovos moles. Quero apenas chamar a atenção para o facto de na farinha de trigo ser o glúten que permite a elasticidade da massa quando crua e as espessuras muito pequenas na massa pronta. Os pastéis de Vouzela são por fora de massa extremamente fina de trigo. O recheio dos pastéis é feito de ovos moles. Existem várias receitas, e, em particular, os pastéis de Vouzela estão envoltos em vários segredos, mas este é basicamente uma solução de gemas de ovo com uma calda de açúcar. A mistura das gemas com agitação, a temperatura a que esta está, a granularidade e quantidade do açúcar, assim como a concentração da calda, fazem com que os ovos moles fiquem com maior ou menor textura e fluidez. Podem também ser adicionadas algumas farinhas, nomeadamente de arroz, mas penso que na dos pastéis de Vouzela não. O recheio dos pastéis de Vouzela pareceu-me não ter nada mais do que ovos, açúcar e água. É bastante fluido e fino, mesmo depois de algum tempo passado sobre o fabrico, em todas as versões que provei, sendo nisto, em geral, diferente dos pastéis de Tentúgal e dos ovos moles de Aveiro que tradicionalmente são feitos com os mesmos materiais.   

As ruínas do couto mineiro da Bejanca estão em terrenos privados e não estão adaptadas para as visitas. Extraía-se volfrâmio (também conhecido por tungsténio, símbolo químico, W) e estanho (símbolo químico, Sn). O estanho já se extraía desde o tempo dos romanos. O volfrâmio só se tornou importante com a segunda guerra mundial para ser utilizado em ligas metálicas resistentes ao impacto. De 1939 a 1943, estas minas empregaram mais de 3000 pessoas de forma direta. Pode imaginar-se toda a economia que envolvia, assim como os tráficos paralelos, etc. Há várias terras com nomes que parecem alusivos às minas e aos minerais como "Carregal do Estanho" e "Caparrosa" (nome antigo de alguns sulfatos metálicos)   

Eu visitei o que penso serem as ruínas da mina de gestão alemã que antes do final da guerra fechou (aliás em Portugal todas estas foram fechadas nessa altura). Havia uma chaminé com a inscrição "Alexandre Bourdain, 1943" que não consegui ver quem foi. Nos momentos mais altos de produção, Portugal produzia cerca de 60% de todo o volume de volfrâmio obtido na Europa. O nosso país está cheio de ruínas, histórias e museus alusivos a essa extração. Vale a pena lembrar o livro de Aquilino Ribeiro, de 1943, chamado precisamente “Volfrâmio”, que relata algumas dessas histórias. 

Deve notar-se que o volfrâmio é um metal não radioativo que não tem nada que ver com o metal radioativo urânio (simbolo químico, U) que foi extraído nas minas da Urgeiriça, já aqui referidas. Chamo a atenção para isto, que me parecia muito simples, pois falei com uma pessoa que parecia confundir. 

Quando procurava as ruínas das antigas instalações mineiras, passei por um carro de recolha de lixo e locais de recolha seletiva. Não pude deixar de reparar no nome que estava no carro e nas roupas dos trabalhadores: PreZero. Trata-se de uma empresa do Grupo Schwarz, do qual também fazem parte os supermercados Lidl. Curiosamente, a PreZeo faz também a recolha do lixo da cidade de Amesterdão, nos Países Baixos (sei isso porque estive lá há pouco tempo). Soube depois que a recolha do lixo é da responsabilidade da Associação de Municípios do Planalto Beirão da qual Vouzela faz parte. Penso que com esta empresa procuram tratar de forma mais sustentável e eficaz os seus resíduos, mas não tive tempo para investigar mais. Nós não prestamos muita atenção aos serviços de recolha de resíduos, à água nas torneiras, aos esgotos, etc. mas, no caso dos resíduos, se falha a sua recolha damos rapidamente conta da sua acumulação. Vemos isso nos países em que essa recolha é deficiente. Podemos diminuir a nossa produção de resíduos, mas a recolha, separação e tratamento são sempre fundamentais.     

São Francisco Gil de Santarém (1185-1265) nasceu em Vouzela e morreu em Santarém.  Estudou medicina em Paris, onde se tornou dominicano. A sua vida e obras estão envoltos em muitas lendas, em particular é associado a um pacto com o diabo em Toledo, sendo por isso considerado o “Fausto Português”. Curiosamente, escrevi já aqui sobre Toledo e Santarém, mas não fiz qualquer menção a Frei Gil por não ter dado importância à história para um passeio químico. Mas em Vouzela, dei, no entanto, conta da sua relevância. De facto, não tinha notado como a sua associação à medicina e procura de sabedoria o vai levar à alquimia, precursora da Química, tal como a medicina antiga e a metalurgia. Não vi nenhum escrito de Frei Gil sobre a alquimia, mas acho que pode presumir-se que a estudou.     

Eça de Queirós começou a escrever um livro sobre a vida de São Frei Gil, mas não o terminou. O manuscrito termina quando Frei Gil se dirige para Toledo, aliciado por um cavaleiro desconhecido. Segundo o plano de Eça, Gil assinaria o pacto com o Demónio para assistir às aulas da Universidade das Artes Negras. Passaria a ter todos os gozos, mas depressa se cansaria. Teria aventuras, mas depressa se fartaria. Queria saber mistérios, mas o Diabo não lhos podia mostrar. Apaixonar-se-ia, mas afinal a mulher era a Morte. A seguir renegava a sua vida anterior, penitenciava-se, metia-se num convento e passaria a ajudar novos e velhos. Seria tão bom e paciente que o seu pacto seria revogado com interseção da Virgem Maria. Eça provavelmente quereria retratar um “Fausto Português”, um pouco ingénuo, bastante volúvel, contente consigo próprio e com uma segunda oportunidade bem sucedida, mediada pela Virgem Maria. Quase nada do que é o Fausto original e do que se passa na história de Goethe. Nesta, quando Fausto fica contente com as suas obras, o Diabo executa o contrato e leva a sua alma.

A capela de São Frei Gil é uma das últimas obras rococó em Portugal tendo no local, como relíquia, a queixada inferior do santo, diz o guia. Chamou-me a atenção a talha dourada, que, como já referi noutros passeios, consiste em folhas de ouro finíssimas (cerca de 0,0001 centímetros) que cobrem madeira. Sabendo que a densidade do ouro é de 19,4 gramas por mililitro, temos cerca de menos de 20 gramas de ouro por metro quadrado (é fácil fazer a conta: 0,0001x100x100x19,4 gramas é o valor aproximado da massa num metro quadrado). 


Uma nota sobre a antiga escola Conde de Ferreira. Esta é uma das 120 que foram construídas em todo o país, patrocinadas pela sua ação benemérita. No entanto, há um lado negro nisto: foi o comércio de escravos que lhe trouxe riqueza. Estima-se a que o Conde de Ferreira esteve envolvido no comércio de cerca de dez mil seres humanos. Não devemos esquecer isto, pois embora os factos tenham ocorridos há cerca de 200 anos, era uma atividade que parecia normal na altura e que ainda hoje tem reflexos. O Conde de Ferreira patrocinou também a construção do conhecido hospital psiquiátrico, que tem o seu nome, no Porto. De alguma forma, este acabou por ganhar a “aposta dos ricos” que é serem lembrados pela sua generosidade e não pelos seus atos menos dignos. Nada disto tem a ver com Vouzela, claro, mas foi aqui que me lembrei.

A antiga ponte ferroviária faz agora parte de um percurso pedonal, sendo a vista excelente. No seu final está uma antiga locomotiva a vapor. Sendo de ferro, precisa de manutenção frequente pois senão manifesta-se a oxidação do ferro. As máquinas a vapor eram muito pouco eficientes. Estima-se em 1%, atingindo agora as melhores turbinas de gás natural em ciclo combinado mais de 60%, mas mesmo assim podemos fazer melhor em termos de eficiência energética. Podemos, por exemplo, aproveitar melhor a energia do sol. De facto, a energia que usamos num ano é cerca de 5% da energia solar que incide sobre a terra num dia, ou seja em cada dia a energia que usamos é 0,014% da energia solar que incide sobre a terra.

Referências consultadas

Armando Carvalho (Coord.) Vouzela : Parque Natural Local Vouga-Caramulo. Foge Comigo, 2017.

Associação dos Arqueólogos Portugueses. Colóquio comemorativo de S. Francisco Gil de Santarém. Lisboa, 1991.

Eça de Queirós. S. Frei Gil. Colares Editora, 2002.

Manuela Barile (Coord.) Linho: Histórias ao Longo de um Fio. Edições Nodar, 2019.

Passeio Químico em Salamanca

Salamanca é uma cidade relativamente perto da fronteira com Portugal e já lá estive várias vezes, mas desta vez pensei mais nos aspetos químicos. Os monumentos e palácios da zona histórica, assim como as esculturas e relevos nas suas fachadas, são maravilhosos em si, mas começo por referir as pedras de que são feitos. Vários artigos que li referem arenitos dourados de Villamayor, localizada a cerca de seis quilómetros do centro da cidade. Estes arenitos têm composição variável mas nos artigos referiam cerca de 60 a 80% de quartzo, essencialmente SiO2, feldspato e uma quantidade variável de óxido de ferro III, Fe2O3, entre 0,7% e 2,3%. Como as esculturas são tão finas e detalhadas, o grão tem também de ser muito fino. E para o aspeto dourado é importante a presença do ferro que dá essa cor. Por outro lado, os arenitos são muito porosos e isso origina vários problemas de conservação como vários dos trabalhos de investigação que li indicavam. Muitos deles referiam estudos de consolidação com polímeros. Muitas vezes, o que parece que não se degrada envolve muito trabalho. 

Para que uma cidade antiga fosse viável, era necessário, além de água suficiente (neste caso providenciada pelo Rio Tormes), que estivessem disponíveis materiais de construção fáceis de usar relativamente perto. Nesse aspeto Salamanca é um lugar afortunado, pois as rochas permitiam todo o detalhe que se se observa. Nunca tinha pensado nisto desta forma, mas parece-me que faz sentido. A região de Segóvia e Ávila tem outros tipos de rochas dominantes nos edifícios: calcárias e dolomíticas. Podem parecer semelhantes, mas não são de todo. Obviamente um geólogo diria muito mais coisas, mas para um químico pode bastar saber que os arenitos envolvem essencialmente sílica enquanto que as rochas calcárias e dolomíticas, envolvem carbonatos, cálcio e magnésio.    

Os turistas concentram-se em procurar a imagem da “rã” na fachada da catedral e o “astronauta,” acrescentado num restauro, realizado já nas últimas décadas do século XX, na fachada da universidade. Nós não os procurámos, mas fizemos algumas visitas mais turísticas e subimos às torres das duas catedrais. Em Salamanca, a catedral velha e a catedral nova (que demorou vários séculos a ser construída) estão encaixadas e nessa visita pode observar-se como de facto estão unidas. Também nessa visita, pudemos ver as traves de madeira que foram colocadas após o terramoto de 1755, o qual causou vários problemas estruturais. 

Incidentalmente, reparámos que uma torre da universidade parecia inclinada e, talvez estivesse mesmo devido ao terramoto. Muito interessante eram as funções do sineiro das catedrais. Tinha materiais para fazer pequenas reparações, nomeadamente de pintura, reboco e limpeza. Numa vitrina podemos ver uma simulação dos pigmentos que usava e alguns das coisas que retirava. Na vitrina está arames, areia, anil (neste contexto deve ser azul ultramarino, um sulfossilicato de sódio e alumínio) e cal (imagino que seja cal apagada, Ca(OH)2). Noutra vitrina, havia uma exposição sobre o arquivo da catedral e como eram guardados os documentos. Estavam lá uma caixa de chumbo e o selo dos documento guardados. Notava-se algum esbranquiçado, nomeadamente no selo, provavelmente de óxidos deste metal.

De cima, pudemos ver com outros olhos os vitrais das catedrais, as pinturas e a cobertura com folha de ouro. Os vitrais eram obtidos com vidro colorido que era soprado (e por isso tem irregularidades) e era colocado em molduras de chumbo, metal que tinha a vantagem de ser relativamente mole. A cor tem origem em variados fenómenos óticos, tanto de através de pigmentos (caso do ferro II que dá uma cor verde, o ião cobre que dá uma cor azul clara, o ião cobalto que dá um cor azul escura, entre outros) ou, por exemplo, através de efeitos de difusão da luz devido ao tamanho das partículas (por exemplo, um vermelho intenso é devido a nanopartículas de ouro). Sobre a pinturas poderíamos alongar-nos muito, mas eu quero falar da folha de ouro. Esta pode ser obtida com espessuras de cerca de 0,0001 centímetros e adere fortemente às superfícies onde é aplicada devido às ligações intermoleculares. Sendo a densidade do ouro cerca de 19,4 gramas por centímetro cúbico, cada metro quadrado coberto tem cerca de 19 gramas de ouro.   

Uma coisa que me chamou sempre a atenção em Salamanca foram os escritos a vermelho escuro nas paredes. Em vários sítios referiam o sangue de boi das touradas usado em escritos antigos (no guia que tinha, o qual já tem mais de vinte anos, referiam também [1]). Isso sempre me pareceu problemático, mas achei que era aceitável se envolvesse o almagre, um óxido de ferro que é vermelho. Uma pesquisa mais profunda para este passeio, conduziu-me a outros estudos que afirmavam que nunca foi usado sangue de boi [2]. Que tal ideia remonta às comemorações dos setecentos anos da universidade entre 1953 e 1954. Servia, segundo o artigo, os interesses dos nacionalistas a ideia de virilidade que transmitia. Pela mesma razão, começou a ser a associado o “Victor,” um símbolo que contêm as letras deste nome, ao doutoramento (esse símbolo encontra-se amiúde associado aos doutoramentos Honoris Causa que são referidos nas paredes da universidade antiga). No entanto, os investigadores Ángel Weruaga Prieto e Rodríguez-San Pedro, referem que esse símbolo era usado para a hierarquia da universidade e não especificamente para o doutoramento [2]. É assim que agora se conta, mas é relevante saber que nem sempre foi assim.

Na visita que fizemos à universidade velha, pudemos ver algumas das suas salas, a capela e a biblioteca antiga (no caso da biblioteca, foi a primeira vez que a vi – no meu guia de 2000 [1] só havia uma imagem muito antiga, não estando provavelmente disponível o acesso a esta na altura em que foi escrito). Havia alguns objetos em exposição, nomeadamente um modelo anatómico muito interessante e um antigo laser de árgon, mas o enquadramento era confuso. Algumas das salas não tinham grande interesse e só se podia ver a biblioteca, que estava bastante escura, por uma espécie de aquário ao contrário. Na ocasião consegui tirar algumas fotografias dos letreiros das estantes. Foi particularmente interessante ver um letreiro com “Filosofia e História Natural” e outro com “Química Medicinal” (neste caso a fotografia ficou desfocada). A zona da Universidade nova não se visita em geral, mas os edifícios são também muito interessantes.  

Um dos escritores mais conhecidos associado a Salamanca é Miguel de Unamuno que foi reitor da sua universidade. Por acaso li recentemente um livro dele menos conhecido que podemos considerar de tese: “Amor e Pedagogia.”A casa-museu com o seu nome estava fechada e por isso não a pudemos visitar. Associa-se também a Salamanca a obra clássica da escrita Picaresca, o anónimo “Lazarilho de Tormes.”  Há  também uma simulação de loja massónica com os objetos que o governo franquista, inimigo desta organização, foi apreendendo. Mas não tivemos tempo de vistar desta vez. 

Referências

[1] Ricardo Garcia Herrero, Susana González. Salamanca : Vive y Descubre. Everest, 2000.  

[2] Francisco Gomes. Tampoco se hicieron con sangre de toro. El Norte de Castilla. 7 de agosto de 2016. https://www.elnortedecastilla.es/salamanca/201608/07/tampoco-hicieron-sangre-toro-20160807122453.html  (acedido 2 de janeiro de 2024). 

Passeios Químicos em Segóvia

Um dos guias que li frisava que Segóvia era a cidade com a localização mais espetacular de Espanha [1] (consultei também alguns dos guias editados pelo Município de Segóvia [2-6]). Rodeada pelos rios Eresma e Clemores era, segundo o guia, comparável a um navio com o Alcazár a servir de proa. Mas, Maria Zambrano (1904-1991), que viveu enquanto criança e jovem nesta cidade e dá nome ao campus universitário, polo da Universidade de Valadolid, refere que é a catedral que é o centro para onde tudo converge. Maria Zambrano, filósofa, discípula de Ortega y Gasset, exilou-se em 1939, na sequência de Guerra Civil de Espanha, e só voltou 45 anos depois.
Curiosamente, tinha lido recentemente a autobiografia [7] de uma outra exilada espanhola, Maria Casarès (1922-1985), que embora tenha voltado a Espanha, naturalizou-se francesa. A memória da Guerra Civil de Espanha é importante para o entendimento do passado e projeção do futuro. Muita literatura com base nesta é imortal: Por exemplo, “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, retrata o ataque falhado republicano a Segóvia em 1937, mas neste texto quero falar essencialmente de Química. E descobri muito mais desta Ciência do que esperava em Segóvia. 

O aqueduto de Segóvia foi construído pelos romanos no século I d.C. (obviamente pelo suor de muitas pessoas, em particular de escravos, não por um “diabinho,” nem pelos “romanos”) e foi usado para trazer água para a cidade até 1934 [8], mas isso tem que ser melhor explicado. Algumas fontes, nomeadamente a Wikipedia, indicavam o ano de 1973, o que me parecia muito recente, e o guia indicava ter sido usado até ao final do século XIX. No Centro Interpretativo do Aqueduto (na Casa da Moeda de que já falarei) fiz a pergunta diretamente e a resposta não é óbvia. O abastecimento de água à cidade foi regulado no século XIX, altura em que o aqueduto já perdia muita água (cerca de dois terços), mas continuou a ser usado, nomeadamente como “cano livre” para abastecer fontes e, de forma intermitente, foi usado até 1934, altura que em que foi definitivamente desativado para essa função. 
Há várias coisas que acabam por envolver Química no aqueduto. Uma delas são os filtros de areia que já eram usados no tempo dos romanos os quais eram uma das únicas formas de purificar a água antes de se generalizar o uso do cloro no século XIX. Depois o atrito, devido às energias intermoleculares de atração entre as  moléculas das pedras em contacto. Deve notar-se que não há qualquer argamassa entre as pedras (mas note-se que também a argamassa funciona devido a essa atração intermolecular), sendo a suas estabilização vertical devido a princípios físicos bem conhecidos, embora espetaculares, mas de facto, há também uma estabilização horizontal devido ao atrito. Finalmente, os materiais de que as pedras são feitas (o granito) veio da Serra de onde vem também a água. Esta teria de vir de um sítio mais elevado, claro.  

A catedral de Segóvia, datada de 1525 (mas demorou muito mais tempo a construir : o claustro gótico é de 1472), é a última catedral gótica de Espanha e foi construída para substituir a catedral antiga, parcialmente destruída em 1520, durante as revoltas que ocorreram por essa altura. Uma figura proeminente das revoltas nesta cidade foi Juan Bravo (a sua estátua está na Praça de San Martin) que foi decapitado junto com cerca de setenta revoltosos e ficou com o seu nome associado também a uma rua ali perto. Segundo Cees Nooteboom, no “Desvio a Santiago” [9], o catolicismo que esta catedral evoca já não é do Românico, nem em boa parte o do Gótico, mas uma religião castigadora e opressiva. (Este autor refere que a cidade tem a configuração de um punho e não de um barco, mas não vou discutir essa questão). 

Em Segóvia podemos encontra cerca de duas dezenas de igrejas românicas muito bonitas, mas vou continuar a referir a catedral, onde podemos visitar um conjunto de quadros notáveis e bem iluminados. Ficámos fascinados especialmente com uma virgem e menino muito brancos, quase a brilhar, atribuídos a Luis de Morales (c. 1510, c. 1586), conhecido como “El divino” [10]. A técnica deste pintor envolvia várias camadas que dão o aspeto diáfano caraterístico das suas pinturas, mas o que me fascinou foi o branco. No seu tempo, este era de carbonato de chumbo, o qual vai amarelecendo com o tempo. Parece óbvio que a pintura foi limpa e restaurada, mas o branco era muito intenso. Fiquei a meditar nisso e depois de algumas pesquisas fiquei a pensar que teria origem na base de madeira que era preparada com uma cobertura com carbonato, provavelmente de cálcio. 

Na elegante Praça de San Martin há vários edifícios interessantes. Uma igreja românica lindíssima por fora (Igreja de San Martin que não pudemos visitar por dentro por estar fechada), uma torre (Torreón de Lozola) e várias casas brasonadas. É aqui perto a antiga prisão real, agora transformada em biblioteca pública (que melhor uso haveria para este edifício?), tendo cá fora uma placa em ferro forjado a homenagear os  Segovianos que morreram a defender a liberdade. 

Mas o que me chamou mais à atenção foi uma fonte (que não deitava água, aliás não vimos nenhuma que deitasse, e julgo ter descoberto a razão): cujas figuras pareciam ser de chumbo e tenho quase a certeza de serem (será essa a razão para não deitarem água). Pode ver-se também nesta fonte um grampo metálico “chumbado”. Um pouco mais à frente (na direção do Alcazár), fica a casa do médico e Humanista Andrés Laguna (1499-1559) onde está instalado o Centro de Interpretação da Judiaria (fechado quando lá fomos – fechou às 14 horas!).   

Segóvia teve uma indústria têxtil pujante de que é ainda testemunha a Real Casa del Sello de Panos, atual sede de um organismo do governo de Segóvia, onde eram certificados os panos que eram fabricados nesta cidade. Em Portugal, os panos de Segóvia eram considerados de fraca qualidade e conhecidos pelo nome de Segóvia. Eram essencialmente de lã, segundo consegui perceber. 

Na Via de Roma, que vai dar ao aqueduto, entrada natural para quem vem de Valladolid, antiga estrada de Boceguillas, agora uma zona habitacional, havia um conjunto de fábricas: de loiça, farinhas e outras de que ainda restam algumas chaminés [11]. Estas fábricas, nomeadamente os moinhos de farinha, usavam a proximidade da água do Rio Eresma. Aqui perto há também a antiga chaminé da fábrica que era conhecido por Real Fábrica da Borra [12], a qual fabricava papel a partir de trapos.

Mais à frente fica a Real Casa da Moeda que também usava a força das águas para as suas prensas. Com o fim da sua atividade, este edifício foi adaptado para uma fábrica de farinha. Mais tarde foi recuperada pelo município e tem lá um museu e o centro de interpretação do aqueduto. Pode também visitar-se o seu jardim, mas não tivemos tempo para ir lá. Todas estas atividades envolvem de alguma forma a Química, mas não vou entrar em muitos detalhes. Não posso no entanto deixar de referir que o papel feito de trapos tem também celulose mas é mais resistente e ideal para fazer notas. Por outro lado a loiça, envolve o aquecimento a alta temperatura do barro que perde água e forma ligações irreversíveis, ficando rígido.   

Noutra entrada da cidade, vindo da autoestrada de Salamanca, ergue-se um edifício vermelho, enorme e com ar abandonado (não fiz fotografias). Depois de alguma pesquisa, encontrei que era a antiga fábrica de enchidos “El Acueducto” desativada em 2009 e desenhada pelo arquiteto de Navarra Curro Inza. O vermelho penso que pode ser de tijolos de barro.

Mas o melhor e o pior acabou por ficar quase para o fim: a Casa da Química (era assim que era indicada no mapa). Esta foi dirigida durante vários anos por Joseph Proust (1754-1826), químico francês que fugiu da Revolução Francesa e foi introdutor da Lei das Proporções Definidas, pelas datas enquanto estava aqui. Grande Surpresa! Os trabalhos de química estavam associados à Academia de Artilharia de Segóvia, que é a mais antiga em funcionamento em Espanha. A Casa da Química é ao lado do conhecido Alcazár que inspirou filmes da Disney e agora serve apenas de sua bilheteira, tendo apenas os seguintes dizeres do lado de fora “Real Laboratorio de Chimia.” 

Na cafetaria, ao lado, há quadros com gravuras de químicos e outros cientistas, mas pareceram-me numa visão rápida aleatórios e não vislumbrei a de Proust (estavam nas paredes ao lado das mesas onde havia clientes que não quis incomodar). Lembro-me de ter visto a gravura de Benjamin Franklin, que não era assim tão óbvia. Parece-me que poderia ter mais alguma informação e até algum material, mas as coisas turísticas são muitas vezes assim: inventa-se por vezes o que não é e esquece-se muitas vezes o que foi.   

Perto, na Granja de San Ildefonso, pode visitar-se a “Real Fabrica de Cristales” onde há uma fábrica e um museu do vidro. Neste último podem ver-se como eram obtidos os vidros. É especialmente interessante e pedagógico a explicação da forma como se fazia o vidro plano com vidro soprado. 

Nas oficinas podemos ver fazerem objetos de vidro soprado, nomeadamente jarras. Há também vários modelos de outra forma de produzir vidro plano envolvendo um cilindro metálico, mas não fiquei convencido pois a base é de madeira. É muito interessante as maquinarias que eram usadas para produzir tijolos, isoladores e copos de vidro. Nas oficinas vimos também um funcionário a fazer desenhos usando o esmeril (material muito duro, penso que de de óxido de alumínio). O vidro é muito resistente, mas pode ser atacado por ácido fluorídrico. É também muito perigoso para os seres vivos, não por ser muito forte, mas por corroer debaixo da pele de uma forma quase invisível e irreversível. Na exposição está uma máquina antiga para fazer desenhos industriais usando este ácido.  

Segóvia teve ainda outras indústrias ligadas à Química de que se destacam a do pez e das cordas. Da primeira ainda há alguns vestígios nos arredores da cidade de fornos onde era destilada a resina e obtido o pez. Nesta zona havia (e ainda há, parece-me) bastantes pinheiros.

Quando voltámos ao carro reparámos no telhado do parque de estacionamento feito com painéis solares para alimentar os carregadores dos carros elétricos. Estamos a acompanhar um desenvolvimento exponencial de tecnologias cada vez mais sustentáveis. Temos ainda de desenvolver, no entanto, materiais que sejam ainda mais sustentáveis e que não alimentem conflitos. E devemos estar cada vez mais atentos aos custos escondidos e futuros.

Referências

[1] Nick Inman (Ed.) Guia de Viagem: Espanha. Dorling Kindesley, 2015.

[2] Turismo de Segovia. Segovia : Patrimonio de la Humanidade, 2020.   

[3] Turismo de Segovia. El Bairro Judio de Segovia, s.d.   

[4] Turismo de Segovia. Real Casa da Moeda de Segovia, 2017.  

[5] Turismo de Segovia. Palavras y Libros : Segovia Literaria, 2007.  

[6] Turismo de Segovia. Casa-Museo de Antonio Machado en Segovia, 2016.  

[7] Maria Casaes. Résident privilégiée. Fayard, 1980. 

[8] Santiago Martinez Caballero. El Acueducto de Segovia : de Trajano al Siglo XXI. Ayntuamento       de Segovia, 2016. 

[9] Cees Nooteboom. El desvío a Santiago. Ediciones Siruela, 2010.   

[10] Há muitas páginas sobre este autor, assim como trabalhos escritos. Chamou-me a atenção esta ligação a Portugal: Manuela Goucha Soares. O que há de comum entre Isabel de Portugal e a Virgem Cigana? Expresso, 26 de setembro de 2016. https://expresso.pt/cultura/2016-12-26-O-que-ha-de-comum-entre-Isabel-de-Portugal-e-a-Virgem-Cigana- (acedido 1 de janeiro de 2024)

[11] Carlos Álvaro. Historia de una avenida. El Norte de Castilla, 1 de abril de 2013. https://www.elnortedecastilla.es/20130401/local/segovia/historia-avenida-201304011113.html (acedido 1 de Janeiro de 2024)

[12] La Fabrica da Borra. https://segoguiados.eu/la-fabrica-de-borra/ (acedido 1 de Janeiro de 2024)